Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 20 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 19

 

DEIXAMOS O ANEL VIÁRIO NA SAÍDA da via Forlanini, rum o a Linate.

Lucio dirige, o rosto ilum inado de vez em quando pelas luzes dos faróis e dos postes, os olhos fixos na estrada. Sem a peruca e o bigode, voltou a ser ele m esm o. Ou sej a, alguém que, na verdade, não conheço. Acendeu um cigarro e isso m e deu a m edida da sua frieza e do seu autocontrole. Em sua casa, nunca houve o m enor cheiro de cigarro nem o m enor indício dessa dependência. O que significa que não fum ava nem quando estava sozinho.

Pergunto a m im m esm o com o teria sido sua vida se ele tivesse dedicado tantos dons e tanta determ inação a algo construtivo, e não destrutivo. Talvez ele tenha tentado, seguindo um ideal que, dia após dia, reduziu-se a um a ideia, até que a m úsica parou de ser um refúgio e se transform ou em um esconderij o. Talvez, com outras palavras e por outros m otivos, ele se pergunte a m esm a coisa a m eu respeito.

Chegam os ao fim da avenida e nos beneficiam os de um sinal verde que nos perm ite dobrar à esquerda, rum o ao Idroscalo. Deixam os para trás o aeroporto, onde, a esta hora da noite, os passageiros são poucos e os voos, escassos. O estrondo de um avião que parte é com o a prom essa de um novo horizonte, m as se trata apenas de outra viagem rum o a situações idênticas e hom ens diferentes. A ilusão dura o intervalo entre um a decolagem e um a aterrissagem , tendo com o único consolo um sono interm itente em um a poltrona desconfortável. Margeam os o Luna Park. As barraquinhas de j ogos estão com as grades de correr abaixadas, os esqueletos dos brinquedos im ersos na escuridão e os discos voadores cobertos por lona. Por hoj e, as prendas e as corridas j á term inaram e é necessário esperar até am anhã para tentar o arrem esso que derrubará todas as latas.

Durante a viagem , ficam os em silêncio. Chico, no banco de trás, relaxou e a pressão do cano do revólver na m inha nuca desapareceu. Mas tenho certeza de que a arm a perm anece na sua m ão, apontada direto para a m inha cabeça. Um gesto errado da m inha parte, um a leve pressão no gatilho e…

pfft...

…com o barulho de um fuzil de ar com prim ido, m eu crânio se estilhaçaria com o um a placa de gesso do tiro ao alvo. O que fui se reduziria a borrifos verm elhos do m eu sangue sobre o para-brisa em um m acabro desenho de aerógrafo.

No entanto, estou estranham ente frio e distante.

Não tive coragem de perguntar as únicas coisas que eu realm ente queria saber. Para que fazer as perguntas que teriam m e deixado ainda m ais desarm ado e indefeso?

Onde foi parar Carla?

Qual é seu verdadeiro papel em toda esta história?

Não consigo im aginá-la com um a arm a na m ão enquanto aperta um gatilho e apaga a vida de pessoas que um credo distorcido indicou com o inim igas. Enquanto elim ina a vida de garotas com as quais, poucas horas antes, ela riu e brincou, m ascarando seu desprezo e suas intenções. Não consigo im aginá-la no papel e no espírito de quem olha em volta, vê apenas corpos envoltos em sangue e acha natural o que acabou de fazer.

Talvez porque, cada vez que tento vê-la assim , a essas sequências se sobrepõem seus olhos, bonitos dem ais para serem verdadeiros, bonitos dem ais para serem falsos. Talvez porque, apesar de tudo o que aconteceu, eu nunca m e desvencilhei da im agem de um a calçada fresca ao raiar do dia e do calor das suas palavras.

Com você, seria grátis...

Olho para Lucio e penso novam ente em seu corpo enroscado ao de Carla, quando os observava, sentado, com o se o prazer deles fosse m eu. De repente, sinto rancor e pena de m im m esm o. Não porque sou prisioneiro, não porque estou prestes a m orrer. Mas porque, no final das contas, a única coisa que eu gostaria de saber é se, naquela noite, em um apartam ento anônim o do Quartiere Tessera, aquele ato de am or foi um presente para m im ou para ele.

Prosseguim os pela estrada Rivoltana, passando por Segrate. A certa altura, viram os à direita. Depois de alguns quilôm etros, chegam os a um a casa isolada. Um portão, um m uro baixo que era com pletado por um a grade com barras de m etal, um pedaço de j ardim gram ado, com arbustos esparsos e um pinheiro ao fundo.

Nenhum a luz nas j anelas.

Lucio desce para escancarar o portão. Vê-lo m ovim entar-se tão livrem ente ainda m e surpreende.

No halo dos faróis que se abrem com o um a cortina enquanto o portão desaparece, a casa é anônim a, branca, de dois andares. A casa que as crianças desenham nas páginas do caderno no prim ário, se não fosse por um a garagem ligada à construção no lado direito. A via de acesso term ina exatam ente na frente de um portão que está abaixado.

Lucio volta para o carro e chegam os diante do painel de m etal pintado de verde, que reflete e colore a luz dos faróis. O portão é aberto por alguém que está do lado de dentro, avisado pelo som do m otor.

Entram os e param os ao lado de um Volvo 240 no exato m om ento em que, do escuro da estrada, despontam o barulho e o olho de ciclope de um a m oto.

Um a Kawasaki 900 estaciona ao lado do Kadett. Em um m ovim ento contínuo, Giorgio Fieschi abre o estribo central e desce do selim . Tira o capacete, revelando sua cabeça e seus cabelos encaracolados que, se deixasse crescer, o tornariam parecido com Angelo Branduardi. Ele abre o zíper da j aqueta de couro e poderia ser um rapaz qualquer que está chegando de um a noitada com sua garota, se, do cinto, não brotasse a coronha de um revólver.

Lucio sai do carro. Em sua voz, não há ansiedade, m as a segurança de quem está acostum ado a ver os próprios planos se concretizarem .

— Tudo certo?

— Tudo certo. Depois que saí da sua casa, fiquei alguns m inutos nos arredores para m e certificar. Nenhum m ovim ento suspeito.

— Muito bem .

Lucio se dirige a um a das duas pessoas que encontram os na garagem , o hom em que abriu o portão. É um suj eito atarracado, tem uns 30 anos, sobrancelhas grossas, lábios carnudos e ossatura robusta. A cabeça, que desponta de um suéter de gola alta, parece estar grudada diretam ente no tronco.

— Sergio, feche o portão e se certifique de que ninguém tenha nos seguido.

Sem um a palavra o suj eito sai e, m ancando levem ente, vai executar as ordens. Pela sua expressão, não deve ser um a m ente brilhante, apenas um cérebro doutrinado e um braço de confiança.

Olho à m inha volta, sob a luz das duas lâm padas fluorescentes presas ao teto. A garagem , na verdade, é quase um galpão. Lá dentro há tudo o que se pode esperar de um am biente do gênero.

Um a bicicleta pendurada, um a bancada com um torno encostada na parede da direita, um painel no qual estão pendurados um a furadeira e outros instrum entos de trabalho. Um gaveteiro m etálico que deve conter chaves inglesas e outras ferram entas. Um a prateleira cheia de latas. Um velho par de esquis apoiado em um canto, ao lado de um m im eógrafo. No chão, um a pilha de folhetos im pressos com o em blem a das Brigadas Verm elhas. Tenho certeza de que, tam bém no restante da casa, estão dissem inados elem entos que a qualificam com o um antro de terroristas.

A cenografia está pronta e o roteiro foi escrito há tem pos. O protagonista chegou.

Ação. Vam os film ar.

Lucio se dirige a outra pessoa, um rapaz alto e j ovem que parece um estudante de segundo grau. Ao olhá-lo, podia-se im aginar que ele estaria perfeitam ente adequado na saída de um a escola, com livros em baixo do braço, conversando com um am igo ou um a nam orada. No entanto, é m uito provável que tenha sido um dos passageiros dos carros que foram perpetrar a chacina, convencido de que aqueles hom icídios não eram um crim e, m as um ato de j ustiça.

— Com o vão as coisas por aqui?

— Tudo tranquilo. Estam os prontos.

— Perfeito.

Lucio olha para m im . Tenho a im pressão de que ele está verificando se a prova de sua autoridade surtiu efeito em m im . Cada hom em tem suas fraquezas, suas pequenas ou grandes vaidades. Se estou aqui e m e encontro nesta situação, é porque eu tam bém cedi às m inhas.

Pergunto.

— Você acha m esm o que tudo isto vai m udar algum a coisa? Que realm ente vai criar um m undo novo?

— Não sei. Posso apenas dizer que vivo há anos no velho e não estou satisfeito.

Giorgio intervém .

— Não perca tem po com esse cafetão. Com o ele poderia entender em dez m inutos o que não entendeu em toda um a vida?

Olho para ele. Vej o-o novam ente no palco, enquanto oferecia às pessoas na sala um dos presentes m ais bonitos que um hom em pode dar a outro: um a risada. Vej o novam ente seu rosto desolado e m eigo enquanto dizia a frase final.

E destruiu nossa infância...

Sej a lá o que tenha destruído a sua, agora é tarde para rem ediar. Ou, então, tudo isso são bobagens de psiquiatras e não existe um verdadeiro m otivo. Talvez a natureza sej a a única responsável e ele sej a sim plesm ente um a m açã podre em um cesto de m açãs boas.

Algum as pessoas sabem reconhecê-la, e a j ogam fora.

Algum as pessoas sabem reconhecê-la, e a usam .

Respondo com o m esm o tom de voz.

— Um a coisa eu entendi em toda esta confusão.

— O quê?

Ele m e encara, enquanto espera. Arrogante, com um ar de desafio.

— Algum as pessoas explodem bom bas porque acreditam nelas. Outras explodem bom bas só porque gostam de ouvir o barulho e os gritos dos feridos.

Deixo que ele assim ile o conceito.

— A que categoria você pertence?

A raiva dele vem de um ponto m uito próxim o porque em um instante está em seus olhos. Ele saca o revólver do cinto e o põe em baixo do m eu queixo, obrigando-m e a levantar a cabeça.

— Seu m erda, vou...

Não tenho tem po de saber o que ele vai fazer porque Lucio intervém .

— Giorgio, chega! Guarde esse revólver.

A pressão do cano dim inui, m as a fúria perm anece intacta. A contragosto, cede ao pedido de quem detém o com ando. Lucio age com o Tano Casale, Giorgio, com o o Tulipa. Se fosse necessário, seria a confirm ação de que é a m esm a coisa em todos os lugares.

É a ilusão do avião. São os lugares que m udam , e não os hom ens.

A arm a volta para seu cinto e ele recua um passo.

Sergio, que foi fechar o portão, volta à garagem . Abaixa a porta de m etal e deixa do lado de fora o ar fresco da noite. Agora, estam os fechados dentro desta caixa de tij olos, telhas e chapas m etálicas, sob luzes im piedosas, todos prisioneiros, cada um a seu m odo.

A porta no alto da pequena escada à esquerda se abre.

Carla sai e para no patam ar para olhar os hom ens em pé no nível m ais baixo, que, instintivam ente, viraram a cabeça em sua direção. Desce com seu passo felino e tenho a im pressão de que aquele m ovim ento de poucos degraus acontece em câm era lenta para m e dar tem po de reviver cada instante das horas que passam os j untos. Todas as suas expressões, todas as suas transform ações. Faxineira, garota incrédula da própria beleza, m ulher consciente do próprio poder sobre os hom ens, decidida a conquistar o m undo. Até chegar à Carla de agora, um a desconhecida com olhar frio e um a expressão dura no rosto.

Nem m esm o a luz das lâm padas fluorescentes consegue atenuar sua beleza. Nem o j eans e o suéter barato que ela está usando. Nem a ideia de que ela se aproxim ou de m im com a intenção precisa de m e envolver em um plano do qual eu não sairia vivo.

Ela ignora Giorgio e Chico, que continua atrás de m im , um passo e um cano de revólver m ais recuado. Vai até Lucio, abraça sua cintura e apoia os lábios sobre os dele. Depois, m e indica com a cabeça.

— Vej o que tem os com panhia. Com o você fez para encontrá-lo?

Lucio m e olha com um m eio-sorriso. Porém , sua ironia não m e diverte m ais.

— Bravo fez j us a seu apelido. Infelizm ente para ele, foi apenas bravo, e não bravíssim o. Descobriu sozinho quase tudo, em bora tenha com etido o erro de se apresentar a m im e não à polícia.

Carla não com enta e se vira para m im .

Não há lisonj as em seus olhos.

— Aqui está você.

Um a sim ples constatação. Ela fala com o se fosse algo natural estarm os um diante do outro nesta situação, com um a arm a na m ão de Chico que não para de controlar m eus poucos m ovim entos.

— Pois é. Aqui estou.

O que posso acrescentar que j á não tenha sido dito ou que não sej a inútil dizer? Existe algum a em oção a ser expressa que ela j á não tenha visto refletida em m eu rosto ou em m eus gestos?

Ficam os olhando um para o outro. Tam bém neste caso, com o aconteceu com Lucio, perm aneci sendo a m esm a pessoa.

Ela não.

E, se fosse necessário, suas palavras m e dem onstrariam isso.

Secas, precisas, sem absolvição.

— Você m e dá noj o, Bravo. Gostaria de ter dito isso desde o prim eiro instante em que nos encontram os. Pelo que você é. Por sua inutilidade. Pelo m undo podre que você representa e ao qual serve de m aneira asquerosa.

Só existe um a coisa que posso dizer. E eu a digo.

— Nunca m atei ninguém .

— Nem eu. Só pessoas que m ereciam m orrer, m as essas não contam .

Os outros ouvem em silêncio essa troca de frases. É fácil entender de que lado eles estão e a quem , dentro de si m esm os, estão dando razão.

Lucio intervém .

— É isso que você nunca conseguirá entender, m eu am igo. Não tem os adversários, apenas inim igos. Deixam os os adversários com o cobertura para a política, que, com essa definição, m ascara toda um a série de trapaças e conivências, abusos e hom icídios com andados pelo Estado. A ponto de a palavra adversário ter se tornado sinônim o de cúm plice. O que nos sustenta é a firm e convicção de que nada é intocável, inelutável, insubstituível. Acreditam os em algo que deixa em segundo plano não apenas a vida dos outros, m as tam bém nossa própria vida. Carla aceitou, com o tantos com panheiros, rebaixar-se a ações que a enoj avam a fim de atingir o obj etivo que havíam os estipulado. Não fechou os olhos, m as os m anteve abertos, olhando para longe, enquanto trepava com você.

Acaricia seus cabelos. Sorri para ela.

— O m undo de am anhã deve m uito a ela.

Carla m e observa. Em seu rosto, encontro a expressão que confirm a as palavras de gelo que m e disse pouco antes. Mas eu penso som ente em um a frase de Lucio.

Enquanto trepava com você...

Isso significa que ela não lhe disse nada sobre m im , sobre a m inha patética m utilação, o que criaria um a balbúrdia de piadas e risadinhas, se atirada com o um a bola de boliche entre os pinos do Ascot Club. E que seria um a fonte de sarcasm o e escárnio até m esm o entre estes hom ens capazes de interrom per vidas em nom e do nada e, em seguida, desaparecer nesse m esm o nada.

Ela deixou que eles acreditassem que nós dois...

— Acho que está na hora de nos m exerm os.

O rapaz com cara de estudante interrom pe este m om ento. Palavras ditas em voz alta porque assim é a vida, e outras palavras não ditas porque assim são os hom ens.

Todas im portantes, todas inúteis.

Lucio retom a o controle da situação. Estende para Carla o revólver que encontrei escondido na porta do Mini.

— Tom e, ponha em cim a da bancada. Esse precisa ser encontrado em casa. Deixe tam bém os outros dois, que foram usados em Lesm o. Vai dar m ais força à encenação.

Carla em punha o revólver com o se nunca tivesse feito outra coisa. Tranquila, forte, m entirosa. Volto a m e perguntar por que m entiu tam bém a respeito de nós. Receio que nunca saberei a resposta. Enquanto m e sobrar tem po, posso apenas tentar im aginá-la.

Lucio indica com a cabeça a porta no topo da escada.

— Ele está lá em cim a?

— Está.

— Perfeito. Eu falo com ele, depois pegam os as coisas e vam os em bora.

Vamos embora.

Lem bro-m e de Day tona e das piadas que eu fazia para ele. Desta vez, gostaria de estar incluído naquele plural. Mas duvido que isso vá acontecer.

Chico torna a falar. O cano do revólver reencontra m inhas costelas.

— Por ali. Vam os.

Seguim os Lucio em direção à escada. Quatro degraus nos perm item alcançar a porta. Do outro lado, encontram os um corredor com um a tapeçaria que tem com o estam pa desenhos geom étricos. Prosseguim os em fila indiana, hom em -hom em -revólver-hom em , até entrarm os em um a sala de estar na qual a tapeçaria entra em conflito com cortinas que precisariam ser lavadas e esquecidas no varal até o fim dos tem pos. A área à direita está tapada por um a estante que serve de divisória. À esquerda, há m óveis em nogueira, com um sofá e duas poltronas de napa dispostas na frente de um televisor. No chão, ao lado do sofá, algum as bolsas com alças, as m alas dos fugitivos.

Sentado em um a das poltronas está Gabriel Lincoln. Só o vi um a vez na vida, m as é um a daquelas pessoas que você não esquece por causa dos traços e das circunstâncias.

— Boa noite, m ister Bravo.

Seu italiano perfeito e seu sotaque inglês são tão inconfundíveis quanto seu perfum e. Ele é um hom em cheio de certezas, um conservador. A elegância do terno é com o o brilho de um garfo sobre um prato neste am biente de pobres m ortais.

— Com o pode ver, o m undo é pequeno. E m alvado, eu acrescentaria.

Não sei por que, m as não estou surpreso. Gabriel Lincoln é um a resposta lógica, um ornam ento que encontra seu lugar nesta história de m aneira totalm ente natural. O hom em sem pre um passo atrás ou dois à frente, o colaborador fiel, o Judas com m uito dinheiro depositado em um a conta no exterior.

— Não posso dizer que é um prazer revê-lo.

— Sinceram ente, nem eu. Faz parte, digam os, de um a incum bência do trabalho. Para seu azar, desta vez não se trata do seu trabalho, m as do m eu.

— Só por curiosidade, o senhor é do Serviço Secreto?

Ele sorri e parece se esquivar. No entanto, não acredito que a m odéstia sej a um de seus dons.

— Um a definição desse tipo lem bra por dem ais Jam es Bond. Porém , digam os que o cam po em que atuo pode ser definido assim .

— Por que eu? O senhor tinha a confiança de Bonifaci. Que necessidade tinha de recorrer a m im ?

Lincoln se levanta e aj eita as calças de gabardine.

— Infelizm ente, Lorenzo m e afastou há alguns m eses. Um deplorável incidente de percurso. Eu sabia tudo sobre ele, m as não podíam os m ais interagir. A m ansão Bonifaci se tornou inalcançável para m im .

Faz um gesto com as m ãos que explica tudo. Até o m otivo pelo qual, daqui a pouco, vou levar um a bala na cabeça.

— A única pessoa por m eio da qual podíam os entrar naquela casa, e naquelas circunstâncias, era o senhor. Nada pessoal, apenas um a questão de oportunidade.

Faz um a pausa. E então m e recom pensa com sua com preensão.

— Lam ento.

Do corredor, chega o barulho da porta que dá na garagem . Um som de passos e, logo em seguida, Carla aparece na sala de estar. Está com um revólver nas m ãos. Um cheiro estranho a segue. Dem oro um instante para reconhecê-lo, no m om ento exato em que ele apaga o perfum e francês de Gabriel Lincoln.

É cheiro de pólvora.

Lucio dá um passo para o lado.

— Term inou?

Ela faz duas coisas quase ao m esm o tem po. Prim eiro, um sinal de confirm ação com a cabeça, depois, levanta a m ão direita e…

pfft... pfft...

…dois pequenos j orros de sangue na altura do coração de Chico suj am o terno de Mr. Lincoln. Lucio é rápido, com o se, em sua cabeça, j á tivesse visto a sequência do que estava para acontecer. Antes que o corpo de Chico caia no chão, ele j á pega seu revólver.

Desta vez, sem silenciador. O disparo ecoa no am biente apertado e no am plo silêncio da noite com o um a explosão. Um furo se abre no m eio da testa de Gabriel Lincoln. Um m ilésim o de segundo depois, seu sangue e seu cérebro vão parar nas cortinas da j anela ao fundo.

Ele cai de costas com a expressão de quem não entende por que m orreu. Na verdade, quem é assassinado nunca entende. Seu corpo inanim ado é feito de linhas interrom pidas e form a um a estranha geom etria com o de Chico.

Carla se j unta a nós e olha para os dois cadáveres. Talvez tenha sido isso o que aconteceu em Lesm o. Com aquele olhar frio, verificou se todos os corpos caídos no chão haviam perdido a vida de m aneira definitiva, pronta para, caso contrário, dar o tiro de m isericórdia.

Lucio pergunta.

— E os outros?

Carla responde.

— Foram em bora.

— Pegue as m alas. Eu term ino aqui.

Com passos rápidos, Carla passa pelo sofá e entra em um a porta no fundo do côm odo. Da porta aberta, após a luz ter sido acesa, é possível vislum brar um quarto. Ela desaparece lá dentro e, na sala, restam os vivos apenas Lucio e eu.

Ele levanta o revólver e o encosta em m inha têm pora.

— Sinto m uito, Bravo. O verdadeiro criptogram a era m uito m ais com plicado do que a solução que você encontrou.

— Ou sej a?

— O que encontram os naquela casa nos fez m udar de planos. Agora, eles não dizem m ais respeito aos com panheiros, à luta, à vitória que talvez nunca venha a acontecer. Agora, os proj etos dizem respeito apenas a Carla e a m im .

Poucas palavras secas de Carla cortam pela raiz um a pergunta inútil de m inha parte.

— Receio que, nos seus proj etos, haj a um nom e sobrando, Lucio.

Nós dois viram os a cabeça para a voz. A tem po de…

pfft...

…ver surgir do cano do revólver um a pequena faísca que arranca um pedaço da cabeça de Lucio. Um leve j orro de sangue tam bém vai parar em m eu paletó e em m eu rosto. A pressão do cano em m inha têm pora desaparece. Um corpo se j unta a outros dois no chão.

Carla aponta o revólver para m im . Indica com o cano um canto do côm odo.

— Fique ali e nada de brincadeiras, se não quiser ter o m esm o fim .

Ela se m ovim enta depressa. Saca do bolso de trás do j eans um paninho e esfrega o revólver que usou para atirar em Lucio. Depois, segurando-o pelo cano através do tecido, se inclina ao lado do corpo de Gabriel Lincoln e faz com que ele feche o punho em torno da coronha e do tam bor para deixar suas im pressões digitais.

Abandona a arm a no chão e volta a se levantar. Durante todo o tem po, ficou de olho em m im . E eu, do m eu ponto de vista, fiquei de olho o tem po todo no segundo revólver que brotava do cós de suas calças.

Carla olha para m im . Não há ansiedade em sua voz, apenas a urgência exigida pela praticidade.

— Você tocou em algum a coisa?

Faço um sinal negativo com a cabeça.

— Muito bem . Espere aqui.

Ela desaparece novam ente no quarto e reaparece arrastando duas m alas. Apoia um a delas a m eu lado.

— Pegue essa. Precisam os ser rápidos. Alguém pode ter ouvido os disparos.

Tudo aconteceu depressa e sem explicação. Os relâm pagos, os trovões, o granizo e o tem poral acabaram antes m esm o que eu m e desse conta de que estava caindo água do céu. Só que não era água, era sangue. Estou transtornado pelo barulho e pelo cheiro dos disparos, pelo alívio de não ser um daqueles corpos im óveis no chão.

A única coisa da qual tenho certeza é de que estou vivo.

Percorrem os novam ente o corredor. A porta ainda está aberta, a tapeçaria continua sendo feia, o cheiro acre de cordite continua forte. Quando chegam os ao topo da escada, consigo ver com um a única passada de olhos o que a garagem se tornou. Giorgio está caído perto de sua m oto, a parte da frente da cam isa azul ensanguentada, a j aqueta de couro, furada na altura do coração. O estudante está no chão, de lado, com os olhos abertos. Um a m ancha verm elha se expandiu no cim ento a partir de sua cabeça. Parece observar Sergio, que está de bruços, ainda m ais atarracado e desaj eitado no seu m odo pouco elegante de estar m orto.

Carla nem se digna a olhá-los, com o se fossem parte de algo que sua m ente registrou com o acontecido e logo arquivado. Descem os rapidam ente os degraus. Minha m ala pesa. Não sei que diabos tem dentro, m as pesa. Apesar dos poucos passos, j á estou sem fôlego.

Carla é m ais enxuta, forte, calm a e eficiente.

Penso na palavra letal, m as a deixo de lado im ediatam ente.

Chegam os ao Kadett e ela abre o porta-m alas. Tira lá de dentro um par de luvas de trabalho e as atira para m im , um a de cada vez.

— Ponha isso. Levante um pouco a porta de m etal e verifique se não tem ninguém lá fora. Depois, vá abrir o portão.

Cum pro a tarefa enquanto ela arrum a as m alas. De repente, estou do lado de fora, no ar insípido da noite que, em si, j á é um a bênção. Percorro a estradinha de cim ento, guiado até o portão pela claridade violácea da cidade ao fundo.

Assim que abro o portão de m etal, o m otor do Opel é ligado e o carro sai em m archa à ré. A luz dos faróis resvala nos corpos caídos e se retrai, com o se estivesse com noj o. Apenas as luzes fluorescentes no alto perm anecem ilum inando a cena.

O carro chega até a estrada e para com a parte da frente apontando para o lugar de onde, alguns m inutos ou algum as horas antes, cheguei. Por um instante, suspeitei que ela não pararia, que eu ficaria aqui sozinho, no quintal desta casa cheia de cadáveres, procurando entender o que aconteceu e tendo de explicar tudo a quem viesse tom ar satisfações.

Depois, a porta do passageiro se abre. Graças à claridade do painel, vej o um gesto de Carla, que m e convida a entrar. Com um suspiro de alívio, sento-m e a seu lado, perm itindo finalm ente que m inhas m ãos e pernas trem am . Seguim os velozes até a estrada estatal e viram os à esquerda. Mais um a vez o parque de diversões, o Idroscalo, Linate. No sinal, enquanto dobram os à direita rum o à cidade, um m uro de painéis de cim ento ladeia a viale Forlanini. Alguém , com um a lata de tinta spray preta, deixou um a pichação.

Que diabos Nelson está fazendo no nosso navio?