O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 11 de 28

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O Lobisomem

Cena Iv

João da Eira e o Vigário

 

João da Eira

Que mau homem, Sr. Vigário, que mau homem!...

 

Vigário

Falemos sério, meu amigo, olhe que isto de lobisomens é mentira.

 

João da Eira

Homem! Essa não esperava eu de quem tem cartilhas e missais como o Sr. Rev. Vigário!...

 

Vigário Pois creia no que lhe digo. Deus condena os culpados no outro mundo, não é neste. Quem faz o mal irá para onde o pague, mas neste mundo, justos e criminosos, todos são homens com figura humana, não há lobisomens, nem outras visões, que os nossos avós inventaram sentados ao lar...

 

João da Eira

Pois se eu o vi!... Quer me o Sr. Vigário meter os dedos pelos olhos... O meu amigo, o que disseram os velhos é escritura...

 

Vigário

Pois como o Sr. Viu uma coisa que se lhe pareceu com outra, é que eu chego a acreditar que este maldito rapaz, para assustar a boa gente destas aldeias, andasse por lá a fazer arruído...

 

João da Eira

Mas ele tinha um rabo como a minha égua, e uma cabeça de jumento, com licença das suas barbas honradas...

Vigário

 

Teria, teria, que os rapazes deste seculo têm tudo quanto querem, logo que não têm a religião dos seus pais... Vá vossemecê para sua casa, diga à sua filha e a sua mulher que esse fantasma que elas viram não foi mais que a travessura de um estudante, com o fim de assusta-las. E mais nada...

 

João da Eira

Mas a minha Mariana está chupadinha de todo!...

 

Vigário

Pois aí tem — foi medo, cujos efeitos passarão com o desengano que vossemecê lhes vai dar.

 

João da Eira

Parece-lhe então que não seria lobisomem, Sr. Vigário?

Vigário

 

Não era, dou-lhe a minha palavra de sacerdote.

 

João da Eira

Isso agora é outra coisa... Vou descansado, e com isto fez-se-me noite; estimarei que passe muito bem até avista.

 

Vigário

Adeus, Sr. João, console a sua família, e leve-lhe as minhas bênçãos. (O vigário recolhe-se e fecha a porta).

 

(É noite).