O Lobisomem
Cena V
Manuel do Portelo, raparigas, encamisados, João da Eira
Manuel do Portelo
É ele, seu amigo da croça! Olhe que eu faço-lhe tamanha estadulhada à cabeça, que você não torna a erguer-se daí!...
As raparigas
Então porque foi isto agora?
Manuel do Portelo (Com ênfase)
É porque ele agarrou na mão da Mariana antes de chegar ao fim da cantiga...
4.° Encamisado (Galopando com o burro fantástico à frente do Manuel do Portelo).
Então por isso mata-se um homem?
Manuel do Portelo
Olha que eu bem te conheço... És o Isidro da tia Brígida... Não me estejas cá com chanças, porque eu não sou o Zê da Polinária, a quem tu na romaria da Senhora da Livração quebraste um canelo com um calhau... Ouviste?
(Os rapazes vão pegando em paus).
3. ° Encamisado
(Despindo o vestido de mulher e ficando em mangas de camisa, com o chapéu de mulher na cabeça, saí para o terreiro com o seu pão em rijas partidas).
Cá um homem é para outro... Aqui é que se vê quem tem alma... Então quem é aqui que renta? Quem tiver amargores de boca...
João da Eira
O diabo! Eu não te conhecia com esse alguidar na cabeça.. Eras tu, João Almocreve? Dá cá esse abraço...
3.° Encamisado (Com a dignidade de quem dá a razão do seu dito).
Não quero cá saber de desgraças... Todas as vezes que um homem é homem e que diz a outro, com o seu aspeto descoberto, eu sou homem para você... É que não há senão dizer — «aqui está o meu peito!» Quem é amigo, e vê o seu amigo, como diz o ditado, em resistência da sua propiá natureza, eu, se sou amigo do meu amigo e tenho o meu pão, vou-me pôr à beira do meu amigo— entende você?...
João da Eira
Tens razão... Mas não haja aqui nada...
Manuel do Portelo Arrede lá, que eu. Já não vejo esse homem. Arrede, tio João, que esse é meu.
Os encamisados, à exceção do 1.° que tem desaparecido, começam a fazer roda com os paus. O da canastra faz suas pontuadas secas, até que um dos rapazes da aldeia lhe decepa o jumento com uma paulada. As raparigas abraçam se com os da bulha, conseguem sustê-los entretanto que o 3.° encamisado mostra com acionados que está dando as suas razões ao João da Eira.
4.° Encamisado
Venham ver... Venham ver...
Vozes
Que é? (desorganizando-se inteiramente o tumulto).
4.° Encamisado (Muito aterrado).
A espo... Espo... Li... Nhar... Se.
João da Eira (Apontando aterradíssimo).
O Lo... Lo... Bis... Omem!
As raparigas
Credo! Jesus! S. Bento! Senhora da Guia!...
4. ° Encamisado
Ele aí vem... Ele aí vem!... Fujam! Fujam!...
João da Eira
Ele aí vem!... Ele aí vem!... Fujam, fujam. .
Raparigas
Ai Jesus í ai Jesus! Ai Jesus!
(Entram em magote pela porta de carro, à exceção de Mariana, que se esconde a um lado da eira. O lobisomem aparece efetivamente em correrias, à laia do procurador do Duende. Vem com um vestido justaposto ao corpo, negro, com rabo de cavalo muito comprido, e o mesmo focinho de cão que há pouco trazia na qualidade de 1.° Encamisado. Faz algumas piruetas na cena entretanto que o tumulto se engolfa pelo portal do lavrador. Fechada a porta, Mariana aparece; o lobisomem pega-lhe da mão, e foge com ela.)
João da Eira
Olhem se a Mariana entrou... Mariana! Mariana! (Aparece na janela bradando por a filha. O lobisomem torna à cena, e João fecha rapidamente, bradando: — Oh diabo! Que ele aí torna! — O lobisomem desaparece).
(FIM DO PRIMEIRO ACTO)