O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

Camilo Castelo Branco · Capítulo 108 de 177

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O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

Jorge

Lembro-lhe que está fallando com um filho do visconde de Vasconcellos.

Jorge

Sei isso. Tome nota do conhecimento que tenho de V. Ex.ª, para todos os effeitos. Quer por tanto saber quem sou? A minha biographia diz-se depressa. Fui amigo de seu pae, desde a infancia que ambos passamos no collegio dos Nobres. Cazei. Era suprema a felicidade de marido, quando convidei seu pae a vêr nas doçuras da minha vida intima o soberano bem d'este mundo. Disse-me seu pae que via em minha mulher a belleza do anjo e o coração da sancta. D'este anjo e d'esta sancta fez seu pae uma adultera. Deshonrou-me.{174} Matei-a. Seu pae fugiu. Eu encarcerei-me; esperei a sentença, e fui condemnado a degredo. Ha seis mezes que sahi de Africa. Vim vêr seu pae. Vêl-o e mais nada. Vi. Achei-o miseravel até ao asco. Repelle e enoja. A Providencia fêl-o asqueroso. Deixei-o á Providencia, que sabe a rasão mysteriosa porque taes creaturas se fazem. Resta-me dizer-lhe o meu nome. Sou Jacome da Silveira.

Rodrigo

Ouvi dizer ahi que meu pae fugiu. Não creio.

Jorge

Informe-se.

Rodrigo

Meu pae é um cavalheiro.

Jorge

Em relação a mim, seu pae é um villão.{175} Desejo que V. Ex.ª não torne irrisoria esta nossa já longa, primeira e ultima pratica. Parece-me irracional, senão insensata a noticia que me dá do cavalheirismo de seu pae, quando eu lhe conto uma historia...