O Lobisomem
Cena Xii
Os mesmos, João da Eira e o suposto Esposado (vestindo como Carlos, e com o mesmo lenço apertado a meia cara).
João da Eira (Muito contente)
O nosso esposado vem a rezar a penitência... Ele não diz nada...
Vigário (Que tem vindo com a multidão).
Eu cá vou preparar isto à capela.
(Sai).
Vozes no arraial
É um casamento! É um casamento!...
João da Eira (Para o esposado)
Então que é isso? Doem-lhe os queixos?
Esposado
Sim.
João da Eira
Foi da água fria quando comungou... Quer um golo de licor?
Esposado
Não.
Manuel do Portelo
Parece que está a não querer falar, ó Sr. Estudante!
Esposado
Sim.
Mariana (Aproximando-se com receio)
Estás doente dos dentes?
Esposado
Não; sim.
Mariana (Abraçando Miquelina).
Não sei que adivinho?...
João da Eira
Sim, ou não?
Esposado
Não, sim, sim, não, não, sim...
Manuel do Portelo
Este diabo está a fazer-se maluco!... Se não fosse ser coisa do Sr. João, tamanha lombada lhe escorregava pelas costelas...
Vigário (Vindo da capela)
Está tudo pronto; vamos, Sr. Carlos de Ataíde...
Esposado
Sim, não, não, sim.
Vigário
Esta voz não é a dele!... Tire lá esse lenço...
Esposado
Sim. Não, não, sim, sim. Não.
Manuel do Portelo
Qual não, nem sim. (Arranca-lhe o lenço).
Grito geral de surpresa. O criado ri-se.
Manuel do Portelo
É o Manuel da Pitosga!
Vozes
Sem tirar nem pôr.
Criado (Rindo muito).
É como diz. Sou o Manuel da Pitosga com a roupa do meu amo.
Vigário
Oh meu Deus! Que aflição!... Que vergonha!... Que é do teu amo?
Criado
Eu sei cá dele!... Vestiu o meu fato,, e fugiu-se...
Vigário
Que vergonha! Que infâmia!
Mariana (Abraçando Miquelina)
Miquelina... Não sejas minha inimiga...
(As outras começam a retirar-se com cara de desprezo.)
João da Eira (Chorando)
Que grande desgraça!... O que não será falado isto!... Rapariga! Eu não te tratarei mal... O que eu tenho teu é... Terás sempre que comer ao menos... Já que não tens... Honra...