O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 12 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XV

 

O CONDE DE LA ROCHE

Van Aldin leu a carta em silêncio, mas o

rosto tornou-se-lhe escarlate de cólera. Os homens que o observavam viram-lhe as veias da testa engrossar, como se fossem rebentar, e as mãos enclavinharem-se-lhe, inconscientemente. Devolveu a carta, sem dizer uma palavra. M. Carrège olhava atentamente para a secretária, M. Caux tinha os olhos fixos no teto e M. Poirot sacudia, com cuidado, um grãozinho de poeira da manga do casaco. Todos eles se esforçavam, em suma, por não olhar para Van Aldin.

Foi M. Carrège quem, consciente do seu

cargo e dos seus deveres, abordou o desagradável assunto:

- Talvez o senhor saiba por quem esta carta

foi escrita? - perguntou, hesitante.

- Sei, sim - respondeu o americano,

friamente.

- Quem?

- Um patife que a si próprio se apelida de

conde de la Roche.

Seguiu-se uma pausa, finda a qual M. Poirot

endireitou uma régua na secretária do juiz e depois se dirigiu diretamente ao milionário:

- Monsieur Van Aldin, avaliamos todos, e

lamentamos profundamente, a dor que lhe deve causar falar destes assuntos, mas, creia-me, não é altura de ocultar seja o que for. Para que seja feita justiça precisamos de saber tudo. O senhor mesmo compreenderá, se refletir, a verdade da minha afirmação.

Van Aldin ficou silencioso, durante alguns

momentos, e por fim, relutante, acenou afirmativamente.

- Tem razão, Monsieur Poirot. Por muito que

me doa, não tenho o direito de ocultar seja o que for.

O comissário soltou um suspiro de alívio e o

juiz de instrução recostou- se na cadeira e ajustou o pince-nez no nariz comprido.

- Talvez queira dizer-nos por palavras suas

quanto sabe acerca desse cavalheiro - convidou o magistrado.

- Começou tudo há onze ou doze anos, em

Paris. Minha filha era então uma jovem cheia de idéias românticas e tolas, como todas as raparigas, e, sem que eu soubesse, travara conhecimento com o tal conde de la Roche. Devem ter ouvido falar dele?

O comissário e Poirot confirmaram, com um

aceno de cabeça.

- Intitula-se conde de la Roche, mas duvido

que tenha qualquer direito ao título.

- Não encontraria o seu nome, se o

procurasse, no Almanac de Gotha - assentiu o comissário.

- Já sabia - declarou Van Aldin. - O

indivíduo era um patife bem- parecido, que exercia fatal fascínio nas mulheres. Minha filha apaixonou-se por ele, mas eu apressei-me a pôr cobro a tamanho destempero, pois o indivíduo não era mais do que um vulgar trapaceiro.

- Tem razão - aquiesceu M. Caux. -

Conhecemos bem o conde de la Roche e, se pudéssemos, há muito que o teríamos apanhado. Mas, ma foi!, não é nada fácil. O patife é esperto e todos os seus “negócios” se processam com senhoras de elevada posição social. Se consegue apanhar-lhes dinheiro sob falsos pretextos ou por chantagem, elas não se queixam nem o denunciam, naturalmente. Passar por idiotas aos olhos do mundo? Oh, não! Além disso, o cavalheiro tem extraordinário poder sobre as mulheres.

- Exatamente - concordou o milionário. -

Como dizia, acabei com o romance sem perda de tempo, disse a Ruth o que ele era e minha filha teve de acreditar-me. Cerca de um ano depois conheceu o marido e casaram. Que eu soubesse, o romance terminara; mas, há uma semana, apenas, descobri que minha filha reatara o seu conhecimento com o conde de la Roche. Encontraram- se freqüentemente em Londres e Paris. Censurei-lhe a imprudência, pois devo dizer-lhes, cavalheiros, que, por insistência minha, Ruth preparava-se para apresentar uma ação de divórcio contra o marido.

- Interessante - murmurou Poirot,

docemente, de olhos fitos no teto.

Van Aldin olhou-o, irritado, e prosseguiu: - Demonstrei-lhe a tolice de continuar a

encontrar-se com o conde, nas circunstâncias em que se encontrava, e pensei que ela concordava comigo.

O magistrado tossiu delicadamente e

insinuou:

- Mas, a julgar por esta carta... - Bem sei, são inúteis os subterfúgios. Por

muito desagradáveis que os fatos sejam, há que enfrentá-los. Tudo parece indicar que Ruth combinara encontrar-se em Paris com de la Roche, mas que, depois das minhas advertências, escreveu ao conde a sugerir outro local de rendez-vous.

- As Isles d'Or - lembrou o comissário,

pensativo – ficam situadas mesmo defronte de Hyères e são um lugar remoto e idílico.

- Meu Deus, como pôde Ruth ser tão tola? --

perguntou o americano, amargurado. - Toda essa conversa de estar a escrever um livro acerca de pedras preciosas... O que ele queria eram os rubis!

- Existem uns rubis famosos, que

originariamente fizeram parte das jóias da coroa da Rússia, únicos no gênero e quase fabulosamente valiosos – murmurou Poirot. - Constou que, há pouco tempo, foram adquiridos por um americano. Não nos enganamos ao concluir que foi o senhor quem os comprou?

- Sim, adquiri-os em Paris há cerca de dez

dias.

- Perdoe, monsieur, mas negociou a

aquisição durante algum tempo, não é verdade?

- Pouco mais de dois meses. Porquê? - Essas coisas sabem-se; há sempre muita

gente na pista de jóias como essas - respondeu Poirot.

- Lembro-me de uma piada que disse a

minha filha, quando lhas ofereci

- murmurou Van Aldin, com um esgar de

dor. - Disse-lhe que não as trouxesse para a Riviera, pois não queria que a assaltassem e assassinassem por causa dos rubis. Meu Deus, que coisas dizemos sem imaginarmos que virão a ser verdade! Seguiu-se um momento de silêncio compreensivo, que Poirot interrompeu de maneira despreocupada:

- Classifiquemos os fatos de que temos

conhecimento com ordem e precisão. De acordo com a presente hipótese, a ordem é a seguinte: o conde de la Roche tem conhecimento da compra das jóias, efetuada pelo senhor; graças a um estratagema simples, induz Madame Kettering a trazer as pedras com ela. É ele, portanto, o homem que Mason viu no comboio, em Paris.

Os outros três acenaram, aquiescentes. - Madame fica surpreendida, ao vê-lo, mas o

conde resolve facilmente a situação: Mason é afastada e encomendado um cesto com o jantar. Sabemos, por informação do condutor, que armou a cama do primeiro compartimento, mas que não entrou no segundo, onde podia muito bem estar escondido um homem. Até agora, o conde não teria dificuldade em esconder-se. No comboio ninguém está ao corrente da sua presença, exceto madame, e teve o cuidado de evitar que a criada lhe visse o rosto. Mason sabe apenas que era alto e moreno, descrição que é, muito convenientemente, vaga. Estão sós, enquanto o comboio avança, veloz, através da noite... Não haverá nenhum grito, nenhuma luta, pois o homem é, julga-o a vítima, seu apaixonado. ..

Voltou-se para Van Aldin e acrescentou, em

tom suave:

- A morte deve ter sido quase instantânea,

monsieur. Não nos deteremos a descrevê-la. O conde apodera-se do guarda-jóias, que está ao alcance da sua mão, e pouco depois o comboio entra em Lyon.

Mr. Carrège abanou a cabeça, aprovador. - O condutor apeia-se. Seria fácil ao nosso

homem abandonar o comboio sem ser visto, assim como meter-se noutro comboio para Paris ou para onde quisesse... e o crime atribuir-se-ia a vulgar roubo de comboio. Não fora a carta encontrada na mala de madame, o conde nem seria mencionado.

- Foi um descuido da sua parte não ter

revistado a mala - declarou o comissário.

- Pensou, naturalmente, que a senhora

tinha destruído a carta. Foi, perdoe, monsieur, uma imprudência imperdoável conservá-la.

- Uma imprudência, todavia, que o conde

devia ter previsto - murmurou

Poirot.

- Que quer dizer?

- Quero dizer que todos concordamos que o

conde de la Roche conhece um assunto a fundo: mulheres. Como é então possível que, conhecendo mulheres como conhece, não previsse que madame conservaria a sua carta?

- Sim, há qualquer coisa no que diz -

declarou o magistrado, pouco convencido. - No entanto, nessas ocasiões um homem não é senhor de si mesmo, não raciocina calmamente. Mon Dieu - acrescentou, com espírito -, se os nossos criminosos conservassem a cabeça no seu lugar e procedessem com inteligência, como os apanharíamos?

Poirot sorriu.

- O caso parece-me claro, mas difícil de

provar – continuou M. Carrège. - O conde é matreiro, e a não ser que a criada possa identificá-lo...

- O que é muito pouco provável – interveio

Poirot.

- Decerto, decerto - concordou o juiz de

instrução, esfregando o queixo. - Vai ser difícil.

- Se ele cometeu de fato o crime... –

começou o detetive, mas o comissário interrompeu-o:

- Diz se?

- Sim, senhor comissário, digo se. O outro olhou-o com atenção, mas acabou

por confessar:

- Tem razão, estamos a andar muito

depressa. É possível que o conde tenha um álibi e, se nos precipitássemos, pareceríamos idiotas.

- Ah, ça par exemple não tem a mínima

importância! - afirmou Poirot. - Naturalmente, se é ele o criminoso, terá um álibi; um homem com a experiência do conde não se esquece de tomar precauções. Não, eu disse se por uma razão muito definida.

- Qual?

Poirot agitou pomposamente um indicador e

sentenciou:

- Psicologia!

- O quê? - admirou-se o comissário. - Psicologicamente, não bate certo. O conde é

um celerado, sem dúvida; o conde é um trapaceiro, com certeza; o conde ludibria mulheres, está provado; o conde tencionava roubar as jóias de madame, não custa a crer. Mas será do tipo de homens capazes de cometer um assassinato? Afirmo que não! Um homem como o conde é sempre um cobarde, não corre riscos. Joga pelo seguro, mesquinhamente, com batota; mas assassinar: cem vezes não! - e abanou a cabeça, des contente.

O juiz de instrução não parecia, porém,

inclinado a concordar com ele, pois observou sabiamente:

- Chega sempre um dia em que pessoas dessa

estirpe perdem a cabeça e vão demasiado longe. Foi sem dúvida o que aconteceu neste caso. Sem querer discordar de si, Monsieur Poirot...

- Expus apenas uma opinião - apressou-se o

detetive a explicar. - O caso está nas suas mãos, evidentemente, e o senhor fará o que lhe parecer acertado.

- Estou convencido de que o conde de la

Roche é o homem que procuramos - afirmou M. Carrège.

- Concorda comigo, comissário? - Absolutamente.

- E o senhor, Monsieur Van Aldin? - Não me restam dúvidas de que o indivíduo

é um patife da pior espécie

- replicou o milionário.

- Receio que seja difícil deitar-lhe a mão,

mas faremos o possível - prometeu o magistrado. – Telegrafaremos imediatamente as instruções necessárias.

- Permitam que os ajude - pediu Poirot. –

Não será difícil encontrar o conde.

- Porquê?

Olharam-no todos, mas o homenzinho

sorriu-lhes e explicou:

- Não se esqueçam de que a minha profissão

é saber coisas! O conde é um homem inteligente. Neste momento encontra-se numa moradia que alugou, na Villa Marina, em Antibes.