O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 18 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXIII

 

NOVA HIPÓTESE

 

Eram exatamente onze horas quando Poirot

se apresentou no hotel de

Van Aldin. Encontrou o milionário só. - É pontual, Monsieur Poirot - comentou o

americano, levantando-se e cumprimentando-o, com um sorriso.

- Sou sempre pontual, respeito sempre a

exatidão. Sem ordem e método... - Calou-se bruscamente e depois acrescentou: - É possível que já lhe tenha dito tudo isto. Comecemos imediatamente pelo assunto da minha visita.

- A tal idéiazinha?

- Sim, a tal idéiazinha - confirmou o detetive,

a sorrir. - Antes de mais nada, monsieur, gostaria de entrevistar mais uma vez a criada, Ada Mason. Está cá?

- Está.

Van Aldin fitou-o, curioso, tocou uma

campainha e mandou um empregado procurar Mason.

Poirot saudou a rapariga com a habitual

delicadeza, que nunca deixava de produzir efeitos naquele tipo de pessoas.

- Boas tardes, mademoiselle. Queira sentar-

se, se monsieur permitir...

- Sim, sim, pequena, sente-se - aquiesceu o

americano.

- Obrigado, senhor - agradeceu Mason,

cerimoniosamente, e sentou-se à pontinha da cadeira.

- Vim fazer-lhe mais perguntas -

anunciou Poirot; precisamos de deslindar este assunto. Volto, novamente, à questão do homem do comboio. Viu o conde de la Roche e disse que pode ter sido ele, mas não tem a certeza.

- Como expliquei ao senhor, não vi a cara do

cavalheiro. Por isso é difícil...

- Claro, compreendo a dificuldade –

tranqüilizou-a Poirot, risonho. - Disse-nos também, mademoiselle, que esteve dois meses ao serviço de Madame Kettering, não é verdade? Durante esses meses viu muitas vezes o seu patrão?

Mason pensou, um momento, antes de

responder:

- Uma vez ou duas, senhor.

- Perto ou longe dele?

- Uma vez foi na Curzon Street; eu estava no

primeiro andar, olhei por cima do corrimão e vi o senhor no vestíbulo, em baixo. Sentia uma certa curiosidade, compreende, pois sabia como as coisas estavam...Mason concluiu com uma tossezinha discreta.

- E a outra vez?

- Encontrava-me no parque com Annie, uma

das criadas, e ela apontou- me o senhor, que passeava com uma senhora estrangeira.

- Agora escute, Mason: como sabe que

esse homem que viu na carruagem, a falar com a sua ama na Gare de Lyon, não era o seu patrão?

- O patrão? Não creio que fosse. - Mas não tem a certeza - tentou o detetive. - Bem, nunca pensei na possibilidade... – Era

evidente que a sugestão perturbara profundamente a rapariga.

- Deve ter ouvido dizer que o seu patrão

viajava no mesmo comboio. Nada mais natural, portanto, que fosse ele que se juntasse à sua senhora.

- Mas o cavalheiro que falou com a senhora

deve ter vindo do exterior;

vestia trajo de rua, sobretudo e chapéu mole.

- Pois sim, mademoiselle, mas pense bem. O

comboio tinha acabado de chegar à Gare de Lyon e muitos passageiros foram passear no cais. A sua patroa ia também fazê-lo e, para tal, vestira, sem dúvida, o casaco de peles...

- É verdade, senhor - concordou Mason. - O seu patrão teria procedido de igual

modo, pois embora no interior do comboio estivesse calor, na estação estava frio. Vestiu, pois, o sobretudo, pôs o chapéu, apeou-se e começou a passear pelo cais. Ao olhar para as janelas iluminadas, viu de súbito Madame Kettering, que ignorava encontrar-se no comboio. Naturalmente, ela solta uma exclamação de surpresa, ao vê-lo, e fecha a porta de comunicação entre os dois compartimentos, pois é possível que a conversa a travar entre ambos seja de natureza íntima.

Recostou-se na cadeira, à espera que a

sua sugestão produzisse, lentamente, efeito. Ninguém sabia melhor que Hercule Poirot que a classe a que Mason pertencia não podia ser apressada. Tinha de dar-lhe tempo para se libertar das suas próprias idéias preconcebidas. Ao fim de três minutos a rapariga falou, finalmente:

- Bem, podia, de fato, ter sido; nunca

pensei nessa possibilidade. O senhor é alto e moreno, mais ou menos da estatura do cavalheiro que vi. Confesso que foi o sobretudo e o chapéu que me fizeram pensar que vinha do exterior... Sim, podia ter sido o senhor.

- Muito obrigado, mademoiselle. Não

precisarei mais de si. Um momento, só mais uma coisa! – Tirou da algibeira a cigarreira que mostrara já a Katherine e perguntou: - É a da sua ama?

- Não, senhor, não é a da minha ama. Pelo

menos...

Pareceu subitamente perturbada, como se

uma idéia tentasse impor-se aos seus pensamentos confusos.

- Então? - encorajou-a Poirot. - Creio... não tenho a certeza, mas creio que é

uma cigarreira que a senhora comprou para dar ao senhor.

- Ah! - exclamou Poirot, sem se dar por

achado.

- Mas se lha deu ou não, ignoro,

evidentemente.

- Com certeza, com certeza -

murmurou o detetive. - É tudo, mademoiselle, boas tardes.

Ada Mason retirou-se discretamente,

fechando a porta sem fazer barulho, e Poirot olhou para Van Aldin, com um leve sorriso. O milionário estava estupefato.

- Pensa... pensa que foi Derek? Mas... tudo

indica que foi o outro. Se o conde foi até apanhado em flagrante com as jóias!

- Não.

- Mas o senhor disse-me...

- Que lhe disse eu, afinal?

- Aquela história das jóias... mostrou-mas. - Não.

- Pretende dizer que não mas mostrou? -

espantou-se o americano.

- Não mostrei.

- Ontem, no tênis...

- Não.

- É o senhor que está doido, Monsieur

Poirot, ou serei eu?

- Nem o senhor, nem eu. Fez-me uma

pergunta, respondi-lhe; perguntou-me se não lhe mostrei as jóias, ontem; respondi-lhe que não. O que lhe mostrei, Monsieur Van Aldin, foi uma imitação de primeira categoria, difícil de distinguir das verdadeiras, a não ser por um perito.

XXIV

 

POIROT ACONSELHA

O milionário levou alguns minutos a

compreender. Olhava para Poirot com uma expressão aparvalhada e este acenava-lhe, suavemente, com a cabeça.

- Isto modifica tudo, não acha? - Imitação! - Van Aldin inclinou-se para a

frente e perguntou: - Teve sempre essa idéia, Monsieur Poirot? Tem sido aí que quer chegar, desde o princípio? Nunca acreditou que o conde de la Roche fosse o assassino?

- Tive as minhas dúvidas, e disse-lho.

Roubo com violência e assassinato... - abanou a cabeça, energicamente, e afirmou: - Não, é difícil de conceber; não se coaduna com a personalidade do conde de la Roche.

- Mas acredita que ele tencionava roubar os

rubis?

- Acredito; a esse respeito não restam

dúvidas. Recapitularei o caso, como me parece que aconteceu. O conde soube da existência dos rubis e traçou os seus planos para se apoderar deles: inventou a história romântica do livro que estava a escrever, a fim de induzir a sua filha a trazê-los; arranjou um duplicado exato das famosas pedras. É claro, portanto, que a sua intenção era substituir as verdadeiras pelas falsas. Sua filha não era perita em pedras preciosas e provavelmente só daqui a muito tempo descobriria o logro... e quando o descobrisse... enfim, não creio que denunciasse o conde. Ficaria a saber-se muitas coisas, pois ele teria, com certeza, várias cartas de madame em seu poder. Oh, tratava-se de um plano muito inteligente e seguro, do ponto de vista do conde, que provavelmente já o experimentou algumas vezes.

- Parece-me evidente, sim... - concordou Van

Aldin, como se falasse consigo mesmo.

- Coaduna-se, de resto, com a personalidade

do conde de la Roche - afirmou Poirot.

- Sim, mas agora... - Olhou

interrogativamente o detetive e pediu-lhe: - Diga-me, Monsieur Poirot.

- É simples - respondeu o detetive, com

um encolher de ombros. - Alguém se antecipou ao conde.

Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual

Van Aldin pareceu examinar mentalmente todos os pormenores.

- Há quanto tempo suspeitava do meu

genro, Monsieur Poirot? - perguntou por fim, sem rodeios.

- Desde o princípio. Ele tinha motivo e

oportunidade. Toda a gente se convenceu de que o indivíduo que estivera no compartimento de madame, em Paris, fora o conde de la Roche. Eu próprio pensava o mesmo, até que o ouvi dizer que, uma vez, tomara o conde pelo seu genro. Isso levou-me a crer que eram da mesma altura e estatura e meteu-me na cabeça algumas idéias curiosas. Como a criada estava havia pouco tempo ao serviço da sua filha, era natural que não conhecesse Monsieur Kettering bem de vista, pois ele não vivia na Curzon Street. Além disso, o indivíduo em questão tivera o cuidado de conservar o rosto voltado.

- Acredita que ele... a matou - murmurou o

americano, em voz rouca.

Poirot ergueu apressadamente uma das

mãos e protestou:

- Um momento, eu não afirmei semelhante

coisa! Mas é possível, muito possível. Monsieur Kettering encontrava-se em grandes apuros, ameaçado de ruína, e o crime podia salvá-lo.

- Mas porque se apoderaria das jóias?

- Para que se pensasse que fora um roubo

vulgar, efetuado por ladrões de comboios. De contrário, as suspeitas recairiam imediatamente nele.

- Se assim foi, que fez dos rubis? - Resta saber, mas há várias possibilidades.

Está em Nice um homem que talvez possa ajudar-nos, o indivíduo que lhe apontei no tênis.

Levantou-se, Van Aldin imitou-o e pôs-lhe a

mão num ombro:

- Encontre o assassino de Ruth - murmurou,

em voz rouca de emoção. - É só o que peço.

- Confie em Hercule Poirot e nada

tema - sentenciou Poirot, empertigando-se. - Descobrirei a verdade.

Sacudiu um grãozinho de poeira

do chapéu, sorriu tranquilizadoramente ao milionário e deixou-o. No entanto, enquanto descia a escada, parte da confiança que alardeara desapareceu.

“Parece tudo muito fácil”, comentou para

consigo, “mas há grandes dificuldades a vencer”.

Ao sair do hotel, estacou, de súbito.

Defronte da porta parara um automóvel que conduzia Katherine Grey, e Derek Kettering, de pé do lado de fora, conversava animadamente com ela. Passado cerca de um minuto o automóvel partiu e Derek continuou parado, a segui-lo com uma estranha expressão. Depois encolheu os ombros, impaciente, soltou um suspiro fundo e, ao voltar-se, encontrou Hercule Poirot ao seu lado. Estremeceu, mau grado seu, enquanto os seus olhares se cruzavam - o de Poirot firme e imperturbável, o do inglês com uma espécie de despreocupado desafio. Kettering ergueu as sobrancelhas e perguntou, sarcástico:

- É uma querida, não é?

- Sim, essa frase descreve muito bem

Mademoiselle Katherine - concordou Poirot, pensativo. - É uma frase muito inglesa e Miss Grey é, também, muito inglesa. Derek continuou imóvel, sem responder. - Mesmo assim, é simpática, não acha?

- Sim, não há muitas como ela - concordou

Derek, docemente, quase como se pensasse em voz alta.

Poirot acenou significativamente e depois

falou em tom diferente, numa voz serena e grave que Derek Kettering não lhe conhecia:

- Perdoe a um velho, monsieur, se considerar

impertinente o que ele vai dizer-lhe, mas há um provérbio inglês que diz ser bom terminar o amor antigo antes de iniciar um novo.

Kettering fitou-o, furioso, e perguntou-lhe: - Que diabo quer dizer?

- Zangou-se comigo, como aliás já esperava -

redargüiu o detetive, sem se perturbar. - Quanto ao que quero dizer... enfim, quero dizer apenas que, se voltar a cabeça, verá um segundo automóvel, também com uma senhora.

Derek girou nos calcanhares e o seu rosto

ficou rubro de cólera.

- Mirelle, diabos a levem! - resmungou. -

Preferia...

Poirot segurou-lhe num braço e perguntou-

lhe:

- Acha sensato o que ia fazer? Havia um brilho de advertência no seu olhar,

mas Derek estava tão furioso que não via nada. A cólera desarmava-o por completo.

- Acabei definitivamente com ela, e ela sabe-

o! -- afirmou, fora de si.

- O senhor acabou com ela, de acordo; mas

acabou ela consigo?

- Só obrigada é que Mirelle renunciará a dois

milhões de libras, disso pode ter a certeza! – exclamou brutalmente, com uma gargalhada áspera.

- É um cínico, Monsieur Kettering –

comentou Poirot, erguendo as sobrancelhas.

- Acha? - Não havia alegria no súbito

sorriso que lhe entreabriu os lábios. - Vivo há tempo suficiente para saber, Monsieur Poirot, que todas as mulheres são iguais. – O rosto suavizou-se-lhe, de súbito, e acrescentou: - Todas menos uma. – Olhou Poirot de maneira provocante e, inclinando a cabeça na direção do cabo Martin, concluiu: - Aquela.

- Ah! - exclamou Poirot, num tom que

pretendia apenas provocar o temperamento impetuoso do seu interlocutor.

- Sei o que vai dizer! - afirmou Derek,

nervosamente. – Vai referir-se à vida que tenho levado, ao fato de não ser digno dela. Dirá que não tenho sequer o direito de pensar em tal coisa, que não é decente falar assim com a minha mulher morta há tão poucos dias, e para mais assassinada...

Fez uma pausa para tomar fôlego e Poirot

aproveitou-a para observar, lamentoso:

- Mas eu não disse nada!

- Mas dirá!

- Direi?

- Dirá que não tenho a mínima

probabilidade de casar com Katherine!

- Não diria tal coisa, acredite - afirmou

Poirot.

- A sua reputação é má, sem dúvida, mas

nunca me constou que isso detivesse as mulheres. Se o senhor fosse um homem de excelente caráter, de absoluta moralidade, que não tivesse feito nada que não devesse fazer e, possivelmente, tudo quanto devesse fazer, nesse caso, sim, teria graves dúvidas quanto ao seu êxito. Uma moral irrepreensível não é romântica, como sabe, embora às vezes seja apreciada... pelas viúvas.

Derek Kettering fitou-o, perplexo, girou nos

calcanhares e seguiu na direção do automóvel parado.

Poirot ficou a olhá-lo com certo interesse,

viu a encantadora mulher debruçar-se do carro e falar, mas o inglês não parou. Levantou o chapéu e seguiu o seu caminho.

“Ja y est”, murmurou Hercule Poirot, para

consigo. “São horas de voltar para casa.”

Encontrou o imperturbável George a passar

calças a ferro.

- Um dia agradável, George, um pouco

fatigante, mas não sem interesse.

George ouviu o comentário com a habitual

cara de pau.

- Ainda bem, senhor.

- A personalidade de um criminoso é

interessante, George. Há muitos criminosos que possuem grande encanto pessoal.

- Sempre ouvi dizer que o doutor Crippen

era um cavalheiro de falas agradáveis, e no entanto cortou a mulher aos bocadinhos.

- Os teus exemplos são sempre edificantes,

George.

O telefone tocou, nesse momento, e Poirot

atendeu:

- Sim, sim, é Hercule Poirot que fala. - Aqui, Knighton. Um momento, Monsieur

Poirot, pois Mister Van Aldin deseja falar-lhe.

Pouco depois, a voz do milionário soava ao

ouvido do detetive:

- Monsieur Poirot? Queria apenas dizer-lhe

que Mason me procurou, por sua própria iniciativa. Diz que esteve a pensar e que tem quase a certeza de que o homem que viu em Paris era Derek Kettering. Na ocasião notou nele um não sei quê familiar, que não conseguiu, no entanto, identificar. Mas agora tem a certeza.

- Muito obrigado, Monsieur Van Aldin. Isso

ajuda-nos.

Desligou e ficou um momento parado, com

um curioso sorriso. George teve de falar-lhe duas vezes antes de obter resposta.

- O quê? Que disseste?

- Perguntei se almoçava em casa ou fora. - Nem uma coisa, nem outra. Irei para a cama

e tomarei uma tisana. O

esperado aconteceu, e quando o esperado

acontece emociona-me sempre.