O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 17 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXII

 

M. PAPOPOLOUS ALMOÇA

M. Papopolous tomava o pequeno-almoço,

sentado à mesa com sua filha, Zia, quando bateram à porta da sala e um mandarete entrou e lhe entregou um cartão.

M. Papopolous leu-o, ergueu as sobrancelhas

e estendeu-o à filha.

- Hercule Poirot... - murmurou, coçando

pensativamente a orelha esquerda. - Que quererá? - Pai e filha entreolharam-se e o antiquário acrescentou:

- Vi-o ontem, no tênis... Zia, isto não me

agrada nada.

- Foi-lhe muito útil, em tempos - recordou-

lhe a filha.

- É verdade - concordou M. Papopolous. --

Além disso, diz-se que se retirou do trabalho ativo...

Pai e filha tinham falado na sua língua

pátria, mas a seguir M. Papopolous disse ao mandarete, em francês:

- Faites monter ce monsieur.

Poucos minutos depois, elegantemente

vestido e a balançar uma bengala, com ar garboso, M. Poirot entrou na sala.

- Meu caro, M. Papopolous!

- Meu caro, M. Poirot!

- Mademoiselle Zia... - saudou-a com uma

vênia cortês.

- Queira desculpar continuarmos a almoçar --

disse o grego, deitando uma xícara de café. - A sua visita é... um pouco matinal.

- Escandalosamente matinal, mas,

compreende, estou cheio de pressa.

- Ah! - exclamou o grego. - Anda a investigar

algum caso?

- Um caso muito sério: a morte de Madame

Kettering.

- Ora deixe ver... - M. Papopolous olhou

inocentemente para o teto. - Não foi a senhora que morreu no Comboio Azul? Vi a notícia nos jornais, mas não havia qualquer indicação de crime...

- Pareceu melhor ocultar o fato, no

interesse da justiça - esclareceu

Poirot.

- E em que posso ser-lhe útil, M. Poirot?

- indagou o antiquário, delicadamente, após uma pausa.

- Serei breve e explícito - prometeu o

detetive.

Tirou da algibeira a caixa que mostrara ao

americano, em Canes, abriu-a, retirou os rubis e estendeu-os a Papopolous.

Embora Poirot olhasse atentamente o grego,

não viu mover-se um único músculo do seu rosto. Papopolous pegou nas pedras, examinou-as com um certo ar indiferente e depois olhou, interrogador, para o detetive.

- Soberbas, não acha? - perguntou este. - Excelentes.

- Quanto lhe parece que valem? O rosto do grego tremeu um pouco. - É necessário dizer-lho, Monsieur Poirot? - É inteligente, M. Papopolous. Não, não é

preciso dizer-mo. Não valem, por exemplo, quinhentos mil dólares?

O grego desatou a rir e Poirot fez-lhe

companhia.

- Como imitação, são excelentes, como já

disse – observou Papopolous, devolvendo-lhe as pedras. - Seria indiscrição perguntar-lhe, Monsieur Poirot, onde as arranjou?

- De modo nenhum. Não me importo nada

de o dizer a um velho amigo como o senhor. Estavam em poder do conde de la Roche.

M. Papopolous ergueu eloqüentemente as

sobrancelhas e murmurou:

- Deveras?

Poirot inclinou-se para a frente, com o seu ar

mais inocente e enganador.

- Porei as cartas na mesa, Monsieur

Papopolous.

- As pedras que serviram de modelo a estas,

as originais, foram roubadas a Madame Kettering, no Comboio Azul. Antes de mais nada, quero afirmar-lhe o seguinte: não estou empenhado na recuperação delas; isso é com a Polícia. Também não trabalho para a Polícia, mas para Monsieur Van Aldin, e pretendo apenas deitar a mão ao indivíduo que matou Madame Kettering. As jóias interessam-me simplesmente pela possibilidade de me conduzirem ao assassino. Compreende?

A última palavra foi pronunciada de

maneira significativa e M. Papopolous, imperturbável, disse apenas:

- Continue.

- Parece-me provável, monsieur, que as jóias

mudem de mãos em Nice... se já não mudaram.

- Ah! - exclamou M. Papopolous, sorvendo o

seu café e parecendo um pouco mais nobre e patriarcal do que de costume.

- Disse para comigo: “Que sorte!” –

continuou Poirot, entusiasmado. -

“O meu velho amigo, Monsieur Papopolous,

está em Nice e ajudar-me-á!”

- E como lhe parece que poderei ajudá-lo? -

inquiriu o grego, friamente.

- Calculei que, sem dúvida, Monsieur

Papopolous estava em Nice para tratar de negócios...

- De modo nenhum! - exclamou o antiquário. - Estou aqui por causa da minha saúde, por

ordem dos médicos - e tossiu cavernosamente.

- Desola-me a notícia - confessou Poirot, com

falsa sinceridade. - Mas, continuando: quando um grão-duque russo, uma arquiduquesa austríaca ou um príncipe italiano desejam dispor das jóias da família, quem procuram? Monsieur Papopolous, não é verdade? O negociante famoso em todo o mundo pela discrição com que trata destas coisas.

O outro esboçou uma leve inclinação da

cabeça e murmurou:

- Lisonjeia-me.

- A discrição é uma grande coisa - afirmou

Poirot, o que lhe valeu um sorriso fugidio do grego.

- Eu também sei ser discreto. Os olhos dos dois homens encontraram-se e

Poirot continuou a falar, devagar e escolhendo bem as palavras.

- Disse para comigo: "Se estas jóias

mudaram de mãos em Nice, Monsieur Papopolous deve ter ouvido falar no assunto. Tem conhecimento de tudo quanto se passa no mundo das jóias.”

- Ah! - exclamou o antiquário, servindo-se

de um croissant.

- Mas a Polícia nada tem a ver com o caso,

compreende? afirmou Poirot.

- É um assunto meramente pessoal. - Correm boatos, sem dúvida - admitiu M.

Papopolous, cauteloso.

- Como, por exemplo?

- Existe alguma razão para que lhos confie? - Penso que sim. Lembre-se, Monsieur

Papopolous, de que há dezessete anos teve nas suas mãos determinado artigo, que lhe fora confiado, por uma questão de segurança, por... enfim, uma pessoa proeminente... Lembre-se de que, de súbito, esse mesmo artigo desapareceu e o senhor ficou, se me permite a expressão, em muito maus lençóis.

Fitou docemente a rapariga, que afastara o

prato e a xícara, apoiara os cotovelos na mesa e o queixo na palma das mãos, e escutava avidamente.

- Nessa altura encontrava-me em Paris e o

senhor mandou-me chamar - prosseguiu o detetive, sem desfitar Zia. - Colocou-se nas minhas mãos e disse- me que, se conseguisse restituir-lhe esse artigo, poderia contar com a sua eterna gratidão. Eh bien, consegui restituir-lho!

- Foi o momento mais desagradável da

minha carreira - confessou o grego, com um profundo suspiro.

- Dezessete anos é muito tempo – continuou

Poirot, pensativo -, mas creio não me enganar ao dizer que um homem da sua raça não esquece.

- Um grego? - perguntou Papopolous, com

um sorriso irônico.

- Não era à nacionalidade grega que me

referia – redargüiu o detetive. Seguiu-se um momento de silêncio, findo o qual o velho negociante se

endireitou e volveu, orgulhosamente: - Tem razão, Monsieur Poirot, sou judeu. E,

como disse, os da minha raça não esquecem.

- Ajudar-me-á, então?

- No que se refere às jóias, monsieur, nada

posso fazer. - Era agora o grego quem, como Poirot fizera antes, escolhia cuidadosamente as palavras. - Não sei nada, não ouvi nada. Mas talvez possa prestar-lhe outro favor, se, por acaso, se interessar por corridas de cavalos.

- Em certas circunstâncias, talvez me

interesse – respondeu o detetive, olhando-o com atenção.

- Corre em Longchamps um cavalo em que,

parece-me, valeria a pena tentar. Não tenho a certeza, porém, pois, como compreende, estas notícias passam por muitas mãos...

Fez uma pausa e fitou o detetive, como se

quisesse certificar-se de que o outro o compreendia.

- Perfeitamente, perfeitamente - redargüiu

Poirot.

- O nome do cavalo - continuou o grego,

recostando-se na cadeira e unindo as pontas dos dedos – é “O Marquês”. Penso, mas não tenho a certeza, que é um cavalo inglês. Que dizes tu, Zia?

- Também me parece - respondeu a rapariga. - Agradeço-lhe, monsieur - disse Poirot,

levantando-se. - É uma grande coisa ter, como dizem os ingleses em gíria de hipódromo, uma achega da cavalariça... Até à vista, monsieur, e muito obrigado.

Voltou-se para a rapariga e despediu-se: - Au revoir Mademoiselle Zia. - Ainda me

parece que foi ontem que a vi em Paris! Dir-se-ia que passaram dois anos, no máximo.

- Há uma diferença maior entre dezesseis e

trinta e três - redargüiu Zia, melancólica.

- No seu caso, não há - afirmou Poirot,

galanteador. - Espero que a senhora e o seu pai jantem comigo, uma noite destas.

- Teremos muito prazer - volveu a rapariga. - Havemos de combinar. E agora... je me

sauve!

Na rua, Poirot começou a trautear

baixinho uma canção, enquanto balouçava garbosamente a bengala.

Uma ou duas vezes sorriu serenamente, para

consigo.

Entrou no primeiro posto dos correios

que encontrou e expediu um telegrama. Levou algum tempo a redigi-lo, mas servia-se de um código e teve de recorrer à memória.

Aparentemente, referia-se a um alfinete de

peito perdido e era dirigido ao inspetor Japp, da Scotland Yard; na realidade, era breve e incisivo:

“Telegrafe tudo quanto souber acerca

homem cuja alcunha é „O Marquês".”