O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

Camilo Castelo Branco · Capítulo 98 de 177

Páginas do PDF

O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

José da Sá

Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.

Viscondessa

Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os ares carregados e funebres da vendetta, e esmurraçasse na Praça Nova ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma toilette mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes, para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão,{158} sinto dizer-lhe, conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade media. Que diz?

José de Sá

Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de Pimentel.

Viscondessa

Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e d'elle? Isto é verdade: que diz?

José de Sá

Ainda não disse nada, minha senhora.{159}

Viscondessa