O Lobisomem
Cena I
Vigário, rapazes, raparigas, João da Eira
Alguns rapazes cios que vimos no 1.° acto, vestidos de festa, disparam os seus bacamartes, e mostram-se muito azafamados neste entretimento. Ouve se o sino da igreja repicando. Depois, do interior do templo, saem uns esposados, a quem muitas raparigas lançam flores, entre ruidosas aclamações de flores à desposada! Os rapazes continuam o seu tiroteio, com grande garbo e aprazimento das suas pessoas. Entre a multidão avulta a pessoa do Sr. João da Eira, com o seu imenso casaco azul e sem gravata. A desposada e desposado podem ser quaisquer figurantes. Acresce aos designados o reverendo pároco da freguesia, de estola e sobrepeliz.
Vigário (Sorrindo)
Calai lá a boca a esses bacamartes, rapazes! Quem vos ouvir pensará que anda por cá revolução popular...
Rapazes
Vivam os desposados!
Vigário
Vivam, e sejam venturosos, por larga vida e felizes anos.
O desposado
E V. S.a, que os conte, Sr. Reverendo vigário, na companhia de quem mais seu gosto for.
Vigário
Então, cachopas, vós antes cantavam como em nenhuma freguesia destes arredores se cantam as nossas modas. Naturalmente, estais tristes por não casardes também!...
As raparigas
Agora estamos...
Vigário
Pois, então, cantai alguma coisa em honra da vossa companheira.
Miquelina
Que havemos nós cantar?
Vigário
O que quiserdes.
Uma das raparigas
Ó Miquelina, começa lá aquela da Donzela porque não casas?.,. Gosta, Sr. Reverendo vigário?...
Vigário
O que quiserdes, o que quiserdes.
Miquelina (Canta)
Donzela, porque não casas,
Com rapaz que bem te queira?
Coitadinha! Não te querem
Porque não és cantadeira?
Coro
Coitadinha! Não te querem
Porque não és cantadeira?
Tenho uma casa de meu,
E também tenho uma leira, Tenho bragal, tenho ouro,
Tenho alma verdadeira.
Coro
Coitadinha, etc.
Também canto umas cantigas,
Que eu só sei cantar na aldeia;
Mas ninguém me quer... Paciência!
Já sei que morro solteira...
Coro de homens
Queres tu comigo casar,
Donzela, se és cantadeira?
Solo — Casarei, se me tu queres Com afeição verdadeira.
Coro geral — (Alegro) Ora, pois, seja louvado
O Senhor que vos juntou;
Quem quis cantar para casar,
Sempre no mundo casou.
Vigário
Deus vos abençoe, meninas! Ide, ide, que já
Não é cedo... Inda_ agora reparo!... O? Sr. João da Eira, a sua Mariana não veio!?
João da Eira (Com tristeza)
A minha Mariana, Sr. Reverendo vigário... A esse respeito temos que falar em particular.
Vigário
Sim?... Pois nesse caso ficaremos... Ide, ide na paz do Senhor... Que lembrança foi a vossa em guardar este casamento para tão tarde, nestes dias de inverno!?
O desposado
Foi o alfaiate da vila que me fez este casaco, e mandou-mo depois do meio dia.
Vigário
Deixa lá ver... Anda lá, que está como se quer... Adeus, adeus.
Muitas vozes alternadas
Adeus, Sr. Vigário. Fique com a nossa Senhora: passe muito bem, até outra vez, etc.
(O sino e os tiros recomeçam, e calam-se rapidamente.)