O Lobisomem
Cena V
João da Eira e depois um fantasma
João da Eira
Ora não há dúvida... Foi o maroto do estudante que me assustou a mulher e a filha!... Pobre rapariga! Nem eu sei como o maldito lhe não.. Ora vamos lá para casa.
(Ao virar se dá de cara com um vulto embrulhado num lençol, que vem rente com a parede da igreja, a passo solene e cadenciado. João da Eira solta um grito, recua, ataranta-se e foge para a porta do vigário. Chama e bate primeira e segunda vez, quando o fantasma estende um braço, pintado de tinta, fora do lençol).
Fantasma (Voz sepulcral)
Pára!
(João da Eira cai de joelhos).
Fantasma
Os brados de um inocente chegaram ás profundidades do meu jazigo eterno! Tu condenaste um justo de lobisomem, e esse justo invocou o testemunho dos mortos!
João da Eira
Perdão, perdão, já aqui não está quem falou...
Fantasma
Ergue-te, mortal caluniador!
João da Eira
Alma, quem quer que sejais, em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo!...
Fantasma
Escuta! É preciso que chames o vigário desta freguesia e lhe digas que uma alma do outro mundo te anunciou que Carlos de Ataíde é um santo, um anjo perdido na terra, uma pérola desengastada da coroa de um querubim.
João da Eira
Senhora alma, se lhe não custa, V. S.a faz favor de me dizer outra vez essas coisas?...
Fantasma
Quod dixi, dixi!
João da Eira (Á parte)
Aquilo é latim: como elas sabem!
Fantasma
Pedirás perdão à vítima inocente pela calúnia atroz que lhe imputaste! Os mortos acordaram do seu sono! O mistério dos túmulos foi rasgado no seu seio! (João da Eira está rezando um credo em cruz). O inferno revoltou-se nas suas chamas! E os espíritos de Satanás vagueiam sobre a tua cabeça em turbilhones... (João da Eira sacode com as mãos os turbilhões).
João da Eira
Jesus! Jesus! Em turbilhões!
Fantasma
Oh!... Oh!...
João da Eira
Eu peço perdão... Peço perdão... Digo isso tudo e o mais que vossemecê quiser...
Fantasma
Adeus! Até o dia do Juízo!
João da Eira
Passe muito bem... Até lá... Até... Lá...