O Lobisomem
Cena I
João da Eira, Mariana, Manuel do Portelo, Miquelina e os mais
descritos
(Ao correr do pano canta Miquelina)
Já fui canário do rei,
Já lhe fugi da gaiola.
Coro
Sim, sim, eu vou lá,
Ó Marianinha,
Sim, sim, eu lá vou
Ó pequerruchinha.
Agora sou pintassilgo
Destas meninas de agora.
Coro
Sim, sim, eu vou lá
Etc., etc.
O sete-estrelo vai alto,
Alto vai o pensamento.
Coro
Sim, sim, eu vou lá
Etc., etc.
Eu não quero mais amores,
Tenho amores mais de um cento.
Coro
Sim, sim, eu vou lá...
João da Eira
Assim é que eu quero ver-vos, cachopas!... Vivam as cantadeiras, e viva toda a rapaziada!
Vozes
E viva o tio João da Eira!
João da Eira
Deus vos ouça, gente! Tendes vós mastigado e bebido que farte?
Vozes
Temos, temos, louvado Deus!
Uma voz
Aqui não se pergunta, tio João. Oxalá que de hoje a um ano vossemecê e nós estejamos aqui todos juntos, e de saúde.
João da Eira
Oxalá, rapazes. Então (para os tocadores) vós não cantais ao desafio? Ora vá, António da Rita, dá aí duas rabecadas.
Os tocadores
Lá vamos. (Começam a afinar com umas posturas que lhes são especiais).
João da Eira (Para a filha)
Então, rapariga, estás aí para um canto, que ninguém te vê?!
Mariana (Triste)
Estava aqui a conversar com a Miquelina.
João da Eira
Estavas... Mas era lá com as tuas maginações... Nada de tristezas... Canta com as outras cachopas... Já te não ouço cantar há tanto tempo...
Mariana
Aí está muito quem cante... Eu vou para o pé da mãe; que está lá sozinha na cama...
João da Eira
Não está sozinha, não: há lá gente de sobra
Miquelina
É verdade, tio João, como está a tia Maria?
João da Eira
Como há de ela estar!... Assombrada... Não quer sair dos lençóis.
Uma das raparigas
Não que ele a falar a verdade...
Outra
Não sabe, tio João? O lobisomem apareceu ontem na eira do tio Manuel do Quinchoso.
João da Eira
Que me dizes?
Manuel do Portelo
Isso é verdade... Vi-o com estes dois que a terra há de comer.
João da Eira
Então sempre tem razão a minha Maria...
Miquelina
Ó Mariana, tu também viste o lobisomem?
Mariana
Deixai-me...
João da Eira
Olha a tola, a não querer dizer que o viu, com medo que ele lhe apareça... Conta lá isso, rapariga.
Mariana
Tenho medo... Sempre ouvi dizer — lobisomem falado, lobisomem ao lado.
João da Eira
Quer sim, quer não, eu vos conto. Faz hoje 8 dias que a minha Maria vinha do serão da tia Brásia com a minha Mariana...
Mariana
Eu tinha saído um poucachinho adiante...
João da Eira
Certamente, tu tinhas saído um poucachinho adiante, e a tua mãe estava a acender o fachoqueiro à porta da tia Brásia... Foi assim, rapariga?
Mariana
Foi, sim, senhor.
João da Eira E nisto vem o lobisomem a correr, passa de repente ao pé da minha Maria, e apaga-lhe o fachoqueiro.
Vozes (De mulher)
Credo! Credo!
João da Eira
E a minha velha tomou tal pasmo, que se meteu em casa, pôs o ferrolho na porta, e gritou, gritou, até que a vieram buscar, enfiada na cama como se tivesse doente!!!
Miquelina
Não, que uma coisa assim, ó raparigas!...
Uma delas
E tu para onde fugiste, ó Mariana?
Mariana
Eu!...
João da Eira
Essa veio muito depois para casa, e entrou-me na cozinha, toda arrepiada, cos cabelos caídos, e a tremer como varas verdes!
Manuel do Portelo
Eu sempre queria conhecer o tal lobisomem... Estou cá a desconfiar... Enfim, não quero dizer nada...
João da Eira
Que desconfias tu? Diz lá, homem...
Manuel do Portelo
Eu lhe direi a vossemecê...
Mariana
Ora não falem nessas coisas... Estávamos tão contentes, e vêm meter medos à gente...
Manuel do Portelo (Vergando o cajado)
Não... Eu, se ele por aqui passasse... Não sei, mas, se é fado, eu sempre era homem de lho cortar...
Uma das raparigas
Era uma obra de caridade fazer-lhe sangue... Dizem que se lhe quebra o encantamento...
Mariana
Vamos nós cantar, raparigas?
João da Eira E melhor, é... (para os da estúrdia) Então esses instrumentos estão afinados?
Um deles
Estão aqui, estão prontos (continuam a afinar com muitas expressões e gatimanhos — Ouve-se o estrépido cadenciado das espadelas. Vem de longe um som de buzinas de monte.)
Vozes
Aí vêm os encamisados...
João da Eira
São os rapazes de Escarei, querem vocês ver?! Deixa-los vir com bem... Ó rapaziada, eu não quero bulhas a troco de quezílias com a minha espadada... Deixem-nos brincar, e brinquem vocês também...
Alguns rapazes (Erguendo-se e espreguiçando-se)
Não há de haver nada, tio João.
João da Eira
Isso é o que se quer... Mas onde ides vós?
Um deles
Vamos cá pró pé da estúrdia.
Uma rapariga
António!... Olha lá se... Senta-te aqui, anda...
Outra
Ó Zé, senta-te aqui... Vós, quando lá ides ás espadadas deles, também não gostais que vos façam apupadas...
Manuel do Portelo Não há de haver sangue, se Deus quiser...
Mariana (Com aversão)
Não quele, se te parece... Dá-lhe...
Manuel do Portelo
Não há de haver nada, Mariana.
João da Eira
Afinastes isso, rapazes? Ó homem!...
Tocadores
É como diz.
(Tocam a chula O da rabeca, principalmente, desengonça-se em variadas atitudes; o da vareta, como orgulhoso de si, dá ao instrumento as inflexões de uma harpa; o da viola, depois de tossir com as costumadas formalidades, descanta a seguinte trova):
Ainda agora aqui cheguei,
Mentir não sei.
Mais cedo não pude vir.
(Pausa)
Mas ainda venho a tempo,
És meu tormento,
De tuas falas ouvir.
João da Eira
Então, Miquelina, aquilo é contigo... Venha de lá essa resposta, e não te demores... Olha que ele já lá tem outra...
O mesmo cantor
Se me não queres responder,
Eu to vou dizer,
Eu to vou explicar.
(Pausa)
João da Eira
Vês, Miquelina, eu que te disse?
Cantor
E por eu ter fraca voz,
Beicinhos de retrós,
Para contigo cantar.
(Os rapazes gesticulam em ar de aprovação: o cantor revela todo o entusiasmo do seu triunfo.)
João da Eira
Então, deixas-te ficar mal, rapariga?
As raparigas
Responde, Miquelina.
Miquelina (Canta)
Para contigo cantar,
Rapaz da vida,
Não é preciso aprender.
(Pausa)
Eu não canto porque saiba.
Ai la ri ló léra,
E porque quero saber.
João da Eira (E as raparigas)
Foi boa, foi boa... Responde-lhe agora, se tens alma... Manuel do Portelo (Com intimativa)
Qualquer deles sabe o que diz... No outro ano, na Senhora da Guia, quando eles cantaram, ficou ensilveirada a romaria por este par de anos... Aquilo é que foi... Até lá estava a ouvi-los o Sr. Vigário!...
(As buzinas soam perto).
João da Eira
Eles aí vêm. Ó Mariana, vai à pipa da aduela rachada tirar um pichei de vinho para os encamisados... Traz uma broa e a faca de cabo de osso, se eles quiserem mastigar.
Manuel do Portelo (Arcando o pão com a perna)
Eu queria mas era mastigar-lhe os ossos... Raios me partam se...
João da Eira
Que estás tu aí a dizer, Manuel do Portelo? Tu estás com uma má filosofia de rosto... Ora anda com as tuas rópias e chulices... Que eu bem sei o que hei de fazer...
Um dos rapazes (A meia voz)
Toma conta, Manuel, que ele é capaz de te não dar a Mariana...
Manuel do Portelo
Eu tenho cá meus alvitres de descascar este carvalho nas costas daquele casaca lá da vila... Se ele vier...