O Homem da Máfia (Família Carbone Livro 1)
Capítulo 14
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
com qualquer outra pessoa, mas não posso simplesmente desistir sem tentar.
Talvez, se ele se abrir de verdade, as coisas voltem a ficar bem.
— Não vou falar disso. Não estou com vontade.
Pega a garrafa de uísque e bebe direto do gargalo.
Engulo o caroço na garganta e dou uma respirada funda antes de beber o
líquido do copo, decidindo se devo ou não contar a minha história triste. É difícil e a única pessoa com quem falei sobre isso, foi com Sophia.
— Eu vim pra cá — começo, mas a frase morre. Fecho os olhos por uma
fração de segundos e depois, fixo nos olhos de Julian. — Eu saí do meu país,
porque não aguentava ver minha mãe com o meu pai. Ele... ele é um homem
impulsivo, tóxico, abusivo e muito controlador.
Julian parece hipnotizado com as palavras que saíram da minha boca e eu
estou criando coragem para terminar de falar.
— Ele bateu nela, algumas vezes. Mas ela nunca teve coragem de deixá-lo.
— Finjo uma risada. — Hum, quando eu disse que estudaria em outro país, ele
ficou tão bravo. Disse que se eu fosse, não precisava mais voltar.
Julian coloca a garrafa de uísque em cima da mesa e se aproxima de mim.
— Jolina...
— A verdade... é que eu fugi. Não queria viver com ele ou viver a vida que
ele escolheria pra mim. Eu vim pra cá, porque quero ser bem-sucedida e trazer
minha mãe. Talvez, ela abra os olhos e veja que meu pai não a ama de verdade.
Talvez ela aprenda, que o amor... ele não é violento.
Pisco rápido, tentando controlar as lágrimas, mas elas caem como se eu
fosse uma torneira com vazamento.
— Não gosto muito de falar disso, dele, de onde eu vim, porque machuca
muito. — Ele abre a boca para falar, mas eu sou mais rápida e murmuro. —
Então, essa é minha história triste.
Julian estica uma das mãos e segura meu rosto, me fazendo fechar os
olhos. Eu sei que a vida dele está longe de ser tranquila, mas quando ele me toca
assim, me sinto segura, como se nenhuma mal pudesse me alcançar.
— Eu sinto muito, Lina.
Volto a abrir os olhos. Estou prestes a falar algo, quando ele me envolve
num abraço apertado. Descanso a cabeça contra o seu peito e me deixo levar
pela sensação de estar nos braços dele. É bom e me faz perceber que eu gosto
dele.
Não devia, mas acho que estou apaixonada.
— Ninguém... nunca mais vai fazer mal a você, Jolina.
Sorrio contra o seu peito.
— Vai sacrificar o mundo pra me proteger?
Ele respira fundo.
— Se preciso for.
Arredo um pouco e ergo o queixo para encará-lo.
— Não precisa sacrificar o mundo pra me proteger — sussurro, depois,
fico nas pontas dos pés e encosto meus lábios de leve nos dele. — Basta me
abraçar quando eu estiver triste.
Sem dizer nada, ele envolve uma mão na minha nuca e a outra na cintura,
me puxa para perto e cola a boca na minha. Nossas línguas se enroscam num
beijo com gosto de uísque e tristeza.
Mas mesmo assim, é um beijo bom.
Acho que eu quero todos os lados de Julian, até mesmo, a escuridão.
— O nome dela era Rebecca — fala ao desgrudar as nossas bocas. Encosta
a testa na minha, e é visível que está fazendo força para proferir as próximas
palavras. — Ela era incrível, mas não me conhecia de verdade. Rebecca não
sabia o que sou de verdade ou o que minha família é. Mesmo assim, eu fiz
planos, que foram interrompidos. Rebecca morreu há quase três anos. E eu
passei um tempo surtado.
Levo as mãos até o seu rosto e faço carinho nas bochechas com os
polegares. A barda dele cresceu, o que deixou Julian mais sexy.
— Perder Rebecca me mudou, Lina. E agora, eu sou isso, o homem que
está na sua frente. Fechado, um poço de escuridão.
— Você não é um poço de escuridão, Julian.
— Eu sou, você só não consegue ver isso. — Respira fundo e passa de
leve a língua no lábio inferior. — E você é tão pura. É errado, mas acho que
quero corrompê-la... pra fazê-la ficar ao meu lado.
Sorrio.
É um jeito estranho de dizer que quer ficar comigo, mas eu meio que gostei. Talvez, Julian desperte o meu lado sombrio.
— Obrigada — me ouço dizendo.
Ele volta a colar a testa na minha.
— Pelo quê?
— Por compartilhar sua história triste comigo — sussurro, e Julian cobre a
minha boca com a dele.
As mãos passeiam pela minha cintura e descem até o limite do meu cóccix,
e quando me dou conta, estou sendo levada até a cama, onde ele me deita e fica
por cima mim. Sinto o coração acelerar quando a ereção dele roça contra as
minhas coxas, sem pensar duas vezes, interrompo a pegação.
— Não posso — murmuro.
Julian parece confuso.
— Por que não?
Abro a boca para falar, mas fecho no mesmo segundo, pensando em como
falar isso. Passo as mãos entre os meus cabelos e mordo o lábio inferior antes de
tomar coragem para dizer as próximas palavras.
— Minha lingerie... — Engulo em seco. — Não é uma das melhores —
minto.
É claro que dizer isso me faz sentir uma idiota. Mas justo hoje, minha
menstruação desceu e bom, estou restrita durante os próximos dias. É uma
realidade terrível, mas é a minha.
— Não se preocupe, vou tirá-la de qualquer forma — diz, sério.
As minhas bochechas formigam.
— Não hoje, por favor.
Os olhos delem dançam pelo meu corpo, fazendo a pele queimar. Mordo o
lábio inferior ao notar que a ereção dele ainda está ali, de prontidão, me
esperando. A vida só deve estar de sacanagem comigo.
Devagarzinho, os dedos longos de Julian desfazem o laço da minha blusa,
revelando o meu sutiã de renda. A respiração fica ofegante e o coração acelera à
medida em que ele passeia com o indicador entre os meus seios.
— Ela está mentindo pra mim... sua lingerie é sexy.
— Ah — gemo.
Estou excitada pra caralho. Qual mulher não ficaria? Meu Deus, meus
hormônios estão a flor da pele, mas preciso impedir que ele continue antes que o
homem se empolgue demais.
— Tô no vermelho. Não posso — falo rápido e levanto da cama, fazendo
um laço na blusa de novo e puxando o cardigã ao abraçar o meu próprio corpo.
— Eu não me importo — retruca, me surpreendendo.
Meu Deus, o homem é doido.
— Mas eu sim. Não rola. De jeito nenhum. Sem chance.
Julian fecha os olhos e suspira, impaciente.
— Nunca pensei que uma mulher fosse me fazer esperar tanto —
resmunga, ficando de pé e caminhando até a mesa de madeira. Serve uísque no
copo e bebe um gole, olhando para mim e depois diz: — Quando eu finalmente
te comer, vou fazer isso até eu não aguentar mais.
Que absurdo.
É um absurdo o que esse homem acabou de dizer, mas conseguiu levar
uma onda de excitação para o meu corpo, que resolve se instalar entre as pernas,
fazendo meu íntimo latejar.
— Que romântico — retruco.
O canto da boca dele se contrai, como se Julian quisesse impedir um
sorriso.
Mesmo que ele esteja sendo um cafajeste no momento, fico feliz de ele
parecer um pouco mais leve agora. Vai demorar para superar a morte do pai, mas
acredito que ele ficará bem.
Sorrio.
Até quando está sendo canalha, o homem é irresistível pra caramba.
Nem em mil anos, eu imaginaria o que está prestes a acontecer. Eu, indo
dormir na cama de Julian Carbone sem nem ter transado com ele ainda.
Usando uma blusa dele como pijama, saio do banheiro e caminho até a
cama. Sinto o calor do olhar dele na minha coxa, o que me faz morder o lábio
inferior. Devagarzinho, subo na cama e ouço o homem assobiar.
— Preto, minha cor preferida — diz, encarando de maneira descarada a
calcinha na minha bunda.
— Não olhe.
— Por que não? É uma bela visão — retruca com certa malícia. — A
melhor parte do meu dia foi olhar essa bunda.
Entro debaixo das cobertas, arrependida de não ter ido embora assim que
tive oportunidade. Jantamos juntos e ele me contou as coisas incríveis que o pai
fez. Ficamos um bom tempo assim, até que eu me dei conta da hora e falei que
precisava ir embora.
O homem me disse para ficar com ele.
Eu tive que lembrá-lo que não transíramos hoje sobre hipótese alguma e
ele riu, mas quis que eu ficasse do mesmo jeito. Fez um dos seus homens ir até o apartamento em Downtown buscar as roupas que ele havia comprado para mim e
eu deixei quando fui embora.
Agora, estou aqui, sob o olhar intangível dele.
— Pensei que não gostasse de compartilhar a sua cama...
Vejo a língua dele passar pelo lábio inferior, o que acaba me dando água na
boca. Ele assente e caminha até mim, na cama, o corpo ficando por cima do meu
e os olhos profundos me estudando.
— É novidade pra mim também — sussurra e roça o nariz no meu
pescoço, me fazendo gemer e arquear um pouco o quadril. — Será que vou
sobreviver esta noite? — zomba.
Ele enfia a mão debaixo do edredom e encontra a minha coxa exposta.
Alisa de forma pretenciosa e vai subindo com a mão saliente até a minha cintura
e para. Engulo o caroço na garganta e arfo em surpresa quando o sinto subir e
tocar o meu seio esquerdo.
— Julian... — sussurro.
— O quê?
— Vai passar a noite me torturando? — resmungo.
— Talvez sim — rebate com malícia.
Mas para meu desgosto, tira as mãos de mim e coloca os braços detrás da
cabeça antes de deitar ao meu lado. Tem uma expressão de satisfeito no rosto.
Fico indignada.
Ele acha que pode me provocar e ficar de boa.
Sem pensar duas vezes, jogo o edredom para o lado e subo em cima de
Julian, levando a blusa até a cintura. Noto que os olhos dele ardem em desejo, o
que me deixa contente.
— O que está fazendo?
— Não está na cara? — retruco e tenho alguma satisfação quando a cara
bonita de Julian demonstra surpresa. — Estou provocando você — acrescento
num sussurro e me inclino sobre o corpo dele.
Sorrio antes de lamber o pescoço e roçar os dentes de leve no lóbulo da sua orelha.
— Jolina — me repreende, mas eu não paro. Em vez disso, rebolo em
cima da ereção dele que acabou de dizer “oi, cheguei”. — Não brinque comigo
— fala baixo e sério, a voz provocante, uma ameaça prazerosa.
Isso me deixa mais excitada, sem fôlego.
— Não gosta? — sussurro.
Remexo em cima dele, acomodando a ereção entre as pernas. Arfo quando
sinto as mãos na minha cintura e de repente, o vejo sentando na cama e ficando
com o rosto próximo de mim. Ele roça os lábios nos meus e por um momento,
esqueço de que minha missão era apenas provocá-lo e o beijo.
A boca quente e molhada de Julian contra a minha, num beijo delicado e
sensual. Ele chupa meu lábio inferior e morde de leve, depois volta a enfiar a
língua exploradora dentro da minha boca, enquanto as mãos salientes apertam
minha bunda.
— Me provocando desse jeito, você é muito corajosa, Jolina Magdayao —
cochicha e eu sorrio. — Eu quero você... seja minha — fala com os lábios
quentes e molhados na parte sensível do meu pescoço.
— Sim — digo.
Ele segura meu rosto com as duas mãos e focaliza meus olhos. Os dele,
sedentos, ardentes e cheio de desejo.
— Quero tanto foder você.
Ai, Deus. As palavras dele conseguem surtir um efeito incrível entre as
minhas pernas.
— Eu também. — Fecho os olhos e encosto minha testa na dele,
arrependida de ter começado a provocar. Agora estou morrendo de vontade de
senti-lo dentro de mim, mas não posso. — Vamos conseguir dormir na mesma
cama?
Ele ri.
— Você está tornando isso uma missão impossível.
— Você começou — rebato.
Julian volta a me beijar com força, me deixando louca de desejo. Antes
que possa ficar mais animada, Julian faz esforço para se afastar de mim. Sinto
uma onda de decepção quando ele me agarra pela cintura e me tira de cima dele.
— Eu preciso de um tempo.
— Ah — é o único som que sai da minha boca.
Julian levanta e meus olhos caem sobrea ereção bem nítida, acabo ficando
decepcionada. Não é hoje que vou saber do que o mandachuva é capaz de fazer
com uma mulher na cama.
Sou muito azarada mesmo.
Sem dizer nada, ele vai ao banheiro e fecha a porta, enquanto eu, me jogo
na cama e fico observando o teto, meio aborrecida. Por que minha menstruação
teve que descer hoje? Ela nunca foi tão pontual. Sempre chegou um dia depois,
mas hoje, resolveu mudar os hábitos.
Bufo.
Viro o corpo e deito de lado, olhando a porta do banheiro. Mordo o lábio
inferior ao notar que Julian está demorando mais do que o normal.
Algo estala dentro de mim.
AI. MEU. DEUS.
Levanto na ponta do pé e devagarzinho, caminho até a porta, colo meu
ouvido no material de madeira e ouço uns gemidos entrecortados que fazem
minhas bochechas esquentarem e o coração acelerar.
Julian está se masturbando.
Volto para cama e sento na beirada, sem conseguir tirar os olhos da porta
do banheiro. Fico excitada e as borboletas no estômago parecem estar numa
competição de dança.
Respiro fundo e fico de pé de novo, me arrasto até o banheiro e coloco o
ouvido no material de madeira mais uma vez. Os mesmos gemidos
entrecortados. É isso, ele está se masturbando.
Umedeço o lábio inferior e o mordo, pensando no que fazer.
Volto para cama e finjo que não ouvi nada? Ou simplesmente abro a porta e vejo o que vai acontecer?
Sempre fui uma garota curiosa de qualquer forma.
Passo as mãos entre os cabelos e em seguida, seguro a maçaneta, rezando
em silêncio para que a porta esteja aberta, porque se estiver fechada, vou ficar
muito decepcionada.
Giro a maçaneta.
Graças a Deus está aberta.
A visão é de Julian usando apenas o robe de seda e como eu imaginava, ele
está se tocando. Os olhos dele encontram os meus, mas o homem é um cafajeste
sem vergonha nenhuma, pois não para de se masturbar.
Minha presença não o abala em nada.
Dou um passo para frente e fecho a porta atrás de mim. Sinto o banheiro
tão quente, que tenho dificuldade de respirar como uma pessoa normal. O
coração bate alto dentro do peito quando Julian se aproxima de mim.
Sem dizer nada, ele me beija, roçando o pau contra a minha barriga. As
mãos dele agarram minha cintura e me levantam, e de repente, sinto a bunda
contra o material frio da pia do banheiro.
— No que estava pensando? — pergunto, com a respiração arfante.
— Em você, no seu corpo, na sua boca... em como quero te chupar, te
foder — sussurra, esfregando o nariz atrás da minha orelha.
Sinto meu corpo tremer em excitação.
De repente, o desejo me domina e eu desço as duas mãos até o pênis de
Julian e o seguro, deslizando sobre a carne quente. Ele fecha os olhos e afunda o
rosto no meu pescoço ao gemer, isso consegue me deixar ainda mais acesa.
É bom saber que agora, eu tenho controle sobre esse homem tão intenso.
Enquanto Julian lambe o meu pescoço, eu uso uma das mãos para fazer
movimentos verticais e a outra brinca com a cabeça do pênis lubrificada.
— Jolina — ele grunhe.
Quando o sinto envolver a mão na minha nuca e puxar meu cabelo, e logo
em seguida me dar um beijo sedento, ávido, sei que ele está chegando lá. Então, aumento a velocidade e me mantenho no ritmo.
Dentro do banheiro, os únicos sons são os gemidos de Julian e o barulho
das minhas mãos trabalhando no seu pênis. E é muito excitante, mesmo que seja
ele quem está sendo tocado, meu corpo todo se arrepia também.
E no fundo, eu sei que estou toda molhada.
Julian deixa um tipo de rugido escapar da sua garganta e goza na minha
coxa. Ele fecha os olhos e cola a testa na minha, respirando ofegante. Abre meio
sorriso maroto e me beija na boca, me fazendo erguer o quadril contra ele.
Maldita menstruação...
— Você é curiosa — fala ao afastar a boca da minha.
— Valeu a pena? — pergunto eu, sugestiva.
— Sim... — diz ao encher meu pescoço de beijos e mordidinhas sacanas,
provocantes. — Muito.
Sorrio e deixo as mãos escorregarem até o seu pênis de novo, e noto que o
homem ainda está duro.
— Ah... ainda está excitado?
— Você não? — retruca e eu engulo o caroço na garganta, encarando os
olhos negros de Julian. — Foi o que eu imaginei. — Volta a enfiar o rosto no
meu pescoço e dá uma mordida no lóbulo da minha orelha e eu gemo. — Vamos
dar um banho em você.
Nego com a cabeça.
— Eu vou tomar banho sozinha — comento.
Ele prende meus cabelos atrás da orelha, sorrindo.
— Não confia em mim? — indaga, presunçoso.
— Não confio em mim... nua e excitada perto de você — murmuro,
sentindo o sangue do meu rosto ferver. — Vou tomar um banho e depois vou pra
cama. Pode sair? Por favor?
Julian parece estar se divertindo às minhas custas.
— Vou sair, mas não se acostume com isso.
Ergo uma sobrancelha, curiosa.
— Por que não?
O homem aproxima o rosto do meu ouvido e sussurra com a voz rouca e
sexy.
— Porque agora você é minha e sempre que eu quiser vê-la nua, tomando
banho ou eu mesmo quiser dar banho em você, vou fazer isso. Na próxima vez,
não vou te deixar sozinha.
Depois de falar isso, o sorriso dele é triunfante, e quando se afasta de mim,
sinto falta do calor do seu corpo contra o meu. Respiro fundo, tentando controlar
a comichão dentro de mim.
Puta merda.
Deus, por que ele disse isso?
As palavras dele não deviam me excitar desse jeito. Julian é um homem
ganancioso e mandão, mas eu sinto que farei o que ele quiser.
É sedutor demais ceder aos desejos do mandachuva.
— Hoje, nesta tarde tão triste, estamos aqui reunidos, para nos
despedirmos de Francesco Carbone, um homem bom, que foi um ótimo filho,
pai e marido — o padre fala, dando início ao sepultamento.
O cemitério está lotada com homens usando ternos pretos e senhoras em
vestidos comportados da mesma cor. E apesar de me sentir descolada, fico ao
lado de Julian, que parece perdido em pensamentos.
Entrelaço nossos dedos e ele vira o rosto devagar, encontrando meus olhos
e apertando minha mão ao soltar um suspiro cansado.
Tudo acontece num piscar de olhos e o clima é tão triste, que me sinto
sobrecarregada e com um pouco de dor cabeça. Não gosto de enterro ou
despedidas, é sempre tudo tão tenso e angustiante.
No fim, a mãe e avó de Julian recebem os abraços e se despedem das
pessoas que vieram.
Julian se afasta de mim e vai conversar com Noah e Nicholas, que estão
num lugar mais afastado do cemitério. Os três já parecem estar trabalhando em
alguma coisa. Será que aconteceu alguma coisa?
Romie para ao meu lado, abre um sorriso fraco e deixa os ombros caírem.
— Você está bem? — pergunto, mas sacudo a cabeça logo em seguida.
Que coisa idiota para se falar num momento desses. — Me desculpe, é claro que
você não está bem.
— O que você achou do meu discurso? — murmura, remexendo a barra da
manga longa do vestido. — Eu disse que um dos meninos devia fazer, mas eles
acharam que a garotinha do papai devia falar algo — tenta soar com um tom
brincalhão, mas é visível a tristeza estampada em seu rosto.
Levo uma das mãos até os cabelos de Romie e faço carinho no topo da sua
cabeça, depois prendo uma madeixa atrás da orelha. Ela é um pouco mais baixa
que eu e nossa diferença de idade é apenas de um ano, mas quando olho para ela,
imagino a irmã mais nova que eu nunca tive.
— Foi lindo, profundo. Seu pai está orgulho de você, Romie.
Ela sorri com os olhos marejados.
— Obrigada.
Inclina-se para mim e me enlaça num abraço apertado.
— Você e Julian estão sérios, é isso? — ouço uma voz de mulher perguntar
atrás de mim. Quando me afasto de Romie e giro o corpo para saber quem está
falando, dou de cara com Shalom. — Devem estar, você veio até no enterro do
pai dele.
Respiro fundo, tentando controlar o ímpeto de ser grossa e implorando em
silêncio por paciência.
— Agora não é momento e nem lugar pra esse tipo de conversar, Shannon
— é o que digo, de maneira firme.
Erro o nome de propósito, é claro.
— É Shalom.
Arqueio uma sobrancelha, fingindo não entender.
— O quê?
Sem aviso prévio, ela agarra meu braço e puxa, me afastando de Romie,
que começa a caminhar na nossa direção, mas eu nego com a cabeça. Sei me
defender sozinha e não vou deixar essa mulher bonita e metida me intimidar.
— Vocês não vão dar certo — fala, como se estivesse jogando uma praga.
— Julian precisa de uma mulher que esteja por dentro dos assuntos da família e
não de uma criança — acrescenta com desdém.
— Eu não me importo.
Shalom cruza os braços na altura dos seios e sorri com desdém.
— Ele já te disse o que faz?
Abro a boca para responder, mas como não sei o que dizer, fecho. Embora
eu tenha uma leve ideia do que ele faz, Julian e eu ainda não chegamos nesse
momento em que ele é um livro aberto e me conta tudo sobre a sua vida.
E para ser sincera, eu prefiro não saber. Tampar os olhos e ouvidos para
certas situações é bem tentador, e é isso que venho fazendo nas últimas semanas.
— Em poucos dias, Noah vai nomear Julian o sottocapo da família
Carbone e isso quer dizer que ele terá mais responsabilidades. Você acha mesmo
que um homem como ele vai ficar ao seu lado? Você, garota, é apenas um
passatempo. Não se iluda.
Uno as sobrancelhas, confusa. Ela falou um monte de coisa, mas a única
palavra que grudou na minha cabeça foi sotto alguma coisa.
— O que você disse? Sotto o quê?
Shalom revira os olhos, enojada.
— Você me cansa — resmunga e ergue os olhos para algo acima da minha
cabeça. — Bem, lá vem o seu mafioso, faça bom proveito enquanto ainda tem
tempo. Não vai durar muito.
Meu mafioso...
Mafioso...
Julian é um mafioso.
Um mafioso.
Um homem mafioso.
Julian Carbone é um mafioso.
Viro o corpo, coração batendo tão rápido que dói. Engulo em seco quando
ele se aproxima e toca meu cotovelo. Tento ignorar o arrepio que meu corpo sente com o toque dele e pisco algumas vezes, tentando recuperar a lucidez.
— Você está pálida. O que Shalom disse? — pergunta com o músculo do
maxilar contraído e buscando meus olhos.
— Que você vai se tornar o sotto alguma coisa e que... e que você é meu...
meu mafioso — sussurro a última palavra.
Julian me encara e quando meu olhar escapa, ele pega o meu queixo com
as pontas dos dedos e atrai meus olhos de volta para os dele.
— Você é um mafioso — sussurro.
Ele respira fundo e prensa os lábios por alguns instantes, em seguida, volta
a me olhar com intensidade. Ficamos assim pelo que me parece uma eternidade,
até que Julian assente, e com delicadeza, me puxa na direção do carro
estacionado.
— Não fuja de mim — fala num tom sério, mas eu fico quieta. Ainda
estou processando tudo. É diferente pensar que ele faz parte de uma organização
criminosa e ouvir em voz alta que ele realmente faz parte de uma organização
criminosa. — Você quer fugir de mim?
Sim, é claro, é o que qualquer garota sensata diria agora, mas eu apenas
nego com cabeça, não confiante para falar as palavras em voz alta.
Meu lado racional está gritando PERIGO e que eu devo sair correndo e
nunca olhar para trás. No entanto, o lado irracional quer ficar aqui, sendo beijada
e tocada por ele. E eu sempre fui uma garota toda errada, então impeço o lado
racional de continuar se pronunciando e o tranco bem lá no fundo da minha
mente.
É uma droga, mas eu estou apaixonada por Julian Carbone.
Me apaixonei por um homem da máfia.
Estou apaixonada por um mafioso.
— Ótimo. Vamos conversar depois — é o que diz, num tom que parece
que está dando ordens, e até mesmo, satisfeito.
Que mandão...
— Você vai falar? Sobre o que faz da vida? — pergunto, incrédula. Achei que ele fosse dizer que não é um assunto que eu deva saber.
— Você não faz o tipo de mulher que vai ficar quieta se eu não explicar
algumas coisas, Jolina Magdayao.
Prenso os lábios e assinto. Julian tem razão, eu encheria o saco até ele falar
alguma coisa. Ainda mais agora que... bem, parece que estamos juntos. Não
tenho certeza, é tudo muito novo e confuso para mim.
O homem é um enigma. E pelo visto, a família, o trabalho e tudo que diz
respeito a ele, também é.
Ele segura meu rosto entre as duas mãos com firmeza e cola nossos lábios,
amolecendo meu corpo inteiro.
— Volte pra casa com as meninas, eu preciso trabalhar.
Assinto, mas fico quieta.
— Se eu chegar em casa e você não estiver lá, vou te buscar no seu
apartamento — avisa, de forma presunçosa e meio irritante, mas até que gosto.
Bufo e reviro os olhos, o que faz os lábios do mandachuva se curvarem
num pequeno sorriso maroto.
Eu voltei para a mansão com a irmã, mãe e avó de Julian, mas não tinha
pretensão de ficar o dia enfurnada no quarto, olhando para o teto e esperando o
homem da máfia chegar.
Eu já tinha faltado aula hoje, não podia deixar de ir trabalhar também.
— Preciso trabalhar — falo, paralisando as três mulheres no hall de
entrada. — Não posso faltar, o estágio ajuda no meu currículo.
A senhora Carbone abre um pequeno sorriso e assente, se desvencilha dos
braços da sogra e vem até mim.
— Obrigada, querida.
Fico em modo estátua. É a primeira vez que ela é tão carinhosa comigo e
não sei o motivo de estar agradecida.
— Eu não fiz nada — murmuro, depois de encontrar a voz.
Ela apenas sorri e me envolve num abraço sincero.
A avó, que quando a conheci, pareceu ser alguém tão alegre, mas desde a
morte súbita do filho, está com a expressão tão triste, se aproxima de mim
também, pousando uma das mãos nas minhas.
Sorri, mas não diz nada.
— Eu sinto muito pelo senhor Carbone — me ouço dizendo, e as duas
assentem, sorrindo com melancolia.
— Vou pedir pra alguém deixar você no trabalho — a mãe de Julian fala.
Embora tenha achado o gesto fofo, eu nego com a cabeça.
— Vou chamar um Uber, não se preocupe — digo, e ela assente,
concordando comigo.
Despeço-me delas e saio da mansão, chamando o carro no aplicativo o
celular. Três minutos para chegar até mim. Estou prestes a guardar o aparelho
dentro da bolsa, quando algo me vem à cabeça.
Talvez esteja na hora de parar de tampar os olhos e ouvidos.
Abro o aplicativo de pesquisa no smartphone e digito máfia, depois aperto
a lupa e espero.
Sou bombardeada com artigos extensos, últimas notícias e vídeos sobre o
assunto. Antes que possa ler alguma coisa, o meu carro chega. Entro no veículo,
troco uma palavra com o motorista e volto para minha pesquisa.
Meus olhos correm pelas infinitas letras e é até difícil absorver tudo, mas
ao chegar na porta do museu, eu já sei mais ou menos como funciona a “família”
de Julian e o que sottocapo significa.
Ele será o subchefe da máfia.
O segundo em comando.
Não sei como me sentir sobre isso. É muita informação para absorver e me
deixa com um sentimento esquisito dentro do peito. Será que dou conta disso
tudo? Dou conta dele?
Droga.
Por que diabos ele não podia ser uma pessoa normal? Só um herdeiro.
Acho que eu lidaria melhor com isso. Mas Julian Lorenzo Carbone não podia ser
simples. O mandachuva tinha que ser logo um dos herdeiros da máfia italiana.
O dia no trabalho se arrasta e eu me perco algumas vezes nos meus
afazeres, o que deixa o arqueólogo com o qual estou trabalhando, irritadíssimo.
Quanta saudade eu sinto de trabalhar com os nativos. Eu podia simplesmente observá-los, estudá-los em silêncio enquanto tentava entender a cultura deles. Já
esse arqueólogo, fica todo nervosinho se eu dou um deslize.
Ele esquece que precisa de mim para desvendar o passado e contextualizar
as suas descobertas na arqueologia. Eu sou uma das fontes dele, mas o esnobe
age como se minha presença não fosse importante.
No final do expediente, decido ir embora de metrô. Preciso colocar em
ordem os meus pensamentos e não estou a fim de pegar o caminho mais rápido
para chegar na minha casa.
Sim, minha casa.
Infelizmente, Julian chegará na mansão e eu não estarei lá. Talvez lá no
fundo, eu queira deixá-lo irritado. E estou curiosa para saber se ele vai aparecer
na minha porta e me arrastar até a sua casa.
Talvez ele seja capaz disso. O homem é um mandachuva de carteirinha.
Dentro do trem, eu faço uma lista mental com todos os prós e contras de
namorar um homem envolvido com o crime organizado. É ridículo até mesmo
dentro da minha cabeça, porque a resposta parece tão óbvia.
É claro que preciso cair fora.
No entanto, aquele “mas” lá no fundo da minha mente, tenta amenizar as
possíveis consequências.
Julian é um homem perigoso e com certeza, não brinca em serviço e ficar
ao lado dele deve ser a pior decisão que eu possa tomar. MAS, ele disse que é
capaz de sacrificar o mundo por mim e não o contrário, então, talvez, eu esteja
segura com ele.
Eu tenho um milhão de motivos para correr para longe do homem, mas
decido me agarrar ao sentimento que Julian nunca deixará nada de ruim
acontecer comigo.
Depois de algumas anotações mentais e discussões internas, saio do metrô
e caminho até a minha casa, ouvindo música. Nos meus ouvidos, Lana Del Rey
canta “Dark Paradise.”
“Toda vez que fecho os olhos, é como um paraíso sombrio. Ninguém se compara a você. Tenho medo de você não estar me esperando do outro lado.”
É uma música meio triste e dramática, mas estou sorrindo, porque ela meio
que me lembra Julian. Acho que ele é o meu próprio paraíso sombrio. Se isso
não é sinônimo de estar ferrada, não sei o que pode ser.
Entro no apartamento, tirando os sapatos no hall e jogando a bolsa no sofá.
Vou direto para o chuveiro, na tentativa de a água quente levar embora todas as
minhas inseguranças ou me fazer recobrar o juízo.
Limpa e vestindo pijama, me encaminho até a cozinha para comer algo ao
mesmo tempo em que ouço meu celular tocando dentro da bolsa. Me jogo no
sofá e procuro o aparelho, sinto o corpo inteiro gelar quando vejo o nome da
minha mãe piscando na tela.
— Mãe?
Ela fica alguns segundos em silêncio antes de tomar coragem para falar.
— Oi, querida. Você está bem?
— Sim, eu acho. E a senhora? Aconteceu alguma coisa? — pergunto e ela
faz outra pausa. — Mãe? O que aconteceu?
Mamãe funga.
— Seu pai está me traindo — murmura.
Respiro fundo e fecho os olhos com forças. A vontade que tenho é de
explodir agora e mandá-la cair na real, mas não faço isso.
— Sinto muito.
— Eu andei pensando, Jolina. Não devia ter deixado o seu pai me afastar
de você desse jeito. Eu sinto muito por isso, querida. Você foi morar em outro
país e eu não te dei nenhum tipo de apoio.
— Tudo bem, mãe. Eu me virei bem — digo, olhando o meu apartamento
pequeno, mas aconchegante.
É claro que foi difícil no início, mas eu não sou o tipo de pessoa que
abaixa a cabeça para as dificuldades e sempre consegui me adaptar as mudanças,
então, eu consegui sobreviver, sozinha.
Resiliência, é isso...
— Acho que vou pedir o divórcio.
Ao ouvi-la, me endireito no sofá, atenta. Nunca pensei que ela fosse dizer
algo do tipo alguma vez na vida. Minha mãe sempre foi tão apaixonada por ele,
que nunca nem mesmo o denunciou por agredi-la.
— Tem certeza?
— Talvez seja tarde demais, mas eu quero fazer isso.
— Não é tarde demais, mãe.
— Obrigada, querida — murmura com a voz embargada. — Aí já é noite,
não é? Vou deixá-la descansar. Fique bem, filha.
— Tchau, mãe.
— Eu te amo — diz, fazendo meu coração apertar, mas consigo sorrir.
— Eu também te amo.
Ela encerra a ligação.
Encosto a cabeça no sofá e respiro fundo. Apesar de ela estar triste por ter
descoberto a traição do meu pai, estou feliz. Talvez agora minha mãe consiga
viver uma vida boa, onde é amada de verdade.
Talvez ainda dê tempo de ela conhecer o amor.
Alguém bate na porta, me fazendo sobressaltar.
Levanto do sofá e me arrasto até o hall, espio no olho mágico e sinto o
coração dá um salto algo dentro do peito quando vejo Julian.
É um homem de palavra.
Abro a porta.
— Você não me leva a sério, não é? — é o que ele fala, visivelmente de
mau humor. — Por que é tão teimosa? Tem certeza de que não tem descendência
italiana?
— Oi pra você também — digo com sarcasmo e dou um passo para que
entre na minha casa. — Eu precisava pensar... sobre você e tudo que diz ao seu
respeito.
Julian paralisa perto do sofá e alisa os cabelos antes de se virar para mim e
estudar meu rosto.
— Então?
— Você é um homem perigoso.
Ele assente, mas não diz nada. Meu coração caindo de um batimento ao
outro e tenho que respirar fundo para conseguir voltar a falar.
— Eu corro perigo com você?
Julian rompe a nossa distância e toma meu rosto entre as mãos, me
puxando contra o seu corpo torneado, quente e duro. É tanta tentação. Não existe
a possibilidade de dizer não para ele.
— Eu sou capaz de matar qualquer um que faça mal a você — murmura,
me fazendo arregalar os olhos. Ao notar o que acabou de dizer, acrescenta: —
Não vou matar ninguém — mente, é claro.
— Está mentindo — retruco.
— Sim, estou. Mas é verdade quando digo que não vou permitir que
ninguém faça mal a você.
Concordo com um aceno de cabeça. Existem tantas coisas que preciso
perguntar, mas a coisa que sai da minha boca é:
— Ainda teremos exclusividade?
Ele estica os lábios num sorriso de canto.
— Então, quer dizer que você é ciumenta?
— Não — digo a contragosto e até me pego sorrindo. — Mas se não vou
ter exclusividade, não vejo sentindo nessa relação. Posso encontrar outro.
— Não me provoque, Jolina.
Eu me obrigo a erguer os olhos na direção dos dele.
— Adoro quando você fala meu nome. É sexy.
— Você é sexy — sussurra com a atenção fixa nos meus lábios. Uma das
mãos dele descem até o limite do meu pescoço e ombro, e ele começa a brincar
com os dedos ali, fazendo carinho e deixando meu corpo arrepiado. — Não vejo
a hora de poder foder você. Quero chupar você todinha, Jolina. Talvez, eu deixe
que você goze na minha boca.
Ai, Deus.
— Ah — gemo quando Julian aproxima o rosto do meu pescoço e dá uma
mordidinha provocante no lóbulo da minha orelha. — Não faça isso — imploro.
— Por que não? — pergunta ao umedecer a boca com a língua e tocar meu
lábio inferior com o polegar. — É tão divertindo te deixar excitada.
Bato os cílios algumas vezes e respiro fundo.
— É tortura.
— Eu sei — fala, como se não fosse nada. — Mas talvez eu deixe você me
tocar de novo. — O homem me encara de maneira presunçosa, e eu acabo
deixando meus olhos caírem sobre o meio da calça dele. — Nada aí... ainda, mas
falta pouco pra acordar — emenda, fazendo meu rosto esquentar.
— Não vou te tocar de novo.
Dou um passo para trás e cruzo os braços na altura dos seios.
— Não tenho certeza disso — zomba e solta uma risada, o que me faz rir
também. É bom ver que ele está “bem” e sorrindo mesmo depois do que
aconteceu com o pai. — Vamos, vim buscar você.
— Veio me buscar? — repito de olhos arregalados. — Pra quê? Já estou de
pijama, vou dormir aqui, na minha casa.
Ele volta com a expressão de mandachuva e autoritário que sempre me dá
vontade de fazer exatamente tudo ao contrário do que ele quer.
— Jolina — repreende.
— Julian — rebato e tento segurar uma risada. — Não pode dormir aqui?
Comigo? — arrisco e espero, ansiosa.
Será que um homem poderoso e inabalável como ele vai ceder aos
caprichos de uma garota universitária como eu?
— Não, venha — fala e se aproxima de mim de maneira decidida.
— O que... que está fazendo? — balbucio ao vê-lo me agarrar na cintura e
me jogar por cima do ombro. — Julian, me coloque no chão. Agora.
Ele me ignora e abre a porta do meu apartamento. De cabeça para baixo,
reconheço Nicholas no corredor.
— Pegue os livros dela, a bolsa e algumas roupas — Julian ordena e Nicholas adentra meu apartamento.
Esmurro as costas largas de Julian e esperneio ao tentar me soltar, mas não
tenho sucesso.
— Que bela bunda, você tem, garota. — Sinto um tapa bem dado nas
minhas nádegas. — Estava louco pra fazer isso.
Meu rosto formiga.
— Me coloque chão! — grito, mas ele fecha a porta do meu apartamento e
caminha para fora do prédio sem dificuldade nenhuma. — Julian, por favor.
— Você vai fugir se eu te colocar no chão.
— Não vou — minto e ele dá uma risadinha irritante, depois volta a alisar
minha bunda. — Ei! — protesto.
— O que foi? — rebate meio sacana.
— Não acredito que você fez isso, sério — começo a falar e algo me vem
à cabeça. Decido jogar todas as cartas na manga. — Nicholas vai escolher
minhas calcinhas. Tem noção disso? Que vergonha.
Julian paralisa nas escadas, já tinha descido meio lance. Sem dizer nada,
ele gira nos calcanhares e volta para o meu apartamento. Abre a porta e dá de
cara com Nicholas pegando meus livros na estante.
— Pode ir, do resto eu cuido — Julian fala, fazendo um gesto com a
cabeça e meio segundo depois, Nicholas sai do apartamento. — Vou te colocar
no chão, mas não fuja — me avisa.
Com cuidado, o homem me coloca no chão. Ajeito meus cabelos e faço
cara feia, mas ele não se abala nenhum um pouco. Na verdade, parece bem
empolgado com alguma coisa.
— Vou escolher suas calcinhas — diz, contendo o sorrisinho. Dá as costas
para mim e vai entrando no meu quarto.
Sigo Julian.
— O que pensa que está fazendo?
Sem pedir permissão, ele abre a primeira gaveta da cômoda grande e
infelizmente, dá de cara com um monte de calcinhas. Faz uma cara de quem aprova tudo e começa a escolher um monte de fio dental.
— Gosto das confortáveis também — resmungo, gesticulando com o
queixo para as calcinhas em formato de short.
— Tudo bem, acho sexy também.
Depois de escolher minhas calcinhas, Julian pega alguns sutiãs, o que faz o
meu sangue ferver e resmungar um monte, mas o homem não se importa. Pego
uma bolsa e jogo em cima dele para que guarde tudo.
— Escolha as roupas.
— Olha, quantos dias você acha que vou ficar na sua casa? — rebato,
petulante.
— Se eu não estiver enganado, você está prestes a entrar de férias da
faculdade. Não quer passar as férias comigo? — pergunta de um jeito
estranhamente doce.
Faço um estalo com a língua e pego algumas peças de roupa no guarda-
roupa e coloco dentro da bolsa, meio contrariada.
— Alguém precisa vir colocar água nas minhas plantinhas.
— Nicholas fará isso — ele garante.
Começo a rir, porque a visão de Nicholas, um homem daquele tamanho,
cheio de músculos colocando água nas minhas plantinhas, é de longe, esquisito.
Não combina com a aparência dele.
— Tenho minhas condições, Julian.
Ele anui.
— Seria estranho se não tivesse.
— Sophia e eu sempre fazemos algo juntas. E talvez, eu precise dormir
aqui no meu apartamento uma vez na semana.
Julian faz cara feia, claramente discordando de mim, mas quando ergo uma
sobrancelha, ele cede.
— Fechado, então — falo ao fechar o zíper da minha mochila.
Surpreendendo-me ao sentir Julian me colocar nos ombros de novo com
uma mão e pegar minha bolsa com a outra.
— O que pensa que está fazendo?
— Gosto de ter a sua bunda na minha cara — é o que responde, me
deixando de bochechas coradas.
Fico em silêncio.
— Não seja tímida, Jolina — sussurra, mas eu continuo calada.
Ele atravessa meu apartamento com passos largos, abre a porta sem
dificuldade e joga a mochila para Nicholas, que ainda está esperando no
corredor, e pede para que tranque a porta antes de nos acompanhar.
Julian só me coloca no chão quando estamos em frente ao seu carro. Como
um cavalheiro, abre a porta para mim e eu faço a única coisa que está ao meu
alcance, me acomodo no banco traseiro.
Ele ocupa o meu lado com um estúpido sorriso sedutor estampado nos
lábios.
— Vai ser divertido, eu prometo.
— Ainda preciso trabalhar todos os dias — resolvo deixar claro. Não vou
faltar meu trabalho de jeito nenhum.
— Tudo bem, não tem problema. — Afrouxa o nó da gravata. — Aliás,
amei o seu pijama com estampa de gatinho. É fofo e não vejo a hora de ver você
sem.
Sacudo a cabeça e rio.
Julian Lorenzo Carbone com certeza é minha perdição.
Quando entrei para os negócios, eu sempre soube o meu destino, ser o
sottocapo da família Carbone. Mas nunca imaginei que fosse assumir o lugar do
meu irmão de forma tão trágica.
Ainda é duro pensar que meu pai não está mais entre nós e ver Noah
sentado no lugar que sempre foi dele, me deixa com um sentimento estranho no
peito. Sei que meu irmão será um ótimo líder, nunca duvidei disso, no entanto,
não esperava que meu pai estivesse enterrado a sete palmos do chão quando
Noah se tornasse o Don.
— Roubaram outro carregamento, se continuar desse jeito, vamos perder
território — Giuliano fala, me fazendo perder toda a paciência.
Os negócios são importantes, mas no momento, eu quero resolver a
situação do meu pai. Definitivamente, ele não morreu de causas naturais.
Alguém encomendou um profissional para dar um fim na vida do papà e
precisamos descobrir quem foi.
— Noah, talvez esteja na hora de voltarmos ampliar os negócios. Drogas,
tráfico humano, isso dá o triplo de dinheiro que contrabando de armas. —
Giuliano se inclina um pouco para frente, estudando as expressões do meu irmão. — Já pensou? Em vez de dominar apenas Montréal, você pode ter
controle de pelo menos oitenta por cento do Canadá.
— Você esqueceu quem me criou? — Noah pergunta, sério. Vira o rosto
para o caporegime mais antigo da família e continua a falar. — Não vou comprar
menores e lucrar com prostituição, Giuliano. E antes de ampliarmos qualquer
negócio, precisamos primeiro descobrir quem está nos roubando e o mais
importante, o que aconteceu com o papà.
Giuliano não fica surpreso. Ele assente com os lábios torcidos, parece com
alguém que está tentando esconder a satisfação.
O jeito desse velho filho da puta sempre me incomodou. Meu pai sempre
gostou dele e o tratou bem, o que certas vezes, fez Giuliano agir como se
entendesse mais do que todo mundo da família.
Noah faz um gesto quase imperceptível com a cabeça, quando Gabriel faz
menção de quem quer ter a vez e falar.
— Nas ruas, o que se escuta é que os Fontana estão tentando expandir os
negócios e dominar parte do porto.
— O que mais? — meu irmão questiona ao notar a expressão de aflição de
Gabriel.
— Parecem que eles estão com os Russos — Gabriel fala, fazendo Noah
soltar um suspiro de inquietação.
Giuliano se remexe na cadeira e faz cara de quem comeu e não gostou. Por
essa, eu não posso culpá-lo. Ninguém quer ter de enfrentar os Russos por
escolha. É sempre uma dor de cabeça e um mar de sangue.
— Se isso for verdade, precisamos ter cuidado — Thomas fala, pensativo.
A cabeça dele já deve estar trabalhando em formas de apaziguar a situação.
— Continue me mantendo informado, Gabriel — Noah diz, fazendo o
caporegime assentir. — Por enquanto, o que vamos fazer é apertar os trabalhos.
Quero que se livrem de todos os nossos depósitos, e só daremos servimos apenas
para os nossos homens de extrema confiança. E a partir de hoje, só eu, Julian e
vocês saberão os pontos de entrega — é o que diz, dando fim a reunião.
Giuliano e Gabriel se levantam ao mesmo tempo e saem do escritório.
Bato na mesa de madeira com os nós dos dedos e me preparo para ficar de
pé e ir embora, quando Noah me intercepta.
— Você e Lina estão sérios agora? — pergunta, de repente.
Thomas mexe os ombros e se apoia de maneira confortável na cadeira.
Tem um estúpido sorriso cínico no rosto e os olhos azuis parecem estar se
divertindo com a pergunta do meu irmão.
Nós dois fomos criados praticamente juntos e é por isso que tenho vontade
de mandá-lo ir se foder com esse sorrisinho de merda.
Antes de ele ser o conselheiro, o cargo era ocupado pelo seu pai, que
morreu de câncer no pâncreas há três anos. E agora, Thomas é dono de um dos
cargos de mais prestígio da máfia.
— Ela é minha garota — é o que digo, querendo dar o assunto por
encerrado.
Noah assente.
— Em respeito ao papai, vamos manter o cassino fechado por mais uma
semana — me avisa, e eu não discordo. Não tenho cabeça no momento para
resolver processos administrativos dos negócios legais da família.
— Ok.
— Quando voltarmos, quero que você assuma tudo em relação ao cassino,
Julian. Não vou ser modesto, você é o mais inteligente entre nós dois. Eu sempre
odiei escola e você tem formação acadêmica, parece justo. — Olha de mim para
o conselheiro. — O que acha, Thomas?
— Ele sempre foi o garoto dos números.
— Não me chame de garoto — resmungo, fazendo Thomas aumentar
sorriso idiota estampado no rosto.
— É isso, então — Noah diz, por fim.
Pouso a mão no topo da cabeça e aliso, concordando com um assentir. Já
esperava por isso. Era o que o papai sempre quis, e no fundo, Noah só quer
continuar fazendo o que o antigo Don desejou.
Dou uma batidinha de leve no ombro do meu irmão e saio do escritório,
deixando para trás o novo Don e Thomas.
Caminho pelos corredores vazios do cassino e sinto um aperto no peito.
Me tornar o subchefe da família foi de fato o que eu sempre almejei, mas não
parece certo comemorar em um momento como este.
Sinto tanta falta do meu pai.
Olho o terço com crucifixo enrolado no punho. Foi um presente dele. De
um jeito bem torto, meu pai foi um devoto ao cristianismo. E é claro, fez com
que os filhos acreditassem em Deus também.
Toco o crucifixo com as pontas dos dedos e levo até os lábios ao fechar os
olhos por uma fração de segundos. Sempre que carregar o terço comigo, meu pai
estará ao meu lado, me guiando ou dizendo que estou completamente perdido.
Sorrio com o pensamento.
Vamos descobrir o aconteceu com o senhor, papà. Eu prometo, depois de
fazer minha promessa silenciosa, saio pela porta traseira do cassino.
Confesso que tinha uma certa dúvida se Jolina continuaria na minha casa.
Ela é uma garota imprevisível e teimosa. Mas quase consigo sorrir ao vê-la
sentada em frente ao piano no hall de entrada, xeretando.
— Não sabia que você tocava piano — falo, tirando o casaco e colocando
no cabideiro perto da porta.
Ela me olha por cima dos ombros e sorri.
— Não sei. — Nega com a cabeça. — Sua avó disse que você tocava
piano como ninguém e que era o músico da família. — De maneira atrevida,
Lina dá leves batidinhas no banco acolchoado, me chamando para sentar ao seu
lado.
— Sim, mas é passado.
Sento ao seu lado e a observo de perfil. Ela é tão linda, e já bagunçou toda
a minha vida. Não me reconheço mais desde que Jolina cruzou o meu caminho.
Por que eu a quero tanto?
Quero que ela abrace meu lado mais sombrio e me aceite, me entenda e
permaneça comigo.
— Toque algo pra mim.
Balanço a cabeça, recusando o pedido. Mas é claro que ela não se dá por
convencida, então, de forma ousada, pega minhas mãos e coloca em cima das
teclas do piano e depois, começa a rir como uma garotinha que acabou de fazer
algo errado.
— Vamos lá, toque algo — pede, quando fico quieto, apenas olhando-a
nos olhos. — Por favor? — insiste.
— Faz anos que não toco — assumo.
Ela dá de ombros.
— Deve ser como andar de bicicleta.
Direciono a atenção para o piano e hesito por alguns instantes, mas acabo
cedendo ao desejo de Jolina. Deslizo os dedos sobre as teclas brancas e começo
a tocar uma versão acústica de “Tiny Dancer” do Elton John.
Lina fica me encarando, admirada e apesar de me sentir vulnerável e
exposto no momento, me sinto bem também, o que é estranho. Mas pela
primeira vez em muito tempo, me deixo levar e continuo tocando.
Sem pressa, Lina começa a cantarolar a música e faço o mesmo, juntando
minha voz com a dela, mas ao me ouvir cantar, ela fica em silêncio, me
contemplando.
“Me abrace forte, pequena dançarina. Conte as luzes da estrada, me deite
em lençóis de linho, você teve um dia ocupado hoje.
Garota de jeans azul, dama de Los Angeles. Costureira para a banda,
olhos bonitos, sorriso de pirata. Você se casou com o músico. Bailarina, você
devia ter visto ela dançando areia. E agora ela está em mim, sempre comigo.
Pequena dançarina na minha mão.”
— Isso foi incrível, Julian. — Ela abre um sorriso largo. — Você tem uma
voz incrível. Devia tocar e canta mais vezes.
Envolvo uma das mãos entre seus cabelos e a puxo para mim.
— Eu sou o subchefe da máfia agora, cantar e tocar piano vai tirar toda a
minha credibilidade. Não vou fazer isso de novo.
Lina solta uma risada gostosa.
— Tudo bem, mas você pode tocar pra mim quando eu pedir? Huh? O que
me diz? — sussurra de um jeito meigo.
Suspiro e repuxo um meio sorriso.
— Você é a minha ruína, Lina.
— E você é a minha perdição — retruca, me olhando com intensidade. —
Eu acho que não consigo ficar longe de você, Julian — acrescenta com a voz
baixa.
Prendo uma mecha de cabelo atrás da sua orelha.
— Não fuja de mim, Jolina. Nunca.
Ela aproxima o rosto do meu e envolve as mãos pequenas no meu pescoço,
e fecha os olhos por alguns segundos ao encostar a testa na minha. Quando volta
a me encarar, eu a beijo com vontade.
Minha língua enrosca na sua e eu sugo de leve, fazendo Lina gemer contra
a minha boca e me deixar louco. Mordisco o lábio inferior ao mesmo tempo em
que desço com as mãos até a sua cintura e puxo para mais perto, colando os
nossos corpos.
— Julian... — ela sussurra. — Aqui não. — Coloca as mãos espalmadas