O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 20 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXVI

 

UM AVISO

- E assim somos bons amigos e não temos

segredos um para o outro - disse Poirot.

Katherine voltou-se para o olhar, pois notara-

lhe na voz um tom de seriedade que nunca lhe ouvira.

Estavam sentados nos jardins de Monte

Carlo, onde Katherine fora com os amigos. Logo à chegada tinham encontrado Knighton e Poirot. Lady Tamplin apoderara-se do primeiro e avassalara-o com interminável desfiar de reminiscências a maioria das quais, suspeitava Katherine, eram inventadas. Por fim dera-lhe o braço e afastara-se com ele e o pobre major olhara uma ou duas vezes para trás, por cima do ombro, com tal expressão que Poirot sorrira.

- Claro que somos amigos - confirmou

Katherine.

- Simpatizamos um com o outro desde o

princípio - recordou o detetive.

- Quando me disse que na vida real

também ocorrem romances policiais...

- E não me enganei, pois não? - perguntou,

apontando enfaticamente o indicador. - Cá estamos, plantados no meio de um! Para mim é natural, é o meu métier, mas para si é diferente. Sim – repetiu pensativo -, para si é diferente.

Katherine olhou-o vivamente; era como

se estivesse a avisá-la, a sublinhar alguma ameaça em que não reparara.

- Porque diz que estou no meio de um? É

verdade que tive aquela conversa com Mistress Kettering, pouco antes de a matarem, mas agora... agora acabou -se. Já não tenho nada a ver com o caso.

- Ah, mademoiselle, mademoiselle,

poderemos dizer, alguma vez,

“acabei com isto ou com aquilo”? - De que se trata? - perguntou-lhe

Katherine, francamente. - Compreendo que está a tentar dizer –me qualquer coisa, ou melhor, a insinuar, mas não sou forte em charadas nem em perceber insinuações.

Preferia que dissesse claramente o que tem a

dizer, seja o que for.

Poirot fitou-a tristemente e comentou: - Ah, mais c'est anglais, ça! Sempre o preto

no branco, sempre tudo bem claro e definido. A vida não é assim, mademoiselle, certas coisas não são ainda, embora projetem já a sua sombra... - Enxugou a testa com um grande lenço de seda e murmurou:

- Céus, estou a tornar-me poético. Sejamos

concretos, como diz. Para começar, que pensa do major Knighton?

- Simpatizo bastante com ele - confessou

Katherine. - É encantador.

Poirot suspirou e Miss Grey inquiriu: - Que se passa?

- Respondeu com tanto entusiasmo! Se

tivesse dito, em tom indiferente,

“Oh, é simpático...”, confesso que ficaria

mais satisfeito.

Katherine sentiu-se um pouco constrangida

e não fez comentários.

- No entanto, quem sabe? - prosseguiu o

detetive, sonhador.

- Les femmes têm tantas maneiras de

ocultar os seus verdadeiros sentimentos que o entusiasmo pode ser apenas aparente. - Novo suspiro.

- Não percebo... - começou Katherine, mas

Poirot interrompeu-a:

- Não percebe porque estou a ser tão

impertinente, mademoiselle? Sou velho e, de vez em quando, mas pouco freqüentemente, encontro alguém cujo bem-estar me é querido. Somos amigos, mademoiselle, disse-o pelas suas próprias palavras. Por isso gostaria que fosse feliz.

Confusa, Katherine começou a fazer

desenhos no saibro, com a ponta da sombrinha de cretone.

- Fiz-lhe uma pergunta acerca do major

Knighton; permita agora que lhe faça outra: Gosta de Mister Derek Kettering?

- Mal o conheço...

- Isso não é resposta.

- Parece-me que é.

Poirot fitou-a, surpreendido com o tom da

sua voz, e depois meneou lenta e gravemente a cabeça.

- Talvez tenha razão, mademoiselle. Aqui

onde me vê, conheço muito do mundo e sei que há duas grandes verdades: um bom homem pode perder-se pelo amor a uma má mulher, mas o contrário também é susceptível de acontecer: um mau homem pode igualmente perder-se pelo seu amor a uma boa mulher.

Katherine levantou bruscamente a cabeça.

- Quando diz perder-se...

- Refiro-me a perder-se do ponto de vista

dele. Pode ser-se sincero no crime como em qualquer outra coisa.

- Compreendo que está a tentar advertir-

medisse Katherine, numa voz baixa. - Mas contra quem?

- Não posso ler no seu coração,

mademoiselle, e mesmo que pudesse, creio que não mo permitiria. Direi apenas que há homens que inspiram uma grande fascinação às mulheres.

- O conde de la Roche - comentou Katherine,

a sorrir.

- Há outros mais perigosos que o conde de la

Roche, outros possuidores de qualidades fascinantes: atrevimento, ousadia, temeridade... Vejo que está fascinada, mademoiselle, mas creio que é apenas isso. Espero que seja. Os sentimentos deste homem de quem falo são sinceros, mas mesmo assim...

- Mesmo assim?

Levantou-se, fitou-a e declarou, em voz

baixa e clara:

- Talvez pudesse amar um ladrão,

mademoiselle, mas não um assassino.

Afastou-se bruscamente, deixando-a só, e

nem se quer se voltou ao ouvir a exclamação abafada de Katherine. Dissera o que quisera dizer, agora devia deixá-la digerir a última e inequívoca frase.

Derek Kettering, que saía do Cassino, viu-a

só e juntou-se-lhe.

- Estive a jogar e não tive sorte - anunciou,

com uma gargalhada de despreocupação. - Perdi tudo... Isto é, perdi tudo quanto trazia.

Katherine olhou-o, perturbada, consciente de

que havia na sua atitude algo novo, uma excitação oculta que se traía em inúmeras e diferentes manifestações imperceptíveis.

- Já devia ter compreendido que é um

jogador. Atrai-o o espírito do jogo.

- Talvez tenha razão, mademoiselle. Não

encontra um não sei quê de estimulante no jogo? Não há nada como arriscar tudo numa parada!

Apesar de se considerar uma pessoa

calma e estólida, Katherine experimentou uma vaga excitação.

- Preciso de lhe falar... e quem sabe quando

terei outra oportunidade de o fazer? - prosseguiu Derek.

- Começa a tomar vulto a idéia de que

assassinei a minha mulher... Não, por favor não me interrompa. É absurdo, claro. - Fez uma pausa, antes de prosseguir com mais firmeza. - Ao tratar com a Polícia e com as autoridades locais tive de fingir uma certa decência que prefiro não adotar consigo. Sempre pretendi fazer um casamento por dinheiro e procurava consegui-lo quando conheci Ruth Van Aldin. Tinha um ar de frágil madonna e... bem, quando casei fi-lo cheio de boas intenções, de promessas de regeneração dirigidas a mim próprio. Mas esperava-me amarga decepção: minha mulher amava outro homem, nunca quis saber de mim para nada. Oh, não me queixo! A transação foi absolutamente respeitável: ela, queria Leconbury; eu, queria dinheiro. O que estragou tudo foi o sangue americano de Ruth, pois embora não me ligasse a mínima importância, queria que lhe prestasse constante vassalagem. Pouco faltou para me dizer claramente, vezes sem conta, que me comprara e que, portanto, lhe pertencia. O resultado foi portar-me abominavelmente para com ela. Se meu sogro lho disse, não mentiu. Na altura da morte de Ruth encontrava-me eu à beira da derrocada total, da ruína absoluta; para se estar à beira da ruína absoluta basta enfrentar um homem como Rufus Van Aldin.

- E depois? - perguntou Katherine, em voz

baixa.

- Depois assassinaram Ruth... muito

providencialmente respondeu, com um encolher de ombros.

Riu-se, e o som do seu riso arrepiou Miss

Grey.

- Desculpe, foi um comentário de muito mau

gosto, embora verdadeiro. Quero dizer-lhe ainda que, mal a vi, compreendi que era a única mulher do mundo para mim. Tive... medo de si. Pensei que me traria azar.

- Azar? - repetiu, surpreendida. - Porque repetiu a palavra dessa maneira? -

perguntou, de olhos fixos nela. - Que está a pensar?

- Pensava em muitas coisas que me

disseram.

- Dir-lhe-ão muitas coisas a meu respeito,

minha querida, e a maioria serão verdades - afirmou, sorridente. Coisas ainda mais terríveis do que as que lhe disseram já, coisas que nunca lhe direi. Toda a minha vida fui um jogador e gostei de correr riscos... Não me confessarei a si, nem agora nem nunca; o passado morreu. Só quero que saiba uma coisa: juro-lhe solenemente que não matei a minha mulher.

Pronunciou o juramento com sinceridade,

embora com certo ar teatral, e prosseguiu, de olhos fitos no olhar perturbado de Katherine:

- Eu sei, outro dia menti-lhe... Estive no

compartimento de minha mulher, foi nele que me viu entrar.

- Ah!

- É difícil explicar porque lá fui, mas

tentarei. Obedeci a um impulso. Esforçava-me por que ela não me visse, pois Mirelle dissera-me que Ruth ia encontrar-se com o conde de la Roche em Paris e eu espiava-a. Convencera-me de que era mentira, pelo que me fora dado ver, e sentia-me envergonhado do meu procedimento. Por isso pareceu-me, de súbito, que seria bom pôr os pontos nos “is”, de uma vez por todas, e empurrei a porta e entrei.

- E depois? - insistiu docemente Katherine,

quando Derek se calou.

- Ruth estava deitada, a dormir... Tinha o

rosto voltado para a parede e só lhe vi a parte de trás da cabeça. Podia tê-la acordado, bem sei, mas perguntei a mim mesmo que haveria para dizer que não tivéssemos já dito um ao outro, centenas de vezes... Ela parecia tão repousada, tão inofensiva... Saí o mais silenciosamente que pude.

- Porque mentiu à Polícia?

- Porque não sou um idiota chapado.

Compreendi desde o princípio que, no capítulo de móbil, sou o assassino ideal. Se confessasse que estivera no compartimento antes de a assassinarem, estaria irremediavelmente perdido.

- Compreendo...

Mas compreendia, de fato? Não sabia. Sentia

a atração magnética da personalidade de Derek, mas havia qualquer coisa em si que resistia, que a continha...

- Katherine...

- Eu...

- Sabe que gosto de si. Gosta de mim

também?

- N-não sei.

Franqueza. Ou gostava, ou não gostava. Se

ao menos...

Olhou à sua volta, desesperadamente, como

se procurasse alguma coisa que a ajudasse. Um leve rubor tingiu-lhe as faces ao ver um homem alto e louro, levemente coxo, dirigir-se apressadamente para eles: o major Knighton.

Foi com alívio e com inesperada ternura que

o cumprimentou. Derek levantou-se, carrancudo como um céu de trovoada.

- Lady Tamplin ficou só? - perguntou,

desdenhoso. - Vou ter com ela e dar-lhe o benefício da minha presença.

Girou nos calcanhares e deixou-os sós. Katherine sentia o coração a bater

descompassada e violentamente, mas a pouco e pouco, enquanto conversava de banalidades com aquele homem calmo e quase tímido, sentiu que recuperava o autodomínio.

Até que percebeu, perturbada, que Knighton

lhe revelava também o seu coração, como Derek, embora de maneira muito diferente. Era acanhado, gaguejava e proferia as palavras espasmodicamente, sem qualquer eloquência a apoiá-las.

- Desde que a vi... eu... eu... não devia falar

tão cedo... mas Mister Van Aldin pode partir de um momento para o outro e não terei talvez outra oportunidade... Sei que não pode gostar de mim tão depressa... seria impossível e, de qualquer modo, é presunção da minha parte... Tenho alguns meios, mas não muitos... Não, por favor não responda agora; sei qual seria a sua resposta. Só quero que, se tiver de partir inesperadamente, saiba que... que gosto de si.

Katherine sentia-se comovida e

perturbada. Knighton falava de uma maneira enternecedora.

- Queria ainda dizer que... enfim, se alguma

vez precisar de alguma coisa... tudo quanto eu puder... Pegou-lhe na mão, apertou-lha com força, largou-a e afastou-se rapidamente, na direção do Cassino, sem olhar para trás.

Katherine ficou imóvel, a vê-lo afastar-se.

Dois homens Derek Kettering, Richard Knighton... Dois homens tão diferentes! Havia em Knighton bondade e um não sei quê que inspirava confiança. Quanto a Derek...

De súbito, Katherine experimentou uma

sensação curiosa. Dir-se-ia que não estava só naquele banco do jardim do cassino, que ao seu lado se encontrava alguém... e que esse alguém era a morta, Ruth Kettering.

Era como se Ruth quisesse

desesperadamente dizer-lhe qualquer coisa, transmitir-lhe algo... A impressão era tão estranha e forte que não podia ignorá- la. Tinha a certeza de que o espírito de Ruth Kettering tentava transmitir-lhe uma mensagem de importância vital...

Por fim a impressão desvaneceu-se e

Katherine levantou-se, a tremer.

Que desejava Ruth Kettering dizer-lhe tão

desesperadamente?