O Lobisomem
Cena Iv
João da Eira e o Vigário
João da Eira
Que mau homem, Sr. Vigário, que mau homem!...
Vigário
Falemos sério, meu amigo, olhe que isto de lobisomens é mentira.
João da Eira
Homem! Essa não esperava eu de quem tem cartilhas e missais como o Sr. Rev. Vigário!...
Vigário Pois creia no que lhe digo. Deus condena os culpados no outro mundo, não é neste. Quem faz o mal irá para onde o pague, mas neste mundo, justos e criminosos, todos são homens com figura humana, não há lobisomens, nem outras visões, que os nossos avós inventaram sentados ao lar...
João da Eira
Pois se eu o vi!... Quer me o Sr. Vigário meter os dedos pelos olhos... O meu amigo, o que disseram os velhos é escritura...
Vigário
Pois como o Sr. Viu uma coisa que se lhe pareceu com outra, é que eu chego a acreditar que este maldito rapaz, para assustar a boa gente destas aldeias, andasse por lá a fazer arruído...
João da Eira
Mas ele tinha um rabo como a minha égua, e uma cabeça de jumento, com licença das suas barbas honradas...
Vigário
Teria, teria, que os rapazes deste seculo têm tudo quanto querem, logo que não têm a religião dos seus pais... Vá vossemecê para sua casa, diga à sua filha e a sua mulher que esse fantasma que elas viram não foi mais que a travessura de um estudante, com o fim de assusta-las. E mais nada...
João da Eira
Mas a minha Mariana está chupadinha de todo!...
Vigário
Pois aí tem — foi medo, cujos efeitos passarão com o desengano que vossemecê lhes vai dar.
João da Eira
Parece-lhe então que não seria lobisomem, Sr. Vigário?
Vigário
Não era, dou-lhe a minha palavra de sacerdote.
João da Eira
Isso agora é outra coisa... Vou descansado, e com isto fez-se-me noite; estimarei que passe muito bem até avista.
Vigário
Adeus, Sr. João, console a sua família, e leve-lhe as minhas bênçãos. (O vigário recolhe-se e fecha a porta).
(É noite).