O Lobisomem
Cena Iii
Os mesmos e o estudante
Vigário (Com severidade)
Que modos são estes. Sr. Carlos?
Carlos
Boas tardes... Eu não os via... Passou bem, Sr. Padre mestre?
Vigário
Passei bem, muito obrigado.
Carlos (À parte)
Oh diabo!... Cá está o pai de Mariana!...
Vigário
O Sr. Carlos de Ataíde, conhece este senhor?
Carlos
Não me recordo de o ter visto... Naturalmente é o mestre-escola cá da freguesia...
João da Eira
Nada, eu não sou mestre mestre-escola, não senhor.
Vigário
Com que então não conhece?
Carlos
Mas tenho a honra de ficar conhecendo... E o Sr. Padre-mestre que mo apresenta...
Vigário
Sim, senhor — sou eu que lho apresento... E o Sr. João da Eira, natural da Reboriça, que costuma ter a sua espadada... Olhe se se recorda por esta circunstância...
Carlos
Nada... Eu não estou certo... Mas enfim... (querendo apertar-lhe a mão, que João da Eira mete na algibeira). Muito gosto em conhecer... Passou bem? E a família. Boa?
João da Eira (À parte)
A família?... Que maroto!... (alto) Vai indo.. Deus louvado... Nunca pior... Vamos por lá vivendo... E lá a sua obrigação como vai?
Carlos
Sofrivelmente... Passageiramente... Satisfatoriamente...
Vigário (Com severidade)
Sr. Carlos! E preciso que o Sr. Seja muito mau membro da sociedade, mau cristão, e muito mau filho, para que iludindo as diligências paternas e as minhas, se sirva de falsidades que lhe assentam pessimamente...
Carlos
Então, que há de novo?
Vigário
Não seja, além de indócil, motejador. O Sr. Estudante, por motivos desairosos, foi mandado para aqui estudar, visto que em Vila Real se tornava um mau membro da sua virtuosa família. Chegando aqui, iludiu os seus pais, dizendo-lhes que não ia lá uma vez por semana para escurecer a memória de certos factos, e para aproveitar no estudo; e a mim dizia-me que ia ver o seu pai ás sextas-feiras e parte dos sábados... Que fazia o Sr. Nestes dias?
Carlos (Com humildade irónica)
A vida contemplativa, Sr. Padre-mestre...
Vigário
Não zombe, senhor! A vida que o senhor levava pelas espadadas, e por... Que sei eu? Por onde o Sr. Semeou talvez o grão da imoralidade, em aldeias pobres e inocentes...
Carlos
Sr. Padre mestre: terminou a sua verrina? Marat, Danton e Robespierre nunca falaram com a barriga horrorosamente peripatética... Isto é, vazia. Eu prometo uma tocante defesa: peço-lhe que suspenda o seu juízo; mas permita-me que vá primeiro à cozinha buscar inspirações.
Vigário Seja cortês, Sr.!... Que foi fazer à espadada deste lavrador?
Carlos (Para João da Eira)
Vossemecê viu-me lá?
João da Eira
Vi, sim, vi, e o senhor é o lobisomem. (Carlos ri ás gargalhadas). Bem se lhe vê na cara...
Carlos
Vê-se-me na cara um lobisomem!!! Deixe-me ir ao espelho... Com licença... (quer sair.)
Vigário
Espere! E necessário sabermos se fez alguma cias suas cruéis brincadeiras para atemorizar a família deste senhor...
João da Eira
Isso é que é verdade.
Carlos
Ai! Este senhor tem uma família atemorizada!? Exorcismos, meu amigo, exorcismos, e muita soma de água benta... Sr. Padre-mestre! (dignidade caricata). A minha consciência repele a injusta e caluniosa agressão que impiamente lhe fazem. Invoco os cadáveres que aí estão no chão da morte, dormindo o sono eterno, para que; envoltos na sua mortalha, venham aqui dizer se eu, Carlos de Ataíde e Valadares Tinoco, sou lobisomem. (Correndo d porta do templo). Erguei-vos, mortos, do vosso leito de pedra! Erguei-vos, honrados anciãos!... Erguei-vos...
João da Eira
(Benzendo-se apavorado). Credo! Santo nome de Jesus. Credo! Ave-Maria!...
Vigário
Basta de ridículo, senhor!...
Carlos (Dramático)
Eu quero o depoimento dos mortos!...
Vigário
Retire-se!
Carlos
Boas noites. (Sai).