O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 4 de 28

Páginas do PDF

O Lobisomem

Cena Iii

1.° encamisado e Manuel do Portelo enquanto João da Eira não

torna a aproximar-se

 

1.° Encamisado

Que fazes tu, Manuel do Portelo? Andas atrás da Mariana da Eira?

 

Manuel do Portelo

E tu que te importa atrás de quem eu ando! O por agora não dou satisfações a ninguém.

 

1.° Encamisado (Zombando)

Satisfações!!! Que estás aí a dizer, meu pelego? (ri-se muito e quer dar-lhe uma chapelada).

Manuel do Portelo

Pelego! Não me toques, olha que te arrumo pela orelha!... Acajo que me pareces...

 

1.° Encamisado (Rindo cada vez mais e apontando)

Acajo!! Acajo!! Que grande parrano! O meu gosto era dar-te um revés de cascudo.

 

Manuel do Portelo (Medindo-o de alto a baixo)

Os diabos me levem se tu não és o estudante...

 

1.° Encamisado

Que estudante!? Meu gebo! Diz, gebíssima criatura!.,.

 

Manuel do Portelo

Aquele magricelas que veio da vila estudar as gramáticas para casa do Sr. Vigairo...

1.° Encamisado (Com seriedade)

Deixas-me dar-te uma palmada nesse tambor que trazes na cabeça?

 

Manuel do Portelo

Pois olha... Se eu soubesse que eras o estudante...

 

1.° Encamisado

Não sou, palavra de honra! Mas tu se o visses atiravas-lhe, meu Manel?!

 

Manuel do Portelo

Não sei o que seria... (O encamisado vai-se retirando). Ele é este diabo!... (á parte).

 

1.° Encamisado Vou beber à saúde da tua Mariana... (Retira se para o grupo).

 

Manuel do Portelo

Em veneno se te faça no estômago!... Eu não sei, mas ele não é outro... Ó tio João, olhe aqui, que já vai... (Chamando João da Eira, que estava entre as espadeleiras)

 

João da Eira

Que queres, homem? Acaba lá com isso de uma vez...

 

Manuel do Portelo

Em cortesia... Olhe que o lobisomem anda aí...

 

João da Eira (Sobressaltado.)

Tu que dizes, Manuel? Jesus!... Ó gentes!...

Manuel do Portelo

Olhe cá, tio João, em cortesia; anda aqui o lobisomem, mas está no aspeto da própria pessoa, como vossemecê disse...

 

João da Eira

Ora vai destampar gamelas... És um tolo, um fracalhão...

 

Manuel do Portelo

O que? Ó tio João... Ainda o meu centeio, o comam as cabras, se isto não é tal e qual.

 

João da Eira

Então, diz lá quem é... Quem é o lobisomem?

 

Manuel do Portelo

É o estudante que anda aí com a croça... Vê-o a falar com a Mariana?

João da Eira

Tu sabes lá quem é!... Ei-lo aí vem...

 

1.° Encamisado

E o lobisomem? (João muito espantado a olhar para ele).

 

João da Eira

E o lobisomem!... Tu quem és, ó careta?...

L.° Encamisado

Eu sou o Zé da Zefa, filho da Zefa e do Zê, neto do Manel da Brígida, e da Brígida do Manel...

 

João da Eira

O que me pareces é que és um grande brejeiro... Olha que me disseram umas coisas que não te são muito boas se forem como por aí se diz...

1.° Encamisado

Ó tio João, vossemecê deixa-me meter ferro aqui ao Manuel?

 

João da Eira (Formalizado)

Meter ferro!! Queres-lhe dar alguma facada?!...

 

Manuel do Portelo (Fazendo roda com o pau e cuspindo nas mãos)

Arrede daí, tio João, arrede, que eu sempre quero ver quem são os homens.

 

João da Eira

Victo serio... Não haja nada...

 

As raparigas cantam e espadam ao mesmo tempo. O 1.° encamisado, sem dar importância ás ameaças do Manuel do Portelo, vai sentar-se ao pé de Mariana, que o recebe muito risonha. João da Eira e Manuel do Portelo vão-no seguindo, e acenando de longe.

 

Canto

Duzentos galegos

Não fazem um homem,

Porque quando comem

Seu dinheiro, meu dinheiro,

Homem embusteiro,

Que arriscado andas... Etc.

 

Findo o canto, o 1.° e 4.° encamisados vem à boca da cena, conversam ao passo que os outros entretém-se em volta da estúrdia que afina os instrumentos.