O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros
Viscondessa
Milagres d'amôr, snr.ª viscondessa, acho eu. Ha amôres que rebentam no inverno da vida como os tortulhos com as primeiras chuvas; e, como não achem coração onde se hospedem dignamente, recolhem-se á cabeça, e tamanhos estragos lá fazem que não é raro vêr em bailes muitos doudos que trazem nos{97} miolos um cupido mais destruidor que um rato em queijo de cabeça de preto.
Viscondessa
Vejo que fez conserva da linguagem pittoresca d'outro tempo!
José de Sá
Pois está claro; nas nossas idades... quero dizer, na minha idade, são tudo sequeiros e conservas... O coração, como eu o sinto, é verdadeiramente uma betarraba já curtida...
Viscondessa
Pois sim mas não zombe do amor, que não perdôa sarcasmos... Olhe que a occasião é de grande perigo... Veja, veja, o que ahi vai de bellezas... (apontando para as senhoras que vão passando).{98}
José de Sá (mirando-as com a luneta)
É verdade. Bem vejo. Ó minha querida snr.ª viscondessa, defenda-me com o seu bom conselho. Diga-me de que Circes devo acautelar-me.
Viscondessa
De todas.
José de Sá