Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 13 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 12

 

ESTOU ESTACIONADO NA VIA ROMA, em frente à sede anônim a de um banco, sentado no carro dos m istérios. De m anhã, eu m e levantei cedo e saí sem sequer tom ar banho ou fazer a barba. Decidi que as pessoas que eu preciso encontrar devem m e aceitar na versão desalinhada.

No corredor, encontrei Lucio com sua bengala branca e seus óculos escuros, subindo o últim o lance de escadas. Chegou ao andar e parou. O barulho da porta se abrindo e fechando revelou m inha presença.

— Acordou cedo.

— Você tam bém , eu diria.

Ele pôs a m ão no bolso e tirou a chave de casa. Tateando a porta, introduziu-a na fechadura.

— Fui dar um a volta em um estúdio de gravação no castelo de Carim ate ontem à noite. A sessão acabou dem orando e dorm i por lá. Hoj e de m anhã, para voltar, tive de aproveitar a única carona disponível. Quase ao am anhecer, com o você está vendo.

Abriu a porta e pôs a chave de volta no bolso.

— Preparei um novo enigm a para você.

Eu não estava com tem po nem vontade de ouvir um novo criptogram a. Tentei dizer isso de um a m aneira que não o ofendesse.

— Infelizm ente, não é o m om ento. Estou m orrendo de pressa.

Ele não se deu por vencido.

— É sem pre o m om ento de fazer o cérebro funcionar. É sim ples. Ouça: Mordeu o civil, 6 e 5. Gravou?

— Gravei.

Com ecei a descer as escadas, m as sua voz m e deteve.

— Bravo, só um a coisa.

— Pode dizer.

— Obrigado pela outra noite. Com Carla, quero dizer. Não sei qual é a relação que vocês têm , m as tenho certeza de que o que aconteceu é m érito seu.

Por um instante, a im agem dos corpos deles sobre o leito se sobrepôs ao entorno. Depois, voltei a ser eu m esm o.

— Está tudo bem , m úsico. Mas agora preciso ir.

Ouvi a porta se fechar enquanto eu descia o últim o lance da escada. Fiz tudo o que eu tinha de fazer na velocidade m áxim a perm itida por um tráfego clem ente: banco, um m ilhão no caixa, depois corri até a casa de Pino, em Corm ano. Retirei o produto da sua arte, desviando dos olhares de sua filha, de seus convites e seus bons conselhos, frutos de um a sabedoria antiga que, todavia, não im pediu que o pai entrasse e saísse várias vezes da cadeia.

Agora, sou um hom em que aguarda alguém , esperando que o resultado sej a diferente daquele de ontem à noite.

Um Sim ca 1000 verde-claro passa por m im e para duas vagas adiante. Depois de alguns instantes, sai Rem o Frontini. Está vestindo um paletó azul-m arinho que j á viu dias m elhores e calças que têm cara de liquidação. Saio do carro e vou em sua direção. Por seu aspecto, dá para ver que ele não dorm iu m uito esta noite. Por vários m otivos, estou na m esm a situação. Essa estranha sem elhança aum enta m inha sim patia e, por conseguinte, m eu cuidado em relação a ele. Talvez por causa daquela exasperante atração instintiva que a honestidade exerce em pessoas com o eu.

— Bom dia, sr. Frontini.

— Espero realm ente que sej a um bom dia.

— Vai ser. Fique tranquilo. Confie em m im .

Talvez ele pense que não tem m otivo algum para confiar e este sej a o m otivo de sua inquietação. Desaj eitado, com ar de quem não vê a hora de tudo acabar, ele vasculha os bolsos e m e estende um a folha dobrada ao m eio, no form ato de um papel de carta.

— Aqui está o que o senhor havia m e pedido.

Abro e verifico a fotocópia. Está perfeitam ente legível. Tiro do bolso do paletó um recorte de j ornal com os dados do cartão vencedor. Verifico tudo várias vezes. Pelo m enos os núm eros coincidem .

— Muito bem . Agora, é só esperar.

Ele não pergunta quem .

Ofereço um Marlboro. Ele recusa com um leve m ovim ento da cabeça. Acendo e fum o um cigarro sem sentir seu sabor. O que houve m e deixou um gosto ruim na boca. Não estou acostum ado a não m e sentir dono da m inha vida. Tenho a sensação de um a am eaça im inente, algo que está prestes a acontecer e cuj a natureza, e sobretudo a proveniência, não consigo perceber. Não é um bom estado de espírito com o qual conviver porque, por m ais que m e esforce, não encontro nem um rastro de explicação.

À prim eira vista, os recortes de j ornal no envelope podem ter apenas um significado: Day tona queria passar a perna em seus credores e pensou em m e usar com o m ensageiro e, talvez, com o bode expiatório. No entanto, m e parece um proj eto tão estúpido que até o cérebro atrofiado daquele idiota deveria ter entendido seus lim ites. Não sei com o enquadrar o fato de os credores não terem aparecido no encontro. Um golpe de sorte para m im ou o sinal de que a explicação deve ser procurada em outra direção? O problem a é que não faço a m enor ideia de qual sej a essa direção.

Resta o detalhe nada desprezível do núm ero no chassi do carro. Não se trata de um inócuo desafio enigm ático entre m im e Lucio. Um a daquelas sensações sem nom e que nos fazem acertar o cavalo vencedor ou evitar o perdedor m e sugere que a situação não é tão sim ples. Trata-se de um enigm a m ais com plexo, cheio de núm eros e letras que não sei com o com binar.

Por m ais que m e esforce, não consigo entender. Quando não entendo, sinto-m e achincalhado e fico furioso.

Vej o um Alfa Giulietta cor de crem e aproxim ar-se pela direita e reconheço Stefano Milla ao volante. Estaciona um pouco longe de nós. Com o não o vej o chegar, vou até ele. Está sentado no carro, fum ando e m e esperando. Abro a porta e m e sento no banco do passageiro. Nada de form alidades. Ele pega um a m aleta de napa m arrom -escura do banco traseiro e a põe no m eu colo.

— Entrega realizada.

— Você tam bém vem ?

Milla balança a cabeça.

— Prefiro que aquele suj eito não m e vej a. Sou apenas a escolta. Tano m e disse que, neste caso, você é o responsável. Com bônus e ônus.

Por experiência, conheço bem qual poderia ser a natureza dos ônus e dos bônus. Pego a m aleta, saio do carro e vou até Frontini, que parece m ais nervoso que nunca. Convido-o a se sentar a m eu lado no carro. Verifico se não há ninguém por perto; em seguida, abro a m aleta e m ostro o conteúdo.

— Aqui está.

Eu j am ais conseguiria descrever a expressão deste hom em . Não é cobiça, m as estupor. É o rosto de um a criança diante do tesouro dos piratas, de algo que achava que só existisse na fantasia, e não na realidade. Aquela m aleta representa a certeza de um a vida nova e inesperada. Eu o observo e fico feliz por ele.

— Verifique. Devem ser cinquenta m aços de dez m ilhões cada. No total, quinhentos m ilhões. Exatam ente o valor que havíam os com binado.

Ponho a m aleta sobre os seus j oelhos.

— Sem pressa.

Ele rem exe nas notas por tem po suficiente para contar três ou quatro m aços aleatórios e, depois, até cinquenta. Por fim , fecha e tranca a m aleta.

— Parece que está tudo aqui.

— Perfeito. Agora, vá pegar o cartão.

Por escrúpulo, faço questão de lhe inform ar que os ônus e os bônus m encionados por Milla há pouco não dizem respeito apenas a m im , m as a ele tam bém . A experiência m e ensinou que nunca se sabe, em bora, com Frontini, eu tenha infringido várias vezes essa m inha regra.

— Devo fazer um últim o esclarecim ento. Sei que não é necessário, m as sou obrigado a ressaltar que qualquer gesto im próprio da sua parte pode acarretar consequências nada agradáveis.

Surpreendentem ente, ele sorri.

— A esta altura, se eu não tivesse entendido, seria um idiota.

Em seguida, sai do carro com sua m aleta das m aravilhas. Quando está do lado de fora, se abaixa, apoia o braço na porta e passa a cabeça pela j anela aberta.

— Não preciso ir pegá-lo.

Põe a m ão no bolso interno do paletó e tira um envelope. O m esm o gesto de Day tona no dia anterior com seu pequeno cavalo de Troia cheio de papel-j ornal. Mas executado por um hom em diferente. Muito diferente.

— Aqui está o cartão.

Abro o envelope e o com paro com o m eu recorte e com a fotocópia. Tudo coincide: data, resultados, autenticações, núm ero da lotérica. Olho para ele e, agora, é m inha vez de ser pego no contrapé. Rem o Frontini sorri novam ente.

— Bravo, acho que sou um a pessoa de bem . E, a despeito da sua opinião sobre si m esm o, tenho certeza de que o senhor tam bém é. Agradeço seus conselhos e, se m e perm ite, vou lhe dar um .

— Diga.

— É o oposto do conselho que ouvi. Vou esperar para m udar de vida. Mude a sua o m ais depressa possível. O senhor m erece algo m elhor. Tenha um bom dia.

Não tenho tem po de responder, ele j á se levantou e se dirigiu rapidam ente até o banco para pôr seu pé de m eia ao abrigo de olhos indiscretos e m ãos aduncas. Fico sozinho com m eu envelope nas m ãos.

Esta é um a sorte inesperada. Posso fazer o que prom eti com toda a tranquilidade. Do bolso interno, tiro o m ais recente trabalho de Pino, um dos m elhores falsários que existem por aí. Encom endei um cartão falso, que não passaria nunca no exam e dos especialistas da Sisal, m as que é perfeito para que Tano Casale acredite que tem em m ãos o cartão vencedor. Se ele o for trocar am anhã de m anhã, é provável que, à noite, eu estej a no fundo do Ticino com um a pedra am arrada nos pés, aprendendo a língua dos peixes. Mas conto com sua avidez para que isso não aconteça. Quero fazer um a proposta que deverá m e m anter seguro por algum tem po.

O tem po necessário.

Ponho o cartão faj uto no envelope e, um segundo m ais tarde, Milla se m aterializa ao lado da j anela, do m eu lado.

— Tudo certo?

— Tudo certo.

Dou a ele o que tenho em m ãos.

— Tom e. Entregue isto a Tano.

— Você vai entregá-lo pessoalm ente. Ele m e disse que gostaria de falar com você. Portanto, acho que deve vir com igo.

Seu rosto de coringa desponta de um m aço de cartas em baralhadas e, desta vez, não há sorriso. O tom é de quem não gostaria de estar no m eu lugar. O fato é que nem eu gostaria de estar. Ele não tem com o saber que esta é apenas um a nova incógnita que vem se j untar a todas as outras.

— Tudo bem . Vá na frente. Eu sigo você.

Ele sai e, pouco depois, seu carro passa por m im . Saio do estacionam ento e sigo o Alfa. Por culpa dos sinais de trânsito, correm os o risco de nos perder algum as vezes enquanto saím os de Cesano.

Observo a nuca de Milla enquanto dirige. Não sei o que esperar dele. Antes, eu podia considerá-lo um a espécie de proteção, se é que sua colaboração podia ter algum valor em um m undo no qual, ao m enor sinal de problem a, cada um está disposto a j ogar ao m ar a própria m ãe. Agora que ele se revelou e declarou ser um capanga de Tano, não tenho dúvidas sobre a posição que ele assum iria se tivesse de escolher. O que não consigo entender é até que ponto ele está envolvido e, portanto, até onde está disposto a chegar.

Entram os no anel viário na altura de m inha casa e seguim os rum o ao sul. Meu carrinho tem um pouco de dificuldade para seguir o Alfa. Os dois cartões são bigornas nos m eus bolsos. Se, por um m otivo que não ouso im aginar, Tano Casale m andar alguém m e revistar, talvez o banho no Ticino sej a antecipado para esta noite.

Tento m e distrair e penso em Carla.

O fato de que, neste m om ento, ela pode estar na cam a com um ou m ais hom ens não m e desperta ciúm e nem m e desanim a. Quando um a navalha m e afastou definitivam ente de certas práticas, de certo m odo as em oções correspondentes tam bém foram elim inadas. O estím ulo, não. Perm aneceu. Com o revanche em relação a um desej o às vezes lancinante, um im pulso que nunca m ais poderá ser satisfeito, as m ulheres se tornaram um instrum ento de com unicação com o m undo dos hom ens.

Mulheres de um lado, hom ens do outro.

E eu no m eio, ainda carregando a cicatriz da m inha uretrotom ia perineal, a operação à qual m e subm eti para poder ter um a relação m enos caótica com m eu corpo quando sinto a necessidade hum ana de urinar.

Carla é um a das poucas pessoas no m undo que sabe disso. E que entendeu. Intuí tudo quando m e pediu perm issão para fazer am or com Lucio e, ao m esm o tem po, ofereceu-m e esse presente. Tive a confirm ação em seguida, quando a ouvi entrar na cam a ao m eu lado e buscar contato.

O carro de Milla vira na saída para Opera. Instintivam ente, presum o que estam os indo em direção ao galpão do ferro-velho onde estive com Micky. Aquele que, à noite, se transform a em um cassino clandestino. A im agem da pedra am arrada nos pés e do m ergulho no Ticino é substituída pela im agem do m eu corpo enfiado na carcaça de um carro cuj a carroceria será transform ada em um cubo. Tais pensam entos não são bons com panheiros de viagem , especialm ente em um dia de sol que, com o na canção de Battisti, faz retornar à m ente os respingos do m ar e o seu sorriso.

No entanto, o Alfa Giulietta segue em frente e, após alguns quilôm etros, vira à direita, entrando em um a estradinha que, centena de m etros depois, term ina no estacionam ento de um a trattoria. É um a construção baixa, com j anelas protegidas por grades com algum a pretensão artística. As paredes, que em algum m om ento devem ter sido cor de tij olo, agora estão rosadas e m anchadas pelas intem péries. Nos fundos, há um a pérgula com um a glicínia enorm e que serve com o telhado. No verão, esse deve ser o lugar reservado para os j antares ao ar livre.

Estacionam os entre os poucos carros presentes, descem os e, em silêncio, nos dirigim os a um pequeno portão de m adeira sob um letreiro que nos inform a da cozinha caseira de Jole. Dentro, as j anelas não perm item a entrada de m uita luz para os poucos clientes, por isso, algum as lâm padas estão acesas. Um garçom desinteressado nem nos olha e um a senhora loura, corpulenta e suada, talvez a Jole do letreiro, pode ser vista pela fresta da porta, entre os vapores da cozinha.

Milla se dirige sem hesitar a um corredor que conduz a um a saleta em separado, onde encontram os Tano Casale e seu guarda-costas sentados diante da única m esa ocupada. Vam os até eles. O chefe está com endo um prato de espaguete. Seu lacaio, que usa o m esm o terno daquela prim eira vez em que o vi, está em penhado em um a luta barulhenta com um prato de minestrone.

Tano aponta sem falar para a cadeira a sua frente. Enquanto m e sento, ele faz um gesto para Milla e para o hom em a sua direita. O suj eito se levanta sem dizer palavra e, j unto com o policial, desaparece na direção do salão.

Estam os sozinhos. Não entendo se este é um bom sinal ou não.

— Quer com er algum a coisa? O carbonara daqui é fantástico.

— Não, estou sem fom e.

Ele engole um bocado, lim pa-se com o guardanapo e estende a m ão na m inha direção.

— Acho que você tem algo que m e pertence.

Tiro do bolso o envelope e o entrego. Ele o abre e saca o cartão, observando-o longam ente. Talvez tenha dificuldade em acreditar que com prou aquele retangulozinho insignificante com um m onte de dinheiro. Depois, vira novam ente para m im um rosto com um a expressão indefinível.

— Você é um rapaz esperto, Francesco Marcona, nascido em Sollano, na província de Perúgia, em novem bro de 1943, filho de Alfonso Marcona e Marisa Giusti, que em igraram para a Austrália. Um rapaz realm ente esperto. Acho que você abriu um cam inho com esse estratagem a que arquitetou.

Sorri ao ver m inha expressão de surpresa.

— Estava achando que eu teria confiado essa transação a você sem m e inform ar a seu respeito? Para algum a coisa deve servir o fato de ter na folha de pagam ento um inspetor da polícia do Estado.

Aceito o fato com o óbvio.

— É com preensível.

Tano olha m ais um a vez o cartão. Depois, apoia-o sobre a m esa a sua frente, com o se quisesse m antê-lo sob controle.

Fala com aquela voz que conheço.

— Resta aquela pequena história da m orte de Salvo. Queria que você m e dissesse, olhando nos m eus olhos, o que sabe a respeito.

Por fora, pareço estar tranquilo. Por dentro, não estou.

— Não sei absolutam ente nada. Na noite em que aconteceu, eu estava com um a garota.

Ele m e olha com atenção. Para ele, m eu discurso ainda não term inou.

Apenas os tolos e os inocentes não têm um álibi...

Apoio os cotovelos sobre a m esa e m e estico na direção dele.

— Tano, sendo benevolente com igo m esm o, eu diria que sou m ais diplom ata do que hom em de ação. Nunca tive nenhum a arm a e nunca terei. Quando tive um problem a com Menno, procurei você e tentei resolvê-lo com o um a transação de negócios. Tranquila, pacífica, rentável para am bos. A prova está diante de seus olhos.

Aponto para o cartão a fim de reforçar o conceito e preparar o que estou prestes a dizer.

— E acho que é possível seguir em frente. Se você quiser, tenho outra proposta que perm itiria que você dobrasse esse valor em um a hora.

Um a luz se acende em seus olhos. O espaguete term inou, m as o interesse por essa nova proposta está apenas com eçando. No fundo, conquistei um m ínim o de credibilidade. Tano tom a um gole de vinho.

— Estou ouvindo.

— Algum de seus clientes trabalha no setor bancário? Alguém viciado em j ogo e que talvez tenha um a dívida alta com você?

Vej o que ele está curioso para saber com o a história vai term inar.

— Talvez. Prossiga.

Tentando ser o m ais convincente possível, explico a ideia que tive. É um pouco m ais arriscada do que a operação que pôs diante dele um cartão de quatrocentos e noventa m ilhões de liras, um pouco m ais com plexa de se executar, típica de hom ens m ais coraj osos. Destaco esse fato, em vez de tentar m inim izá-lo. A despeito do nível que alcançou e por m ais esperto que sej a, Tano é um hom em da rua que abriu cam inho com todos os m eios que a coragem e a falta de escrúpulos colocaram à sua disposição. Seu tem peram ento é o de um hom em que aceita desafios.

E é exatam ente o que ele faz.

— Pode funcionar. Nossa, pode realm ente funcionar!

Sorri e term ina o vinho com um único gole, um pouco eufórico e, portanto, um pouco fanfarrão, graças às perspectivas que m inhas palavras descortinaram .

— Quero m esm o foder com aqueles babacas. Quatrocentos e noventa m ilhões de paus no cu.

Quando para de acalentar a ideia, lem bra-se de m im .

— Você quer participar dessa operação?

Balanço a cabeça.

— Eu j á disse, não sou um hom em de ação. Sou um peixe pequeno e quero perm anecer assim .

Tano retribui com um a expressão que parece desenhada pelo inexorável.

— Receio que, desta vez, você terá de crescer um pouco, m eu rapaz.

Ele m e olha com seus olhos escuros, nos quais há certa benevolência. Verdadeira ou falsa, não im porta.

— Gosto de você, Bravo. Quero que tom e conta disso. Você tem um a cabeça de prim eira.

— Obrigado, m as eu preferiria que m inha cabeça ficasse presa ao corpo. Por isso, quero ficar de fora.

— Neste m undo, não podem os ficar de fora para sem pre.

É com o se ele tivesse dito: você está dentro, rapaz. E sem brincadeiras.

Olho para ele. Ser m ergulhado nesse veneno é exatam ente o obj etivo que eu havia preestabelecido. Mas eu não podia pedi-lo abertam ente. Queria que fosse ele a chegar a tal ponto. Apesar de tudo, não consegui afastar um a som bra de suspeita. Tem o que, ao se lidar com um hom em com a atitude m ental de Tano, isso sej a difícil de se conseguir. Mas caí em suas graças, o que é um grande passo.

Ele se inclina levem ente em m inha direção.

— Você está à altura?

Abaixo a cabeça e finj o refletir, com o se ainda estivesse indeciso. Depois, levanto-a, resoluto.

— Eu consigo.

— Tem os hom ens certos? Gente de confiança?

— Tenho. Conheço as pessoas apropriadas. Decididas e discretas, se for o caso.

Ele relaxa. Não percebe que eu tam bém relaxei.

— Então, você tom a conta deles. Quanto ao outro detalhe, pode deixar com igo.

Acrescento algum as palavras que ratificam m eu consentim ento.

— Tudo bem , então. Vou com eçar a m e m exer e aviso quando estiver pronto.

— Ótim o. Enquanto isso, tem certeza de que não quer com er nada?

Trata-se de um convite ou de um a despedida, cabe a m im escolher. Prefiro que o encontro term ine aqui enquanto espero novos desdobram entos.

Levanto-m e.

— Obrigado, m as preciso ir andando.

— Com o quiser.

Deixo a saleta onde acabei de ludibriar um hom em m uito perigoso, feliz por não estar sendo escoltado e por não ter um revólver apontado para m inhas costas. No salão, encontro o pau-m andado sentado em silêncio em um a cadeira. Talvez estej a pensando que o minestrone esfriou. Talvez sim plesm ente não pense e estej a esperando as ordens de quem pensa em seu lugar.

Não o cum prim ento e ele não m e cum prim enta.

Stefano Milla está grudado no telefone público ao lado do caixa. Faz um sinal de despedida com a m ão. Respondo da m esm a m aneira, contente por não ter de falar com ele. Não teríam os nada a nos dizer. Aquele tênue fio que nos tornava cúm plices, m ais por diversão do que por outro m otivo qualquer, partiu-se. Ele se tornou um hom em que tem um pé em vários sapatos, e o m eu não é m ais do seu tam anho.

Saio e respiro.

Lá fora, há um sol atrevido e o céu, varrido por um leve vento norte, tem um tom de azul que só a prim avera poderia trazer. Vou até o Mini e fico triste por não estar no estado de espírito certo para apreciar aquela cena.

Coisas dem ais aconteceram . Todas ao m esm o tem po.

A m orte do Tulipa, a chegada de Carla na m inha vida, o núm ero do chassi do m eu carro, Tano Casale com aquela voz que conheço e seu cartão da loteria falso. E m ais os j ornais de Day tona, que tenho intenção de esclarecer assim que conseguir pôr as m ãos em um telefone ou nele próprio.

Saio na direção de Milão, rum o a m inha casa. Preciso m e deitar por algum as horas e ficar m odorrando com o televisor ligado, na penum bra. Pôr um pouco de ordem em toda esta bagunça. Dar alguns telefonem as, esperando receber notícias das garotas.

Faço o percurso inverso da viagem de ida. Quando você está com a cabeça em outro lugar, algum as viagens parecem breves, a não ser que o pensam ento não estej a voltado obsessivam ente para o lugar aonde você quer chegar.

Não é o caso.

Logo estou em Cesano. A esta hora, o que não falta são vagas de estacionam ento. Saio do carro, passo ao lado de crianças que gritam enquanto brincam na gram a, deixo cair por terra os olhares de um a ou duas m ães.

Ainda alguns instantes e fecho o m undo do lado de fora da porta, trazendo com igo apenas o m ínim o necessário para m anter sob controle as coisas que m e perseguem . A casa cheira a desinfetante e as venezianas estão fechadas pela m etade. A sra. Argenti deve ter vindo e criado um a ordem que sinto que vou subverter em breve.

Assim que entro, vou direto para o telefone e disco um núm ero, esperando que a pessoa j á estej a no escritório. Daquela vez, ele atende diretam ente.

— Biondi. Com quem falo?

— Ugo, é o Bravo.

— Estou ocupado. Fale rápido.

Pelo tom um pouco esbaforido, talvez tenha recebido um a de suas clientes particulares, que agora está sentada em cim a dele.

— Preciso de um a perm issão para ver Carm ine.

— Quando?

— O quanto antes.

— Não é um bom m om ento para fazer visitas em San Vittore.

— Im agino. Mas preciso vê-lo.

— Tudo bem . Ligo assim que souber de algum a coisa.

Nem tenho tem po de m e despedir e ele desliga.

Com o telefone ainda na m ão, revej o o rosto de um hom em no locutório da prisão. Sua expressão cada vez m ais apagada. O que vou lhe propor talvez a ilum ine um pouco.

Depois, volto a avaliar m inha posição. Estou dançando um shake em terreno m inado. Se eu errar um passo, de m im não vão sobrar nem m igalhas.

Desligo com delicadeza o telefone, com o se ali tam bém pudesse ter um a bom ba.

Pego do bolso interno o bendito cartão e j ogo o paletó sobre o sofá. Tiro os m ocassins e vou para o quarto. Escondo aquele pedaço de papel no m eu recanto seguro. Depois, ligo o televisor. A tela se ilum ina enquanto estou m e deitando na cam a.

Não chego a apoiar a cabeça no travesseiro.

O aparelho está sintonizado no canal núm ero 1, que transm ite um a edição especial do telej ornal. O rosto de Bruno Vespa é apropriado, sua voz inexorável, enquanto verifica um pedaço de papel que Paolo Fraj ese acabou de pôr na sua frente.

— ...e aqui tem os a confirm ação de que Mattia Sangiorgi, deputado da Dem ocracia Cristã, irm ão m ais novo do senador Am edeo Sangiorgi, tam bém deve estar entre as vítim as do atentado que aconteceu na m ansão de Lorenzo Bonifaci, que foi encontrado m orto. Ainda não sabem os os nom es das outras pessoas nem a dinâm ica desse terrível crim e, m as, segundo as prim eiras inform ações não oficiais, parece que ninguém que estava na m ansão conseguiu sair com vida, nem m esm o os agentes de segurança, hom ens com petentes e treinados para garantir para o financista e para seus convidados a incolum idade que infelizm ente não se concretizou. Falam os agora com o nosso enviado que se encontra em Lesm o, perto de Monza, diante da m ansão onde aconteceu o m assacre.

Às im agens do estúdio se sobrepõem as de um a externa ao vivo. O rosto de um repórter está em prim eiro plano, com , ao fundo, um portão entre duas colunas de tij olos verm elhos. Um m uro, atrás do qual se entreveem árvores altas, estende-se para a direita e para a esquerda, delim itando um parque.

O enquadram ento perm ite que se vej a um carro da polícia estacionado atravessado em relação ao portão, im pedindo que a m assa de repórteres das redes de televisão e dos j ornais que circula em busca de notícias acesse o local.

Nem ouço suas palavras.

De repente, estou respirando um ar denso com um a fragrância doentia, com o se um a aura m aléfica tivesse conseguido perm ear cada centím etro do quarto. Sentado sem ter voz ou expressão, verifico as im agens que não vej o e as vozes que não ouço, com apenas um a certeza im pressa a fogo na m ente.

Meu tem po, aquele que eu conhecia, dentro do qual eu m e deslocava, acabou para sem pre.