Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 19 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 18

 

APERTO O BOTÃO E UMA CAMPAINHA soa lá dentro. É um som fam iliar. Após algum tem po, que m e parece um a eternidade, um a voz se m anifesta atrás da porta. Outro som fam iliar.

— Quem é?

— É o Bravo.

A porta se abre de repente. No rosto de Lucio está estam pada um a expressão de alarm e. As lentes dos óculos escuros refletem a lâm pada das escadas. Tateando, ele procura m eu braço e m e puxa para dentro. Fecha a porta com o se tivesse de deixar lá fora o diabo. Seu tom é o de um a pessoa convencida de que, apesar de tudo, o diabo conseguiu entrar em sua casa.

— Você ficou louco? O que está fazendo aqui? Toda a polícia de Milão está atrás de você. Vieram até m e interrogar.

— Eu sei. Mas preciso da sua aj uda.

Lucio dá um passo para trás.

— Meu Deus, quer m e m eter em apuros?

— Não. Fui obrigado a aprender a ser prudente. Dei todas as voltas e fiz todas as verificações necessárias antes de subir. Fique tranquilo, ninguém m e viu.

Ele relaxa, m as não a ponto de elim inar a tensão. Talvez, com o j á aconteceu com Laura, eu tam bém lhe cause um pouco de m edo.

Ele é brusco, apressado.

— O que você quer?

— Você só precisa m e aj udar a resolver um criptogram a.

Surpresa. Ressentim ento. Raiva.

— Qual? “Pura ideia”? Você corre o risco de ser preso e m e faz correr esse m esm o risco por causa de um a bobagem dessas?

— Não, não estava falando desse. Esse é fácil. A solução é Im aculada Conceição. Já tinha até esquecido. Estou falando de outro, daquele que você m e ofereceu durante todo esse tem po e que era m uito m ais difícil de decifrar.

— Não estou entendendo.

— Lucio, há quanto tem po você faz parte das Brigadas Verm elhas?

Ele está cam inhando em direção à m esa. Interrom pe o passo incerto e se vira para m im com um sorriso indefeso e incrédulo.

— Bravo, você ficou louco? Eu nas Brigadas Verm elhas? O que eu faria nestas condições...

Eu o interrom po com a voz e com um gesto. De m odo que possa m e ouvir e m e ver.

— Você não é cego, Lucio. Nunca foi.

Ele perm anece em silêncio. Observa-m e por trás das lentes. Agora, sei que é capaz de fazê-lo.

Vou abrir a gaveta e encontro a foto na qual Lucio está com os rapazes de seu m isterioso grupo. A esta altura, pergunto a m im m esm o se algum dia existiu um a banda cham ada Les Misérables. Pego as fotografias e olho as figuras im pressas sobre o papel opaco. Não para verificar, pois não é necessário, m as para confirm ar que todas as astúcias, até as m ais sutis, têm sua recom pensa, talvez um a viagem de vinte anos para voltar a Ítaca.

Ou vinte anos de prisão.

Jogo aqueles retângulos coloridos sobre a m esa ao lado dele.

— As fotos que você m e m ostrou. De quando você tocava, de quando, segundo seu relato, você j á não enxergava m ais.

Instintivam ente, indico-as com a m ão.

— Na foto, você está com os olhos verm elhos. E esse pontinho verm elho em um a fotografia significa que está tudo em ordem , que o olho não tem problem a algum . Por ironia do destino, fui encontrar a solução j ustam ente em um a revista de criptogram as.

Lucio fica pensativo durante um tem po.

Depois, sorri.

Por fim , com um gesto resignado, tira os óculos, revelando pupilas cobertas por um véu branco. Põe um a das m ãos arqueada em baixo de um olho e deixa que nela caia a prim eira lente de contato. Faz a m esm a coisa com a segunda. Fecha algum as vezes os olhos, livre. Apoia sobre a m esa aquele pequeno expediente que lhe forneceu por m uito tem po um a proteção enorm e.

Com o se os nossos m ovim entos estivessem sincronizados por um destino im posto, tiro do cinto o revólver, no qual recoloquei o silenciador.

Talvez por isso, Lucio logo o reconhece. E entende que, se for o caso, estou disposto a usá-lo.

— Ah, então você o achou.

Fala tranquilo, sem ansiedade, com o se estivesse fazendo um a sim ples constatação. E não m ove um m úsculo quando vê o cano apontado para a sua barriga. Tem sangue-frio. Eu não poderia esperar outra reação.

— Pois é. Com o você pode ver, achei.

Ele se senta e cruza as pernas. Seus m ovim entos são m ais fluidos agora que a farsa term inou. Agora que pode olhar e ver a realidade sem precisar se esconder.

— Com o você conseguiu?

Faço um gesto de m odéstia com os om bros.

— Um a série de detalhes. Pequenos esquecim entos. Erros m arginais, digam os, m as que, som ados, tornaram -se um a heresia.

— Tipo?

— A substituição do carro foi um a ideia genial. Mas, dentro, não havia cheiro de cigarro. E aquele deveria ser o m eu carro, o carro de um fum ante. Àquela altura, se m e concede esse m érito, verificar o núm ero do chassi foi um a ideia brilhante da m inha parte.

Ele concede, m as não faz qualquer com entário. Sua ironia, que aparentem ente era a couraça dialética de um hom em indefeso, parece ter desaparecido.

Tenho diante de m im um a pessoa dura, sem em oções, sem piedade.

Um assassino.

— Prossiga.

— Erro núm ero dois: no envelope que Day tona m e deu para entregar, havia apenas recortes de j ornal.

Lucio se levanta de repente, seu rosto está contorcido, revelando que possui nervos.

— Aquele ladrão de galinhas era um idiota ganancioso. O envelope deveria conter dinheiro de verdade. Ele o em bolsou, achando que ninguém descobriria.

Com o cano do revólver, sinalizo para que ele volte a se sentar. Quando encosta a bunda na cadeira, sua calm a j á foi retom ada.

— Foi você que o m atou, não?

A calm a se transform a em naturalidade.

— Sim . Com certo prazer, devo adm itir. Aquele m erda era um perigo para todos. Mas transform ou-se num perigo apenas para si m esm o.

Eu j á im aginava. Deveria ter entendido logo que Cobianchi não tinha nada a ver com aquilo. Aquele coitado estava gem endo. Quando perguntei quem foi, quando perguntei onde estava Carla, Cobianchi foi a palavra que ele conseguiu articular. Na verdade, queria dizer “o dos olhos brancos”.

Ou algo do gênero.

Ouvir Lucio falar assim de Day tona m e dá raiva. Pensar que ele é o responsável pela m orte de três garotas j ovens e bonitas m e dá raiva. Pensar que ele m atou os hom ens da escolta, culpados apenas de terem feito o próprio trabalho, m e dá raiva. Pensar que ele m e enganou m e dá raiva. A vontade é de apertar o gatilho e enfiar na sua cabeça um a bala, duas, três...

Com o conforto do silenciador, capaz de transform ar três disparos em três voos de flecha.

pfft... pfft... pfft...

Talvez eu o faça. Mas não agora. Lucio ainda precisa m e contar algum as coisas.

E ele sabe disso.

A ironia volta à tona, só que, agora, está usando as cores lívidas do escárnio.

— É difícil resistir, não?

— A quê?

— É difícil resistir à tentação de apertar o gatilho quando um a pessoa que você odeia está na sua frente.

— Com o você faz?

— A única m aneira de resistir a um a tentação é cedendo.

— Oscar Wilde.

Ele m e olha surpreso porque reconheço a fonte da citação. Seus olhos estão escuros e parecem querer penetrar em m im .

— Quem é você, Bravo?

— Alguém que quer saber e que tem à sua frente um a pessoa que pode explicar.

Faço um a pausa para que ele entenda bem quais são os papéis que nos cabem .

— Agora, vou dizer algum as coisas. É só você m e interrom per quando ouvir algo errado.

Recito passo a passo m inha reconstrução dos fatos, exatam ente com o a form ulei durante a estadia na casa de Carm ine. Os papéis de Carla e de Day tona, a m orte do Tulipa, a deserção de Laura, a m anobra para que eu não tivesse um álibi, a elim inação das testem unhas e m eu eventual suicídio com o epílogo de um a história que com eça e acaba em um delírio.

Chego ao final sem que ele tenha m e interrom pido um a única vez.

Depois, ele m e concede o luxo de sua avaliação.

— Você é m ais esperto do que eu pensava.

— Não sou m ais esperto do que você pensava. Você é que é m enos esperto do que pensava.

— Você acha?

— Acho.

— Verem os.

Ele sorri e, por um instante, revej o a expressão daquele Lucio que fazia suas brincadeiras. Dura apenas um segundo e desaparece, com o todas as lem branças agradáveis quando são substituídas pelo presente.

Depois, olha um ponto atrás de m im .

— Desarm e-o.

No m om ento em que pronuncia essa palavra, sinto um obj eto pequeno, redondo e duro tocar m inha nuca. Não tenho m uita dificuldade para entender que se trata do cano de um revólver. Às m inhas costas, ouço um a voz que não deixa possibilidade de resposta.

É a voz de Chico.

— Jogue o revólver em cim a do sofá. E levante as m ãos.

Depois, ouço outra voz, que tam bém conheço bem .

— E não m e venha com ideias estranhas. Som os dois.

Jogo o revólver no sofá, com a esperança de que um tiro sej a disparado e m ate alguém . Sinto-m e tão idiota, que não teria problem a se fosse eu. A regra era inspecionar a casa, e eu não a segui, ansioso para aproveitar m eu estúpido triunfo.

Merda. Merda. Merda.

A pressão na nuca dim inui.

— Vá para a parede.

Desloco-m e na direção pedida. Giorgio Fieschi entra no m eu cam po de visão e vai até o sofá. Pega o Beretta e o transform a no segundo revólver apontado em m inha direção. Não sei bem por que, m as não fico m uito surpreso de encontrá-lo aqui.

— Então, você tam bém está envolvido.

— Com o você pode ver.

Do rapaz lim po e despreparado que frequentava o Ascot Club, não sobrou nada. Seu rosto tem um a expressão resoluta e ele se m ovim enta com o um profissional. Esta é a tarde das revelações, das transform ações. Olho para ele e o revej o no palco. Jovem , cheio de talento, dono do m undo. Se o que eu achava era verdade, que os outros artistas tinham m edo de suas capacidades, eles ficariam pasm os ao descobrir que deveriam tem ê-lo ainda m ais.

Percebo com surpresa que não estou com m edo. Sinto apenas desilusão. Com o acontece quando vem os um a chance perdida.

— Você é talentoso. Genial, eu diria. Poderia fazer coisas im portantes.

Ele m e olha com o se estivesse diante de um idiota.

— Já as estou fazendo.

— Laura fazia parte delas?

Ele m ovim enta os om bros de form a indiferente.

— Laura era um a puta. Um a m ulher que se vendia a quem oferecia m ais. Exatam ente com o você. Estam os em guerra e ela era um a peça que podia ser sacrificada para que obtivéssem os o que queríam os.

Lucio intervém . Estava sentado, sem sair da cadeira, observando sem expressão enquanto seus cúm plices m e transform avam de am eaça em am eaçado. Eu tam bém sofri m inha pequena transform ação.

— Igual a você, com o j á deve ter percebido.

Em silêncio, espero o resto.

Ele se levanta e dá um passo em m inha direção. Encaram os um ao outro, algo que poderíam os ter feito m uito antes se não fôssem os quem na verdade som os.

— Bravo, por m ais que alguém explique, acho que você não pode entender o que está acontecendo neste país. Você pertence à categoria das pessoas ausentes. Aquelas pessoas capazes de atravessar um cam po de concentração sem se dar conta de seus horrores enquanto vão tom ar um aperitivo no Tre Gazzelle. Enquanto vocês dorm iam de dia e se iludiam de viver à noite, o m undo m udou e vocês não perceberam . O que aconteceu em 1968 e em 1977, a luta de classes, a luta arm ada. Para vocês, coisas sem sentido. Pior ainda, coisas desconhecidas. Vocês não passam de um a leve neblina, aquele pedacinho de nada entre o bem e o m al.

— Deduzo que o m al são as pessoas que vocês sequestram , ferem e m atam . Deduzo igualm ente que você acha que é o bem .

Ele balança a cabeça com am argura.

— Não, sou apenas seu braço arm ado, aquele que tem a coragem de se parecer com o m al para ter a força de derrotá-lo.

— Você é louco.

Ele m e responde com o se essa fosse a solução de todos os enigm as.

— Não, Bravo. Eu sou um hom em m orto. Exatam ente com o você.

Chico intervém e interrom pe essa espécie de confissão.

— O que vam os fazer agora?

Olho para ele. É um rapaz j ovem , pouco m ais baixo que a m édia, com cabelos cacheados e costeletas que o deixam parecido com um hippie em Woodstock. O bom sam aritano que era guia de um cego j ogou sobre a m esa a parte prática da questão.

Giorgio Fieschi dá sua opinião com um pouco de im paciência na voz.

— Precisam os sair daqui. E rápido. Não estou tranquilo neste lugar.

— Tem um a viatura com dois agentes à paisana controlando a entrada. Com o vam os tirá-lo daqui sem que eles vej am ?

Chico confirm ou um problem a que eu j á havia localizado e superado no m eu percurso de aproxim ação do edifício. Protegido por um grupo de árvores, escalei o m uro na esquina pelo lado m ais com prido do terreno, oposto ao edifício, que faz fronteira com um cam po cheio de arbustos. Depois, m argeei o m uro m antendo-m e abaixado, de m odo a ficar fora do cam po de visão dos dois suj eitos sentados naquele Alfa suspeito.

Eu j á im aginava que o serviço de vigilância seria realizado com um pouco de descaso, pois, no fundo, ninguém achava que eu seria tão estúpido a ponto de tentar voltar para casa. Porém , é óbvio que o m esm o traj eto não pode ser percorrido m ais de um a vez e por várias pessoas.

Lucio m e estuda com o se tivesse acabado de m e ver. Depois, seu olhar se fixa em m im , m as sua m ente vagueia. Quando volta, traz consigo a centelha da intuição.

— Tive um a ideia. Esperem aqui.

Lucio sai e desaparece no corredor.

Ficam os nós três nesta sala sem arestas nem quinas, cada um com um a certeza indiscutível. Eles têm a certeza de que estão com razão. Eu estou certo de que cheguei ao final da corrida. Desta vez, não haverá anj os da guarda para m e proteger, com o aconteceu quando o Tulipa apontou a arm a para m im . Agora, eles se tornaram a am eaça.

Esperam os em silêncio, pois tudo o que podíam os nos dizer no m esm o idiom a j á foi dito. Ir além seria apenas um a inútil viagem a Babel.

O som dos passos antecipa a volta de Lucio. Ele chega segurando um violão. Aparou a barba. Está usando um a peruca com cabelos longos e castanhos e um bigode postiço da m esm a cor. Não é o m áxim o do realism o, m as lá fora está escuro e, com o diz o ditado, à noite todos os gatos são pardos.

Ele sorri ao ver m inha expressão.

— Todos devem ser um pouco atores, não acha?

Vai até o cabide e pega seu paletó e o chapéu que geralm ente usa. Joga-os na m inha direção, obrigando-m e a pegá-los no ar.

— Você facilitou as coisas cortando os cabelos e deixando a barba. Assim , ficam os m uito parecidos, se pensarm os que tem os m ais ou m enos a m esm a estrutura física. Os agentes lá fora esperam ver a saída de um m úsico cego com seu acom panhante de sem pre. E é exatam ente o que eles vão ver, só que, desta vez, haverá um fã a m ais.

Chico entendeu e sorri. Estende o revólver para Lucio, que o transform a naturalm ente em um a extensão da própria m ão.

— Vou trazer o carro aqui para baixo. Depois, subo para pegar você e os violões.

Sai abrindo a porta apenas o necessário para passar. Giorgio Fieschi pede instruções sobre o que fazer.

— Vim de m oto. O que eu faço?

— Espere quinze m inutos depois que nós sairm os. Em seguida, vá nos encontrar no lugar m arcado.

Lucio tem a segurança de um chefe e é capaz de transm iti-la aos seus hom ens. Tenho certeza de que toda essa cam uflagem o diverte, além de descarregar adrenalina em seu sangue. Ao notar que ainda estou parado no m eio da sala com as roupas na m ão, gesticula com im paciência. Repete o m esm o gesto que fiz quando m andei que ele se sentasse.

— O que está esperando? Trate de se vestir.

Visto o paletó e enfio o chapéu de Lucio. Ele se m ovim enta e chega até a m esa. Pega as lentes de contato, as olha com um m eio-sorriso, depois, as coloca no bolso. Pega os óculos escuros e os j oga para m im . Ponho-os no rosto, perdendo um pouco da luz e dos detalhes. Não há espelhos para que eu possa ver o resultado, m as tenho certeza de que a regra dos gatos e da noite tam bém vale para m im , e não apenas para Lucio.

É ele m esm o quem m e confirm a isso.

— Está perfeito. Não tenho tem po para lhe dar aulas de violão, se bem que você não vai precisar tocar m esm o.

O carro devia estar bem perto porque, após uns dois m inutos, ouvim os alguém bater à porta. Giorgio se aproxim a e deixa Chico entrar depois de se certificar de que era ele m esm o através de um a fresta aberta com cautela.

— Podem os ir.

Chico se aproxim a e m e oferece o braço, m antendo-m e à sua esquerda. Sua voz não tem a benevolência de quando ele fazia a m esm a coisa com Lucio. Seus gestos são brutos e fortes. A m ão direita com prim e o cano do revólver contra a lateral do m eu corpo.

— Ande com calm a e dê passos curtos. Nada de olhar onde pisa, olhe para frente. Eu guio.

Para confirm ar a ordem , aperta com violência o revólver contra as m inhas costelas.

— Entendeu?

Respondo acenando com a cabeça.

Prim eiro, descem os Chico e eu. Lucio está atrás, carregando os violões, fechando o cortej o. A noite está m uito fresca e não tem ninguém lá fora. Um a pequena am ostra do inverno que não favorece conversas nem paradas ao ar livre. O carro, um Opel Kadett branco, está estacionado bem na frente da porta de vidro.

Um violão é colocado no porta-m alas, o outro, no banco atrás do m otorista, ao lado de Chico. Eu fico no banco do carona. Um a arm a perm anece sem pre discretam ente apontada para m im . Assim que Lucio dá a partida no m otor, sinto o cano do revólver voltar a fazer cócegas na m inha nuca.

Partim os.

Abandonam os sem problem as o Quartiere Tessera, toda sua vigilância e toda sua indiferença. Fico pensando se Lucio conseguirá recuperar essa parte da sua vida. Observo-o enquanto ele dirige em silêncio, é curioso vê-lo pela prim eira vez em penhado em fazer algo que eu acreditava que fosse im possível.

Ele ficaria surpreso se soubesse com o som os parecidos, quanto tem po passam os nos escondendo, fingindo que som os o que nunca fom os enquanto esperávam os entender o que nunca nos tornaríam os.

Mas acho que é tarde dem ais e isso não m udaria nada. Agora que tudo foi revelado, Lucio pode se dedicar a um a única coisa, algo que endurece seu olhar, que o convenceu a abandonar as palavras e os confrontos e a em punhar arm as. Todas as revoluções tiveram suas vítim as e seus loucos. Suspeito que eu vá m orrer sem entender o papel que m e foi designado.

Enquanto entram os no anel viário no sentido leste, tiro os óculos e observo da j anela as luzes de Milão. Não fui vendado, o que significa que não é um problem a para m eus carcereiros se eu vir o lugar para onde serei levado. Afinal, logo será descoberto, assim que for encenado o que eles pretendem fazer com igo. No fundo, trata-se sem pre de um espetáculo. Só que, desta vez, será um a representação única, pois a m orte não concede bis.