O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros
Rodrigo
Nem á mim? Então que sou eu? Não sou... sequer romantico!
D. Eugenia
Não; tu, Rodrigo, és bom... Eu li alguns romances no convento; e não encontrei n'elles a semelhança do teu genio; e nós lá quando diziamos que algum sujeito ou alguma senhora eram romanticos, não lhes faziamos elogio algum. Por isso é que eu desejava saber em que opinião se deve ter o tal sujeito que o snr. Pedro Aranha diz que é de romance.
Pedro
E poderei eu responder-lhe, minha senhora? Jorge de Mendanha é o mysterio; é um portuguez com uma cara de beduino; um velho com uns ares que impõe respeito, e ao mesmo tempo se insinuam no affecto dos moços. É eloquente; mas falla á moda dos atticos. Tem estylo sentencioso, concizo e cathedratico.{57} Emfim, minha snr.ª, estimo grandemente o novo encontro com este homem que se destaca das espalmadas vulgaridades que nos acotovellam nos bailes, nos cafés, nas ruas, em todo este Portugal que é uma especie de viveiro, onde todos os homens parecem educados para meninos do côro.
Rodrigo (sorrindo)
Por exemplo, aqui tens, Eugenia, um menino do côro creado nos viveiros de Portugal. (Indica Pedro).
Pedro
Pois bem; eu não inculco a minha sufficiencia para corista; mas é que eu fui reedificar-me, para assim dizer, nos paizes onde as artes são por tal modo milagrosas que transformam um homem. A civilisação anglo-americana é uma especie de depillatorio que descabella os ursos de todas as nações.{58}