O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 13 de 28

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O Lobisomem

Cena Vi

João da Eira e depois o Vigário

 

João da Eira

Agora é que eu fico tolhidinho de pernas e braços!... Dói-me a barriga... Tenho calafrios nas canelas... Estou tolhido, não há dúvida, estou tolhido!...

 

A voz do fantasma (Ao longe)

Não te demores, misero mortal.

 

João da Eira

Ah!... Cá vou, cá vou!... (bate desesperadamente d porta) Ó Sr. Vigário! Ó Sr. Vigário! Ó Sr. Estudante!...

Vigário

Que tem, homem?!

 

João da Eira

Dá licença? Dá licença?... Deixe-me entrar...

 

Vigário

Que é?... Que é?!

 

João da Eira

Deixe-me entrar... Lá dentro, lá dentro, lhe direi... Deixe-me entrar. (Olhando sempre para traz.)

 

Vigário (Vindo fóra e tomando-lhe o braço)

Há de dizer-me o que tem... Vossemecê está aterrado!... Viu o lobisomem?

João da Eira

Não me fale mais em lobisomem... Foi uma alma do outro mundo... (apontando para traz da igreja.)

 

Vigário

Pobre homem! Vossemecê é bem desgraçado com as suas visões... Venha cá... (quer leva-lo atrás da igreja )

 

João da Eira

Nada, nada, seu fora tolo!... Tenho um recado a dar-lhe da alma...

 

Vigário (Sorrindo)

Um recado para mim?

 

João da Eira É como diz... A alma veio ao reclamo do estudante... (o padre benze-se como quem se compadece da loucura estranha). Ámen. Ámen... (benzendo-se também) e disse-me que lhe dissesse que o estudante não era lobisomem, que era um anjo perdido, uma pedra gastada na coroa (fazendo menção de uma coroa clerical) dos serafins, e não sei que mais em latim... Ah! É verdade, disse-me que era um santo...

 

Vigário

Uma pedra gastada na coroa dos serafins?!...

 

João da Eira

Tal e qual..

 

Vigário (Com sentimento)

Ó Sr. João, aquele rapaz quer a nossa desgraça...

João da Eira

Qual rapaz?

 

Vigário

Qual há de ser? Esse maldito que aí anda...

 

João da Eira

Santo nome de Jesus! Não diga isso que se levantam as almas...

 

Vigário

A alma era o estudante... Vá com Deus para sua casa...

 

João da Eira

A alma era o estudante!... O Sr. Vigário ê que quer a minha desgraça.. Era uma alma, tal e qual, amortalhada, com o braço amarelo e os dentes negros.

Vigário (Consigo)

Que bondade e que maldade!!

 

João da Eira

Faz favor de chamar-me o estudante, que lhe quero pedir perdão!

 

Vigário

Criatura de Deus! Vá para a sua casa: dou-lhe outra vez a minha palavra de sacerdote de Cristo, e ministro do altar, que a alma era esse atravessado com um lençol pela cabeça...

 

João da Eira (Meditando)

Sabe que mais... Parece-me que tem razão... O Sr. Vigário dá-me a sua palavra?

 

Vigário Dou, dou, vossemecê é muito medroso; não me parece um homem...

 

João da Eira

Quem... Eu?! Medroso! Eu digo-lhe, Sr. Rev. Vigário; daqui por diante más terções me colham se eu tiver medo a trasgos e aventesmas, — Por amor disso, vá-se o Sr. Vigário embora, que eu hei de aqui ficar no adro um bom pedaço...

 

Vigário

Pois fique, e encomende-se a Deus... Boas noites.

 

João da Eira

Passe muito bem...