O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 1 de 28

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O Mistério do Trem Azul

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O MISTÉRIO

 

DO TREM AZUL

 

Agatha Christie

Título original

THE MISTERY OF THE BLUE TRAIN

 

Tradução

FERNANDA PINTO RODRIGUES

 

Capa

FORTESPÓLIO

 

Licença Editorial por cortesia de Livros do Brasil Impresso e encadernado por Tilgráfica, S.A. no mês de

Dezembro de 1996

Número de edição: 4044

Depósito legal número 104 320/96

ISBN 972-42-1465-6

Era quase meia-noite quando atravessou a

Praça da Concórdia um homem que, apesar do elegante casaco de peles que lhe cobria o corpo magro, tinha um não sei quê de vulnerável e sórdido.

Era um homenzinho de cara de rato, um

indivíduo que, dir-se-ia, jamais poderia desempenhar papel importante ou tornar-se proeminente em qualquer esfera.

Contudo, quem chegasse a essa conclusão

precipitada laboraria em erro, pois este homem de aspecto insignificante e desprezível desempenhava papel importante no destino do mundo: num império governado por ratos, era o rei da rataria.

Naquele momento, por exemplo,

aguardavam o seu regresso numa Embaixada, mas primeiro tinha assuntos a tratar - assuntos de que a Embaixada não era, oficialmente, conhecedora. O seu rosto brilhava, branco e astuto, ao luar, que lhe sublinhava a levíssima curva do nariz. Seu pai fora judeu polaco e oficial de alfaiate, mas por certo teria gostado de um negócio como o que, naquela noite, ocupava o filho.

O homenzinho atravessou o Sena e entrou

num dos bairros menos respeitáveis de Paris, parou diante de uma casa alta, em ruínas, e subiu ao quarto andar.

Mal tivera tempo de bater, uma mulher que

evidentemente o esperava abriu a porta e, sem o cumprimentar, ajudou-o a despir o sobretudo e conduziu-o a uma sala mobiliada com espalhafato e falta de gosto. Velavam as lâmpadas elétricas quebra-luzes encarnados e sujos que, embora suavizassem, não disfarçavam a crueza do rosto muito pintado da rapariga nem, tão-pouco, as suas feições mongólicas. Não restavam dúvidas quanto à profissão e à nacionalidade de Olga Demiroff.

- Corre tudo bem, pequenina? - Tudo, Boris Ivanovitch.

O homem acenou com a cabeça e

murmurou:

- Não creio que me tenham seguido... - No

entanto, o tom da sua voz denunciava ansiedade.

Aproximou-se da janela, afastou um

pouco a cortina e espreitou, cuidadosamente.

- Estão dois homens no passeio, ali defronte!

- exclamou, recuando cheio de pressa. - Parece-me... calou-se e começou a roer as unhas, hábito que tinha quando estava preocupado.

A rapariga russa abanou a cabeça,

num movimento lento e tranqüilizador, e afirmou:

- Já aí estavam antes de chegares. - Mesmo assim, parece que estão a vigiar

esta casa...

- Possivelmente - admitiu, com indiferença. - Mas então...

- Que tem isso? Mesmo que saibam, não será

a ti que seguirão, quando saíres.

- Não - concordou, com um sorrisinho

cruel -, lá isso é verdade. - Refletiu, por momentos, e depois comentou: - O maldito americano deve saber defender-se.

- Creio que sim.

- Tipos duros - murmurou o homem, com

uma pequena gargalhada, acercando-se de novo da janela.

- Conhecidos da Polícia, suponho... Enfim,

desejo boa caçada aos amigos bandidos.

- Se o americano é o tipo de homem que

dizem, serão precisos mais do que dois reles celerados para lhe levarem a melhor - observou a rapariga. - Pergunto a mim mesma...

- O quê?

- Nada. Esta noite passou duas vezes por

aqui um homem... um homem de cabelo branco...

- Que tem isso?

- Ao passar por aqueles dois, deixou cair uma

luva, um deles apanhou-a e devolveu-lha. Estratagema evidentíssimo.

- Queres dizer que o tal indivíduo de cabelo

branco é o patrão deles?

- Mais ou menos...

O russo pareceu alarmado e inquieto. - Tens a certeza de que o pacote está seguro?

Não lhe mexeram? Tem havido muita conversa... demasiada conversa... - calou-se e recomeçou a roer as unhas.

- Vê com os teus olhos.

A rapariga ajoelhou-se defronte

da lareira e afastou desembaraçadamente os carvões. Do meio dos jornais amarrotados que se encontravam sob eles retirou um embrulhinho retangular, envolto em jornal sujo, e estendeu-o ao homem.

- Engenhoso - aprovou aquele, com um

aceno de cabeça.

- O apartamento foi revistado duas vezes e o

colchão da minha cama rasgado.

- Tem havido muita conversa - repetiu o

homem.

- Foi um erro regatear o preço como

regatearam.

Nervosamente, retirou o jornal, o papel

castanho que se encontrava a seguir e verificou o conteúdo do embrulhinho. Embrulhou tudo de novo, apressadamente, e mal acabara a campainha tocou.

- O americano é pontual - observou Olga,

olhando para o relógio.

Saiu da sala e voltou um minuto depois com

um homem corpulento e de ombros largos, cuja origem transatlântica era evidente. O olhar vivo do desconhecido passou de um para o outro dos russos.

- Monsieur Krassnine? - perguntou,

delicadamente.

- Sou eu - respondeu Boris. - Peço-lhe

desculpa da... da impropriedade deste local de encontro, mas impunha-se o máximo segredo. Não posso arriscar-me a que o meu nome seja por qualquer forma relacionado com este assunto.

- Sim? - murmurou o americano, no mesmo

tom delicado.

- Dá-me a sua palavra, não é verdade, de que

os pormenores desta transação não serão tornados públicos? Foi uma das condições de... venda.

- Isso já estava combinado - redargüiu o

outro, indiferente. - Agora talvez queira fazer o favor de mostrar-me a mercadoria.

- Trouxe o dinheiro, em notas? - Trouxe.

No entanto, não esboçou a mais pequena

intenção de o mostrar. Após um momento de hesitação, Krassnine apontou o embrulhinho que se encontrava em cima da mesa.

O americano desembrulhou-o e levou o

conteúdo para junto de uma pequena lâmpada elétrica, onde o submeteu a minucioso exame. Tranqüilizado, tirou então a carteira volumosa, da qual extraiu um maço de notas. Estendeu-as ao russo, que as contou cuidadosamente.

- Está bem?

- Muito obrigado, monsieur. Está certo. O americano meteu descuidadamente o

embrulho na algibeira e inclinou a cabeça a Olga:

- Boas noites, mademoiselle. Boas noites,

Monsieur Krassnine. - Saiu e fechou a porta.

Os outros dois entreolharam-se e o homem

passou a língua pelos lábios ressequidos.

- Conseguirá chegar ao hotel? - murmurou. Voltaram-se ambos para a janela,

instintivamente, a tempo de verem o americano chegar à rua. Virou à esquerda e afastou-se com passo firme, sem olhar para trás uma única vez. Duas sombras surgiram de um portal, seguiram- no silenciosamente e perseguido e perseguidores perderam-se na noite.

- Chegará ao hotel sem novidade - afirmou

Olga Demiroff. - Não tens motivos para receios... ou esperanças.

- Porque dizes que chegará são e salvo? -

perguntou Krassnine, curioso.

- Um homem que reuniu uma fortuna tão

grande como a dele não é com certeza idiota - afirmou Olga.

- Por falar em dinheiro... - interrompeu-se e

olhou, significativamente, para Krassnine.

- Que queres?

- A minha parte, Boris Ivanovitch. Com certa relutância, Krassnine estendeu-lhe

duas notas. A rapariga acenou com a cabeça, num agradecimento absolutamente desprovido de emoção, e guardou-as na meia.

- Sabe bem - comentou, satisfeita. - Não tens pena, Olga Vassilovna? -

perguntou-lhe o homem, curioso.

- Pena de quê?

- Do que esteve em teu poder e já não está.

Muitas mulheres perderiam a cabeça por tais coisas.

- Tens razão, muitas mulheres sofrem

dessa loucura murmurou, pensativa. - Mas eu não... Pergunto a mim mesma... Calou-se e deixou a frase em suspenso.

- Perguntas a ti mesma o quê? - O americano chegará com elas, sem perigo,

tenho a certeza disso. Mas depois?

- Em que estás a pensar, hem? - Vai dá-las a uma mulher, sem dúvida -

murmurou Olga, pensativa. - Que acontecerá então?

Encolheu os ombros, impaciente, e

aproximou-se da janela. De súbito, soltou uma exclamação abafada e chamou o companheiro.

- Olha, o homem a que me referi vai agora a

descer a rua.

De fato, um vulto esguio e elegante passava

naquele momento defronte da janela, em baixo, com um andar despreocupado. Usava chapéu alto e capa e, ao passar por um candeeiro, a luz iluminou-lhe uma madeixa de bastos cabelos brancos.

II

 

O SENHOR MARQUÊS

O homem de cabelo branco continuou o seu

caminho, sem pressa e aparentemente indiferente ao que o rodeava. Cortou para uma transversal à direita, depois para outra à esquerda, e de vez em quando assobiava baixinho.

De súbito estacou, de ouvido atento. Ouvira

um certo som que podia ter sido provocado por uma câmara-de-ar que rebentasse ou por... um tiro. Os lábios entreabriram-se-lhe num sorriso e reatou o passeio despreocupado.

Ao contornar uma esquina deparou-se-

lhe uma cena de relativa atividade a hora tão tardia. Um agente da autoridade garatujava num livrinho de apontamentos, rodeado por dois ou três transeuntes. Foi a um destes que o homem de cabelo branco perguntou, delicadamente:

- Aconteceu alguma coisa?

- Mais oui, Monsieur. Dois bandidos

atacaram um cavalheiro americano idoso.

- Causaram-lhe algum dano?

- Oh, não! - exclamou o homem a rir. - O

americano trazia um revólver na algibeira e disparou tão à tangente que os celerados tiveram medo e fugiram.

A Polícia, como de costume, chegou

demasiado tarde.

- Ah! - limitou-se a murmurar o homem

de cabelo branco, sem manifestar a mínima emoção.

Plácida e despreocupadamente, reatou o

passeio noturno, atravessou o Sena e chegou aos bairros mais ricos da cidade. Cerca de vinte minutos depois parou a uma porta, numa rua tranqüila, mas aristocrática.

A loja, pois que de loja se tratava,

tinha aspecto simples e despretensioso. M. Papopolous, negociante de antiguidades, era tão famoso que não precisava de anúncios, tanto mais que a maioria dos seus negócios não era feita ao balcão. M. Papopolous tinha um belo apartamento sobranceiro aos Campos Elíseos e seria de crer que lá se encontrasse, e não no seu estabelecimento, àquela hora tardia, mas o homem de cabelo branco parecia confiante ao premir o botão da campainha pouco em evidência, depois de olhar rapidamente para ambos os lados da rua deserta.

A sua confiança justificou-se, pois a porta

abriu-se e no limiar surgiu um homem com argolas de ouro nas orelhas e tom de pele muito moreno.

- Boas noites - disse o desconhecido. - O seu

patrão está?

- O patrão está, mas não costuma receber

visitantes ocasionais a esta hora.

- Estou convencido de que me receberá a

mim. Diga-lhe que o seu amigo, o senhor marquês, deseja vê-lo.

O homem abriu um pouco mais a porta e

deixou o visitante entrar. Este ocultara parcialmente o rosto com a mão, enquanto falava, e quando o criado voltou com a informação de que M. Papopolous teria prazer em recebê-lo, verificou que uma pequena máscara de cetim preto lhe ocultava as feições. O criado devia ser muito pouco observador ou estar muito bem treinado, pois não traiu a mínima surpresa perante a insólita aparência do desconhecido. Conduziu-o a uma porta ao fundo do vestíbulo, abriu-a e anunciou, num murmúrio respeitoso.

- O senhor marquês.

O homem que se levantou para receber o

estranho visitante tinha uma figura imponente, um não sei quê venerável e patriarcal, o caráter com a testa alta e abaulada, com a bonita barba branca e com as suas maneiras benignas e clericais.

- Meu caro amigo - saudou M. Papopolous,

em francês, em voz rica e untuosa.

- Peço desculpa de vir tão tarde... - Por quem é, meu caro! É, até, uma hora

muito interessante. Teve, suponho, uma noite também interessante?

- Pessoalmente, não.

- Pessoalmente, não - repetiu M.

Papopolous.

- Claro, claro que não... Mas traz-me notícias,

hem? - e lançou-lhe um olhar de soslaio, que nada tinha de clerical nem de benigno.

- Não, não trago. A tentativa falhou como,

aliás, eu já esperava.

- Evidentemente - murmurou o grego. –

Uma tentativa rude...

Fez um gesto com a mão, exprimindo o seu

intenso desagrado por todas as formas de rudeza. De fato, nada havia de rude em M. Papopolous nem nas mercadorias que vendia. Era muito conhecido na maior parte das cortes européias e os reis tratavam-no amigavelmente por Demetrius. Tinha reputação de ser discretíssimo, virtude que, aliada ao seu aspecto nobre, lhe permitira sair incólume de várias transações duvidosas.

- O ataque direto às vezes resulta, mas

raramente sentenciou, abanando a cabeça.

- Poupa tempo - redargüiu o outro, com um

encolher de ombros - e o insucesso não custa nada... ou quase nada. O outro plano não falhará.

M. Papopolous olhou-o atentamente e o

outro acenou com a cabeça, devagar.

- Tenho grande confiança na sua... enfim, na

sua reputação - declarou o negociante de antiguidades.

- Creio poder afirmar que a sua confiança

não será traída murmurou o senhor marquês, com um sorriso suave.

- Tem oportunidades únicas - lembrou o

grego, com um tom de inveja na voz.

- Arranjo-as. - Levantou-se, pegou na capa

que atirara descuidadamente para as costas de uma cadeira e avisou: - Mantê-lo-ei informado, Monsieur Papopolous, através das vias habituais, mas não deve haver complicações nos seus planos.

- Nunca há complicações nos meus

planos!volveu M. Papopolous, indignado.

O outro sorriu e, sem uma palavra de

despedida, saiu da sala e fechou a porta.

M. Papopolous ficou pensativo, a afagar a

venerável barba branca, e depois dirigiu-se a uma segunda porta, que abria para dentro. Ao girar o puxador, uma rapariga que, tudo o indicava, estivera com o ouvido colado à fechadura entrou de cambulhada no aposento. M. Papopolous não denunciou surpresa nem preocupação; devia estar habituado.

- Então, Zia?

- Não o ouvi partir...

Era uma mulher nova e perfeita, de

linhas junescas, senhora de coruscantes olhos negros e tão grande ar de semelhança geral com M. Papopolous que era fácil ver serem pai e filha.

- Irrita - continuou, aborrecida - não ser

possível ver e ouvir ao mesmo tempo, através de um buraco de fechadura.

- Já me aconteceu muitas vezes pensar o

mesmo - redargüiu M. Papopolous, com grande simplicidade.

- Era aquele, então, o senhor marquês! -

murmurou Zia, devagar. - Usa sempre máscara, pai?

- Sempre.

Pausa.

- Trata-se dos rubis, suponho? - inquiriu Zia. O pai acenou afirmativamente e perguntou-

lhe, com um brilho de ironia nos olhos pretos:

- Qual é a tua opinião, minha pequena? - Do senhor marquês?

- Sim.

- Acho que é muito raro encontrar-se um

inglês educado que fale tão bem francês - replicou, devagar.

- É essa, então, a tua opinião! - M.

Papopolous não se comprometeu, como de costume, mas olhou a filha com ar de benigna aprovação.

- Pareceu-me, também, que a sua cabeça

tinha uma forma esquisita - prosseguiu Zia.

- Maciça - concordou o pai -, um bocadinho

maciça. Mas, claro, uma cabeleira postiça produz sempre esse efeito.

Entreolharam-se e sorriram.