O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 8 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XI

 

ASSASSINATO

Quando acordou, na manhã seguinte, o sol

brilhava esplendorosamente. Foi almoçar cedo, mas não encontrou nenhum dos conhecidos da véspera. Ao regressar ao compartimento encontrou-o já com o aspecto que apresentava de dia, graças ao condutor, um homem moreno, de bigode caído e rosto melancólico.

- Madame tem sorte; o sol brilha - disse-lhe,

delicadamente.

- É sempre uma decepção para os

passageiros quando chegam numa manhã sombria.

- Seria, sem dúvida, uma decepção para

mim.

- Vamos bastante atrasados, madame –

informou o homem, antes de sair. - Avisá-la-ei quando estivermos quase a chegar a Nice.

Katherine sentou-se à janela, encantada com

a paisagem banhada de sol. As palmeiras, o azul profundo do mar e o amarelo brilhante das mimosas tinham todo o encanto da novidade para uma mulher que durante catorze anos conhecera apenas os tristes Invernos da Inglaterra.

Quando chegaram a Canes apeou-se e

passeou no cais. Sentindo uma certa curiosidade acerca da mulher do casaco de marta, olhou para as janelas do seu compartimento. Tinham ainda as cortinas corridas, e por sinal eram as únicas em todo o comboio nessas condições. Ficou um pouco intrigada e, ao passar, depois, pelo corredor, notou que os dois compartimentos estavam ainda fechados e às escuras. A dama do casaco de marta não era nada madrugadora...

Pouco depois o condutor veio informá-la

de que dali a minutos o comboio chegaria a Nice. Katherine deu-lhe gorjeta e o homem agradeceu, mas pareceu hesitar em ir-se embora. Miss Grey supôs, ao princípio, que talvez a gorjeta tivesse sido pequena, mas não tardou a convencer-se de que se passava qualquer coisa mais séria. O homem estava branco, tremia como varas verdes e parecia ter apanhado um grande susto. Olhava-a de uma maneira curiosa e a certa altura perguntou-lhe, bruscamente:

- Madame desculpará, mas tem amigos a

esperá-la em Nice?

- Provavelmente. Porquê?

Mas o condutor limitou-se a acenar com a

cabeça, a murmurar qualquer coisa que ela não percebeu e a afastar-se. Voltou apenas quando o comboio parou na estação e começou a passar-lhe a bagagem pela janela.

Katherine ficou parada na estação, sem saber

que fazer, mas um jovem louro, de rosto ingênuo, aproximou-se e perguntou-lhe:

- É Miss Grey?

Katherine confirmou, o jovem sorriu

seraficamente e apresentou-se:

- Sou Chubby, o marido de Lady Tamplin.

Calculo que ela lhe falou de mim, mas também se pode ter esquecido... Tem o seu billet de bagage? Este ano perdi o meu, numa viagem que fiz, e não imagina o sarilho que foi. Burocracia francesa!

Katherine entregou-lhe o talão e ia a

acompanhá-lo quando uma voz suave e insidiosa murmurou ao seu ouvido:

- Só um momentinho, madame, por favor. Voltou-se e deparou-se-lhe um indivíduo

que supria a insignificância da sua estatura com a superabundância de galões dourados no uniforme.

- Há certas formalidades a cumprir -

explicou o personagem - e agradecia que madame tivesse a bondade de me acompanhar. Normas da Polícia... - Levantou os braços, num gesto de impotência, e concluiu: - Absurdas, sem dúvida, mas inevitáveis.

Mr. Chubby Evans não compreendeu bem do

que se tratava, pois o seu francês era limitado.

- É mesmo de franceses - resmungou, como

um daqueles obstinados patriotas ingleses que, tendo assentado arraiais em determinado país estrangeiro, desprezam vivamente os nativos. - Estão sempre a inventar contratempos idiotas! No entanto, nunca incomodaram ninguém na estação; isto é novo. Suponho que tem de ir...

Katherine acompanhou o indivíduo que

a chamara e verificou, surpreendida, que a conduzia para um desvio no qual se encontrava uma carruagem do Comboio Azul. Convidou-a a subir e, precedendo-a no corredor, abriu a porta de um dos compartimentos. No interior encontrava-se um personagem fardado, de ar pomposo, e um civil insignificante, que parecia um manga-de-alpaca. O personagem pomposo levantou-se delicadamente, inclinou a cabeça e disse a Miss Grey:

- Queira desculpar, madame, mas

temos de atender a certas formalidades... madame fala francês?

- Razoavelmente, suponho, monsieur -

respondeu, na referida língua.

- Ótimo. Queira sentar-se, madame, e

permita que me apresente: Monsieur Caux, comissário da Polícia. Encheu o peito de ar, envaidecido, e Katherine tentou mostrar-se suficientemente impressionada.

- Deseja ver o meu passaporte? - perguntou,

estendendo-lho.

O comissário fitou-a com atenção,

resmungou qualquer coisa e aceitou o documento.

- Obrigado, madame. - Pigarreou e

esclareceu:

- Mas o que na realidade desejo são certas

informações...

- Informações?

O comissário acenou com a cabeça, devagar. - Acerca de uma senhora que viajou consigo

e com a qual almoçou ontem.

- Lamento, mas nada posso dizer-lhe a

seu respeito. Estabelecemos conversa durante o almoço, mas é uma desconhecida para mim; nunca a tinha visto antes.

- No entanto, acompanhou-a ao

compartimento após a refeição e estiveram a conversar algum tempo! observou o comissário, secamente.

- Sim, é verdade.

- O comissário pareceu esperar que

acrescentasse mais alguma coisa, olhou-a encorajadoramente e murmurou:

- Então, madame?

- Então, monsieur?

- Talvez possa dar-me uma idéia dessa

conversa.

- Poderia, mas não vejo motivo para o fazer -

redargüiu, sentindo-se muito britanicamente irritada; aquele polícia estrangeiro parecia-lhe impertinente.

- Não vê motivo? - abespinhou-se o francês. -

Garanto-lhe, madame, que existe um motivo, e forte!

- Nesse caso, talvez queira expor-mo. O comissário esfregou o queixo,

pensativamente, e por fim respondeu:

- A razão é muito simples, madame: a

senhora em questão foi esta manhã encontrada morta, no seu compartimento.

- Morta! - exclamou Katherine, em voz

rouca.

- Que foi? Ataque cardíaco?

- Não - volveu o comissário, em tom

sonhador e meditativo. - Não, madame... Foi assassinada.

- Assassinada!

- Compreende agora, madame, porque

estamos empenhados em obter todas as informações possíveis?

- Mas com certeza a criada... - A criada desapareceu.

- Oh! - Katherine calou-se, a tentar coordenar

os seus pensamentos.

- O condutor viu-a a conversar com a vítima

no compartimento desta e, naturalmente, informou a Polícia do fato. Foi por isso que a detivemos, na esperança de que pudesse dar-nos algumas informações.

- Lamento muito, mas nem sequer sei o seu

nome.

- Sabemos que o seu apelido era Kettering,

pois está mencionado no passaporte e nos rótulos da bagagem. Se nós...

Bateram à porta. M. Caux franziu as

sobrancelhas e abriu-a cerca de quinze centímetros.

- Que se passa? - perguntou, peremptório. -

Neste momento não posso atender...

A cabeça oval do companheiro de jantar

de Katherine surgiu na abertura, com o rosto iluminado por um sorriso.

- Chamo-me Hercule Poirot. - N-não... não o Hercule Poirot? - gaguejou o

comissário.

- Esse mesmo - confirmou M. Poirot. -

Lembro-me de, uma vez, o ter visto na Sureté de Paris, mas naturalmente o senhor esqueceu-me...

- De maneira nenhuma, monsieur, de

maneira nenhuma! apressou-se a afirmar o comissário. – Faça favor de entrar. Tem conhecimento do...

- Tenho, sim - interrompeu-o o detetive. -

Vim perguntar se poderei ser útil.

- Será uma honra - replicou prontamente o

polícia. – Permita que lhe apresente, Monsieur Poirot... consultou o passaporte que conservava ainda na mão - que lhe apresente madame... não, mademoiselle Grey.

Poirot sorriu a Katherine e comentou: - Não acha estranho que as minhas palavras

se tenham tornado tão depressa realidade?

- Infelizmente, mademoiselle não nos pode

dizer muito... - lamentou o comissário.

- Já expliquei que a pobre senhora era uma

completa desconhecida para mim - esclareceu Katherine.

- Mas falou consigo, não falou? - perguntou-

lhe Poirot, docemente. - Decerto formou uma opinião?

- Sim, creio que sim - respondeu, pensativa. - E essa impressão foi...

- É verdade, mademoiselle, confie-nos as

suas impressões! intrometeu-se o comissário.

Katherine refletia, parecia-lhe que, se falasse,

trairia de certo modo a confiança que a pobre mulher depositara nela. No entanto, com a terrível palavra “assassinato” a vibrar-lhe nos ouvidos, não ousou ocultar nada; muito poderia depender da revelação do que a vítima lhe contara. Por isso, repetiu palavra por palavra a conversa que tivera com a morta.

- Interessante - comentou o comissário,

olhando para o detetive. - Não acha, Monsieur Poirot? Se tem alguma relação com o crime... - calou-se, deixando a frase incompleta.

- Não poderá tratar-se de suicídio? –

arriscou Katherine, muito duvidosa.

- Não, mademoiselle, não se trata de suicídio.

A vítima foi estrangulada com um bocado de corda preta.

- Oh! - exclamou, com um calafrio. M. Caux abriu as mãos, compungido, e

confessou:

- Não é agradável, não... Creio que os nossos

ladrões de comboios são mais cruéis do que no seu país.

- É horrível!

- Sem dúvida, sem dúvida... - aquiesceu, em

tom levemente apologético.

- Mas a mademoiselle tem muita

coragem. Mal a vi, disse para comigo:

“Mademoiselle tem muita coragem!” Por

isso, ouso pedir-lhe que faça algo mais... mais deprimente, mas garanto-lhe, absolutamente necessário.

Katherine olhou-o, apreensiva, e o comissário

abriu de novo as mãos e esclareceu:

- Tenho de pedir-lhe, mademoiselle, o

favor de me acompanhar ao compartimento contíguo.

- Tenho... tenho de ir? - perguntou, em voz

baixa.

- Alguém tem de identificá-la, e como a

criada desapareceu... - tossiu significativamente e concluiu:

- A senhora parece ter sido a pessoa que mais

lidou com ela, no comboio.

- Muito bem, se é preciso... - murmurou

Katherine, serenamente.

Levantou-se e Poirot lançou-lhe um olhar de

aprovação.

- Mademoiselle é compreensiva -

declarou. – Posso acompanhá-los, Monsieur Caux?

- Encantado, meu caro Monsieur Poirot! Saíram para o corredor e o comissário abriu a

porta do compartimento da assassinada. As cortinas do lado interior tinham sido levantadas até meio, para permitirem a entrada de alguma luz, e a morta jazia na cama, à esquerda, numa posição tão natural que dir-se-ia dormir apenas. Tinha a roupa puxada até acima e o rosto voltado para a parede, de maneira que se viam apenas os cabelos ruivos e ondulados. Suavemente, M. Caux agarrou-lhe num ombro e voltou o corpo, para que lhe vissem a cara. Katherine estremeceu e enterrou as unhas nas palmas das mãos: uma pancada violenta desfigurara a tal ponto as feições que o reconhecimento era quase impossível. O próprio Poirot soltou uma exclamação de espanto e perguntou:

- Quando lhe fizeram isto? Antes ou depois

da morte?

O médico diz que foi depois. - Estranho - murmurou o detetive, de testa

franzida. - Tenha coragem, mademoiselle, e observe-a bem pediu a Katherine. - Tem a certeza de que foi com esta mulher que falou ontem, no comboio?

Katherine possuía bons nervos e, com um

esforço de vontade, conseguiu olhar longa e atentamente a assassinada. Depois inclinou-se e pegou-lhe numa das mãos.

- Tenho a certeza - respondeu, por fim. - O

rosto está irreconhecível, mas a estatura e o cabelo correspondem. De resto, reparei nisto - apontou uma pequena verruga existente no pulso da vítima – enquanto conversávamos.

- Bon - aprovou Poirot. - É uma excelente

testemunha, mademoiselle. Não restam, pois, dúvidas quanto à identidade. Contudo, é estranho... – Tinha os olhos fixos na morta, as sobrancelhas franzidas e um ar de grande perplexidade.

M. Caux encolheu os ombros e comentou: - O assassino devia estar furioso, suponho.

- Se a tivesse agredido primeiro, seria

compreensível; mas o homem que a estrangulou aproximou-se pela retaguarda e apanhou-a desprevenida - murmurou Poirot, como se falasse consigo mesmo. - A vítima deve apenas ter tido tempo para uma exclamação rouca, um pequeno gorgolejar... E depois esta pancada brutal na cara... Para quê? Esperaria que, se lhe deixasse o rosto irreconhecível, não seria identificada? Ou odiá-la-ia tanto que não resistiu a desfigurá-la desta maneira, mesmo depois de morta?

Katherine estremeceu e o detetive voltou-se

para ela, amavelmente.

- Perdoe se estou a atormentá-la,

mademoiselle. Para si, tudo isto é novo e terrível; para mim, infelizmente, é história velha. Rogo-lhes a ambos apenas mais um momento.

O comissário e Katherine encostaram-se à

porta, enquanto Poirot percorria rapidamente o compartimento. Observou as roupas da morta, cuidadosamente dobradas ao fundo da cama, o grande casaco de peles pendurado num cabide e o chapelinho vermelho atirado descuidadamente para a rede. Em seguida entrou no compartimento contíguo, aquele onde Katherine vira a criada sentada e onde a cama não fora armada. Viam-se três ou quatro mantas em cima do banco, uma caixa de chapéus e duas malas.

- Esteve aqui ontem - disse Poirot,

voltando-se subitamente para

Katherine. - Nota alguma mudança ou

alguma falta?

Katherine observou com cuidado ambos os

compartimentos, antes de responder:

- Falta uma caixa de marroquim encarnado,

com as iniciais R. V. K. Tanto podia ser uma caixinha de toucador como um grande guarda-jóias. Quando a vi estava nas mãos da criada.

- Ah! - exclamou Poirot.

- Mas sem dúvida... - murmurou Katherine,

hesitante. - Claro que não percebo nada destas coisas, mas parece-me simples, uma vez que a criada e o guarda-jóias desapareceram.

- Quer dizer que foi a criada a autora do

roubo? Não, mademoiselle, há uma boa razão que anula essa hipótese.

- Qual?

- A criada ficou em Paris. - O comissário

voltou-se para Poirot e acrescentou em tom confidencial:

- Gostaria que ouvisse pessoalmente a

história do condutor; é muito sugestiva.

- Tenho a certeza de que mademoiselle

também gostaria de a ouvir - afirmou Poirot. - Não se opõe, comissário?

- Não - redargüiu o polícia, pouco satisfeito. –

Se acha conveniente, Monsieur Poirot... Já acabou aqui?

- Creio que sim... Um momentinho! Pegou numa das mantas em que estivera a

mexer e levou-a para a janela. Olhou atentamente e retirou qualquer coisa, com a ponta dos dedos.

- Que é? - perguntou M. Caux, interessado. - Quatro cabelos ruivos. - Debruçou-se

sobre a cabeça da morta e acrescentou: - São da vítima.

- Que tem isso? Atribui-lhes importância? Poirot atirou a manta para o banco e

perguntou:

- Quem sabe o que tem importância e o que

não tem? Por enquanto, é impossível dizê-lo. Mas impõe-se que anotemos cuidadosamente todos os pormenores, por ínfimos que pareçam.

Regressaram ao primeiro compartimento,

onde pouco depois se lhes juntou o condutor do comboio.

- Chama-se Pierre Michele? - perguntou-lhe

o comissário.

- Sim, senhor comissário.

- Gostaria que repetisse a este senhor -

apontou Poirot - a história que me contou, acerca do acontecido em Paris.

- Muito bem, senhor comissário. Depois da

paragem na Gare de Lyon dirigi-me ao compartimento para fazer as camas, convencido de que madame estaria a jantar; mas ela mandara vir um cesto com comida. Disse-me que, em virtude de ter sido obrigada a deixar a criada em Paris, só precisava de armar uma cama. Levou o cesto com o jantar para o compartimento contíguo, para eu armar a cama, e depois recomendou-me que não a acordasse cedo, pois gostava de dormir até tarde.

Respondi-lhe que compreendia e desejou-me

boas noites.

- Mas você não entrou no compartimento

contíguo?

- Não, senhor.

- Nesse caso, reparou se entre a bagagem se

encontrava uma caixa de marroquim encarnado?

- Não, senhor, não reparei.

- Seria possível encontrar-se um

homem escondido no segundo compartimento?

- A porta estava meio aberta - respondeu o

condutor, depois de pensar um bocado. - Se um homem se encontrasse atrás dela, eu não o veria, mas a senhora tê-lo-ia visto perfeitamente, quando entrou.

- Exatamente - concordou Poirot. - Tem mais

alguma coisa a dizer-nos?

- Creio que é tudo, senhor; não me lembro

de mais nada.

- E que aconteceu esta manhã? - inquiriu o

detetive.

- Como madame recomendara, não a

acordei. Só quando estávamos a chegar a Canes me atrevi a bater à porta e, como não respondesse, abri. A senhora estava deitada e parecia dormir, mas quando lhe toquei num ombro para a acordar...

- Viu o que acontecera - concluiu Poirot. -

Très bien. Creio saber tudo quanto me interessa.

- Espero não ser culpado de qualquer

negligência, senhor comissário - murmurou o condutor, assustado. - Logo havia de acontecer uma coisa destas no Comboio Azul! É horrível!

- Tranqüilize-se - respondeu-lhe o

comissário.

- Faremos tudo para conservar o ocorrido o

mais secreto possível, quanto mais não seja no interesse da justiça. Não o acho culpado de negligência nenhuma.

- E o senhor comissário dirá isso à

Companhia?

- Com certeza, com certeza - prometeu M.

Caux, impaciente. - Mas basta, por agora.

O condutor retirou-se.

- De acordo com o parecer médico, a senhora

deve ter sido morta antes de o comboio chegar a Lyon -- informou o comissário. - Quem teria sido, então, o assassino? A julgar pelo que mademoiselle nos disse, parece evidente que a vítima devia reunir-se, em qualquer ponto do percurso, ao tal homem de quem falou. O fato de se ter livrado da criada parece, aliás, significativo. Terá o homem entrado no comboio em Paris e tê-lo-á ela ocultado no compartimento contíguo? Se assim foi, é possível que tenham discutido e que ele a assassinasse num impulso de cólera. É uma possibilidade. Mas há outra, e esta coaduna-se melhor com a minha maneira de pensar: o assassino foi um ladrão de comboios que viajava na composição, percorreu o corredor sem que o condutor o visse, matou-a e fugiu com a caixa de marroquim encarnado, a qual provavelmente continha jóias de certo valor. Segundo todas as probabilidades saiu do comboio em Lyon, e por isso pedimos já telegraficamente pormenores completos de quem quer que vissem sair do comboio.

- Mas o assassino também pode ter vindo até

Nice - sugeriu Poirot.

- Sem dúvida, mas isso seria um

procedimento muito temerário.

Poirot deixou passar um ou dois minutos e

só então perguntou:

- A ter-se dado o último caso, acha que o

assassino era um vulgar ladrão de comboios?

- Depende - replicou o comissário,

encolhendo os ombros. - Precisamos de encontrar a criada; é possível que tenha consigo a caixa de marroquim. Se tiver, o homem de quem a vítima falou a mademoiselle deve estar envolvido no caso e, então, parece-me que temos um crime passional. Quanto a mim, porém, parece-me mais aceitável a hipótese do roubo. Estes celerados têm-se tornado, ultimamente, muito atrevidos.

- Mademoiselle, não viu nem ouviu nada

durante a noite? - perguntou, de súbito, Poirot a Katherine.

- Nada.

- Creio que não precisamos de demorar

esta senhora mais tempo, comissário.

O polícia concordou, com um aceno de

cabeça, e perguntou:

- Importa-se de deixar-nos a sua morada? Katherine indicou-lhes a vila de Lady

Tamplin e Poirot inclinou-se, numa pequena vênia.

- Permite que volte a vê-la, mademoiselle?

Ou tem tantos amigos que ficará com o tempo todo tomado?

- Pelo contrário - respondeu Katherine -,

sobrar-me-á muito tempo e ficarei encantada por voltar a vê-lo.

- Excelente - replicou Poirot, com um sorriso

cordial. - Este será um roman olicier à nous! Investigá-lo-emos juntos.