Memórias de um Vendedor de Mulheres
Capítulo 14
A MÃE DE DAYTONA MORA NO bairro Isola, na via Confalonieri, perto da Stecca degli Artigiani. Enquanto atravesso os j ardins para chegar à casa, pergunto a m im m esm o se não estou fazendo um a besteira. Essa eventualidade deve ser levada em consideração, m as, quando estam os prestes a nos afogar, até m esm o um a esponj a flutuando parece um a boia de salvam ento.
Ontem à noite, rodei m eia Milão, visitando sem resultado todos os lugares que m eu am igo costum a frequentar. No Scim m ie, encontrei Matteo Sana e o Godie, que, quando m e viram , não se com portaram com o eu im aginava. Achei que m e levariam para um canto e torrariam m eu saco fazendo perguntas. Mas fizeram de conta que não haviam m e visto. Isso m e deu a m edida exata da m inha posição atual. Sou um a pessoa com a qual não é oportuno ser visto. Nesse caso específico, talvez tenha sido m elhor. Dei um a olhada ao m eu redor no bar lotado, procurando a cabeça de Day tona com sua peruca.
Não a encontrei.
Pensei que ele pudesse estar em um m onte de lugares: no cassino clandestino de Tano, em algum outro lugar onde há j ogos de azar ou na cam a com algum a vadia. Ou então, escondido em algum buraco, com o um a ratazana traidora, roendo seu pedaço de queij o e esperando que a situação se acalm e.
De qualquer m odo, lugares não identificáveis e inalcançáveis.
No táxi que m e levava para casa, lem brando as palavras de Day tona em um a situação quase análoga, tive um a ideia. Pobre, desesperada e patética, m as a única à disposição. E, agora, estou aqui, com um a grande agenda de couro em baixo do braço e, nas m ãos, um pesado envelope am arelo form ato ofício que, por ironia do destino, está cheio de recortes de j ornal. Enquanto os colocava ali dentro, não consegui refrear um sorriso, pensando que essa desforra poderia ser definida com o a Lei de “Retalião”.
Lucio ficaria orgulhoso de m im por causa do trocadilho.
Mas não quis colocá-lo a par dos m eus problem as para ganhar esse prêm io.
Chego diante do portão de um prédio com um , resultado da construção de habitações populares. Aqui m ora a m ãe de Day tona, que é o único ponto de apoio possível para m inha escalada. Aquele m erda tem um a relação bastante próxim a com a genitora de suas desventuras, com o costum a acontecer com os frequentadores de putas. Se ele deu o fora e sum iu por um tem po, sua m ãe certam ente sabe onde ele está. Em breve, com um pouco de sorte e m uita cara de pau, espero tam bém conhecer seu paradeiro.
Aproxim o-m e do interfone e aperto o botão correspondente ao nom e Boccoli-Crippa. Passa um certo tem po, que im agino tenha sido o necessário para que ela arrastasse pelo corredor os pés calçados com chinelos de feltro. A voz que ouço é suave e agradável.
— Pois não?
Cruzo os dedos e m e apresento.
— Bom dia, senhora. Sou Rondano, o corretor de seguros de Paolo. Não consigo encontrá-lo em casa. Ele está aqui com a senhora por acaso?
— Não, viaj ou a trabalho por alguns dias.
Tudo com o previsto. Essa coitada é a única pessoa em Milão que consegue associar o filho à ideia de trabalho. Se é verdade que, quando o assunto são filhos, os pais são cegos, ela deve ser pior do que um a toupeira.
— Eu j á im aginava. Estava passando por aqui e, com o estou com alguns docum entos que precisam ser assinados, pensei em vir e deixá-los com a senhora. Trata-se de um reem bolso. Se a senhora m e deixar subir, posso entregá-los, assim , quando ele voltar, poderá assiná-los logo. Quanto antes eu os receber, m ais rápido será o pagam ento.
Ela fica atônita. Entendo pelo silêncio que se segue às m inhas palavras. Por fim , o tem or de prej udicar o filho ou de talvez suscitar sua ira vence sua prudência.
— Segundo andar.
A porta se abre com um barulho seco e m etálico. A palavra pagam ento é um pé de cabra capaz de forçar m uitas portas, tanto físicas quanto m entais. Subo as escadas com suas cores desbotadas e seu cheiro de com ida e água sanitária. A m istura não é entusiasm ante. Mas não estou aqui para com prar um apartam ento, e sim para roubar um a inform ação.
A m ãe de Day tona m e espera à porta. É um a m ulher de estatura m ediana, com o rosto m arcado e ar indefeso. Está usando um vestido de casa com um avental por cim a. Talvez eu a tenha interrom pido enquanto preparava a com ida, talvez m ais por hábito do que por fom e. Do pouco que sei sobre sua vida, acho que o único acontecim ento positivo foi a m orte prem atura de um m arido que a tratava m al. Infelizm ente, o destino, em revanche, reservou para ela um filho com o Day tona, que a cham a de minha mãezinha e que deve ser responsável pela m etade dos cabelos brancos que ela tem na cabeça.
Algum as pessoas parecem não ter direito a um pouco de tranquilidade.
Ela m e cum prim enta com sua voz agradável, que, no interfone, m e fez im aginar um a aparência totalm ente diferente. Fantasia no rádio, realidade na televisão.
— Bom dia.
— Bom dia, senhora.
— Teresa Crippa.
Apesar do m eu estado de espírito, sinto certa ternura por causa dessa apresentação form al com nom e e sobrenom e. Estendo a m ão com m eu m elhor sorriso. Ela a aperta tem erosa, com o se não se sentisse à altura da pessoa com quem está falando.
— Prazer. Sou Marco Rondano.
Estendo o envelope.
— Aqui está, sra. Teresa. Aí dentro estão os docum entos de que falei. Diga ao Paolo para assinar onde eu fiz um a cruz a lápis.
Ela repete para ter certeza de que entendeu direito.
— Assinar onde tem a cruz a lápis.
— Exato. Obrigado, senhora.
Recuo dois passos, com o se estivesse indo em bora. Paro e interrom po seu cum prim ento levantando o pulso para olhar o relógio. Mostro o rosto preocupado de um a pessoa que se lem brou de algo im portante.
— Posso lhe pedir um favor?
— Pode falar.
— Preciso contatar um a pessoa agora, senão, não a encontro m ais no escritório. A senhora m e perm ite dar um telefonem a? Não é interurbano.
Muitas pessoas m ais velhas prestam atenção aos gastos com o telefone. Acrescentei esse detalhe para garantir que o favor pedido não custará nada.
— Se for aqui na cidade, não tem problem a. Paolo é que paga m inha conta de telefone e eu não gostaria que ele gastasse m uito.
Eu poderia dizer que o filho perde no j ogo em cinco horas a pensão que ela recebe em cinco anos. Mas seria um a m aldade inútil e um a perda de tem po: certos m itos são im possíveis de destruir.
A sra. Teresa m e faz entrar em um corredor que, de tão lim po, parece um a pintura. No ar, um leve arom a que lem bra as pastilhas Valda. Os m óveis são surrados, m as brilhantes, provavelm ente ainda os m esm os do seu casam ento. Nas paredes, quadros ordenados, com prados na feira ou prêm ios de um a pescaria beneficente. Um a foto do filho na escola j unto dos colegas, com um trabalho de crochê com o passe-partout, está pendurada em cim a do telefone. Tem um a frase bordada: Prim eiro Ano do Segundo Grau. Achei que a instrução de Day tona não tivesse chegado a tanto. Quando vej o o aparelho, dou um suspiro de alívio. É daqueles pretos, com o disco no qual enfiam os o dedo para discar o núm ero. Está em cim a de um m óvel difícil de identificar, com duas prateleiras sobrepostas e duas portinhas em baixo.
Apoio a agenda sobre a prateleira inferior.
Disco o núm ero da m inha casa e finj o um a conversa tensa com um cliente insistente, deixando um longo recado na m inha secretária eletrônica, ultrapassando o bipe que m arca o fim do tem po concedido. Term ino com o se tivesse ficado em dificuldade devido às palavras do m eu interlocutor.
— Não se preocupe, em dez m inutos estarei aí. Piazzale Maciachini, não é?
Deixo a pausa para um a resposta que nunca é dada.
— Núm ero seis, m uito bem . Até daqui a pouco.
Viro-m e para a pobre sra. Teresa, que acom panhou a conversa da cozinha, onde, sobre a m esa, estão verduras j á fatiadas e outras ainda a serem cortadas para um futuro minestrone. Receita trabalhosa, m as saudável e, sobretudo, econôm ica. Com porto-m e com o se estivesse com m uita pressa.
— Pronto. Muito obrigado. Infelizm ente, preciso sair correndo. Dê um abraço no Paolo e diga para ele dar notícias.
Ela dá um passo na m inha direção.
— Não se preocupe, sei o cam inho. Obrigado, senhora.
Ouço seu até logo quando j á estou no corredor. Ela não sabe com o aquela saudação é verdadeira. Se tudo correr bem , nos verem os novam ente em quinze m inutos.
Bato a porta e saio depressa, com o tem or de ouvir a voz da sra. Teresa m e cham ando de volta. Por sorte, não acontece. Entro no prim eiro bar que encontro. Tom o um café, fum o um cigarro enquanto folheio o Corriere della Sera, apoiado j unto com a Gazzetta dello Sport sobre o freezer dos sorvetes.
Nas páginas, palavras e fotos. Todas dedicadas ao que aconteceu em um a rica m ansão em Lesm o, perto de Monza. Fatos e suposições, histórias de pessoas, rostos sorridentes de belas garotas, sem blantes sérios de hom ens em situação oficial, corpos caídos no chão e cobertos por lençóis encharcados de sangue transform ados em um a m ancha pela im pressão de baixa qualidade em preto e branco. A despeito da resolução, um adeus à vida e ao pouco de privacidade que pelo m enos a m orte deveria conceder.
Não há qualquer m enção à m ulher com olhos cor de avelã que deveria estar naquela casa. Ela não esteve em nenhum dos lugares aos quais m e disse que iria. Só na m inha casa e na m inha pele, em alguns m om entos.
Olho o relógio. Passaram -se vinte m inutos. Acho que j á chega.
Poucos segundos depois, estou apertando m ais um a vez a m esm a cam painha de antes. A voz leva o m esm o tem po para responder.
— Quem é?
— Senhora, desculpe-m e, é Rondano novam ente. Esqueci m inha agenda. Posso subir para pegá-la?
A porta se abre. Entro e subo rápido as escadas. Ela está na soleira, m e esperando com o obj eto da m inha am nésia proposital em m ãos.
— Sou m esm o um avoado. Hoj e não estou dando um a dentro. Com o se costum a dizer, quem não tem cabeça tem que ter pernas.
Recebo de suas m ãos o volum e encadernado e trancado por um a fechadura.
— É bem pesada.
— É essa capa em couro que a torna pesada. Foi um presente da m inha nam orada, senão, eu j á teria trocado.
Novam ente nos cum prim entam os e, desta vez, quando desço as escadas, m inha pressa não é fictícia. Assim que chego à rua, tiro do bolso do paletó um a pequena chave de latão e abro a fechadura que bloqueia a agenda. Fico reconfortado com o que vej o lá dentro. Escavei no corpo do papel um nicho da m edida certa para conter o gravador portátil que, ainda agora, sob m eus olhos, está girando. Aperto sucessivam ente o botão STOP e o outro para voltar a fita. Com um m iado, a fita chega ao início. Espero até alcançar o carro antes de ouvi-la, e nunca trezentos m etros m e pareceram tão longos.
Sento-m e ao volante e fecho a porta. Dou um suspiro que equivaleria a um cruzar de dedos e aperto o PLAY. Há um trecho em que se ouve, um pouco baixa, m as inteligível, a conversa entre m im e a m ãe de Day tona. Toda a m inha com édia até os cum prim entos e m inha saída de cena.
Por fim , o que m e interessa.
No silêncio da casa, o barulho do disco do telefone que gira. Claro e forte. Apesar da barreira da capa da agenda.
Trrr... trrr... trrr...
Depois, a voz da sra. Teresa.
— Oi, m eu am orzinho, sou eu.
Silêncio.
— Sei que não devo ligar, m as esteve aqui um suj eito atrás de você. O seu corretor de seguros. Ele trouxe uns docum entos que precisam ser assinados para um reem bolso.
Silêncio.
— Não sei. Estão em um envelope.
Um a pausa. A m ulher fica ansiosa ao declarar sua inadequação.
— Você sabe que não entendo nada dessas coisas. Vou colocá-lo no seu quarto, assim você o abre quando chegar.
Mais um breve silêncio. Desta vez não para escutar, m as para tom ar coragem .
— Você volta logo?
Im agino Day tona escondido em algum lugar, inquieto e nervoso, com a peruca desarrum ada e o rosto corado. Im agino o rosto da m ãe enquanto dá espaço às m entiras do filho. Acho que, se ela tivesse decidido abrir o envelope, as m inhas teriam caído por terra.
— Tudo bem , m eu querido. Mas tenha cuidado. E ligue de vez em quando.
O barulho do telefone no gancho e, em seguida, o barulho dos passos que se perdem . Na cozinha, presum o.
Paro o gravador. Da breve conversa que ficou registrada, tive a confirm ação de duas coisas. A prim eira é que, sej a lá o que estiver acontecendo, aquele babaca do Day tona está envolvido até o pescoço. A segunda é que talvez eu consiga descobrir o lugar em que ele se refugiou.
Posiciono novam ente a fita no ponto em que a sra. Teresa discou o núm ero. Pego um a folha de papel e com eço um processo de identificação que espero que se revele eficaz. Com eço a m arcar os núm eros contando os pulsos do disco do telefone. O sistem a é um pouco em pírico e preciso repetir a operação várias vezes antes de obter um resultado que considero confiável. Se é que existe um deus que protege os filhos da puta, im ploro que ele ponha a m ão na m inha cabeça e tire-a de cim a da de Day tona.
trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... 5
trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... 7
trrr... trrr... trrr... trrr... 4
trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... 6
trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... 5
trrr... trrr... trrr... trrr... trrr... 5
Tenho um núm ero: 574655
E agora, preciso de um endereço. Entre as pessoas que conheço, só existe um a a quem posso recorrer. Ligo o carro, ando um pouco e paro na prim eira cabine telefônica que encontro. Eu poderia ligar para o serviço de inform ações da com panhia telefônica, m as receio que só funcione a partir de um telefone dom éstico. Tenho apenas um a alternativa. Não posso dizer que o dedo com que com ponho o núm ero da delegacia da via Fatebenefratelli está m uito firm e.
Peço ao telefonista para falar com o inspetor Stefano Milla. Fico esperando e, depois de alguns instantes, ouço sua voz.
Muito profissional, portanto, im paciente na m edida certa.
— Inspetor Milla.
— É o Bravo.
A m udança de tom é repentina. Im agino que corresponda a um a m udança brusca de posição na cadeira.
— Está louco, ligando para m im aqui?
— Talvez. Mas estou com uns problem as.
— Eu sei. E quer arrum ar problem as para m im tam bém ?
— Não, se você m e der um a m ão.
Essa últim a frase soa com o um a chantagem . Talvez sej a, talvez não. O im portante é que Milla acredite.
— O que você quer?
— Tenho um núm ero de telefone. Preciso saber o endereço correspondente.
— Por quê?
— É um a história longa e m eio obscura. Mas assim que eu conseguir entender algum a coisa, você será a prim eira pessoa a saber.
— Bravo, não vá fazer m erda.
— Essa é a últim a das m inhas intenções. Exatam ente por isso preciso desse endereço.
No final, ele cede. Um pouco por m edo e um pouco pela curiosidade inata que transform a um hom em em policial.
— Tudo bem . Pode dizer o núm ero.
Dito os algarism os lentam ente para que ele possa anotá-los.
— De quanto tem po você precisa?
— O necessário. Onde posso te encontrar?
— Em casa. Se eu não estiver, pode deixar um recado na secretária eletrônica.
— É um pouco arriscado.
— Apago logo depois de ouvir.
O silêncio que se segue significa incerteza. Sem dúvida, está avaliando a natureza da confusão em que está se m etendo ao m e aj udar. Ele não precisa calcular as consequências, pois j á as conhece m uito bem . É sem pre necessário contar os passos quando dançam os com sapatos diferentes.
Tento puxar a brasa para a m inha sardinha.
— Stefano, não sei o que está acontecendo, m as eu não tenho porra nenhum a a ver com toda essa história. Mandei para Bonifaci três garotas, com o j á havia feito um m onte de vezes. Só isso.
Por enquanto, ainda não j ulgo oportuno que ele saiba m ais. Há coisas que preciso saber e entender antes de com partilhá-las com qualquer outra pessoa. Minha posição j á é bastante delicada e não pretendo fornecer a ninguém os elem entos para fazê-la desabar de vez.
No fim , Milla cede.
— Vou agir o m ais rápido possível.
Agradeço, se é que isso tem algum valor. Desligo e m e vej o sozinho, esperando o endereço no qual se encontra m inha últim a e ínfim a esperança. Olho à m inha volta. O clim a neste período parece estar com pena dos hom ens. Sol e céu azul de prim avera, vento fresco que leva em bora a poluição. Gente trabalhadora circulando, os m alandros ainda na cam a, curando-se dos próprios vícios. Se fosse um dia norm al, talvez eu tam bém estivesse dorm indo. Ou então, estaria peram bulando por Milão, m atando tem po e adm inistrando m eus tráficos, alm oçando no Santa Lucia ou com endo um sanduíche da Bagi.
Mas não é o que está acontecendo. Não pode ser.
Várias pessoas m orreram . Três delas, eu m esm o pus em um carro e m andei para o m atadouro. Eu tinha direito a trinta por cento de seus ganhos. Tenho a sensação de que está caindo sobre m im cem por cento da responsabilidade.
Olho à m inha volta.
Dirigindo a esm o, costeei o Cem itério Monum ental e fui acabar na via Cenisio. A uns cem m etros do lugar onde estacionei o Mini fica o Pechino, um restaurante chinês ao qual vou com frequência e onde fazem os m elhores gyozas fritos de Milão.
Com o estou com pouca fom e, tanto faz se vou com er em um lugar ou em outro. Enquanto cam inho em direção ao restaurante, com eço a sentir um incôm odo no baixo-ventre, um a queim ação sutil que conheço bem . Para um a pessoa na m inha situação anatôm ica, inflam ações nas vias urinárias são bastante frequentes. Sinto tam bém alguns arrepios, não sei se por causa do estresse ou por causa de um pouco de febre.
Tac, capturado! Foragido e febril.
Isso é o que diria o Godie apoiando dois dedos abertos com o um a tesoura no m eu pescoço. Mas o m om ento não é esse, e não sei se algum dia esse m om ento voltará. Estou com pressa dem ais para ficar doente e sentir pena de m im m esm o. Finalm ente, entrei no ritm o da cidade que m e circunda, na qual, por definição, a pressa é rainha e todos correm até para ir dorm ir. Nessa agitação coletiva, m inha vida está em j ogo. Agora, preciso som ente esperar, ansioso, que um policial corrupto m e dê a inform ação de que necessito para, depois, esclarecer algum as questões com um am igo.
A cinquenta m etros do restaurante fica um a farm ácia. Atrás do balcão, vej o um a m oça de j aleco que usa óculos e tem o rosto cheio de espinhas. O incôm odo está aum entando, m as não estou com vontade de falar sobre isso com ninguém , m uito m enos com um a m ulher. Peço um a caixa de Furadantina que a farm acêutica, depois de fazer um pouco de história, aceita vender m esm o sem receita.
Saio e tom o um com prim ido engolindo-o sem água. Não quero ser visto sentado na frente de um a m esa enquanto tom o alguns rem édios. Um a m ania causada pelo pudor do deficiente. Abro a porta do Pechino e logo estou no m eio de lanternas verm elhas e outras bugigangas chinesas, a decoração daquele pequeno restaurante que, ao m eio-dia, não tem m uito m ovim ento. De fato, neste m om ento, apenas um a m esa está ocupada.
O dono, que m e conhece bem , vem m e receber. É um suj eito capaz e sorridente, um elem ento anôm alo em relação à com unidade chinesa de Milão, geralm ente m uito fechada e pouco com unicativa. Fala italiano e m ilanês perfeitam ente. É m uito divertido ver o dialeto articulado em seu rosto exótico. O restaurante tam bém deve seu sucesso à sim patia do proprietário, além dos incontestáveis m éritos da cozinha.
Trocam os cum prim entos e acho que é possível ver pelo m eu rosto que não estou de bom hum or, pois ele não estica a conversa. Acom panha-m e até a m esa, anota m eu pedido e se afasta em direção à cozinha, onde a m ulher está atrás do fogão.
Sento-m e na diagonal do balcão do bar, que fica à direita, logo após a entrada. Um rapaz chinês está m exendo na m áquina de café e olhando para um televisor portátil com o áudio m uito baixo, apoiado na bancada de m árm ore.
Estão transm itindo o telej ornal e im agino a dificuldade dos redatores para se dividir entre a avalanche de notícias que chegam de todos os lugares. Mas a grande notícia do m om ento é representada pelos fatos de Monza. Da m inha posição, consigo ver bastante bem a tela, pela qual desfilam im agens que, de algum a m aneira, eu j á havia visto nas fotos dos j ornais.
Levanto-m e e vou até o televisor.
O rapaz, um suj eito cuj a voz nunca ouvi, continua seu trabalho e não m e pergunta nada. Sou eu que peço para ele aum entar um pouco o volum e.
Ele atende ao m eu pedido e tam bém gira o televisor na m inha direção.
Na tela, aparece um hom em que, assim que saltou de um carro escuro, foi logo circundado por agentes da polícia protegendo-o do ataque dos j ornalistas. Atrás da aglom eração de pessoas, é possível reconhecer a entrada do Hotel Principe di Savoia, na piazza della Repubblica. O hom em no centro das atenções é alto e robusto, com cabelos bastos e grisalhos nas têm poras, e tem a expressão decidida de quem sabe aonde quer ir e com o fazer para chegar até lá.
Eu o conheço bem .
Todos o conhecem bem .
É Am edeo Sangiorgi, siciliano, líder de bancada no Senado e ponto de referência do seu partido e da vida política italiana. Seu irm ão Mattia, m uito m ais j ovem do que ele, é um dos hom ens que foram encontrados m ortos na m ansão de Bonifaci. Era deputado na Câm ara e um a das novas figuras da Dem ocracia Cristã, há m uito tem po apontado com o futuro presidente do Conselho de Ministros.
O fato de o irm ão ter sido encontrado m orto em com panhia de outros dois hom ens de sua classe social e de três garotas j ovens e bonitas parece não deixar nenhum a m arca no rosto de Am edeo Sangiorgi. Certam ente, por dentro, ele deve estar fervendo de raiva porque esse aspecto do caso se tornou de dom ínio público em vez de perm anecer oculto entre os m eandros do segredo instrutório. Mas ele é um hom em hábil e experiente dem ais para m ostrar as próprias em oções e para não saber que vivem os em um país estranho, no qual certas fraquezas são perdoadas e esquecidas com extrem a facilidade. Com um a pequena aj uda dos am igos, com o se costum a dizer. Tenho certeza de que, depois das prim eiras ilações, Cindy, Barbara e Laura, com as pressões certas nos lugares certos, se tornarão três com petentes e desafortunadas secretárias que pagaram caro por estarem presentes em um j antar de trabalho naquele lugar e naquele dia.
Um repórter da RAI se aproxim a de Am edeo Sangiorgi com um m icrofone em m ãos, seguido por um operador com um a câm era sobre o om bro. O senador faz um sinal para o policial que está prestes a bloquear a passagem do repórter e aceita conceder o que com um ente é definido com o um a breve declaração.
Sua voz é profunda, m arcada por um véu de pesar e indignação.
— Esse gesto é filho de um a barbárie sem precedentes, que leva ao desprezo total pela vida hum ana. Deixa-nos atônitos enquanto nos perguntam os que tipo de hom em pode ter dentro de si tanta ferocidade. Ficam os chorando por nossos irm ãos, m aridos e filhos. Estes são m om entos em que a esperança e a confiança nas instituições, assim com o as palavras, parecem nos faltar. Mas é exatam ente em m om entos com o este que é nosso dever, e nosso direito, reagir. Precisam os ter certeza de um a só coisa: sej a qual for a origem desse vil ataque, sej a ele de caráter terrorista ou ligado a um a tram a qualquer do crim e organizado, tal inj úria não ficará sem punição. As forças da ordem estão trabalhando para que os culpados sej am entregues à j ustiça e recebam a m erecida pena.
Sua voz trem e um pouco no final do discurso. O rosto é obscurecido por um instante pela som bra da dor. É a representação perfeita do que as pessoas esperam de um hom em na sua posição: dignidade e firm eza capazes de superar um envolvim ento em ocional.
A im agem volta ao âncora no estúdio, que com eça a analisar, segundo as inform ações divulgadas à im prensa, quantos hom ens podem ter participado do com ando que perpetrou o ataque à m ansão do m assacre, que é com o ele passa a definir o local da chacina.
Voltam -m e à m ente as palavras do com issário Giovannone.
Você não faz a menor ideia da confusão que essa história criou...
Pelo contrário, faço toda a ideia. Um político do calibre de Aldo Moro nas m ãos das Brigadas Verm elhas, um outro enviado para o m árm ore do necrotério por m ãos ainda desconhecidas. Além das tensões dos processos em andam ento e do gélido véu de m edo que cobre as pessoas e as coisas.
Neste m om ento, todos os agentes da polícia, dos Carabinieri, da Divisão de Operações Especiais e do Serviço Secreto devem estar trabalhando. E, nos vários m inistérios, todas as pessoas im portantes devem estar com as m ãos na cabeça, perguntando a si m esm as que diabos está acontecendo neste país e deslocando os hom ens, que nunca são suficientes, de um lado para outro do m apa, com o soldadinhos nos j ogos de guerra.
Vej o o dono do restaurante chegar da cozinha e apoiar sobre a m inha m esa o prato de gyoza que eu havia pedido. Volto a m e sentar e com o em silêncio, com a queim ação no baixo-ventre aum entando, em vez de dim inuir. Obrigo-m e a term inar a com ida, segundo a lógica de que é necessário pôr com bustível para produzir energia.
Olho o relógio. Talvez Milla j á tenha conseguido a inform ação de que preciso. De qualquer m aneira, não tenho m ais paciência de esperar passivam ente, com a im pressão de não ser dono da m inha existência.
Pago a conta, saio do restaurante e volto à cabine telefônica perto do carro. Deposito um a ficha e com ponho o núm ero de casa. Escuto m inha voz que declara m inha ausência e pede que sej a deixado um recado. Espero o fim e pronuncio a sequência vocal que ativa o com ando rem oto.
Depois de alguns barulhos e chiados, o aparelho encadeia toda a sequência de recados. Alguns telefonem as de clientes que não sabem em que encrenca podem se m eter deixando um recado gravado naquela fita. Sandra, um a das m inhas garotas, pede que eu ligue para ela. O telefonem a de alguém que desligou sem dizer nada. Minha conversa com o nada, feita da casa da sra. Teresa Crippa. Depois, por últim o, a voz de Stefano Milla que, sem com entários, fornece-m e o endereço que eu havia pedido.
Assim que entro no carro, o anoto, em bora tenha certeza de que não vou esquecê-lo. Entro no tráfego enquanto penso que a viagem até San Donato Milanese será longa. Enquanto isso, a queim ação se tornou um fio incandescente que alguém enrolou no m eu baixo-ventre e no m eu estôm ago.