O Lobisomem

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 28

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O Lobisomem

Cena I

Vigário, rapazes, raparigas, João da Eira

 

Alguns rapazes cios que vimos no 1.° acto, vestidos de festa, disparam os seus bacamartes, e mostram-se muito azafamados neste entretimento. Ouve se o sino da igreja repicando. Depois, do interior do templo, saem uns esposados, a quem muitas raparigas lançam flores, entre ruidosas aclamações de flores à desposada! Os rapazes continuam o seu tiroteio, com grande garbo e aprazimento das suas pessoas. Entre a multidão avulta a pessoa do Sr. João da Eira, com o seu imenso casaco azul e sem gravata. A desposada e desposado podem ser quaisquer figurantes. Acresce aos designados o reverendo pároco da freguesia, de estola e sobrepeliz.

 

Vigário (Sorrindo)

Calai lá a boca a esses bacamartes, rapazes! Quem vos ouvir pensará que anda por cá revolução popular...

 

Rapazes

Vivam os desposados!

 

Vigário

Vivam, e sejam venturosos, por larga vida e felizes anos.

 

O desposado

E V. S.a, que os conte, Sr. Reverendo vigário, na companhia de quem mais seu gosto for.

 

Vigário

Então, cachopas, vós antes cantavam como em nenhuma freguesia destes arredores se cantam as nossas modas. Naturalmente, estais tristes por não casardes também!...

As raparigas

Agora estamos...

 

Vigário

Pois, então, cantai alguma coisa em honra da vossa companheira.

 

Miquelina

Que havemos nós cantar?

 

Vigário

O que quiserdes.

 

Uma das raparigas

Ó Miquelina, começa lá aquela da Donzela porque não casas?.,. Gosta, Sr. Reverendo vigário?...

Vigário

O que quiserdes, o que quiserdes.

 

Miquelina (Canta)

Donzela, porque não casas,

Com rapaz que bem te queira?

Coitadinha! Não te querem

Porque não és cantadeira?

 

Coro

Coitadinha! Não te querem

Porque não és cantadeira?

Tenho uma casa de meu,

 

E também tenho uma leira, Tenho bragal, tenho ouro,

Tenho alma verdadeira.

 

Coro

Coitadinha, etc.

 

Também canto umas cantigas,

Que eu só sei cantar na aldeia;

Mas ninguém me quer... Paciência!

Já sei que morro solteira...

 

Coro de homens

Queres tu comigo casar,

Donzela, se és cantadeira?

 

Solo — Casarei, se me tu queres Com afeição verdadeira.

 

Coro geral — (Alegro) Ora, pois, seja louvado

O Senhor que vos juntou;

Quem quis cantar para casar,

Sempre no mundo casou.

 

Vigário

Deus vos abençoe, meninas! Ide, ide, que já

Não é cedo... Inda_ agora reparo!... O? Sr. João da Eira, a sua Mariana não veio!?

 

João da Eira (Com tristeza)

A minha Mariana, Sr. Reverendo vigário... A esse respeito temos que falar em particular.

Vigário

Sim?... Pois nesse caso ficaremos... Ide, ide na paz do Senhor... Que lembrança foi a vossa em guardar este casamento para tão tarde, nestes dias de inverno!?

 

O desposado

Foi o alfaiate da vila que me fez este casaco, e mandou-mo depois do meio dia.

 

Vigário

Deixa lá ver... Anda lá, que está como se quer... Adeus, adeus.

 

Muitas vozes alternadas

Adeus, Sr. Vigário. Fique com a nossa Senhora: passe muito bem, até outra vez, etc.

(O sino e os tiros recomeçam, e calam-se rapidamente.)