O Lobisomem
Cena Iv
Mariana, João da Eira, Manuel do Portelo, raparigas, rapazes
O grupo desconjunta-se. Mariana está nos braços de Miquelina
João da Eira
Agora, vá a beber... Isto de exorcismos é como se quer... Ó raparigas! Não ouvistes o diabo a rir-se duas vezes aqui para traz?
Vozes
Vimos, vimos...
João da Eira
Venha de lá esse vinho.
Manuel do Portelo (Com um copo de canada)
Lá vai à nossa... Comece por aí (dando a João da Eira) é mão de samear...
João da Eira
Está em boa mão.
Manuel do Portelo
Vossemecê é mais velho (bebem)
Mariana
Sr. Pai...
As raparigas
— Estás melhorzinha?
— Vamos para casa?
— Já não tens coisa má no corpo?
João da Eira
Ela já veio a si?
Mariana
Sr. Pai...
João da Eira
Que queres, que queres, rapariga?
Mariana
Vamos embora?
João da Eira
Como estás lá no interior?
Mariana
Estou muito cansada...
João da Eira
Pudera, não...
Manuel do Portelo
Tu conheces-me, Mariana?
Mariana
Conheço...
Manuel do Portelo
Olha que suei a agarrar-te aí pelas costas... Vá lá uma pinga, e que leve o diabo o espirito...
Mariana
Não quero... Estou em jejum.. Deixai-me... Jesus! Santo nome! Deixai-me, raparigas...
João da Eira
Então isso está fino, hein? Ó rapaziada, vá agora aqui de rópia uma cantiga, e vamos jantar depois até não levar mais a barriga...
As raparigas
Está dito.
(Em quanto elas cantam, Mariana não afasta os olhos penetrantes do arraial, como quem procura alguém com ansiedade)
Canto
Raparigas:
O demónio quis tirar-nos
Esta nossa companheira.
O maldito ia fazendo
Que ela morresse solteira.
Rapazes:
Ainda bem! Foi-se o demónio,
Solteira não morrerá;
Cá estou eu ou se há quem queira,
Se é homem, venha para cá!
(Repetem todos a primeira).
Ouve-se uma terceira risada: A cantiga pára. Mariana de um salto agarra o desconhecido.
Mariana
Aqui está... Ele aqui está.
(Grande agitação no arraial)