O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 177

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O Condenado: Drama em Três Atos e Quatro Quadros

Visconde

Sei que meu pae foi um rapaz distincto, um cortezão, um modelo de fidalgos; sei que meu pae se estremou na sua sociedade, e de certo lá não achou as demazias de desmoralisação que se lhe figuram na sociedade de hoje. Suppondo que nos salões de ha vinte e tantos annos, meu pae encontrou almas viciosas e pessimas, quantas se lhe não depararam virtuosas e optimas? Se eu lá procuro exemplo de bons costumes em moço rico e considerado, não encontro meu pae?

Visconde

Não. Quem te disse a ti que eu não fui um... um villão?{30}

Rodrigo

Se meu pae houvesse sido um villão, ninguem ousaria dizer-m'o... Sei o que meu pae foi. Teve os lapsos e quedas proprias da idade, sem quebra de honra. Desenganou-se ou cansou-se mais cedo que o vulgar dos homens, apartou-se d'elles sem deixar rasto de ignominia. É isto que eu conjecturo do seu passado.

Visconde

Se t'o assim disseram, mentiram-te; e, se finges ignorar o que fui, sou incapaz de baixas hypocrisias a pretexto de manter a minha dignidade de velho e de pae. (Pausa). Rodrigo, eu depravei-me... perdi-me. Teu pae confessa-se diante de ti, para ajuntar mais um flagello ao açoute com que a Providencia o fere. A força da alma, a probidade, a indole generosa que se me formou na educação, perdi-as, e foi nos salões que as perdi. Não me foi necessario immergir na lama das orgias para de lá sahir libertino. Nunca ahi desci.{31} Foi nas salas que o meu coração se encheu da peçonha dos desejos perversos; foi nos bailes que eu perdi os mais vulgares sentimentos da honra, não salvando sequer a coragem, esse derradeiro anteparo do cynico, essa falsa honra que empresta a mascara aos assassinos em duello. Dos bailes é que eu sahi infamado e infame aos meus proprios olhos. Imaginas tu o que é isto de sentir-se um homem infame diante de si mesmo? E sabes o que seja envelhecer debaixo da pesada cruz da vida, sem ter um acordar tranquillo no longo espaço de vinte e dois annos? E tomar-te eu nos braços quando eras menino, e dizer-te muitas vezes: «Ó filho, ó creatura innocentinha, pede á misericordia divina que se dê por contente com o immenso calix de amargura que tenho devorado. Dize a Deus que m'o receba cheio de lagrimas de sangue.» (Soluça).