O Mistério do Trem Azul
Capítulo XXXIV
OUTRA VEZ NO COMBOIO
AZUL
“O Comboio dos Milionários” como por
vezes lhe chamavam, transpôs uma curva a uma velocidade que parecia perigosa. Van Aldin, Knighton e Poirot viajavam em silêncio. O milionário e o secretário tinham dois compartimentos com comunicação, como Ruth Kettering e a criada, na viagem fatídica, e o compartimento do detetive ficava mais ao fundo da carruagem.
A viagem era penosa para o milionário, pois
acordava-lhe recordações dolorosas. Poirot e o secretário conversavam de vez em quando, em voz baixa, para não o perturbarem.
Mas quando o comboio completou a lenta
viagem em redor da ceinture e chegou à Gare de Lyon, Poirot iniciou de súbito uma atividade febril. Van Aldin compreendeu que parte do seu objetivo ao viajar naquele comboio era tentar reconstituir o crime. O detetive representava todos os papéis: era sucessivamente criada apressadamente fechada no seu compartimento, Mrs. Kettering reconhecendo o marido com surpresa e certa ansiedade, e Derek Kettering ao descobrir que a mulher viajava no mesmo comboio que ele. Experimentou várias possibilidades, como a melhor maneira de uma pessoa se ocultar no segundo compartimento.
De súbito, pareceu ocorrer-lhe uma idéia
importante e agarrou com força no braço do americano.
- Mon Dieu, não tinha pensado nisso!
Precisamos de interromper a viagem em Paris. Depressa, depressa, apeemo-nos!
Pegou nas malas e correu para fora do
comboio, enquanto Van Aldin e Knighton o seguiam, perplexos, mas obedientes. Um funcionário deteve-os na barreira, pois os bilhetes tinham ficado em poder do condutor, fato que os três haviam esquecido.
Poirot apresentou explicações rápidas,
fluentes e apaixonadas, mas as mesmas não produziram efeito nenhum no impassível funcionário.
- Acabemos com isto! - decidiu Van Aldin,
bruscamente. - Calculo que esteja com pressa, Monsieur Poirot; portanto, pelo amor de Deus, pague os bilhetes desde Calais, para se tratar do que quer que tem em mente.
Mas o manancial de palavras do detetive
secou de súbito, deixando-o com o aspecto de um homem transformado em pedra. Os braços, que abrira num gesto apaixonado, continuaram assim, paralisados.
- Fui um imbecil! - murmurou. - Ma foi, hoje
em dia começo a perder a cabeça! Voltemos ao comboio e continuemos tranqüilamente a nossa viagem. Com alguma sorte, a composição ainda se encontrará no cais.
Foi por um triz, pois o comboio começou a
andar quando o major, o último dos três, se içou e à maleta para a carruagem.
O condutor protestou, irritado, e ajudou-os a
levar a bagagem para os respectivos compartimentos. Van Aldin não dizia nada, mas era evidente que estava aborrecido com a extraordinária conduta do detetive. Ao ficar um momento a sós com o secretário, observou:
- Fazemos uma viagem inútil; o indivíduo
perdeu a tramontana. É certo que tem miolos, mas um homem que perde a cabeça e se ataranta como um coelho assustado não serve para nada.
Poirot juntou-se-lhes pouco depois e
mostrou-se tão pródigo em humildes desculpas e tão desanimado que quaisquer palavras ásperas teriam sido supérfluas. Van Aldin aceitou gravemente as desculpas, mas conseguiu dominar-se e não fazer comentários ácidos.
Jantaram no comboio e depois, com certa
surpresa para os outros dois, Poirot sugeriu que se sentassem todos no compartimento de Van Aldin.
- Oculta-nos alguma coisa, Monsieur Poirot?
perguntou-lhe o milionário, curioso.
- Eu? - O detetive abriu os olhos, cheio de
inocente surpresa. - Mas que idéia!
Van Aldin não respondeu, embora
não estivesse convencido. Informaram o condutor de que não era preciso armar as camas e se a ordem o surpreendeu, a magnanimidade da gorjeta do americano compensou-o. Os três homens sentaram-se, em silêncio. Poirot mexia-se constantemente, inquieto, e pouco depois perguntou ao secretário:
- Major Knighton, a porta do seu
compartimento está fechada à chave? Refiro-me à que dá para o corredor.
- Está, fechei-a eu próprio, há pouco. - Tem a certeza?
- Irei certificar-me, se quiser - prontificou-se
Knighton, com um sorriso ambíguo.
- Não, não se incomode; irei eu mesmo
verificar.
Transpôs a porta de comunicação e voltou
logo a seguir, a acenar com a cabeça.
- Tinha razão - murmurou. - Deve perdoar as
manias de um velho... - Fechou a porta de comunicação e sentou-se no seu lugar, no canto da direita.
As horas passavam. Os três homens
dormitavam e acordavam em sobressalto. Provavelmente nunca três pessoas tinham reservado camas no comboio mais luxuoso do mundo para depois se recusarem a beneficiar das acomodações pagas. De vez em quando Poirot olhava o relógio, abanava a cabeça e mergulhava de novo numa desconfortável sonolência. A certa altura, levantou-se, abriu a porta de comunicação, espreitou para o compartimento contíguo e regressou em seguida ao seu lugar, a abanar a cabeça.
- Que se passa? - perguntou-lhe Knighton,
baixinho. - Está à espera que aconteça qualquer coisa, não está?
- Estou nervoso - confessou o detetive. – Sou
como um gato num telhado quente; qualquer ruído me assusta.
- Que viagem desconfortável! – resmungou
Knighton, entre bocejos. - Espero que saiba o que está a fazer, Monsieur Poirot.
Ajeitou-se o melhor que pôde e tanto ele
como o milionário caíram no sono. De súbito, Poirot olhou pela décima quarta vez para o relógio, estendeu o braço e bateu no ombro do milionário.
- Que é?
- Chegaremos a Lyon daqui a cinco ou dez
minutos, Monsieur.
- Meu Deus! - exclamou Van Aldin, cujo
rosto parecia lívido à luz fraca do compartimento. – Então deve ter sido mais ou menos a esta hora que a minha pobre Ruth foi assassinada. Olhava a direito na sua frente, com os lábios a tremer e o cérebro a recordar a terrível tragédia que enlutara a sua vida.
Ouviu-se o habitual ranger de travões, o
comboio perdeu velocidade e parou em Lyon. Van Aldin desceu a janela e olhou para fora.
- Se não foi Derek, se a sua nova teoria está
certa, deve ter sido aqui que o homem abandonou o comboio? - perguntou, por cima do ombro.
Com surpresa sua, Poirot abanou a cabeça e
respondeu, pensativo:
- Não, nenhum homem abandonou o
comboio. Mas penso... sim, uma mulher deve tê-lo abandonado.
Knighton abriu a boca e o americano
perguntou, vivamente:
- Uma mulher?
- Sim, uma mulher. Talvez não se lembre,
mas Miss Grey, ao prestar declarações, mencionou que um jovem de boné e sobretudo desceu para o cais, ostensivamente para desentorpecer as pernas. Na minha opinião, esse homem era uma mulher.
- Mas quem?
O rosto de Van Aldin traduzia incredulidade,
mas o detetive respondeu- lhe, séria e categoricamente:
- O seu nome - ou o nome pelo qual foi
conhecida durante muitos anos - é Kitty Kidd, mas o senhor conhece-a por outro nome: o de Ada Mason.
Knighton levantou-se e gritou: - O quê?
Poirot virou-se para ele, tirou qualquer coisa
da algibeira e estendeu-lha:
- Antes que me esqueça... Permita que lhe
ofereça um cigarro, da sua própria cigarreira. Foi descuido da sua parte deixá-la cair quando entrou no comboio na ceinture de Paris.
Knighton fitou-o, petrificado, depois
esboçou um movimento, mas
Poirot estendeu a mão, num gesto de
advertência:
- Não se mexa - ordenou, em voz macia
como seda. - A porta que dá para o próximo compartimento está aberta e neste momento o senhor encontra- se sob a ameaça das armas. Abri a porta do corredor, quando deixamos Paris, e os nossos amigos da Polícia receberam ordem para ocupar os seus lugares... Como deve saber, a Polícia francesa tem um empenho enorme em apanhá-lo, major Knighton... ou deverei dizer senhor Marquês?