O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 19 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXV

 

DESAFIO

Quando Derek Kettering passou pelo

automóvel, Mirelle debruçou-se e disse-lhe:

- Dereek, preciso de falar contigo um

momento...

Mas Derek limitou-se a tirar-lhe o chapéu e a

seguir o seu caminho, sem parar.

Ao chegar ao hotel, o porteiro saiu do

cubículo de madeira e informou:

- Está um cavalheiro à sua espera, monsieur. - Quem é?

- Não indicou o nome, monsieur, mas disse

ter um assunto importante a tratar com o senhor e que esperaria.

- Onde está?

- Na saleta, monsieur. Preferiu-a à

antecâmara, pois disse que era mais íntima.

Derek agradeceu e dirigiu-se para a saleta,

onde apenas se encontrava o visitante. Este levantou-se, ao vê-lo entrar, e saudou-o com cortês inclinação de cabeça. Derek vira o conde de la Roche apenas uma vez, mas não teve dificuldade em reconhecer o aristocrático personagem, o que lhe provocou um irritado franzir de sobrancelhas. Era o cúmulo da impertinência!

- O conde de la Roche, suponho? Creio que

perdeu o seu tempo vindo aqui.

- Espero que não - discordou o conde,

mostrando os dentes brancos num sorriso.

Regra geral, o encanto do senhor de la Roche

não surtia efeito quando aplicado a representantes do seu próprio sexo, pois todos os homens, sem exceção, nutriam por ele profunda antipatia. Derek Kettering sentia um grande desejo de correr com ele a pontapé e só o deteve a consciência de que um escândalo, nas presentes circunstâncias, seria prejudicial. Mais uma vez o surpreendeu que Ruth pudesse ter gostado daquele indivíduo, como sem dúvida gostara. Era um salafrário da pior espécie.

- Estou aqui para discutir um pequeno

assunto de interesse e creio que seria aconselhável ouvir-me.

Derek olhou-lhe para as mãos

delicadamente tratadas e sentiu-se novamente tentado a correr com ele a pontapé, mas mais uma vez se conteve. Notara a insinuação ameaçadora das palavras do outro, mas interpretou-a à sua maneira, pois julgava haver vários motivos para ser aconselhável ouvir o que o conde tinha a dizer.

Sentou-se a tamborilar impacientemente na

mesa e perguntou, irritado:

- De que se trata?

Não era, no entanto, hábito do conde

explicar-se com clareza, sem rodeios.

- Permita-me, monsieur, que lhe apresente as

minhas condolências pela sua recente perda.

- Advirto-o de que, se armar em

impertinente, sai por essa janela - ameaçou Derek, serenamente, indicando com a cabeça a janela existente ao lado do conde, que se mexeu na cadeira, inquieto.

- Enviar-lhe-ei os meus amigos, monsieur,

se é isso que deseja - redargüiu, no entanto, altivamente.

- Um duelo, hem?! - exclamou Derek, a rir. --

Meu caro conde, para isso era preciso que eu o tomasse a sério. Contudo, com prazer o correria a pontapé pelo Promenade des Anglais abaixo!

O conde achou melhor não se ofender.

Limitou-se a erguer as sobrancelhas e a murmurar:

- Os ingleses são bárbaros.

- Mas, afinal, que quer dizer-me?

- Serei franco e breve - começou o senhor de

la Roche. - Convém-nos a ambos, não é verdade?

Sorriu novamente, com o seu sorriso

blandicioso, mas Derek redargüiu, em tom seco:

- Continue.

O conde olhou para o teto, juntou as pontas

dos dedos e murmurou, docemente:

- Herdou uma quantidade de dinheiro,

monsieur...

- Que diabo tem você com isso? O conde endireitou-se, indignado, e

exclamou:

- Mancharam o meu nome, monsieur! Sou

suspeito... acusado... de um crime sujo...

- A acusação não partiu de mim - volveu

Derek, friamente. - Como parte interessada, não exprimi qualquer opinião.

- Estou inocente! - afirmou de la Roche. - Juro

perante o céu - levantou a mão para o céu – que estou inocente!

- Creio que o juiz de instrução

encarregado de resolver o caso é Monsieur Carrège - insinuou Derek, mas o conde fez ouvidos de mercador.

- Não só sou injustamente suspeito de um

crime que não cometi como tenho também grande necessidade de dinheiro.

Tossiu suave e sugestivamente e Derek

levantou-se.

- Já esperava por isso, seu chantagista reles! -

- vociferou.

- Mas daqui não leva um centavo! Minha

mulher está morta, nenhum escândalo que porventura provoque a atingirá. Calculo que lhe tenha escrito cartas idiotas, mas se eu lhas comprasse agora por uma conta redonda, tenho a certeza de que guardaria uma ou duas, para mais tarde. A minha resposta, Monsieur de la Roche, é que chantagem é uma palavra muito feia, tanto em Inglaterra como aqui. Boas tardes.

- Um momento - pediu o conde, estendendo

a mão, quando Derek fez menção de lhe voltar as costas. Engana-se, monsieur, engana-se redondamente; sou, espero, um gentleman! - Derek não conteve uma gargalhada. - As cartas que recebo de senhoras são para mim sagradas. - Atirou a cabeça para trás, num belo gesto de nobreza, e continuou: - A proposta que tencionava fazer-lhe era de natureza inteiramente diferente. Estou, como já disse, muito precisado de dinheiro e a minha consciência pode impelir-me a fornecer à Polícia certas informações...

- Que quer dizer? - perguntou Derek,

voltando-se devagar.

- Certamente não é preciso entrar em

pormenores? – perguntou de la Roche, exibindo de novo o seu sorriso cativante. – “Procurem quem beneficia com o crime”, não é o que costumam dizer? Ora, como eu disse, o senhor herdou uma quantidade de dinheiro...

Derek soltou uma gargalhada e comentou,

desdenhoso:

- Se é só isso...

- Não é só isto, meu caro senhor! Não viria

procurá-lo se não possuísse informações muito mais precisas e pormenorizadas. Não é agradável, monsieur, ser preso e julgado por homicídio.

Derek aproximou-se com tal

expressão de cólera que, involuntariamente, o conde recuou um ou dois passos.

- Está a ameaçar-me? - perguntou o jovem

inglês, furioso.

- Não direi mais nada - garantiu o conde. - Não me lembro de intrujice maior! - Engana-se, não se trata de intrujice. Para o

convencer da minha boa-fé, acrescento que obtive as informações por intermédio de certa dama. É ela que possui a prova irrefutável de que o senhor cometeu o assassinato.

- Ela? Quem?

- Mademoiselle Mirelle.

Derek recuou, como se lhe tivessem batido, e

murmurou:

- Mirelle...

O conde apressou-se a aproveitar o que

julgou ser uma vantagem:

- Uma bagatela de cem mil francos... Não

peço mais.

- O quê? - perguntou Derek, distraído. - Dizia, monsieur, que uma bagatela de cem

mil francos satisfaria a minha... consciência.

Derek pareceu recompor-se, fitou o conde e

inquiriu:

- Quer a minha resposta agora? - Se fizesse o favor...

- Então aqui a tem: vá para o inferno!

Entendeu?

Girou nos calcanhares e saiu da saleta,

deixando o conde mudo de espanto.

Uma vez na rua, meteu-se num táxi e

mandou seguir para o hotel de Mirelle. Entregou o cartão à porteira, que o informou de que a bailarina acabava de chegar.

- Leve isto a mademoiselle e pergunte-lhe se

pode receber-me.

Pouco depois, convidaram-no a acompanhar

um mandarete.

Uma onda de perfume exótico entrou-lhe

pelas narinas ao chegar aos aposentos da bailarina, que estavam cheios de cravos, orquídeas e mimosas. Mirelle encontrava-se junto da janela, envolta num peignoir de renda.

- Voltaste, Dereek! - exclamou, indo ao seu

encontro de mãos estendidas.

- Eu sabia que voltarias!

Derek afastou-lhe as mãos e olhou-a com

severidade.

- Porque mandaste o conde de la Roche

procurar-me?

Fitou-o com um espanto que o jovem inglês

julgou sincero.

- Eu? Mandei-te o conde de la Roche? Mas

para quê?

- Aparentemente, para fazer chantagem -

redargüiu, irritado.

Mirelle continuou com o mesmo ar de

espanto, mas de súbito sorriu e abanou a cabeça.

- Claro, era de esperar! Ce type là não podia

fazer outra coisa; devia ter adivinhado. Não, Dereek, não o mandei.

Olhou-a de maneira penetrante, como

pretendesse ler-lhe os pensamentos, e Mirelle continuou:

- Explicar-te-ei tudo. Estou envergonhada,

mas explicar-te-ei. Outro dia, compreendes, estava cega de raiva, completamente cega! O meu temperamento não é nada paciente... Queria vingar-me de ti e, por isso, procurei o conde de la Roche e disse-lhe que fosse à Polícia e dissesse isto e aquilo... Mas nada receies, Dereek; perdi a cabeça, mas não por completo, e a prova continua comigo. A Polícia nada poderá fazer sem a minha palavra, compreendes?

Encostou-se a ele, fitando-o com olhos

ternos, mas Derek afastou-a brutalmente. Ficou imóvel, com o seio a arfar e os olhos semicerrados, semelhantes aos de uma gata.

- Tem cuidado, Dereek, tem muito cuidado!

Voltaste para mim, não voltaste?

- Jamais voltarei para ti! - afirmou, com

firmeza.

- Há, então, outra mulher? - perguntou,

parecendo-se mais do que nunca com uma gata. - Aquela com quem almoçaste, outro dia... É verdade ou não é?

- Tenciono pedir a essa senhora que case

comigo. Por isso, tanto me faz que saibas como não.

- Aquela inglesa empertigada! Imaginas

que eu o tolerarei por um momento que seja? Ah, não! - exclamou, com o belo corpo a vibrar. - Lembras-te da conversa que tivemos em Londres, Dereek? Disseste que a única coisa que te salvaria seria a morte da tua mulher e lamentaste que ela fosse tão saudável. Depois ocorreu-te a idéia de um acidente... de mais, até, que um acidente.

- Suponho que foi essa conversa que repetiste

ao conde de la Roche? - perguntou Derek, desdenhoso.

- Achas-me idiota? - perguntou Mirelle, a rir. - A Polícia faria alguma coisa baseada numa

história vaga como essa? Dar-te-ei outra oportunidade: desistirás da inglesa, voltarás para mim e então, chéri, jamais, jamais direi...

- Dirás o quê?

- Julgaste que ninguém te viu... - insinuou, a

rir docemente.

- Que queres dizer?

- Julgaste que ninguém te viu, mas eu vi-te,

Dereek, mon ami. Vi-te sair do compartimento de madame tua esposa, naquela noite, antes de o comboio chegar a Lyon. Mas sei mais do que isso: sei que, quando saíste do seu compartimento, ela estava morta.

Derek fitou-a e, como um homem a sonhar,

voltou-se devagar e saiu do aposento, cambaleante.