O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 1 de 28

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O Lobisomem

Acto I

 

É noite de espadada.(*) Representa-se numa eira, onde se abre, ao rés-do-chão, e ao fundo, uma porta de carro, inferior a três velhas janelas de cantaria. Nestas, brilham algumas lâmpadas, formadas de papel pintado, com os seus bocados de vela no interior. Cada rapariga tem o seu cortiço, e molho de linho em rama, que castiga com a espadela, na borda do cortiço. Ao lado de cada uma, sentado no chão, está um rapaz, quebrando o feixe de linho, que passa depois à respetiva rapariga para espadelar. Elas vestem saias e jaqués de chita, com lenços vermelhos elegantemente apertados na cabeça. Eles, em mangas, e pela maior parte de chapéus de palha. Sobre um escabelo, ao lado do semicírculo, composto pelas espadeleiras, estão os rapazes que afinam rabeca, viola e outro com uma vareta e chave.

 

[(*) Espadada de “espadelar”, que consistia em bater o linho com um instrumento chamado espadela para separá-lo da sua parte mais áspera. Tal como a “noite da desfolhada” em que se tinha de desfolhar o milho, esta era uma atividade feita em comunidade numa aldeia, momento em que se reuniam os jovens (rapazes e raparigas) e em que à atividade se juntava também a celebração.]