O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 2 de 28

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O Lobisomem

Cena I

João da Eira, Mariana, Manuel do Portelo, Miquelina e os mais

descritos

(Ao correr do pano canta Miquelina)

 

Já fui canário do rei,

Já lhe fugi da gaiola.

 

Coro

Sim, sim, eu vou lá,

Ó Marianinha,

Sim, sim, eu lá vou

Ó pequerruchinha.

Agora sou pintassilgo

Destas meninas de agora.

 

Coro

Sim, sim, eu vou lá

Etc., etc.

 

O sete-estrelo vai alto,

Alto vai o pensamento.

 

Coro

Sim, sim, eu vou lá

Etc., etc.

 

Eu não quero mais amores,

Tenho amores mais de um cento.

Coro

Sim, sim, eu vou lá...

 

João da Eira

Assim é que eu quero ver-vos, cachopas!... Vivam as cantadeiras, e viva toda a rapaziada!

 

Vozes

E viva o tio João da Eira!

 

João da Eira

Deus vos ouça, gente! Tendes vós mastigado e bebido que farte?

 

Vozes

Temos, temos, louvado Deus!

Uma voz

Aqui não se pergunta, tio João. Oxalá que de hoje a um ano vossemecê e nós estejamos aqui todos juntos, e de saúde.

 

João da Eira

Oxalá, rapazes. Então (para os tocadores) vós não cantais ao desafio? Ora vá, António da Rita, dá aí duas rabecadas.

 

Os tocadores

Lá vamos. (Começam a afinar com umas posturas que lhes são especiais).

 

João da Eira (Para a filha)

Então, rapariga, estás aí para um canto, que ninguém te vê?!

 

Mariana (Triste)

Estava aqui a conversar com a Miquelina.

 

João da Eira

Estavas... Mas era lá com as tuas maginações... Nada de tristezas... Canta com as outras cachopas... Já te não ouço cantar há tanto tempo...

 

Mariana

Aí está muito quem cante... Eu vou para o pé da mãe; que está lá sozinha na cama...

 

João da Eira

Não está sozinha, não: há lá gente de sobra

 

Miquelina

É verdade, tio João, como está a tia Maria?

João da Eira

Como há de ela estar!... Assombrada... Não quer sair dos lençóis.

 

Uma das raparigas

Não que ele a falar a verdade...

 

Outra

Não sabe, tio João? O lobisomem apareceu ontem na eira do tio Manuel do Quinchoso.

 

João da Eira

Que me dizes?

 

Manuel do Portelo

Isso é verdade... Vi-o com estes dois que a terra há de comer.

João da Eira

Então sempre tem razão a minha Maria...

 

Miquelina

Ó Mariana, tu também viste o lobisomem?

 

Mariana

Deixai-me...

 

João da Eira

Olha a tola, a não querer dizer que o viu, com medo que ele lhe apareça... Conta lá isso, rapariga.

 

Mariana

Tenho medo... Sempre ouvi dizer — lobisomem falado, lobisomem ao lado.

João da Eira

Quer sim, quer não, eu vos conto. Faz hoje 8 dias que a minha Maria vinha do serão da tia Brásia com a minha Mariana...

 

Mariana

Eu tinha saído um poucachinho adiante...

 

João da Eira

Certamente, tu tinhas saído um poucachinho adiante, e a tua mãe estava a acender o fachoqueiro à porta da tia Brásia... Foi assim, rapariga?

 

Mariana

Foi, sim, senhor.

 

João da Eira E nisto vem o lobisomem a correr, passa de repente ao pé da minha Maria, e apaga-lhe o fachoqueiro.

 

Vozes (De mulher)

Credo! Credo!

 

João da Eira

E a minha velha tomou tal pasmo, que se meteu em casa, pôs o ferrolho na porta, e gritou, gritou, até que a vieram buscar, enfiada na cama como se tivesse doente!!!

 

Miquelina

Não, que uma coisa assim, ó raparigas!...

 

Uma delas

E tu para onde fugiste, ó Mariana?

Mariana

Eu!...

 

João da Eira

Essa veio muito depois para casa, e entrou-me na cozinha, toda arrepiada, cos cabelos caídos, e a tremer como varas verdes!

 

Manuel do Portelo

Eu sempre queria conhecer o tal lobisomem... Estou cá a desconfiar... Enfim, não quero dizer nada...

 

João da Eira

Que desconfias tu? Diz lá, homem...

 

Manuel do Portelo

Eu lhe direi a vossemecê...

Mariana

Ora não falem nessas coisas... Estávamos tão contentes, e vêm meter medos à gente...

 

Manuel do Portelo (Vergando o cajado)

Não... Eu, se ele por aqui passasse... Não sei, mas, se é fado, eu sempre era homem de lho cortar...

 

Uma das raparigas

Era uma obra de caridade fazer-lhe sangue... Dizem que se lhe quebra o encantamento...

 

Mariana

Vamos nós cantar, raparigas?

 

João da Eira E melhor, é... (para os da estúrdia) Então esses instrumentos estão afinados?

 

Um deles

Estão aqui, estão prontos (continuam a afinar com muitas expressões e gatimanhos — Ouve-se o estrépido cadenciado das espadelas. Vem de longe um som de buzinas de monte.)

 

Vozes

Aí vêm os encamisados...

 

João da Eira

São os rapazes de Escarei, querem vocês ver?! Deixa-los vir com bem... Ó rapaziada, eu não quero bulhas a troco de quezílias com a minha espadada... Deixem-nos brincar, e brinquem vocês também...

 

Alguns rapazes (Erguendo-se e espreguiçando-se)

Não há de haver nada, tio João.

 

João da Eira

Isso é o que se quer... Mas onde ides vós?

 

Um deles

Vamos cá pró pé da estúrdia.

 

Uma rapariga

António!... Olha lá se... Senta-te aqui, anda...

 

Outra

Ó Zé, senta-te aqui... Vós, quando lá ides ás espadadas deles, também não gostais que vos façam apupadas...

 

Manuel do Portelo Não há de haver sangue, se Deus quiser...

 

Mariana (Com aversão)

Não quele, se te parece... Dá-lhe...

 

Manuel do Portelo

Não há de haver nada, Mariana.

 

João da Eira

Afinastes isso, rapazes? Ó homem!...

 

Tocadores

É como diz.

(Tocam a chula O da rabeca, principalmente, desengonça-se em variadas atitudes; o da vareta, como orgulhoso de si, dá ao instrumento as inflexões de uma harpa; o da viola, depois de tossir com as costumadas formalidades, descanta a seguinte trova):

Ainda agora aqui cheguei,

 

Mentir não sei.

Mais cedo não pude vir.

(Pausa)

Mas ainda venho a tempo,

És meu tormento,

De tuas falas ouvir.

 

João da Eira

Então, Miquelina, aquilo é contigo... Venha de lá essa resposta, e não te demores... Olha que ele já lá tem outra...

 

O mesmo cantor

Se me não queres responder,

Eu to vou dizer,

Eu to vou explicar.

(Pausa)

 

João da Eira

Vês, Miquelina, eu que te disse?

 

Cantor

E por eu ter fraca voz,

Beicinhos de retrós,

Para contigo cantar.

(Os rapazes gesticulam em ar de aprovação: o cantor revela todo o entusiasmo do seu triunfo.)

 

João da Eira

Então, deixas-te ficar mal, rapariga?

As raparigas

Responde, Miquelina.

 

Miquelina (Canta)

Para contigo cantar,

Rapaz da vida,

Não é preciso aprender.

(Pausa)

 

Eu não canto porque saiba.

Ai la ri ló léra,

E porque quero saber.

 

João da Eira (E as raparigas)

Foi boa, foi boa... Responde-lhe agora, se tens alma... Manuel do Portelo (Com intimativa)

Qualquer deles sabe o que diz... No outro ano, na Senhora da Guia, quando eles cantaram, ficou ensilveirada a romaria por este par de anos... Aquilo é que foi... Até lá estava a ouvi-los o Sr. Vigário!...

(As buzinas soam perto).

 

João da Eira

Eles aí vêm. Ó Mariana, vai à pipa da aduela rachada tirar um pichei de vinho para os encamisados... Traz uma broa e a faca de cabo de osso, se eles quiserem mastigar.

 

Manuel do Portelo (Arcando o pão com a perna)

Eu queria mas era mastigar-lhe os ossos... Raios me partam se...

 

João da Eira

Que estás tu aí a dizer, Manuel do Portelo? Tu estás com uma má filosofia de rosto... Ora anda com as tuas rópias e chulices... Que eu bem sei o que hei de fazer...

 

Um dos rapazes (A meia voz)

Toma conta, Manuel, que ele é capaz de te não dar a Mariana...

 

Manuel do Portelo

Eu tenho cá meus alvitres de descascar este carvalho nas costas daquele casaca lá da vila... Se ele vier...