O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 9 de 28

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O Lobisomem

Cena Ii

 

O Vigário e João da Eira

 

Vigário

Ora diga lá o que temos de má notícia, que já vejo que não vai dizer-me coisa alegre...

 

João da Eira

O certo é que não, Sr. Reverendo vigário... E bem me custa, porque, enfim, a coisa é com a minha mulher e com a minha filha.

 

Vigário (Estupefacto)

Que dizes, homem! Com a sua filha e com a sua mulher!! Eu!! Eu!!

 

João da Eira

Eu queria dizer que lhe toca pela roupa...

 

Vigário

Explique-se, que eu não o entendo...

 

João da Eira

Pois, enfim, saberá o Sr. Reverendo vigário que tem um lobisomem de portas a dentro.

 

Vigário

Este homem endoudeceu!... Eu tenho um lobisomem de portas a dentro!

 

João da Eira

Assim me Deus salve em como tem...

Vigário

Não jure, criatura... Vossemecê está fora do seu juízo...

 

João da Eira

Agora estou!... Oxalá que mentisse... Eu lhe conto...

 

Vigário (Benzendo-se)

Jesus! Santo nome de Jesus, que lembrança!

 

João da Eira

O lobisomem, Sr. Vigário, é o estudante das gramáticas que V. S.a cá tem a ensinar.

 

Vigário

O estudante!... Eu cada vez o percebo menos!...

João da Eira

Quer o Sr. Vigário saber se ele é ou não é lobisomem?... Olhe se ele está em casa à sexta-feira.....

 

Vigário

Nesses dias vai ele visitar a família a Vila Real.

 

João da Eira

Não como essa, Sr. Vigário, e perdoará em lhe eu ir à mão. Olhe (apontando para os olhos) com estes vi-o eu a espolinhar-se no meu souto da Reboleira, e depois...

 

Vigário

Que diz, Sr. João, que está vossemecê aí a dizer disparates!...

 

João da Eira Deus me não ajude, se isto assim não é... A mulher Já a tenho empregadinha, que se não meche; a filha está que ninguém a conhece, engelhada, magra, e cheia de ossos, e tudo isto foi... Faz no sábado três meses que eu fiz a minha espadada.

 

Vigário

Homem, eu estou abismado! Então o rapaz bateu-lhe na família?

 

João da Eira

Foi o lobisomem, porque V. S.a bem sabe que os lobisomens, estando no aspeto da sua propiá pessoa, não fazem mal; mas como eu vinha dizendo, no fim da minha espadada apareceu o lobisomem, e fugimos todos; só a minha Mariana ficou de fóra, por não poder entrar, e tal medo apanhou que me está tolhidinha. Não tem vontade de comer, anda sempre a chorar, não vai ao campo, e diz o barbeiro-cirurgião o que ela tem uma obstrução no corpo, salvo tal lugar.

Vigário

E como sabe vossemecê que é o meu estudante o lobisomem?

 

João da Eira

É porque dizem por aí todos; veja-lhe V. S.a a cara e verá como ele a tem amarela.

 

Vigário

Aquela é a cor dele, criatura de Deus... E não tem outra razão melhor que essa?

 

João da Eira

Sei que ele esteve na minha espadada... Ainda quer outra rasão, Sr. Vigário?

 

Vigário

Esteve!?

João da Eira

Tal e qual, e sabe que mais? A minha rapariga, ás vezes, a sonhar, falia nele... Ele não se chama Carlos?

 

Vigário

Chama, sim.

 

João da Eira

Vê? Olhe se lho eu digo...

 

Carlos (Fóra de cena, assobiando e chamando os cães)

Perdigueiro! Boca! Aqui! Preguiça! Ladina! Cadela de mil diabos! Aqui... Pega...

 

Vigário

Ele aí vem.

 

João da Eira

Eu estou capaz de mir embora, que não vá ele tolher-me como me tolheu a mulher e a filha...

 

Vigário

Não, senhor, deixe-se estar.

 

João da Eira

Homem!... Eu não sei o que faça...

 

Carlos

(Fóra de cena e mais perto) Neptuno! Os diabos te levem! Cassandra! Tito-Lívio!... Boca... Diabo!... (chegando à cena sem reparar). Os infernos te confundam, espingarda de guerrilheiro... Este demónio errou três vezes... (Bate a arma, que se dispara — João da Eira dá um grito e fica em convulsões).

 

João da Eira

Eu... Eu... Eu que lhe disse, Sr. Vigário?... Estou tolhido…