Memórias de um Vendedor de Mulheres

Giorgio Faletti · Capítulo 22 de 26

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Memórias de um Vendedor de Mulheres

Capítulo 21

 

O CANSAÇO CHEGA NO MOMENTO em que percebo que tudo foi feito.

Estou aqui, ainda de pé, finalm ente im óvel. A tensão, o m edo e a excitação sum iram de repente e, agora que o vento parou, sinto-m e vazio com o um canudo. Em m inhas veias não há m ais um m iligram a de adrenalina e talvez nem um a gota de sangue, que certam ente está espalhado no chão em algum lugar e eu, no m eio deste côm odo, apenas m e iludo de que estou vivo.

É por isso que preciso tanto dorm ir. Porque o sono é a condição dos m ortos.

Olho a pasta apoiada sobre o m óvel, cheia de segredos. Não tenho sequer a curiosidade de abri-la e descobrir um nom e. Os acontecim entos destes dias pertencem ao passado e, com o todas as coisas do passado, tenho certeza de que não ensinarão nada nem a m im nem a ninguém . Tudo o que sei é que tive um a chance e a perdi.

O caos e o acaso, lembra?

Vou para o quarto. Deito sobre o colchão e puxo para debaixo da cabeça um travesseiro sem fronha. Adorm eço praticam ente no m esm o instante. Meu últim o pensam ento antes de cair no sono é que Carla m e pediu seis horas.

Primeira hora.

Eu durm o.

Carla percorre de carro as ruas de Milão em um a lum inosa m anhã de dom ingo. Preguiçosa para o resto do m undo. Sem fôlego para Carla. Estaciona o carro em um a vaga qualquer no aeroporto de Linate. Sabe que não vai voltar para pagar a conta. Não se dá o trabalho de apagar as im pressões digitais. Na situação atual, tornou-se inútil o fato de ter apagado m inhas im pressões digitais na casa da estrada Rivoltana. A poucos quilôm etros de distância, em um a casa isolada cheia de cadáveres, fotógrafos tiram instantâneos que fixam na película a posição dos corpos. Os flashes são raios que duram um a fração de segundo e procuram em vão um reflexo de vida naqueles olhos apagados. Técnicos da perícia estão fazendo anotações para tentar entender o que foi disparado, quantas vezes e a partir de que ponto.

Segunda hora.

Eu durm o.

Carla pega um carrinho, onde coloca as m alas, pensando que a sobrevivência às vezes pesa. Entra no term inal e se vê diante de um quadro com os horários das partidas. Buenos Aires, Rio de Janeiro, Nova York, Caracas. O lugar não im porta. Não im porta saber para onde vam os, a única coisa que interessa é saber quando partim os. A poucos quilôm etros de distância, em um a casa isolada, chegam carros que escoltam outros carros transportando pessoas im portantes. São elas que decidem no local o que fazer, o que dizer, o que om itir. Hom ens circulam , indicam , fazem suposições, verificam papéis, pronunciam nom es. Um deles é o m eu.

Terceira hora.

Eu durm o.

Carla com prou um a passagem de prim eira classe no prim eiro voo em que encontrou lugar. Pagou em dinheiro, algo que deverá fazer por m uito tem po a partir de agora. Talvez tenha apresentado um passaporte falso no qual, de Carla Bonelli, só sobrou a foto. Se é que esse é seu nom e verdadeiro. Entregou suas preciosas m alas no check-in e, agora, passa pelo portão com o cartão de em barque em m ãos. Espera que as m alas não sej am extraviadas durante a viagem . O risco existe, m as faz parte da vida. De sua vida, em especial. Entra no ônibus do aeroporto, senta-se no fundo e espera que os outros passageiros façam o m esm o. Na bolsa a seus pés há apenas roupas e dinheiro vivo. O revólver foi j ogado em um a lata de lixo no estacionam ento. A poucos quilôm etros de distância, em um a casa isolada, um m édico-legista autoriza o deslocam ento dos cadáveres. Ficam no chão as silhuetas dos corpos traçadas com gesso e as tabelas de sinalização dos cartuchos. Do lado de fora, os j ornalistas se am ontoam . Com o sem pre, graças a suas “fontes seguras”, farej aram a notícia e, agora, querem saber. O m ínim o, aquele pouco que basta para ativar a bom ba de carga pessoal que é a fantasia.

Quarta hora.

Eu durm o.

O avião está na fila, esperando a autorização para decolar. Carla guardou a bolsa no com partim ento sobre a poltrona com a aj uda de um a aerom oça. Recebe olhares insinuantes de alguns passageiros. Olhares que contêm a história do m undo, m as não a de Carla. Se eles a conhecessem , voltariam im ediatam ente a fixar os olhos no j ornal que estão lendo. Outros a ignoram , m as de m aneira evidente dem ais. Talvez esperem ser notados exatam ente por esse m otivo. A poucos quilôm etros de distância, em um a casa isolada, alguns hom ens ficam de guarda enquanto esperam que sej am colocados os lacres. Os hom ens im portantes vão em bora, seguem para reuniões nas quais terão de relatar os fatos a hom ens ainda m ais im portantes, que, por sua vez, terão de ficar a disposição de hom ens im portantíssim os. A escada sobe e parece não ter fim , m as é necessário prestar atenção ao últim o degrau porque, depois dele, você cai. A poucos quilôm etros de distância, um m arginal cham ado Tano Casale tem em m ãos um cartão da loteria esportiva que j ulga estar prem iado e se pergunta o que deve fazer. Minha proposta o seduziu, o atiçou. Minha fuga o deixou em dificuldades, m as ele decidiu esperar para ver com o essa história vai acabar. Tano acha que pode fazer tudo sozinho, que, no fundo, não precisa de ninguém . Afinal, ele é o dono do m undo e, em parte, de Milão tam bém .

Quinta hora.

Eu durm o.

O avião j á é um ponto distante para quem olha do solo. Um rastro de fum aça durante a decolagem , que será igual ao da aterrissagem , só que disperso em outro céu. Carla sente pequenos arrepios de frio provocados pela dim inuição da tensão e pelo cansaço. A m ente está vazia e o corpo pede repouso. Ela adiou até o m om ento da chegada qualquer planej am ento, qualquer perspectiva, qualquer hipótese de estratégia. Aj eitou a poltrona da m aneira m ais confortável possível, pôs em baixo da cabeça o travesseiro e j ogou sobre o corpo a fina coberta fornecida pela com panhia aérea. Os m otores são um zum bido lá no fundo e é fácil relaxar. A m uitos quilôm etros de distância, estão acontecendo reuniões para decidir qual será a versão oficial dos fatos e quais serão os fatos om itidos que se tornarão um segredo pessoal ou um segredo de Estado. Um inspetor da polícia cham ado Stefano Milla está pensando se é arriscado ou não com prar aquele Alfa Rom eo Spider no qual ele se im agina sentado com o vento nos cabelos. Dinheiro ele tem , e a m aneira com o o conseguiu não lhe causa o m enor rem orso. A única chateação é ter de j ustificá-lo.

Sexta hora.

Carla dorm e.

Eu acordo.

O relógio no m eu pulso m e inform a um a hora que não significa nada. Penso em ligar o televisor, m as logo abandono a ideia. Eu veria na tela Corrado apresentando Domenica In ou a banda de Arbore em L’Altra Domenica. Não há telej ornais a esta hora. As pessoas querem se divertir: há quem decide não saber e há quem decide esquecer. É um a aplicação hum ana da propriedade com utativa. Sej a qual for a escolha, o resultado não m uda. De resto, tudo o que eu poderia vir a saber por qualquer fonte de inform ação é o quanto estão fragm entadas as notícias que eu conheço por inteiro.

Levanto-m e e vou até o banheiro. Faço as coisas de sem pre, com o se este fosse um despertar com um . Urino. Lavo o rosto. Escovo os dentes e, enquanto isso, penso que faz m uito tem po que não com o. Os alim entos são para os vivos e eu não tenho esse direito.

O caos e o acaso. Agora me lembro.

Olho para m im m esm o na luz incerta filtrada pelas listras das persianas. O espelho m e devolve um a im agem que não m e pertence. Eu m esm o não m e pertenço porque uso um nom e que não pode m ais m e proteger e que não pode m ais ser consertado. É com o um a cam isa velha e, portanto, deve ser j ogado fora.

Saio do banheiro e vou para a sala. O chão está frio e suj o em baixo dos pés descalços. As condições higiênicas da fuga deixam sem pre m uito a desej ar. Vi a casa em que Day tona m orreu, vi a casa em que Lucio e os outros m orreram .

Na m ansão de Bonifaci, devia ser diferente.

Mas todos m orreram da m esm a m aneira.

Pego a pasta que estava em cim a do m óvel e sento-m e no sofá, que m e acolhe com o farfalhar do plástico que o envolve. Na capa, um a etiqueta branca. Alguém com um a caligrafia apressada traçou palavras com um a caneta-tinteiro preta.

Dédalo e Ícaro.

Penso a respeito, m as aquilo não m e diz nada. Tiro o elástico e abro a capa. Afasto as abas. Dentro, há fotos e docum entos. Retiro-os da pasta e os folheio, prim eiro lentam ente, depois, de m aneira cada vez m ais agitada. Quando chego ao final, recom eço do início e reexam ino tudo com m ais calm a. Aquelas folhas e aqueles instantâneos são o guia de um m undo subterrâneo, um percurso escavado m etro a m etro por um a com pleta falta de escrúpulos, guiada na direção certa pela am bição m ais desenfreada. Quase dá para perder o raciocínio ao percorrê-lo porque é difícil conseguir assim ilar até que ponto pode chegar a vileza do ser hum ano. Nesses docum entos, estão as provas necessárias para que um m agistrado ordene o uso de algem as, desde que ele não encontre obstáculos em seu cam inho.

Fecho a pasta e m e recosto no sofá.

O teto é um a tela na qual m inha m ente proj eta im agens. Revej o rostos, lugares, cores. São ruas, pessoas, nesgas de m ar, brincadeiras de criança, am ores adultos, esconderij os inseguros.

Depois, de repente, sem aviso prévio, com eço a rir.

Rio por m im , por todos esses anos nos quais convivi com um a suspeita que agora se tornou um a certeza. Rio por aquela navalha que m e condenou até o fim da vida a ser apenas um espectador, enquanto, na m inha estupidez, eu achava que tinha algum poder. Rio por Carla e por todos os aviões que, infelizm ente, m ais cedo ou m ais tarde, aterrissam . Rio pelo seio de Barbara, pela pele branca de Cindy e por Laura, apaixonada e traída. Rio por Lucio, sua m úsica sem alm a e seus inúteis anos de fingim ento. Rio por Giorgio Fieschi que poderia viver em m eio ao clam or dos aplausos e acabou m orto pelo sopro leve de um revólver com silenciador. Rio por Day tona, seu relógio e sua peruca que, m esm o no m om ento da m orte, sua m ão tentou rearrum ar. Rio por Tano Casale e sua voz que conheço. Rio por hom ens que aceitaram defender os outros e não encontraram ninguém para defendê-los. Rio pelos ideais que m atam e pela m orte das ideias. Rio porque só os tolos e os inocentes não têm um álibi. Rio porque o caos e o acaso não estão governando, m as sim destruindo o m undo.

Rio, rio, rio.

Com tanta força que m eus pulm ões doem porque não consigo respirar. Com tanta força que receio que alguém bata na parede para interrom per esta algazarra. Com tanta força que acabo deitado no sofá com o plástico grudado no rosto m olhado de lágrim as.

Quando m inha risada term ina, restam apenas as lágrim as.

Lágrim as de libertação, de pena, de adeus.

Recom ponho-m e e levanto. Sei o que fazer. Prim eiro, preciso encontrar o quanto antes Ugo Biondi, m eu advogado. Tento o telefone do escritório, m ais por escrúpulo do que por outra coisa. Sei m uito bem que é pouco provável que eu o encontre lá hoj e, m as preciso esgotar todas as possibilidades. De fato, o telefone toca várias vezes sem resposta algum a. Eu tinha a esperança de que ele estivesse no escritório, preparando um processo para ser debatido na segunda-feira, m as m e enganei. Ugo não é um stakanovista. O dia em que instituírem o título de Cavaleiro do Descanso, ele será um dos prim eiros a ser agraciado.

Ligo para sua casa, m as o resultado é o m esm o. Im agino o telefone tocando em um a casa vazia, os toques que ricocheteiam em paredes, m óveis, lum inárias, tapetes e livros da estante.

Só existe um outro lugar onde eu poderia encontrá-lo. Sei que ele tem um a casa no lago Maggiore e que, com o bom frequentador de putas que é, às vezes passa o fim de sem ana lá com a Lady Marafa do m om ento. Em algum as ocasiões, oferecida por m im . Gratis et amore Dei, lançada no balancete com o relações-públicas.

Disco o núm ero da com panhia telefônica que fornece inform ações sobre os assinantes. Peço ao operador o núm ero de Ugo Biondi em Arona. Minhas dúvidas sobre o nom e da localidade logo são elim inadas pela voz que m e com unica o núm ero solicitado.

Disco esse núm ero tam bém .

Cada m ovim ento é claro, preciso. Cada som é nítido. O dedo nos buracos do aparelho, o som do disco que se desloca. Agora, estou lúcido e determ inado, com o se tivesse cheirado cocaína.

O telefone toca do outro lado. Por m uito tem po, sem que ninguém atenda. A resposta m e surpreende quando estou quase desligando.

— Alô.

Está um pouco ofegante, com o se tivesse corrido para chegar a tem po no telefone.

— Oi, Ugo, é o Bravo.

Ele fica sem fôlego. Eu teria tido a m esm a reação em seu lugar.

— Cacete! Onde você está?

— Em um lugar.

Ugo é direto.

— Você está na m erda até o pescoço.

— Não m ais. Resolvi tudo.

— Com o assim , resolveu tudo?

— Sou inocente e estou com as provas. Pretendo m e entregar e quero que sej a você a m e aj udar. Acho que você vai ficar fam oso. Vai ser m eio com plicado, m as, de resto, o que é fácil neste m undo?

Um segundo para avaliar. Um segundo para responder.

— Estou no lago.

Sinto vontade de sorrir. Ele deve ter ficado m uito surpreso e transtornado com m eu telefonem a para m e dizer um a bobagem do gênero.

— Acho que j á sei, afinal, fui eu que telefonei.

— Eu sei, porra. Só estava querendo dizer que vou dem orar um pouco para chegar a Milão.

— Dem ore o quanto quiser. Não tem ninguém correndo atrás de você.

Mais um breve silêncio do outro lado. Provavelm ente está pensando com o é possível que eu tenha vontade de brincar na situação em que m e encontro. Ele não sabe que estou indo em direção a um dos m elhores m om entos de m inha vida.

Aproveito para prosseguir.

— Quanto tem po m ais ou m enos você acha que vai dem orar?

— Depende do tráfego. Um a hora e quinze, um a hora e m eia.

— A gente se vê no seu escritório daqui a um a hora e m eia.

Desligo sem que ele possa retrucar. Tenho certeza de que, se ele ainda estava transando, vai deixar sua belezura na cam a na m etade do cam inho para o paraíso, vestir as calças e correr para Milão na m aior velocidade que seu carro conseguir alcançar.

Agora, devo esperar outro golpe de sorte. Abro algum as gavetas e portas de arm ários até encontrar a lista telefônica de Milão. Apoio-m e na m esa e procuro o nom e de Stefano Milla entre os assinantes. Talvez ele estej a de serviço, o que é m uito provável em vista da confusão que está acontecendo, m as prefiro deixar um a ligação para a delegacia com o últim o recurso.

Ele atende no sexto toque, com um a voz sonolenta. Provavelm ente trabalhou a noite toda e eu o acordei. Nem preciso dizer que não estou nem aí.

— Alô.

— Oi, Stefano. É o Bravo.

Silêncio. Sei que ele não está acreditando nos próprios ouvidos. Depois, ouço um farfalhar de lençóis típico de quem se senta de repente na cam a.

— Alô?

— Já disse que é o Bravo.

— Infelizm ente, eu j á tinha entendido da prim eira vez. Só que queria ter certeza.

Introduzo no aparelho m inha voz m ais neutra.

— Com o vai?

— Você é um cara de pau. Faz ideia de quanta gente está por aí atrás de você?

Só um cara de pau pode reconhecer outro. Esse crédito eu tenho de dar a Stefano.

— Eu sei. Mas eles não vão precisar penar por m uito m ais tem po. Pretendo m e entregar. Mas, antes, preciso da sua aj uda.

— Ficou m aluco? Já corri riscos dem ais por você.

— Você tem duas alternativas. A prim eira é fazer o que estou pedindo, ganhar um a bolada e ainda por cim a fazer bonito com seus superiores.

— E a segunda?

— Você se com porta com o um babaca e vai, j unto com seus capangas, até o endereço que vou te dar. Nesse caso, garanto que nós dois vam os fazer a viagem de volta algem ados. Entendeu?

Sua voz m uda. Agora, ele se tornou o policial bonzinho. Talvez nem sej a m ais um policial.

— Bravo, você não pode fazer isso com igo. Sem pre fui seu am igo.

— Você não é am igo de ninguém , Stefano. Tenho certeza de que, às vezes, nem você se suporta. No entanto...

Mantenho a frase em suspenso por tem po suficiente para deixá-lo sobre brasas. As brasas queim am e ele insiste.

— No entanto?

Repito o que eu disse há pouco ao advogado.

— Sou inocente, Stefano. Tenho provas. E são docum entos tão explosivos que vão deixar um buraco do tam anho de um a cratera lunar.

— Com o você se m eteu nessa roubada?

— Fui j ogado nela à força. E com a m esm a força vou sair. Se você m e aj udar, vai ser um a das pessoas que levará crédito. E, volto a dizer, um a bolada.

Minhas últim as palavras parecem acalm á-lo.

Ele estaria m enos calm o se conhecesse os nom es das pessoas que estão naquela pasta. Se soubesse o que está para acontecer com Tano Casale.

— O que devo fazer?

— Espere em casa. Ligo m ais tarde e digo aonde você deve ir.

— Mais tarde quanto?

— Cinquenta m ilhões? Está bom para você com o estim ativa?

Tam bém desta vez, desligo sem dar chance de resposta. Tenho certeza de que ele vai fazer o que eu digo, agora e depois. Em prim eiro lugar, porque está se cagando de m edo, em segundo lugar, porque ele nunca, em toda a sua vida, teve cinquenta m ilhões. Não saberia sequer escrever essa quantia, m esm o que só precisasse copiar o núm ero.

Só m e resta esperar.

Estou tranquilo agora que o tem po não corre m ais na m inha direção, oferecendo-m e o risco de um a colisão frontal. Na m inha cabeça ainda existe um avião que transporta um a m ulher adorm ecida, m as que, a cada m inuto que passa, está m ais distante. Este é o m om ento de pensar no avião que vai m e transportar. Para onde? Tam bém vou deixar para decidir no últim o m inuto.

Vou até o banheiro e encontro a cópia da Settimana Enigmistica que eu havia deixado apoiada sobre o m óvel das toalhas. O exem plar que m e revelou o fingim ento de Lucio e que m e aj udou a desm ascará-lo. Pego a revista e volto para a sala. Enquanto m e sento à m esa, abro-a e procuro um criptogram a. Encontro um na Página da Esfinge.

Divas envelhecidas (8, 8)

Sorrio. O assunto tem um pouco a ver com as circunstâncias atuais. A solução é um a expressão com duas palavras de oito letras cada um a. Acendo um cigarro. As xícaras ainda estão sobre a m esa. Em um a delas, na borda, o gosto dos lábios de Carla. Na outra, o café frio que não bebi.

Penso no criptogram a. Dem oro um pouco para resolvê-lo, m as, no final, consigo.

Estrelas cadentes

Não era tão difícil assim . Cada enigm a revela sua fragilidade quando é resolvido. Às vezes, basta ler um a curiosidade em um a revista de criptogram as; noutras, basta encontrar um revólver escondido, se souberm os onde procurá-lo. Às vezes, basta abrir um a pasta de papelão. Infelizm ente, ao longo do percurso, m uitas coisas e pessoas se perdem e não voltam m ais.

Apago novam ente o cigarro no café. O chiado é coberto pelo barulho de um a chave na fechadura.

Viro-m e para a porta.

A fechadura se destrava e a porta se abre. Surgem , em olduradas pelo um bral, duas pessoas e um a m ala de tecido apoiada no chão. Um a m ulher com um casaco grosso m e olha surpresa e atem orizada. A seu lado, está um a criança pálida, de cabelos escuros, com cerca de 5 anos. O aspecto e as roupas são de quem acabou de chegar de um a viagem e não sabe o que é pior: o lugar no qual aportou ou o lugar do qual está vindo.