O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 28

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O Lobisomem

Cena Iii

Os mesmos, mais povo e um padre

 

(Aos gritos de Mariana apinha se povo; acode uma patrulha e um padre de sobrepeliz, com um ripanço e caldeirinha.)

 

Patrulha

Que é isto aqui? Que fazem a esta mulher?

 

João da Eira

É a minha filha que tem o diabo no corpo... Aqui está um Sr. Padre... Faz favor de rezar-lhe os exorcismos?

 

Mariana (Debatendo-se nos braços de eles)

Não quero, não quero, deixem-me respirar, que estou abafada. Pelo amor de Deus...

 

Padre

Benzam se todos (executam com grande aparato de devoção) Espirito diabólico, eu te requeiro! Que queres desta criatura?

 

Mariana

Quero ir para minha casa...

 

Padre

Há quanto tempo te meteste no corpo desta criatura?

 

(Um mancebo bem trajado, com meio rosto tapado por um lenço branco, solta uma desatada risada, e some-se na multidão. Aquela gente assusta-se, e Mariana grita com grande esforço.)

Mariana

E ele... E ele a rir-se de mim!

 

Padre

Ele... Quem?

 

Vozes

E o espírito que saiu...

 

Padre

Tragam o santo! Tragam o santo! (O povo põe-lhe o santo na cabeça).

 

Mariana

Tirem-me este peso da cabeça... Tirem-me isto... Ai que me abafam! João da Eira

Olha o espírito a estrebuchar... Anda, que hás de sair para fora...

 

Manuel do Portelo

Isso é que é verdade... Ou ele não entrasse...

 

Padre

Calem-se vocês.

 

Mariana

Senhor pai... Eu que mal lhe fiz? Manuel! Não me apertes... Que me quebras este braço... Te renego, te renego!...

 

João da Eira

Então, é ou não é espírito?

Povo

E, é, cruzes... (fazendo cruzes com os dedos a Mariana.)

 

Padre (Aspergindo água benta)

Espirito! Eu te requeiro, em nome das três pessoas da Santíssima Trindade. Ou tenhas entrado de telhas abaixo, ou portas acima, de noite ou de dia, ás claras ou ás escuras, na água ou na terra, na comida ou na bebida, no vestir ou calçar, em seda ou linho, ou estopa, ou qualquer matéria de fiação...

(Ouve-se outra risada do mesmo que se rira anteriormente que outra vez se some).

 

Mariana (Apontando)

É ele... É aquele!

 

João da Eira

Ande, Sr. Padre, que me parece que ele já se foi...

Padre

 

Demónio! Deixa a criatura; eu te exorcizo, eu te requeiro, eu te condeno para as profundidades do inferno.

 

Vozes

Amem. Amem.

 

Mariana (Apontando o desconhecido que reaparece)

Ah!... Ah!... (desmaia).

 

João da Eira

Parece-me que se foi desta vez, Sr. Padre.

 

Padre Vamos ver. Espirito ruim! Demónio tentador das criaturas! Ela não se meche?

 

João da Eira

E que nada.

 

Manuel do Portelo (Largando-a)

Não vê, Sr. Padre... Ela aí está mansa como um borrego...

 

Padre

Podeis ir com Deus. Esta rapariga já não tem espirito.

 

João da Eira

Deus lhe dê saúde (mete lhe dinheiro na mão) e perdoará!...

(O padre saí).