O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 23 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXX

 

MISS VINER DÁ UMA

OPINIÃO

Katherine olhou pela janela do quarto de

Miss Viner. Chovia. Não era uma chuva forte, em bátegas violentas, mas uma chuva calma, teimosa, sem ímpetos de fúria. A janela dava para um retalho do jardim, com um carreiro até à cancela e canteirinhos bem tratados de ambos os lados, onde desabrochariam rosas, cravos e jacintos azuis.

Miss Viner estava recostada numa grande

cama vitoriana, com um tabuleiro de pequeno-almoço afastado para o lado, abria a correspondência e fazia alguns comentários cáusticos acerca da mesma.

Katherine tinha também uma carta aberta na

mão e lia-a pela segunda vez. Estava datada do Hotel Ritz, de Paris, e dizia:

Querida Mademoiselle Katherine: Espero

que esteja de boa saúde e que o regresso ao Inverno inglês não tenha sido muito deprimente. Quanto a mim, continuo com as minhas investigações, com a máxima diligência. Não julgue que estou aqui a gozar férias...

Em breve estarei em Inglaterra e espero

então ter o prazer de a voltar a ver. Permitir-mo-á, não é verdade?

Assim que chegar a Londres escrever-lhe-ei.

Não se esqueceu ainda de que somos colegas na investigação deste caso? Estou certo de que se lembra muito bem!

Creia, mademoiselle, nos meus sentimentos

mais respeitosos e devotados.

Hercule Poirot

Katherine franziu a testa, como se na carta

houvesse alguma coisa que a intrigasse.

- Um piquenique para meninos de coro -

observou Miss Viner.

- Se o Tommy Saunders e o Albert Dykes

forem, não contribuirei! Não sei o que estes rapazes imaginam que estão a fazer na igreja, aos domingos! Tommy cantou "à Deus, apressa-te a salvar-nos!” e não voltou a abrir a boca, e se o Albert Dykes não estava a chupar uma pastilha de hortelã-pimenta, o meu nariz não é o que é e sempre foi!

- Tem razão, são terríveis - concordou

Katherine.

Abriu a sua segunda carta e um súbito rubor

tingiu-lhe as faces. A voz de Miss Viner pareceu perder-se na distância.

Quando acabou a leitura e voltou a ter

relativa consciência do que a rodeava, Miss Viner terminava, em triunfo, um longo discurso:

- ... E eu disse-lhe: “De maneira nenhuma!

Por sinal, Miss Grey é prima de Lady Tamplin!” Que lhe parece, hem?

- Parece-me que anda a defender-me, o que é

muito simpático da sua parte.

- Os títulos para mim não valem nada! Seja

ou não a mulher do vigário, aquela senhora é uma autêntica gata! A insinuar que a menina comprara a sua entrada na sociedade!

- Talvez não se tenha enganado tanto como

julga...

- O que as rala é que não voltou uma

senhoreca emproada, como seria natural. Não, continua tão sensata como sempre foi, com um par de boas meias Balbriggan e sapatos práticos. Ainda ontem falei nisso a Ellen. Disse-lhe assim:

“Ellen, repara em Miss Grey. Lidou com

alguns dos grandes da Terra, mas não anda por aí como tu, com as saias por cima dos joelhos, meias de seda a que as malhas caem constantemente e os sapatos mais ridículos que imaginar se possa!”

Katherine sorriu para consigo. Valera a pena,

parecia, conformar-se com os preconceitos de Miss Viner...

- Foi um grande alívio para mim verificar

que o dinheiro não lhe deu a volta à cabeça - continuou a velha senhora, cheia de entusiasmo. - Ainda outro dia andei a procurar os meus recortes de jornais, pois tenho vários que falam de Lady Tamplin e do seu hospital de guerra. Mas não consigo encontrá-los. Gostaria que os procurasse, minha querida, pois a sua vista é melhor do que a minha. Estão numa caixa, na gaveta da escrivaninha.

Katherine olhou para a carta que tinha na

mão e ia a dizer qualquer coisa, mas conteve-se e foi à escrivaninha buscar a caixa dos recortes, que começou a ver. Desde que regressara a St. Mary Mead que o seu coração vibrava de admiração pelo estoicismo e pela coragem de Miss Viner. Sabia que pouco podia fazer pela velha amiga, mas a experiência ensinara-lhe também quanto valiam para as pessoas idosas pequenas bagatelas aparentemente sem valor.

- Aqui está um dos recortes que lhe

interessam - disse pouco depois. –

“A viscondessa Tamplin, que transformou a

sua vila em Nice num hospital de guerra, foi vítima de um roubo sensacional. Entre as jóias roubadas contavam- se algumas famosas esmeraldas, herança da família Tamplin.”

- Provavelmente imitações - comentou Miss

Viner. - As jóias de um grande número dessas senhoras da alta sociedade são, muitas vezes, falsas.

- Cá está outro - continuou Katherine. - É

uma fotografia sob a qual se lê:

"Encantador retrato da viscondessa Tamplin

com Lenox, a sua filhinha.”

- Deixe ver - pediu a doente. - A cara da

garota não está muito visível, pois não? Diria que foi de propósito. Neste mundo abundam os contrastes e não faltam as mães bonitas que têm filhos horrendos. Quase apostaria que o fotógrafo percebeu que o melhor que podia fazer era apanhar só a nuca da pequena.

Katherine riu-se.

- "Uma das mais elegantes anfitriãs da

Riviera, nesta estação, é a viscondessa Tamplin, que tem uma vila no cabo Martin. Encontra-se com ela sua prima, Miss Grey, que recentemente herdou uma enorme fortuna, de maneira muito romântica.”

- Era esse mesmo que eu queria - disse Miss

Viner. – Suponho que deve ter vindo uma fotografia sua em qualquer dos jornais, mas não a encontrei. A menina sabe a que espécie de retrato me refiro: “Mistress Fulana ou Sicrana, em tal parte assim-assim”, geralmente com uma espingarda na mão e um pé levantado no ar... Deve ser uma tristeza para algumas verem a figura que fazem...

Katherine não respondeu. Endireitava o

recorte com o dedo e tinha estampada no rosto uma expressão intrigada e inquieta. Por fim tirou a segunda carta do sobrescrito e releu-a ainda uma vez.

- Miss Viner - murmurou, terminada a

leitura.

- Um amigo meu, que conheci na Riviera,

tem muito empenho em vir ver-me aqui...

- Quem é?

- O secretário de Mister Van Aldin, o

milionário americano.

- Como se chama?

- Knighton, major Knighton.

- Hum... secretário de um milionário. E quer

vir vê-la... A Katherine desculpará, mas tenho de dizer-lhe uma coisa, para seu bem. A menina é uma rapariga sensata e simpática e, embora tenha a cabeça no seu lugar no que respeita a muitas coisas, todas as mulheres são idiotas uma vez na vida. Há dez probabilidades contra uma de esse homem estar interessado apenas no seu dinheiro.

Fez calar Katherine, com um gesto, e

prosseguiu:

- Tenho estado à espera de qualquer coisa

desse gênero. O que é o secretário de um milionário? Nove vezes em dez, um rapaz que gosta de levar boa vida. Um jovem com bonitas maneiras, apreciador de luxo, sem miolos nem iniciativa. E, minha cara, se há emprego melhor, que proporcione melhor vida, que o de secretário de um milionário, é sem dúvida casar com uma mulher rica, por dinheiro! Não quero dizer com isto que a minha amiga não possa interessar um homem. Mas não é nova e, embora tenha uma excelente cutis, também não é nenhuma beldade. Portanto, não seja parva! No entanto, se estiver resolvida a arriscar, proceda ao menos de maneira a que o dinheiro seja governado por si, continue a ser muito seu! Pronto, acabei. Que tem a dizer?

- Nada. Mas importava-se que ele viesse ver-

me?

- Lavo daí as minhas mãos - declarou Miss

Viner. - Cumpri o meu dever, o que acontecer agora é lá consigo. Prefere que ele venha almoçar ou jantar? Creio que a Ellen conseguiria haver-se razoavelmente com o jantar... isto é, se não perder a cabeça!

- O almoço estará muito bem - disse

Katherine.

- Agradeço-lhe muito, Miss Viner. Pediu-me

que lhe telefonasse a dar a resposta; por isso, dir-lhe-ei que teremos prazer em que almoce conosco. Virá de automóvel, da cidade.

- A Ellen faz um bife com tomates

assados escapatório lembrou a velhota. - Não é nenhuma maravilha, mas sai melhor do que qualquer outro prato. Seria contraproducente confeccionar uma torta, pois ela tem a mão pesada para a pastelaria, mas faz uns pudins escapatórios. Creio que encontrará um bom bocado de Stilton no Abbot; sempre ouvi dizer que os cavalheiros apreciam. Quanto a vinho, ainda há uma boa quantidade, da reserva do meu pai. Uma garrafa de Moselle espumoso, talvez...

- Oh, não, Miss Viner, não é preciso!

- Não seja tola, minha filha! Nenhum

cavalheiro se sente feliz se não beber qualquer coisa com a refeição. Se acha que preferirá uísque, há algum excelente, de antes da guerra. Faça o que lhe digo e não discuta. A chave da adega está na terceira gaveta da cômoda, dentro do segundo par de meias do lado esquerdo.

Katherine abriu a gaveta indicada,

obedientemente.

- É no segundo par - advertiu Miss Viner. -

No primeiro estão os meus brincos de diamantes e o meu alfinete.

- Oh! - exclamou Katherine, surpreendida. -

Não seria melhor guardá-los no guarda-jóias?

Miss Viner soltou um resmungo indignado e

lento.

- Claro que não! Não seria eu que cometeria

uma idiotice dessas. Ainda me lembro do que aconteceu ao meu pobre pai, que mandou construir um cofre-forte, no andar de baixo... Ficou contentíssimo e disse a minha mãe:

“Agora, Mary, trazes-me todas as noites a

caixa das jóias, para eu a fechar no cofre.” Minha mãe era uma mulher muito sensata e, como não ignorava que os homens gostam sempre de levar a sua avante, todas as noites lhe levava a caixa das jóias. Uma noite os ladrões assaltaram-nos a casa e, evidentemente, a primeira coisa que arrombaram foi o cofre! Era de esperar, pois o meu pai gabara-se da sua existência aos quatro ventos, como se guardasse nele todos os diamantes do rei Salomão. Limparam tudo: as canecas de cerveja, as xícaras de prata, uma salva de ouro que tinham oferecido ao meu pai e a caixa das jóias.

Suspirou, saudosa, e acrescentou: - Meu pai ficou preocupadíssimo por causa

das jóias de minha mãe: um conjunto veneziano e alguns bonitos camafeus, objetos de coral rosado e dois anéis de diamantes, com pedras grandes. Ela teve de dizer-lhe, claro, que, por ser uma mulher sensata, guardava as jóias enroladas em dois espartilhos e, portanto, tinham escapado aos gatunos.

- Quer dizer que a caixa estava vazia? - Não minha filha; assim ficaria muito leve e

o meu pai perceberia. Minha mãe era inteligente, não esqueceu esse pormenor: guardava os botões na caixa, o que tinha a vantagem de saber sempre onde estavam! Botões de botas no compartimento de cima, botões de calças no do meio e botões sortidos no de baixo. O engraçado é que meu pai ficou aborrecido com ela, afirmou que não gostava que o enganassem. Mas estou para aqui a tagarelar e a menina quer ir telefonar ao seu amigo. Não se esqueça de escolher uma bela peça de carne e de dizer à Ellen que veja se não tem malhas caídas nas meias, quando servir à mesa!

- Ela chama-se Ellen ou Helen, Miss Viner?

Pensava...

Miss Viner fechou os olhos e respondeu: - Sei pronunciar os “hh” tão bem como

qualquer pessoa, minha querida, mas Helen não é nome decente para uma criada. Não sei que idéias são as das mães das classes baixas, hoje em dia!

A chuva cessara quando Knighton chegou à

moradia. Um sol pálido e incerto iluminava a cabeça de Katherine, que o esperava à porta.

- Espero que não esteja zangada, mas tinha

de vê-la! – disse Knighton, dirigindo-se-lhe ansiosamente com um entusiasmo quase infantil. - Espero que a amiga com quem está não se tenha zangado.

- Entre, para a conhecer - convidou-o Miss

Grey. - À primeira vista pode assustar, mas depressa verificará que tem o melhor coração do mundo.

Miss Viner estava majestosamente

entronizada na sala, ostentando um jogo completo dos camafeus tão providencialmente preservados pela sensatez da mãe.

Cumprimentou Knighton com uma

dignidade e uma austera polidez que teriam desanimado muitos homens. Knighton, porém, tinha um encanto especial e, passados cerca de dez minutos, Miss Viner enterneceu-se perceptivelmente. O almoço decorreu com alegria e Ellen, ou Helen, com um par de meias novas, sem malhas caídas, realizou prodígios a servir à mesa.

Depois Katherine e Knighton saíram para um

passeio, regressaram e tomaram chá a sós, pois Miss Viner deitara-se.

Quando o major partiu, Katherine subiu

lentamente ao primeiro andar e

Miss Viner chamou-a.

- O seu amigo já se foi embora? - Já. Agradeço-lhe muito tê-lo deixado vir. - Não tem nada que agradecer. Ou julga que

sou uma velha rabugenta, incapaz de fazer seja o que for pelos outros?

- Julgo que é uma querida - murmurou

Katherine, afetuosamente.

- Hum... - resmungou a velhota, comovida. Quando Miss Grey ia a sair, chamou-a: -

Katherine...

- Miss Viner?

- Estava enganada acerca do seu rapaz.

Quando um homem está interessado em cativar alguém, interesseiramente, pode mostrar-se cordial, galante, pródigo de atenções e encantador em todo o sentido; mas quando está realmente apaixonado, por mais que faça parece sempre um cordeiro. O seu amigo, quando a olhava, parecia um cordeirinho. Retiro tudo quanto disse esta manhã; ele é sincero.