O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 6 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo IX

 

OFERTA RECUSADA

Raramente Derek Kettering permitia que o

mau gênio levasse a melhor fosse no que fosse. Uma despreocupação negligente era a sua principal característica, e valera-lhe já em muitas circunstâncias desagradáveis. Por isso, ao deixar o apartamento de Mirelle sentia-se já mais calmo. E bem precisava de calma, pois nunca se encontrara em tão grandes apuros, agravados por uma série de imprevistos que, de momento, não sabia como resolver.

Afastou-se de testa franzida,

profundamente absorto nos seus pensamentos, sem a vivacidade de maneiras que tão bem lhe ficava. Várias possibilidades se apresentavam ao seu espírito, pois diga-se em abono da verdade que Derek Kettering era menos tolo do que parecia. Via várias saídas, entre as quais uma sobretudo o atraía. Se hesitava ainda em escolhê-la, era apenas de momento; para grandes males, grandes remédios. Sabia que não se enganava a respeito do sogro e que uma guerra entre Derek Kettering e Rufus Van Aldin só podia ter um fim. Irritado, amaldiçoou mental e veementemente o dinheiro e o seu poder.

Subiu a St. James's Street, atravessou

Piccadilly e seguiu na direção de Piccadilly Circus. Ao passar pelos escritórios de Thomas Cook & Sons afrouxou o passo, mas seguiu em frente, ainda indeciso. Por fim acenou com a cabeça e voltou-se bruscamente, tão bruscamente que chocou com um casal que vinha atrás de si. Retrocedeu e entrou no escritório da Cook. Atenderam-no imediatamente, pois estava pouca gente.

- Quero partir para Nice na próxima semana.

Pode dar-me algumas informações?

- Em que data deseja partir? - No dia catorze. Qual é o melhor comboio? - Bem, não há dúvida de que o melhor é o

Comboio Azul, como lhe chamam. Poupa as incômodas formalidades alfandegárias em Calais.

Derek acenou com a cabeça, embora

soubesse perfeitamente tudo aquilo.

- Mas para o dia catorze é muito apertado...

comentou o empregado. – A lotação do Comboio Azul esgota-se quase sempre.

- Veja se ainda me arranja um

compartimento-cama. Senão... Esboçou um sorriso curioso e não completou a frase.

O empregado ausentou-se durante alguns

minutos e quando voltou disse-lhe:

- Ainda há três compartimentos-cama;

reservo-lhe um. Em que nome?

- Pavett - respondeu Derek, e deu o endereço

dos seus aposentos na

Jermyn Street.

O empregado tomou nota, desejou-lhe um

bom dia e dedicou a sua atenção à cliente seguinte.

- Quero partir para Nice no dia catorze. Não

há um comboio chamado o Comboio Azul?

Derek olhou vivamente para trás... Coincidência, estranha coincidência!

Lembrou-se das palavras meio irônicas que dissera a Mirelle: “Retrato de uma senhora de olhos cinzentos. Não creio que volte a vê-la.” Mas não só voltara a vê-la, como ainda ela se propunha viajar para a Riviera no mesmo dia que ele. Por momentos, sentiu percorrê-lo um calafrio. Era supersticioso, em certas coisas, e não se esquecera de que dissera, meio a brincar, que aquela mulher podia trazer-lhe azar. E se... se... isso fosse verdade? Observou-a da porta, enquanto ela falava com o empregado. Desta vez os seus olhos não o tinham enganado: era uma senhora em todo o sentido da palavra. Não muito jovem, nem singularmente bonita, mas tinha um não sei quê... Talvez os olhos cinzentos vissem de mais...

Saiu com a certeza fatalista de que, de certo

modo, tinha medo daquela mulher.

Regressou ao seu apartamento na Jermyn

Street e chamou o criado.

- Amanhã de manhã, antes de mais nada,

levantas o dinheiro deste cheque e vais à Cook, em Piccadilly, pagar uns bilhetes que lá estão reservados em teu nome.

- Muito bem, senhor.

Pavett saiu e Derek aproximou-se de uma

mesa e pegou num punhado de cartas. Eram todas de um tipo assaz familiar: contas, contas grandes e contas pequenas, todas a clamarem pagamento. A maneira de pedir era ainda delicada, mas Derek sabia que, em breve, se determinadas notícias se tornassem do domínio público, o tom mudaria.

Deixou-se cair, aborrecido, numa poltrona

forrada de cabedal. Estava metido numa grande camisa-de-onze-varas, se estava! E a maneira de sair dela não lhe parecia muito prometedora.

Pavett entrou, com uma tossezinha discreta,

e anunciou:

- Um cavalheiro deseja vê-lo, senhor. Major

Knighton.

- Major Knighton? - Derek endireitou-se,

franziu a testa, subitamente atento, e comentou em tom mais suave, quase como se falasse sozinho: - Knighton... que ventos o trarão?

- Mando-o entrar, senhor?

Derek acenou afirmativamente e, quando

entrou na sala, Knighton encontrou à sua espera um anfitrião cheio de cordialidade.

- Foi muito simpático em visitar-me... Os olhos atentos de Kettering

compreenderam logo que Knighton estava nervoso e que a missão que ali o levara lhe desagradava claramente. Correspondeu em tom maquinal à conversa fácil de Derek, declinou uma bebida e a sua atitude pareceu tornar-se ainda mais hirta.

- Ora diga-me cá o que quer de mim o meu

estimado sogro? perguntou- lhe Derek, por fim. - Sim, porque presumo que veio a seu mandado...

- Vim, sim - respondeu o outro, muito sério.

- Confesso que desejaria que

Mister Van Aldin tivesse escolhido outra

pessoa...

Derek ergueu as sobrancelhas, com um falso

ar assustado, e perguntou:

- É assim tão mau! Garanto-lhe, Knighton,

que não tenho uma pele muito delicada...

- Pois sim, mas isto...

Calou-se e o dono da casa olhou-o

atentamente.

- Continue, por favor - pediu-lhe Derek,

delicadamente. Não me custa acreditar que as missões de que o meu querido sogro o encarrega nem sempre são agradáveis.

Knighton pigarreou e falou

formalmente, esforçando-se por não demonstrar embaraço:

- Mister Van Aldin ordenou-me que lhe

fizesse uma oferta direta.

- Uma oferta? - repetiu, surpreendido. Não tinham sido bem aquelas palavras

que esperara. Ofereceu um cigarro a Knighton, acendeu um para si e recostou-se na poltrona, murmurando em tom levemente sardônico:

- Uma oferta? Parece muito interessante... - Posso continuar?

- Faça favor. Desculpe a minha surpresa, mas

parece-me que o meu querido sogro desceu muito desde a nossa conversa desta manhã, e descer não é verbo que costume associar-se com homens fortes, com Napoleões da finança, etc. Demonstra, pelo menos assim sou levado a crer, que considera a posição mais fraca do que imaginava.

Knighton escutava delicadamente a voz bem

timbrada e irônica, mas o seu rosto não denunciava os seus pensamentos. Esperou que Derek acabasse de falar e declarou, muito calmo:

- Apresentarei a proposta no menor número

possível de palavras...

- Continue.

- Trata-se apenas disto - começou, sem olhar

para o interlocutor, em tom seco e conciso: - Mistress Kettering apresentará, como sabe, um pedido de divórcio. Se o senhor não se opuser, receberá cem mil no dia em que a sentença for proferida.

Derek interrompeu bruscamente o gesto de

acender o cigarro e repetiu:

- Cem mil! Dólares?

- Libras.

O silêncio foi total durante pelo menos dois

minutos. Kettering pensava, de sobrancelhas franzidas. Cem mil libras... Isso queria dizer que poderia continuar com Mirelle e com a sua vida agradável e descuidada... e queria dizer também que Van Aldin sabia qualquer coisa. Não era homem que oferecesse dinheiro sem motivos.

Levantou-se, foi encostar-se à chaminé e

perguntou, com fria e irônica delicadeza:

- E se eu recusar a atraente oferta? - Garanto-lhe, Mister Kettering, que me

custou muitíssimo vir aqui transmitir-lhe esta mensagem – afirmou Knighton, sinceramente.

- Não tem importância; não se preocupe com

isso, pois a culpa não é sua. Mas responda à minha pergunta, sim?

Knighton levantou-se também e falou ainda

com maior relutância do que antes:

- Mister Van Aldin encarregou-me de lhe

dizer claramente que tenciona arruiná-lo se recusar a sua proposta.

- Capaz disso é ele! - exclamou Derek. –

Que posso eu contra um americano senhor de tantos milhões? Pouco ou nada. Cem mil libras! Quando se suborna um homem, ao menos que seja com uma importância que valha a pena! E se eu lhe dissesse que faria o que ele quisesse por duzentas mil?

- Transmitiria a sua resposta a Mister Van

Aldin -redargüiu Knighton, imperturbável. - É isso que deseja lhe diga?

- Não, por estranho que pareça, não é. Pode

dizer ao meu sogro que vá para o inferno, ele e os seus subornos! Entendidos?

- Perfeitamente. - Knighton levantou-se,

hesitou e disse, corando: - Permita-me que lhe diga, Mister Kettering, que estou satisfeito por ser essa a resposta.

Derek não respondeu. Quando o outro

saiu, ficou um momento mergulhado em reflexões, com um curioso sorriso nos lábios.

- E pronto! - murmurou, docemente.