O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 25 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXXIII

 

NOVA TEORIA

 

- Monsieur Poirot deseja falar-lhe, senhor. - Diabos o levem! - praguejou Van Aldin. Knighton manteve-se num silêncio

compreensivo e o americano levantou-se da cadeira e começou a andar de um lado para o outro.

- Suponho que viu os malditos jornais desta

manhã?

- Passei uma vista de olhos, senhor. - Continuam a martelar na mesma tecla? - Receio que sim, senhor.

O milionário sentou-se e apertou a testa nas

mãos.

- Se eu tivesse previsto isto... Oh, quem me

dera nunca ter encarregado aquele belga de má morte de descobrir a verdade! Só pensava em encontrar o assassino de Ruth, mais nada.

- Não queria, certamente, que o seu genro

ficasse sem castigo?

- Preferia ter feito justiça pelas minhas

próprias mãos! - afirmou o americano, com um suspiro.

- Não me parece que tivesse sido um

procedimento sensato, senhor.

- Enfim, tem a certeza de que o indivíduo

quer ver-me a mim?

- Tenho, sim, Mister Van Aldin. Mostrou

grande empenho.

- Nesse caso, não tenho outro remédio. Diga-

lhe que pode aparecer esta manhã, se quiser.

Foi um Poirot cheio de vitalidade e boa

disposição que apareceu no hotel, para ser recebido pelo milionário. Não pareceu notar qualquer falta de cordialidade no acolhimento que este lhe dispensou e tagarelou despreocupadamente acerca de várias ninharias. Viera a Londres, explicou, a fim de visitar o seu médico, e indicou o nome de um eminente cirurgião.

- Não, não, pas la guerre. Uma recordação

dos tempos em que prestei serviço na Polícia: uma bala de um bandido. - Tocou no ombro esquerdo e estremeceu, com uma careta de dor muito convincente.

- Sempre o considerei um homem

afortunado, Monsieur Van Aldin. Não se coaduna com a idéia popular que fazemos dos milionários americanos: mártires da dispepsia!

- Sou rijo - concordou Van Aldin. - Levo uma

vida simples, como sabe, e alimento-me frugalmente e em pouca quantidade.

- Tem visto Miss Grey, não é verdade? -

perguntou inocentemente

Poirot, voltando-se para o secretário. - S-sim... uma ou duas vezes... - gaguejou

Knighton, corando.

- É curioso, Knighton, mas nunca me disse

que a vira - exclamou Van

Aldin, surpreendido.

- Não supus que estivesse interessado,

senhor.

- Simpatizo muito com ela.

- É uma pena que se tenha enterrado, de

novo, em Saint Mary Mead - comentou Poirot.

- É muito nobre da sua parte! - afirmou o

major, com calor. - Poucas pessoas seriam capazes de tal sacrifício por uma velha intratável, que não lhe é nada!

- Longe de mim, dizer o contrário! – afirmou

Poirot, sorridente. - No entanto, não deixa de ser uma pena. E agora, cavalheiros, falemos de coisas sérias.

Ambos os homens o fitaram, surpreendidos. - Peço-lhe, Monsieur Van Aldin, que não

se sinta indignado nem alarmado com o que vou dizer-lhe. Suponha que, no fim de contas, Monsieur Derek Kettering não assassinou a mulher...

- O quê?!

- Suponha, repito, que Monsieur Kettering

não assassinou a esposa.

- É doido, Monsieur Poirot? - perguntou o

americano.

- Não, não sou doido. Serei excêntrico, talvez

pelo menos é o que dizem certas pessoas, mas, no que respeita à minha profissão, tenho os olhos bem abertos. Pergunto-lhe, Monsieur Van Aldin, se ficaria contente ou triste se o que lhe disse fosse verdade?

Van Aldin fitou-o, perplexo, e por fim

respondeu:

- Ficaria contente, naturalmente. Mas trata-se

de um jogo de suposições, Monsieur Poirot, ou baseia-se em fatos?

Poirot olhou para o teto e replicou,

imperturbável:

- Existia uma probabilidade de que pudesse

ter sido o conde de la Roche. Pelo menos consegui arrasar-lhe o álibi.

- Conseguiu como?

- Tenho os meus métodos próprios -

confessou, com um modesto encolher de ombros. - Um bocadinho de tato, uma certa astúcia... e pronto.

- Mas os rubis, os tais rubis que o conde

tinha em seu poder, eram falsos.

- E, logicamente, ele não teria cometido o

crime, a não ser pelos rubis. Mas esquece uma probabilidade, Monsieur Van Aldin: pode ter chegado alguém primeiro do que ele, no que respeita aos rubis.

- Isso é uma teoria inteiramente nova! -

exclamou o major.

- Acredita, de fato, em toda essa história,

Monsieur Poirot? - inquiriu o milionário.

- Ainda não está nada provado; por enquanto

trata-se apenas de uma nova teoria. Mas afirmo-lhe, Monsieur Van Aldin, que os fatos merecem ser investigados.

Deve acompanhar-me ao Sul da França, para

estudar o assunto no local.

- Acha realmente necessário... que eu vá?

- Pensei que seria isso que o senhor

desejaria. -- Havia no tom da sua voz uma sugestão de censura, que não passou despercebida ao americano.

- Sim, sim, claro... Quando deseja partir,

Monsieur Poirot?

- Tem muito que fazer neste momento -

lembrou Knighton.

Mas o milionário tomara uma decisão e

não ligou importância às objeções do secretário.

- Penso que este caso deve ter a preferência -

declarou. Muito bem, Monsieur Poirot, partiremos amanhã. Em que comboio?

- Suponho que no Comboio Azul -

respondeu o detetive, a sorrir.