O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 27 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXXV

 

EXPLICAÇÕES

 

- Explicações? - perguntou Poirot, a sorrir. Estava sentado defronte do milionário, à

mesa do almoço, nos aposentos daquele no Negresco. O milionário tinha agora o ar de um homem intrigado, mas aliviado. O detetive recostou-se na cadeira, acendeu um dos seus cigarros e olhou para o teto.

- Sim, dar-lhe-ei explicações... Começou

com o pormenor que me intrigou... Sabe de que pormenor falo? O rosto desfigurado. É uma característica que não é raro encontrar-se quando se investiga um crime e suscita uma pergunta imediata: a identidade? Foi, naturalmente, a primeira coisa que me ocorreu. A morta seria, de fato, Mistress Kettering? Mas o testemunho de Miss Grey foi positivo, nesse aspecto, e merecedor de toda a confiança, e por isso abandonei a idéia. A vítima era Ruth Kettering.

- Quando começou a suspeitar da criada?

- Demorei algum tempo, confesso, mas

determinado pormenor peculiar chamou a minha atenção para ela: a cigarreira encontrada na carruagem e que ela nos disse ter sido dada por Mistress Kettering ao marido. Ora essa dádiva pareceu-me muito improvável, em virtude dos termos em que o casal vivia, e tanto bastou para que no meu espírito surgisse uma dúvida quanto à veracidade de todas as declarações de Ada Mason. Havia ainda o fato suspeito e de tomar em consideração de se encontrar apenas há dois meses ao serviço de sua filha. Claro que parecia impossível que estivesse relacionada com o crime, pois ficara em Paris e Mistress Kettering fora vista por diversas pessoas, depois disso...

Poirot inclinou-se para a frente, agitou

enfaticamente um indicador na cara do milionário e prosseguiu:

- Mas eu sou um bom detetive e, como tal,

suspeito. Não há nada nem ninguém de que não suspeite, não acredito em nada do que me dizem e perguntei a mim mesmo: "Como sabemos que Ada Mason ficou em Paris?” Ao princípio a resposta pareceu-me satisfatória: havia as declarações do seu secretário, pessoa absolutamente alheia ao caso, cujo testemunho era de supor que fosse imparcial em absoluto, e havia também as palavras da própria morta ao condutor. Resolvi, no entanto, pôr de lado o último pormenor, pois começava a ganhar forma no meu espírito uma idéia muito curiosa, uma idéia talvez fantástica e impossível. Se, por uma sorte inesperada, fosse verdadeira, o referido depoimento não valia nada.

“Concentrei toda a minha atenção no maior

obstáculo à minha teoria: a afirmação do major Knighton de que vira Ada Mason no Ritz, depois de o Comboio Azul ter deixado Paris. A afirmação parecia conclusiva, mas, ao examinar cuidadosamente os fatos, notei duas coisas: primeira, que por curiosa coincidência ele também estava exatamente há dois meses ao serviço; segunda, que a inicial do seu nome era igualmente “K”. E se fosse a cigarreira dele que aparecera na carruagem? Se Ada e ele trabalhassem juntos e ela reconhecesse a cigarreira do cúmplice quando lha mostramos, não procederia precisamente como procedeu? Primeiro mostrou-se surpreendida, mas depressa arranjou uma explicação plausível, com o mérito de se coadunar com a teoria de que Mister Kettering era o assassino. Bien entendu, não era essa a idéia original. O bode expiatório previsto era o conde de la Roche embora Mason não mostrasse muita certeza no seu reconhecimento, não fosse o indivíduo ter um álibi irrebatível. Agora, se recuar mentalmente a essa altura, recordará uma coisa significativa, que então aconteceu. Sugeri a Ada Mason que o homem que vira não era o conde de la Roche, mas Derek Kettering. Ela pareceu incerta, no momento, mas depois de eu voltar para o meu hotel o senhor telefonou-me e informou-me de que a Mason o procurara e dissera que, após refletir, se convencera de que o homem em questão era Mister Kettering. Eu já esperava mais ou menos isso. Só podia haver uma explicação para a súbita certeza da sua parte: tivera tempo de consultar alguém e recebera instruções acerca do procedimento a seguir. Quem lhe deu essas instruções? O major Knighton.

“Havia ainda outro pequeno pormenor que

podia querer dizer muito ou não querer dizer nada. Numa conversa casual, Knighton falara de um roubo de jóias verificado no Yorkshire, numa casa em que se encontrava. Talvez fosse uma simples coincidência... ou talvez outro elo na cadeia.”

- Há uma coisa que não percebo, Monsieur

Poirot. Devo ser estúpido, com certeza... Quem foi o homem com o qual minha filha falou em Paris? Derek Kettering ou o conde de la Roche?

- Aí é que reside a beleza e a simplicidade do

plano! Não houve homem nenhum! Milde tonnerres! Não vê a astúcia de todo o caso? Quem nos disse ter havido um homem? Ada Mason, apenas. E nós acreditamo-la porque Knighton testemunhou que ela ficara em Paris.

- Mas a própria Ruth disse ao condutor que

deixara a criada na capital - teimou Van Aldin.

- Já lá vamos, já lá vamos. Temos o

testemunho da própria Mistress Kettering, mas, pensando bem, não temos, pois, Monsieur Van Aldin, uma mulher morta não pode testemunhar. Não é o testemunho dela que temos, mas o do condutor do comboio, o que é muito diferente.

- Pensa, então, que o homem mentiu? - De maneira nenhuma. Disse o que julgava

ser a verdade. Mas a mulher que lhe disse que deixara a criada em Paris não era Mistress Kettering!

Van Aldin fitava-o, boquiaberto, e Poirot

prosseguiu:

- Monsieur Van Aldin, Ruth Kettering foi

morta antes de o comboio chegar à Gare de Lyon. Foi Ada Mason, vestida com as roupas características da ama, quem comprou um cesto com o jantar e quem fez a tal declaração importante ao condutor.

- Impossível!

- Não, Mister Van Aldin, não é impossível.

Les femmes parecem-se tanto umas com as outras, hoje em dia, que as identificamos mais pelas roupas que vestem do que pelo rosto. Ada era da mesma altura da sua filha e, com o suntuoso casaco de peles, o chape linho encarnado puxado para os olhos e apenas um bandó de cabelos ruivos a aparecer junto de cada orelha, não admira que o condutor se deixasse iludir.

Lembre-se de que nunca falara com Mistress

Kettering.

É certo que vira a criada, quando esta lhe

entregara os bilhetes, mas a impressão que colhera fora apenas a de uma mulher magra, vestida de preto. Se fosse um homem invulgarmente inteligente, talvez dissesse que a ama e a serva eram parecidas, mas é muito pouco provável que o tivesse pensado, sequer. Não esqueça que Ada Mason, ou Kitty Kidd, é uma atriz, capaz de mudar de aspecto e de tom de voz do pé para a mão.

Não, não havia perigo de ele perceber que

falava com a criada vestida com a roupa da patroa, mas havia o perigo de que, ao descobrir o corpo, compreendesse que não se tratava da mesma mulher com a qual falara naþnoite anterior. Está a ver a razão do rosto desfigurado. O maior risco que Ada Mason correu foi a possibilidade de Katherine Grey visitar o seu compartimento, depois de o comboio deixar Paris, e para o evitar comprou o cesto do jantar e fechou-se.

- Mas quem matou Ruth... e quando? - Primeiro, fixe que o crime foi planeado

e executado pelos dois, Knighton e Ada Mason, a trabalharem de cumplicidade. No dia fatal Knighton foi a Paris, tratar de assuntos do senhor, e entrou no comboio na ceinture. Mistress Kettering deve ter ficado surpreendida, mas não suspeitou de nada. Talvez ele lhe chamasse a atenção para qualquer coisa, fora da janela, e quando ela se voltou para ver lhe tivesse passado a corda pelo pescoço. Um segundo ou dois, e tudo acabou. A porta do compartimento estava fechada e os dois cúmplices deitaram-se ao trabalho. Despiram as roupas exteriores da morta, enrolaram o corpo numa manta e levaram-no para o banco do compartimento contíguo, entre malas e bagagens. Knighton abandonou então o comboio, levando o guarda-jóias, com os rubis. Como tudo indicará que o crime só foi cometido cerca de doze horas mais tarde, sente-se em absoluta segurança. O seu próprio depoimento e as supostas palavras de Mistress Kettering ao condutor proporcionarão à cúmplice um álibi perfeito.

“Na Gare de Lyon, Ada Mason comprou um

cesto com o jantar, fechou- se no compartimento, vestiu a roupa da ama, ajustou dois falsos bandós ruivos e caracterizou-se de maneira a parecer-se o mais possível com ela. Quando o condutor foi preparar as camas, disse-lhe, como estava combinado, que deixara a criada em Paris e, enquanto o homem trabalhava, sentou-se com o rosto voltado para a janela, de maneira a que quem passasse no corredor a visse de costas. Foi uma precaução inteligente, pois, como sabemos, Miss Grey foi uma das pessoas que passaram e que juraria estar ainda Mistress Kettering viva a essa hora.”

- Continue - pediu Van Aldin. - Antes de chegar a Lyon, Ada Mason deitou

o corpo da ama na cama, dobrou-lhe cuidadosamente as roupas, que arrumou aos pés da mesma, disfarçou-se de homem e preparou-se para abandonar o comboio. Quando Derek Kettering entrou no compartimento da mulher e julgou vê-la a dormir tranqüilamente, presenciava apenas um cenário e Ada Mason encontrava-se no compartimento contíguo, à espera de oportunidade para sair do comboio sem ser notada. Assim que o condutor saltou para o cais, em Lyon, imitou-o, como se fosse apenas tomar ar. Num momento em que ninguém a observava, conseguiu atravessar para o outro cais, meter-se no primeiro comboio e ir instalar-se no Ritz, onde uma das cúmplices femininas de Knighton a registrara na véspera. Só lhe restava aguardar placidamente a sua chegada. As jóias não estavam, nem nunca estiveram em seu poder, mas no de Knighton, sobre o qual não recaíam quaisquer suspeitas. Levou-as para Nice sem ter medo de ser descoberto, a fim de serem entregues a Monsieur Papopolous, como fora combinado. No último momento foram confiadas a Mason, que as entregou ao grego. Portanto, um plano minucioso e inteligente, como seria de esperar de um perito na matéria, como o Marquês.

- É então verdade que Richard Knighton é

um criminoso conhecido, que trilha há anos a senda do crime?

Poirot acenou afirmativamente. - Um dos principais motivos de agrado do

cavalheiro conhecido pelo Marquês eram as suas maneiras simpáticas e insinuantes... o senhor foi vítima do seu encanto, Monsieur Van Aldin, quando o contratou para secretário após um conhecimento tão breve.

- Juraria que ele nunca pensara em

candidatar-se ao lugar - replicou o milionário.

- Foi tudo feito com muita astúcia, tanta que

iludiu um homem cujo conhecimento dos outros homens é tão grande como o seu.

- Além disso, averigüei os seus

antecedentes. As referências foram excelentes.

- Sim, isso fazia parte do jogo. Como Richard

Knighton, a sua vida era isenta de mácula. Bem-nascido, bem relacionado, serviços honrosos na guerra e aparentemente acima de toda a suspeita. Mas quando comecei a procurar informações acerca do Marquês encontrei muitos pontos semelhantes. Knighton falava francês como um francês e estivera na América, em França e na Inglaterra ao mesmo tempo que o Marquês operara nesses países. As últimas notícias conhecidas do Marquês relacionavam-no com vários roubos de jóias na Suíça, e foi na Suíça que o senhor conheceu o major Knighton - e foi precisamente nessa altura que começaram a correr boatos de que o senhor estava em negociações para a compra dos famosos rubis.

- Mas porque a assassinou? - murmurou o

americano. - Um gatuno inteligente podia ter-se apoderado das jóias sem enfiar a cabeça num nó corredio.

- Este não foi o primeiro assassinato do

Marquês. É um assassino por instinto e acredita na conveniência de não deixar provas atrás de si. Homens mortos e mulheres mortas não falam. O Marquês tinha uma paixão intensa por jóias famosas e históricas. Começou por instalar-se como seu secretário e conseguir que a cúmplice se empregasse como criada de sua filha, a quem supunha que as pedras se destinavam. Embora fosse esse o seu plano cuidadosamente amadurecido, não lhe repugnou tentar encurtar caminho e, para isso, contratou dois celerados, que encarregou de o assaltarem na noite em que comprou os rubis. O improviso falhou, o que, suponho, não o surpreendeu. O plano primitivo era absolutamente seguro; ninguém suspeitaria de Richard Knighton. Mas, como todos os grandes homens, sim, porque o Marquês era um grande homem, tinha as suas fraquezas. Apaixonou-se sinceramente por Miss Grey e, suspeitando das simpatias desta por Derek Kettering não resistiu à tentação de lhe atirar com o crime para as costas, quando a oportunidade se lhe apresentou. Agora, Monsieur Van Aldin, vou dizer-lhe uma coisa muito importante: Miss Grey não é uma mulher dada a fantasias, mas crê firmemente que sentiu a presença de sua filha ao seu lado, um dia nos jardins do cassino de Monte Carlo, logo a seguir a uma longa conversa que tivera com Knighton. Ficou convencida, garante, de que a morta tentava ansiosamente dizer-lhe que Knighton fora o seu assassino! Na altura a idéia pareceu-lhe tão fantástica que não a revelou a ninguém, mas, tão grande era a sua convicção da presença de Mistress Kettering que tentou proceder de acordo com ela. Não desencorajou os sentimentos de Knighton e fingiu-se convencida da culpabilidade de Derek Kettering.

- Extraordinário!

- Sim, é muito estranho. Não podemos

explicar estas coisas. A propósito, houve ainda um pormenor que muito me intrigou. O seu secretário coxeava bastante, como conseqüência de um ferimento de guerra, mas o Marquês não coxeava. Parecia-me um obstáculo inamovível, mas Miss Lenox Tamplin disse- me um dia que o coxear de Knighton constituíra uma surpresa para o cirurgião que o tratara no hospital da mãe. Tu do indicava, portanto, haver disfarce. Quando estive em Londres procurei o referido cirurgião, o qual me forneceu alguns dados técnicos que confirmaram essa suspeita. Anteontem mencionei o nome do médico, na presença do seu secretário, e embora fosse natural que Knighton dissesse haver sido tratado por ele, durante a guerra, não disse nada. Esse pormenor convenceu-me ainda mais de que a minha teoria estava certa. Além disso, Miss Grey deu-me um recorte de jornal onde se lia ter havido um roubo no hospital de guerra de Lady Tamplin, precisamente no período em que Knighton lá esteve internado... Compreendeu que seguia a mesma pista que ela quando lhe escrevi do Ritz de Paris. Foi lá que, embora com dificuldade, obtive provas de que Ada Mason chegou na manhã seguinte ao crime, e não na noite da véspera.

Após um longo silêncio, o milionário

estendeu a mão ao detetive.

- Deve avaliar o que isso significa para

mim, Monsieur Poirot - murmurou comovido. – Amanhã mandar-lhe-ei um cheque, mas não há no mundo cheque capaz de exprimir o que sinto pelo que fez por mim. O senhor é formidável, Monsieur Poirot, é formidável!

Poirot levantou-se, com o peito dilatado, e

redargüiu, modesto:

- Sou apenas Hercule Poirot... No entanto,

como o senhor mesmo disse, à minha maneira sou um grande homem. Sinto-me satisfeito e feliz por ter podido ser-lhe útil. Agora vou reparar os estragos da viagem... Ai de mim, o meu excelente George não está comigo!

No vestíbulo do hotel encontrou dois amigos

-- o venerável Monsieur

Papopolous e a filha, Zia.

- Julguei que tinha partido de Nice, Monsieur

Poirot - murmurou o grego, apertando a mão estendida do detetive.

- Os negócios compeliram-me a voltar, meu

caro Monsieur Papopolous.

- Os negócios?

- Sim, os negócios. Por falar nisso, espero

que a sua saúde esteja melhor, meu caro amigo?

- Muito melhor. Na realidade, regressamos

amanhã a Paris.

- Estou encantado por ouvir tão boas notícias.

Espero que não tenha arruinado completamente o ex-ministro grego...

- Eu?

- Ouvi dizer que lhe vendeu um maravilhoso

rubi que, aqui entre nós, anda ao pescoço de Mademoiselle Mirelle, a bailarina.

- Sim, é verdade...

- Um rubi parecido com o famoso “Coração

de Fogo”...

- Tem, sem dúvida, pontos de semelhança -

concordou o grego em tom casual.

- Felicito-o pela sua extraordinária

habilidade para negociar jóias, Monsieur Papopolous. - Voltou-se para a rapariga e acrescentou: - Desola-me que parta tão depressa, Mademoiselle Zia; esperava vê-la mais vezes, agora que concluí o meu negócio.

- Seria indiscrição perguntar de que negócio se tratou? - indagou o antiquário.

- De maneira nenhuma! Consegui apanhar o

Marquês!

O nobre semblante de Monsieur

Papopolous franziu-se numa interrogação.

- O Marquês?... Porque me parecerá esse

nome familiar? Mas não, não me lembro de quem se trata.

- Oh, é natural! Refiro-me a um famoso

criminoso e ladrão de jóias. Acaba de ser preso pelo assassinato da senhora inglesa, Madame Kettering.

- Deveras? Que interessante! Seguiu-se uma delicada troca de despedidas

e quando Poirot se afastou, Mr. Papopolous disse à filha:

- Aquele homem é o demônio! - Gosto dele.

- Também eu - admitiu o grego. - Mas nem

por isso deixa de ser o demônio!