O Mistério do Trem Azul
Capítulo X
NO COMBOIO AZUL
- Pai!
Mrs. Kettering estremeceu violentamente;
naquela manhã não conseguia dominar os nervos. Elegante no seu casaco comprido de marta e no chapelinho vermelho, passeava, pensativa, no cais cheio de gente da estação de Vitória. O aparecimento súbito do pai apanhou-a de surpresa.
- Até deste um pulo, Ruth!
- Não esperava vê-lo, pai. Ontem despediu-
se de mim e disse-me que tinha uma conferência esta manhã...
- E tenho, mas tu tens mais importância para
mim do que todas as conferências juntas. Vim dizer-te um último adeus, pois vamos passar algum tempo sem nos vermos.
- Obrigada, pai. Gostaria que fosse comigo... - Que dirias se fosse, hem?
Van Aldin fez a pergunta apenas por
brincadeira, mas surpreendeu-se ao ver o rubor intenso que incendiou as faces da filha. Chegou-lhe até a parecer que os seus olhos exprimiam pavor.
- Por momentos julguei que falava a sério! -
exclamou Ruth, com um riso nervoso e inquieto.
- Gostarias?
- Com certeza - afirmou, com exagerada
ênfase.
- Ainda bem...
- Não estaremos afastados muito tempo, pai.
Para o mês que vem já lá o terei.
- Ah! - exclamou, magoado. - Às vezes dá-me
vontade de visitar um dos sabichões da Harley Street, para me dizer que preciso de sol e de mudar imediatamente de ares.
- Não seja preguiçoso! Para o mês que vem a
Riviera é muito mais bonita que este mês e, além disso, o pai tem com certeza muitos negócios que não pode abandonar, assim de repente.
- Creio que tens razão - concordou, com um
suspiro. - Acho melhor entrares para o comboio, Ruth. Onde é o teu lugar?
Ruth olhou vagamente para a composição.
À porta de uma das carruagens Pullman encontrava-se a sua criada, uma mulher alta e magra, vestida de preto, que se afastou para ela passar.
- Arrumei o estojo de toucador debaixo do
banco, madam, para o caso de precisar dele. Posso arrumar as mantas, ou deseja alguma?
- Não, não desejo nenhuma. Agora é
melhor ires para o teu lugar, Mason.
- Sim, madam.
Van Aldin entrou na Pullman com a filha e
colocou vários jornais e revistas na mesinha existente defronte do lugar de Ruth. O lugar oposto estava já ocupado e o americano deitou um olhar breve à sua ocupante, reparando sobretudo que tinha bonitos olhos cinzentos e vestia um elegante conjunto de viagem.
Conversou um pouco mais com Ruth e,
quando os apitos começaram a ouvir-se, olhou para o relógio e disse-lhe:
- Acho melhor sair daqui agora. Adeus,
querida, e não te preocupes:
tratarei de tudo.
- Oh, pai!
Van Aldin voltou-se, inquieto. Notara na voz
de Ruth um tom diferente do habitual, qualquer coisa que o assustara. Quase parecera um grito de desespero. A filha fez um movimento impulsivo na sua direção, mas conteve-se e voltou a mostrar-se senhora de si mesma.
Dois minutos depois, o comboio partia. Ruth sentou-se muito direita, a morder o
lábio inferior e a esforçar-se desesperadamente por conter as lágrimas que ameaçavam saltar-lhe dos olhos. Sentia-se invadida por uma desolação terrível, pelo desejo louco de saltar do comboio e voltar para trás, antes que fosse demasiado tarde. Ela que era tão calma, tão segura de si, sentia-se pela primeira vez como uma folha sacudida pelo vento. Que diria o pai, se soubesse?
Loucura! Sim, era isso apenas, loucura! Pela
primeira vez na sua vida deixara-se arrebatar pela emoção ao ponto de fazer o que sabia muito bem ser idiota e temerário. Era suficientemente filha do seu pai para avaliar a sua loucura e condenar o seu gesto, mas possuía também a determinação férrea da Van Aldin, a determinação de ter tudo quanto queria e de, uma vez tomada uma decisão, não voltar atrás. Desde o berço que era voluntariosa, característica que as próprias circunstâncias da vida que levava haviam desenvolvido. Enfim, os dados estavam lançados, só lhe restava ir para a frente!
Levantou a cabeça e o seu olhar cruzou-se
com o da mulher sentada no lugar oposto. Sem saber porquê, teve a impressão disparatada de que a outra lhe lera os pensamentos e de que os seus olhos cinzentos traduziam compreensão e... sim, compaixão.
Mas foi uma impressão fugidia; o rosto de
ambas adquiriu, ato contínuo, a impassibilidade própria de pessoas bem educadas. Mrs. Kettering pegou numa revista e Katherine Grey olhou pela janela a paisagem interminável e deprimente de ruas e casas suburbanas.
Ruth sentia cada vez maior dificuldade em
fixar a atenção na revista que lia. Mau grado seu, mil apreensões lhe assaltavam o espírito. Como fora idiota! E continuava a sê-lo! Como todas as pessoas de temperamento calmo e auto- suficiente, quando perdia o autodomínio perdia-o por completo. Era demasiado tarde... Mas seria, de fato? Oh, se tivesse alguém com quem falar, alguém que a aconselhasse! Nunca experimentara semelhante desejo e desdenhara sempre da possibilidade de confiar numa opinião que não fosse a sua, mas agora... Que se passaria consigo? Pânico. Sim, era essa a palavra que melhor descrevia o seu estado de espírito: pânico. Ela, Ruth Kettering, estava completa e absolutamente vencida pelo pânico.
Lançou um olhar disfarçado à companheira
de viagem. Se ao menos conhecesse alguém assim, uma criatura calma, simpática e compreensiva... Via- se que era daquelas mulheres com quem se podia falar. Mas, claro, não se fazem confidências a uma desconhecida. Ruth sorriu de semelhante idéia e tentou ler de novo; precisava de se dominar. No fim de contas, estudara o assunto e decidira de sua livre vontade. Que felicidade tivera na vida, até agora?
“Porque não hei-de ser feliz?”, perguntou a si
mesma, impacientemente.
“Ninguém saberia...”
Chegaram a Dover num instante. Ruth
era boa marinheira, mas detestava o frio e estava ansiosa por se encontrar no conchego do camarote que reservara por telegrama. Embora não o confessasse, tinha certas superstições e as coincidências atraíam-na. Depois de desembarcar em Calais e de se instalar com a criada no seu compartimento duplo do Comboio Azul, dirigiu-se à carruagem-restaurante. Foi com um pequeno sobressalto de surpresa que se encontrou sentada à mesa, tendo na frente a mesma mulher que viajara consigo na Pullman. Um leve sorriso entreabriu os lábios das duas senhoras.
- Que coincidência! - comentou Mistress
Kettering.
- Sem dúvida - concordou Katherine. - É
singular a maneira como as coisas acontecem.
Um empregado serviu-lhes a sopa, com a
rápida eficiência sempre demonstrada pela Compagnie Internationale des Wagons-Lits, e quando chegou a vez do omelete as duas mulheres conversavam já amigavelmente.
- Estou ansiosa pelas delícias do sol! -
exclamou
Ruth, com um suspiro.
- Deve ser maravilhoso.
- Conhece bem a Riviera?
- Não; esta é a minha primeira visita. - Imagine!
- Vai todos os anos, suponho? - Praticamente. Janeiro e Fevereiro são
terríveis em Londres.
- Vivi sempre na província, onde esses meses
também não são muito inspiradores. Há, sobretudo, o flagelo da lama...
- Porque decidiu viajar, agora? - Dinheiro - confessou Katherine. –
Durante dez anos fui dama de companhia e nunca tive mais do que o indispensável para comprar sapatos grossos, para o campo... Agora herdei o que me parece uma fortuna, embora à senhora não deva parecer muito.
- Porquê? Porque me diz que não me
parecerá muito, a mim?
Katherine riu-se, confusa.
- Sinceramente, não sei. Suponho que,
mesmo sem querermos, formulamos opiniões acerca das pessoas, e a minha opinião a seu respeito leva- me a classificá-la entre os muito ricos deste mundo. Claro que se trata apenas de uma impressão; provavelmente estou enganada.
- Não, não está enganada - volveu Ruth,
subitamente grave. Gostaria de saber que outras opiniões formou a meu respeito.
- Eu...
- Oh, por favor, ponha de parte os
convencionalismos! pediu Ruth, ignorando o embaraço da outra. - Gostava de saber, acredite. Quando o comboio partiu de Vitória olhei para si e tive a impressão de que a senhora... bem, de que compreendia o que se passava no meu pensamento.
- Garanto-lhe que não sei ler o pensamento
alheio! - afirmou Katherine, a sorrir.
- De acordo. Mas diga-me, por favor, o que
pensou de mim.
A ansiedade de Ruth era tão intensa e
sincera que logrou os seus intentos.
- Dir-lhe-ei, visto pedir-mo, mas rogo-lhe
que não me considere impertinente. Pensei que, por qualquer motivo, sofria de uma grande angústia e lamentei-a.
- Não se enganou; tem toda a razão. Sinto-
me, de fato, angustiada e... e gostaria de falar-lhe dos motivos da minha perturbação, se mo permitisse.
“Meu Deus, como o mundo parece
extraordinariamente igual em toda a parte!”, pensou Katherine. “Em St. Mary Mead toda a gente tinha sempre coisas que desejava dizer-me; aqui acontece a mesma coisa. E eu que não tenho interesse nenhum em ouvir as mágoas dos outros!”
Mas respondeu, delicadamente: - Faça o favor de falar.
Como estavam a acabar de almoçar, Ruth
bebeu o café de um trago, levantou-se e, sem reparar sequer que Katherine não começara ainda a beber o seu, disse-lhe:
- Venha ao meu compartimento. Os aposentos de Ruth Kettering
constavam de dois compartimentos simples, com uma porta de comunicação. A criada magra que Katherine vira na estação de Vitória encontrava-se no segundo, sentada muito direita e a agarrar uma caixa de marroquim encarnado, com as iniciais R. V. K. Mistress Kettering fechou a porta de comunicação, sentou-se e Katherine sentou-se também, ao seu lado.
- Estou em apuros e não sei que fazer. Gosto
de um homem, gosto muito, mesmo. Amamo-nos quando éramos novos, fomos brutal e injustamente separados e agora reunimo-nos de novo.
- Sim?
- Vou... vou encontrar-me com ele.
Calculo que não aprovará, mas ignora as circunstâncias. Meu marido é uma pessoa impossível, tratou-me grosseiramente.
- Ah! - murmurou Katherine. - O que me custa tanto é ter enganado meu
pai; foi ele que se despediu de mim, na estação de Vitória. Quer que me divorcie de meu marido e, naturalmente, não faz a mínima idéia de que vou encontrar-me com... com o outro homem. Se soubesse consideraria a minha atitude de uma grande impudência e idiotice.
- E não concorda com ele?
- Creio... creio que sim. - Olhou para
as mãos, que tremiam violentamente, e confessou: - Mas não posso retroceder.
- Porquê?
- Eu... enfim, está tudo combinado e
despedaçaria o coração dele.
- Não acredite - afirmou Katherine, com
firmeza. - Os corações são mais rijos do que supomos.
- Pensaria que não tenho coragem nem força
de vontade.
- O que vai fazer parece-me estúpido, e a
senhora deve ser da mesma opinião.
- Não sei... não sei... - gemeu Ruth Kettering,
escondendo o rosto nas mãos. - Desde que partimos de Vitória que sinto um pressentimento horrível, como se em breve fosse acontecer-me qualquer desgraça à qual não posso escapar. - Agarrou convulsivamente a mão de Katherine e acrescentou: - Deve julgar-me doida por falar desta maneira, mas afirmo-lhe que vai acontecer uma tragédia!
- Não pense nisso, tente afastar
semelhante idéia do pensamento e dominar-se - aconselhou-a a outra. - Se quisesse, de Paris podia telegrafar ao seu pai e ele viria ter consigo.
O rosto de Ruth iluminou-se. - Tem razão, podia telegrafar! Querido pai! É
estranho, mas só hoje avaliei quanto gosto dele... - Endireitou-se, limpou os olhos e murmurou: - Devo ter feito uma grande figura de idiota... Muito obrigada por me ter ouvido... Não sei porque fiquei neste estado de nervosismo...
Levantou-se e acrescentou:
- Já me sinto bem; creio que precisava apenas
de alguém com quem desabafar. Digo-lhe sinceramente que não compreendo, agora, porque fui tão idiota.
Katherine levantou-se também e redargüiu,
tentando falar no tom mais convencional possível:
- Ainda bem que se sente melhor! - Sabia
perfeitamente que a todas as confidências se segue inevitável embaraço e por isso teve o bom-senso de acrescentar: - Agora, se me permite, preciso de voltar ao meu compartimento.
Encontrou-se no corredor ao mesmo tempo
que a criada saía da porta ao lado. A mulher olhou na direção de Katherine por cima do ombro e refletiu-se- lhe no rosto uma expressão de intensa surpresa. Katherine voltou-se instintivamente, mas quem quer que surpreendera a criada entrara já para qualquer dos compartimentos, pois o corredor estava deserto. Katherine dirigiu-se para o seu lugar, na carruagem seguinte, e ao passar pelo último compartimento do corredor a porta abriu-se e um rosto de mulher espreitou, por momentos, e recolheu-se logo, vivamente. Era um rosto que não se esquecia com facilidade, como verificaria quando voltou a vê-lo, uma cara bonita, oval e morena, excessiva e exoticamente pintada. Teve a impressão de que já a vira, algures.
Chegou ao seu compartimento sem mais
novidades e sentou-se a refletir nas confidências que acabava de ouvir. Quem seria a mulher do casaco de marta e como acabaria a sua história?
“Se evitei que cometesse uma tolice, fiz bom
trabalho”, pensou. “Mas vá lá saber-se... É do tipo de mulheres que são obstinadas e egoístas toda a vida e a quem um bocadinho de sofrimento só pode fazer bem... Enfim, creio que não voltarei a vê-la; ela não quererá, com certeza, voltar a ver-me. É o que se ganha em ouvir as confidências dos outros: não querem voltar a ver-nos.”
Desejou que não lhe reservassem o mesmo
lugar ao jantar, pois podia ser embaraçoso para ambas. Apoiou a cabeça numa almofada, sentindo-se fatigada e vagamente deprimida. Tinham chegado a Paris e a lenta viagem em redor da ceinture, com as suas intermináveis paragens e esperas, era fatigante e aborrecida. Quando chegaram à Gare de Lyon apeou-se, contente, e passeou de um lado para o outro, no cais. A aragem fresca era repousante, depois da atmosfera abafada do comboio. Verificou, com um sorriso, que a sua amiga do casaco de marta resolvia à sua maneira o problema do possível embaraço do jantar: a criada recebia, pela janela, um cesto com a refeição.
Quando o comboio retomou a marcha e um
toque de sineta anunciou o jantar, Katherine dirigiu-se para a carruagem-restaurante com uma agradável sensação de alívio. O seu companheiro de mesa era um homem baixo, de aspecto distintamente estrangeiro, com um bigode de guias rígidas e enceradas e cabeça oval, que tinha o hábito de inclinar um pouco para o lado. Katherine levara um livro, para se entreter enquanto comia, e reparou que o homem o olhava com certa malícia.
- Vejo, madame, que trouxe um romance
policial. Gosta do gênero?
- Entretém-me - confessou Katherine. O homenzinho acenou com a cabeça, em
sinal de absoluta compreensão, e comentou:
- Vendem-se muito bem, segundo me consta.
Porque será, hem, mademoiselle?
Pergunto-lho como estudioso da natureza humana...
- Talvez proporcionem a quem os lê a
ilusão de viverem uma vida excitante - sugeriu, cada vez mais divertida.
- Sim, a resposta não deixa de ter certa lógica
-- anuiu o indivíduo, em tom grave.
- Claro que sabemos que tais coisas não
acontecem na realidade... - continuou Katherine, mas ele interrompeu-a, vivamente:
- Às vezes, mademoiselle! Às vezes! A mim
aconteceram, a mim, que estou a falar-lhe!
Katherine lançou-lhe um olhar rápido e
interessado e o indivíduo prosseguiu:
- Um dia, quem sabe?, talvez a mademoiselle
se encontre também no coração de uma aventura. É tudo uma questão de acaso.
- Não creio que seja possível. Nunca me
acontecem coisas desse gênero.
- E gostaria que acontecessem? - perguntou-
lhe, inclinando-se para a frente, em tom confidencial.
A pergunta perturbou Katherine, que
susteve a respiração.
- Talvez esteja a deitar-me a adivinhar -
observou o homenzinho, enquanto limpava o garfo à toalha -, mas parece-me que alberga em si um anelo por acontecimentos interessantes. Eh bien, mademoiselle, toda a minha vida observei uma coisa, uma grande verdade:
"Querer é poder!” Quem sabe? - O rosto
franziu-se-lhe numa expressão cômica. - Pode estar-lhe reservado mais do que supõe.
- É uma profecia? - perguntou-lhe
Katherine, a sorrir, enquanto se levantava da mesa.
- Nunca faço profecias - declarou,
pomposamente, o homenzinho. - É verdade que tenho o hábito de nunca me enganar, mas não me vanglorio disso. Boas noites, mademoiselle, desejo-lhe que durma bem.
Katherine regressou ao seu compartimento,
divertida com a conversa do seu pequeno vizinho de mesa. Passou pela porta aberta do compartimento da mulher do casaco de marta e viu o condutor a preparar a cama. A passageira encontrava-se de pé, junto da janela, a olhar para fora. O segundo compartimento pareceu-lhe deserto, visto pela porta de comunicação, com malas e mantas amontoadas no banco. A criada não se encontrava lá.
Encontrou a sua cama já preparada, e como
estava fatigada deitou-se e apagou a luz às nove e meia da noite.
Acordou em sobressalto, sem saber quanto
tempo dormira. Olhou para o relógio, mas verificou que parara. Invadiu-a uma sensação de intenso mal- estar, que se agravava de momento a momento. Acabou por se levantar, pôr o roupão pelos ombros e sair para o corredor. Todo o comboio parecia dormir. Katherine abriu a janela e sentou-se, aspirando o ar frio da noite e tentando em vão acalmar os seus desagradáveis e incompreensíveis receios. A certa altura resolveu dirigir-se ao fundo da carruagem e perguntar ao condutor que horas eram, para acertar o relógio. Verificou, porém, que a cadeira do homem estava deserta.
Hesitou, um instante, e depois passou para a
carruagem seguinte. Olhou o corredor comprido e vagamente iluminado e viu, surpreendida, um homem com a mão apoiada na porta do compartimento da mulher do casaco de marta. Ou melhor, pensou que era o compartimento dela, mas provavelmente não era. O homem permaneceu assim um momento ou dois, de costas voltadas na
sua direção, parecendo incerto e hesitante.
Depois virou-se lentamente e, com uma estranha sensação de fatalismo, Katherine reconheceu o indivíduo que vira já duas vezes - uma no corredor do Savoy Hotel e outra nos escritórios da Cook. De súbito, o homem resolveu-se: abriu a porta, entrou e fechou-a atrás de si.
Uma idéia atravessou, rápida, o cérebro de
Katherine Grey; seria aquele o homem de quem a outra mulher falara, aquele a quem ia reunir-se?
Mas disse a si mesma que estava a fantasiar,
que certamente se enganara no compartimento, e regressou à sua carruagem.
Cinco minutos depois a composição perdeu
velocidade, ouviu-se o silvo longo e lamentoso dos travões Westinghouse e, passados poucos minutos, o comboio parou em Lyon.