O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 10 de 28

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O Lobisomem

Cena Iii

Os mesmos e o estudante

 

Vigário (Com severidade)

Que modos são estes. Sr. Carlos?

 

Carlos

Boas tardes... Eu não os via... Passou bem, Sr. Padre mestre?

 

Vigário

Passei bem, muito obrigado.

 

Carlos (À parte)

Oh diabo!... Cá está o pai de Mariana!...

Vigário

O Sr. Carlos de Ataíde, conhece este senhor?

 

Carlos

Não me recordo de o ter visto... Naturalmente é o mestre-escola cá da freguesia...

 

João da Eira

Nada, eu não sou mestre mestre-escola, não senhor.

 

Vigário

Com que então não conhece?

 

Carlos

Mas tenho a honra de ficar conhecendo... E o Sr. Padre-mestre que mo apresenta...

Vigário

Sim, senhor — sou eu que lho apresento... E o Sr. João da Eira, natural da Reboriça, que costuma ter a sua espadada... Olhe se se recorda por esta circunstância...

 

Carlos

Nada... Eu não estou certo... Mas enfim... (querendo apertar-lhe a mão, que João da Eira mete na algibeira). Muito gosto em conhecer... Passou bem? E a família. Boa?

 

João da Eira (À parte)

A família?... Que maroto!... (alto) Vai indo.. Deus louvado... Nunca pior... Vamos por lá vivendo... E lá a sua obrigação como vai?

 

Carlos

Sofrivelmente... Passageiramente... Satisfatoriamente...

Vigário (Com severidade)

 

Sr. Carlos! E preciso que o Sr. Seja muito mau membro da sociedade, mau cristão, e muito mau filho, para que iludindo as diligências paternas e as minhas, se sirva de falsidades que lhe assentam pessimamente...

 

Carlos

Então, que há de novo?

 

Vigário

Não seja, além de indócil, motejador. O Sr. Estudante, por motivos desairosos, foi mandado para aqui estudar, visto que em Vila Real se tornava um mau membro da sua virtuosa família. Chegando aqui, iludiu os seus pais, dizendo-lhes que não ia lá uma vez por semana para escurecer a memória de certos factos, e para aproveitar no estudo; e a mim dizia-me que ia ver o seu pai ás sextas-feiras e parte dos sábados... Que fazia o Sr. Nestes dias?

Carlos (Com humildade irónica)

 

A vida contemplativa, Sr. Padre-mestre...

 

Vigário

Não zombe, senhor! A vida que o senhor levava pelas espadadas, e por... Que sei eu? Por onde o Sr. Semeou talvez o grão da imoralidade, em aldeias pobres e inocentes...

 

Carlos

Sr. Padre mestre: terminou a sua verrina? Marat, Danton e Robespierre nunca falaram com a barriga horrorosamente peripatética... Isto é, vazia. Eu prometo uma tocante defesa: peço-lhe que suspenda o seu juízo; mas permita-me que vá primeiro à cozinha buscar inspirações.

 

Vigário Seja cortês, Sr.!... Que foi fazer à espadada deste lavrador?

 

Carlos (Para João da Eira)

Vossemecê viu-me lá?

 

João da Eira

Vi, sim, vi, e o senhor é o lobisomem. (Carlos ri ás gargalhadas). Bem se lhe vê na cara...

 

Carlos

Vê-se-me na cara um lobisomem!!! Deixe-me ir ao espelho... Com licença... (quer sair.)

 

Vigário

Espere! E necessário sabermos se fez alguma cias suas cruéis brincadeiras para atemorizar a família deste senhor...

João da Eira

Isso é que é verdade.

 

Carlos

Ai! Este senhor tem uma família atemorizada!? Exorcismos, meu amigo, exorcismos, e muita soma de água benta... Sr. Padre-mestre! (dignidade caricata). A minha consciência repele a injusta e caluniosa agressão que impiamente lhe fazem. Invoco os cadáveres que aí estão no chão da morte, dormindo o sono eterno, para que; envoltos na sua mortalha, venham aqui dizer se eu, Carlos de Ataíde e Valadares Tinoco, sou lobisomem. (Correndo d porta do templo). Erguei-vos, mortos, do vosso leito de pedra! Erguei-vos, honrados anciãos!... Erguei-vos...

 

João da Eira

(Benzendo-se apavorado). Credo! Santo nome de Jesus. Credo! Ave-Maria!...

Vigário

Basta de ridículo, senhor!...

 

Carlos (Dramático)

Eu quero o depoimento dos mortos!...

 

Vigário

Retire-se!

 

Carlos

Boas noites. (Sai).