O Mistério do Trem Azul
Capítulo XXXIII
NOVA TEORIA
- Monsieur Poirot deseja falar-lhe, senhor. - Diabos o levem! - praguejou Van Aldin. Knighton manteve-se num silêncio
compreensivo e o americano levantou-se da cadeira e começou a andar de um lado para o outro.
- Suponho que viu os malditos jornais desta
manhã?
- Passei uma vista de olhos, senhor. - Continuam a martelar na mesma tecla? - Receio que sim, senhor.
O milionário sentou-se e apertou a testa nas
mãos.
- Se eu tivesse previsto isto... Oh, quem me
dera nunca ter encarregado aquele belga de má morte de descobrir a verdade! Só pensava em encontrar o assassino de Ruth, mais nada.
- Não queria, certamente, que o seu genro
ficasse sem castigo?
- Preferia ter feito justiça pelas minhas
próprias mãos! - afirmou o americano, com um suspiro.
- Não me parece que tivesse sido um
procedimento sensato, senhor.
- Enfim, tem a certeza de que o indivíduo
quer ver-me a mim?
- Tenho, sim, Mister Van Aldin. Mostrou
grande empenho.
- Nesse caso, não tenho outro remédio. Diga-
lhe que pode aparecer esta manhã, se quiser.
Foi um Poirot cheio de vitalidade e boa
disposição que apareceu no hotel, para ser recebido pelo milionário. Não pareceu notar qualquer falta de cordialidade no acolhimento que este lhe dispensou e tagarelou despreocupadamente acerca de várias ninharias. Viera a Londres, explicou, a fim de visitar o seu médico, e indicou o nome de um eminente cirurgião.
- Não, não, pas la guerre. Uma recordação
dos tempos em que prestei serviço na Polícia: uma bala de um bandido. - Tocou no ombro esquerdo e estremeceu, com uma careta de dor muito convincente.
- Sempre o considerei um homem
afortunado, Monsieur Van Aldin. Não se coaduna com a idéia popular que fazemos dos milionários americanos: mártires da dispepsia!
- Sou rijo - concordou Van Aldin. - Levo uma
vida simples, como sabe, e alimento-me frugalmente e em pouca quantidade.
- Tem visto Miss Grey, não é verdade? -
perguntou inocentemente
Poirot, voltando-se para o secretário. - S-sim... uma ou duas vezes... - gaguejou
Knighton, corando.
- É curioso, Knighton, mas nunca me disse
que a vira - exclamou Van
Aldin, surpreendido.
- Não supus que estivesse interessado,
senhor.
- Simpatizo muito com ela.
- É uma pena que se tenha enterrado, de
novo, em Saint Mary Mead - comentou Poirot.
- É muito nobre da sua parte! - afirmou o
major, com calor. - Poucas pessoas seriam capazes de tal sacrifício por uma velha intratável, que não lhe é nada!
- Longe de mim, dizer o contrário! – afirmou
Poirot, sorridente. - No entanto, não deixa de ser uma pena. E agora, cavalheiros, falemos de coisas sérias.
Ambos os homens o fitaram, surpreendidos. - Peço-lhe, Monsieur Van Aldin, que não
se sinta indignado nem alarmado com o que vou dizer-lhe. Suponha que, no fim de contas, Monsieur Derek Kettering não assassinou a mulher...
- O quê?!
- Suponha, repito, que Monsieur Kettering
não assassinou a esposa.
- É doido, Monsieur Poirot? - perguntou o
americano.
- Não, não sou doido. Serei excêntrico, talvez
pelo menos é o que dizem certas pessoas, mas, no que respeita à minha profissão, tenho os olhos bem abertos. Pergunto-lhe, Monsieur Van Aldin, se ficaria contente ou triste se o que lhe disse fosse verdade?
Van Aldin fitou-o, perplexo, e por fim
respondeu:
- Ficaria contente, naturalmente. Mas trata-se
de um jogo de suposições, Monsieur Poirot, ou baseia-se em fatos?
Poirot olhou para o teto e replicou,
imperturbável:
- Existia uma probabilidade de que pudesse
ter sido o conde de la Roche. Pelo menos consegui arrasar-lhe o álibi.
- Conseguiu como?
- Tenho os meus métodos próprios -
confessou, com um modesto encolher de ombros. - Um bocadinho de tato, uma certa astúcia... e pronto.
- Mas os rubis, os tais rubis que o conde
tinha em seu poder, eram falsos.
- E, logicamente, ele não teria cometido o
crime, a não ser pelos rubis. Mas esquece uma probabilidade, Monsieur Van Aldin: pode ter chegado alguém primeiro do que ele, no que respeita aos rubis.
- Isso é uma teoria inteiramente nova! -
exclamou o major.
- Acredita, de fato, em toda essa história,
Monsieur Poirot? - inquiriu o milionário.
- Ainda não está nada provado; por enquanto
trata-se apenas de uma nova teoria. Mas afirmo-lhe, Monsieur Van Aldin, que os fatos merecem ser investigados.
Deve acompanhar-me ao Sul da França, para
estudar o assunto no local.
- Acha realmente necessário... que eu vá?
- Pensei que seria isso que o senhor
desejaria. -- Havia no tom da sua voz uma sugestão de censura, que não passou despercebida ao americano.
- Sim, sim, claro... Quando deseja partir,
Monsieur Poirot?
- Tem muito que fazer neste momento -
lembrou Knighton.
Mas o milionário tomara uma decisão e
não ligou importância às objeções do secretário.
- Penso que este caso deve ter a preferência -
declarou. Muito bem, Monsieur Poirot, partiremos amanhã. Em que comboio?
- Suponho que no Comboio Azul -
respondeu o detetive, a sorrir.