O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 21 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXVII

 

ENTREVISTA COM MIRELLE

Ao deixar Katherine, Knighton foi

procurar Hercule Poirot, que encontrou na sala de jogo, a apostar o mínimo permitido em números pares. Quando o major chegou, saiu o número trinta e três e a parada do detetive foi recolhida.

- Pouca sorte! - exclamou Knighton. - Volta a

apostar?

- Por agora, não.

- Sente a atração do jogo? - indagou o major,

curioso.

- Da roleta, não.

Knighton lançou-lhe um olhar rápido,

perturbou-se e perguntou, constrangido, com certa deferência:

- Pode dispensar-me uns minutos, Mister

Poirot. Gostava de falar-lhe acerca de um assunto...

- Às suas ordens. Saímos? Está agradável, ao

sol.

Saíram juntos e Knighton respirou fundo. - Gosto da Riviera - confessou. - Estive cá

pela primeira vez há doze anos, durante a guerra, quando me mandaram para o hospital de Lady Tamplin. Vir da Flandres para aqui foi como entrar no Paraíso!

- Deve ter sido, de fato.

- Como a guerra parece longe, agora! Caminharam em silêncio, durante algum

tempo, e por fim Poirot observou-lhe:

- Tem qualquer coisa que o preocupa... - Tenho, na verdade. Como adivinhou? - Percebe-se perfeitamente.

- Não sabia que era tão transparente. - Faz parte da minha profissão observar

fisionomias explicou o detetive, com dignidade.

- Eu conto-lhe, Mister Poirot. Ouviu falar na

bailarina

Mirelle?

- A chère amie de Mister Derek Kettering? - Sim, essa. Como está ao corrente dessas

relações mais facilmente compreenderá a natural animosidade de Mister Van Aldin para com ela. Mirelle escreveu ao meu patrão a pedir-lhe uma entrevista e ele ordenou-me que redigisse uma recusa seca, o que fiz. Esta manhã, essa senhora apareceu no hotel e mandou entregar um cartão, afirmando ser urgente e importantíssimo falar imediatamente com Mister Van Aldin.

- Está a interessar-me.

- Mister Van Aldin ficou furioso e ordenou-

me que lhe transmitisse nova recusa, mas atrevi-me a desobedecer. Parecia-me lógico e provável que a bailarina possuísse informações valiosas, pois sabemos que viajou no Comboio Azul e podia muito bem ter visto ou ouvido alguma coisa de importância vital para nós. Não concorda comigo, Mister Poirot?

- Concordo - declarou o detetive, secamente. - Mister Van Aldin procedeu, se me é

permitido dizê-lo, de maneira muito idiota.

- Ainda bem que é essa a sua opinião!

Como ia dizendo, achei tão insensata a atitude de MIster Van Aldin que desci e tive eu uma entrevista com a senhora.

- Eh bien?

- A dificuldade consistiu em que

Mademoiselle Mirelle teimou em falar com Mister Van Aldin, pessoalmente. Adocei o melhor que me foi possível a mensagem que o meu patrão me mandara transmitir; para ser franco, dei-lhe um significado inteiramente diferente... Afirmei-lhe que Mister Van Aldin tinha, naquele momento, muito que fazer, mas que podia comunicar-me o que pretendia. Não consegui convencê-la, porém, e partiu sem dizer nada. Estou crente, no entanto, de que ela sabe qualquer coisa.

- O assunto é sério - observou Poirot, muito

calmo. – Sabe onde ela está instalada?

- Sei, sim - respondeu Knighton, que

mencionou o nome do hotel.

- Ótimo. Iremos lá imediatamente. O secretário pareceu hesitante e perguntou,

a medo:

- E Mister Van Aldin?

- Mister Van Aldin é um teimoso e eu

não discuto com teimosos - respondeu o detetive, secamente. - Atuo, apesar da sua teimosia. Vamos falar já com essa senhora. Dir-lhe-ei que Mister Van Aldin me encarregou de o representar, e livre-se de me contradizer!

Knighton continuava a hesitar, mas Poirot

não ligou importância à sua hesitação.

No hotel informaram-nos de que

mademoiselle se encontrava nos seus aposentos, e Poirot mandou entregar-lhe o seu cartão e o do major, depois de escrever nas costas de ambos: “Da parte de Mister Van Aldin.”

Mirelle mandou dizer que os recebia e,

quando entraram na sala onde ela se encontrava, Poirot tomou imediatamente as rédeas da conversa:

- Mademoiselle - anunciou, com uma vênia

profunda -, vimos em nome de Mister Van Aldin.

- E porque não veio ele próprio? - Está indisposto, uma aborrecida laringite...

Mas encarregou-nos de o representarmos, a mim e ao major Knighton, seu secretário. A não ser, evidentemente, que mademoiselle prefira aguardar uma quinzena...

Se havia alguma coisa de que Poirot tinha a

certeza, era de que, para um temperamento como o de Mirelle, a simples palavra “esperar” constituía uma maldição.

- Eh bien, messieurs, falarei! - decidiu-se. -

Tenho sido paciente, tenho- me contido, e para quê? Para ser insultada! Sim, insultada! Quem se julga ele para tratar Mirelle assim? Abandoná-la como a uma luva velha! Garanto-lhes que nunca um homem se cansou de mim; sou eu sempre que me canso deles!

Andava de um lado para o outro, com o

corpo esguio a tremer de raiva. Como uma mesinha lhe impedisse a passagem, atirou-a violentamente contra a parede, estilhaçando-a.

- Eis o que lhe farei a ele! - gritou. - E mais

isto! - Pegou numa jarra de vidro cheia de lírios e atirou-a para a lareira, onde se fez em mil bocados.

Knighton fitava-a com um ar de fria

desaprovação britânica. Sentia-se embaraçado e constrangido, mas Poirot, pelo contrário, divertia-se com a cena, saboreava-a, deliciado.

- Magnífico! - exclamou. - Vê-se que

mademoiselle tem... temperamento!

- Sou uma artista, e todos os artistas têm

temperamento! gritou a bailarina. - Avisei Dereek, disse-lhe que visse o que fazia, mas não me deu ouvidos! - Virou-se, furiosa, para Poirot e perguntou: - É verdade que pretende casar com aquela miss inglesa, não é?

Poirot tossiu, discreto.

- On m'a dit - murmurou, melífluo - que a

adora apaixonadamente.

- Foi ele que assassinou a mulher! - gritou

Mirelle. - Pronto, aí têm! Tinha-me dito que tencionava fazê-lo, encontrava-se num beco sem saída e... zut!, escolheu a saída mais fácil!

- Diz que Mister Kettering assassinou a

esposa?

- Sim, sim, sim! Não me expliquei bem?

- A Polícia quererá provas dessa... hum...

dessa declaração - lembrou

Poirot.

- Vi-o sair do compartimento da mulher,

naquela noite, no comboio!

- Quando? - perguntou o detetive,

vivamente.

- Antes de o comboio chegar a Lyon. - Afirmá-lo-á sob juramento, mademoiselle? -

- Era um Poirot diferente que falava agora, vibrante e decidido.

- Afirmarei.

Seguiu-se um momento de silêncio. Mirelle

arfava e os seus olhos, entre provocadores e assustados, iam de um homem para o outro.

- O assunto é grave, mademoiselle -

observou, por fim, Poirot. - Avalia a gravidade da acusação?

- Evidentemente que avalio. - Muito bem. Nesse caso, compreenderá

igualmente que não devemos perder tempo e que deve acompanhar-nos sem demora ao gabinete do juiz de instrução.

Mirelle ficou petrificada. Hesitou, mas, como

Poirot previra, não tinha saída possível.

- Está bem - decidiu-se. - Vou buscar um

casaco.

Sozinhos, Poirot e Knighton entreolharam-

se.

- É preciso malhar o ferro enquanto está

quente, como costuma dizer-se - murmurou o detetive. -- É uma mulher temperamental e, daqui a uma hora, seria capaz de arrepender-se e de querer voltar com a palavra atrás. Temos de impedir a todo o custo que o faça.

Mirelle reapareceu envolta numa capa de

veludo cor de areia, debruada a pele de leopardo - ela própria parecia um leopardo, fulvo e perigoso, com os olhos ainda coruscantes de cólera e determinação.

Encontraram M. Caux e M. Carrège

juntos e, após breves palavras preliminares de Poirot, Mademoiselle Mirelle foi cortesmente convidada a contar a sua história.

Empregou mais ou menos as mesmas

palavras que usara antes, ao contá- la a Poirot e ao major, embora adotasse uma atitude mais sóbria.

- O que acaba de contar-nos é extraordinário,

mademoiselle! - exclamou M. Carrège, devagar, e recostou-se na cadeira, ajustou o pince-nez e observou atenta e perscrutadoramente a bailarina. - Pretende que acreditemos que Monsieur Kettering se vangloriou antecipadamente do crime, na sua presença?

- É a verdade! Disse que ela era demasiado

saudável e que não morreria tão cedo, a não ser por acidente. Acrescentou que se encarregaria disso.

- Já pensou, mademoiselle, que está a

colocar-se na posição de cúmplice e encobridora? - perguntou o magistrado, severamente.

- Eu?! De modo nenhum, monsieur! Nem por

um momento acreditei que ele falasse a sério! Nem por um momento! Conheço os homens, monsieur; dizem tantas tolices que seria uma sensaboria se tivéssemos de considerar tudo au pied de la lettre!

O juiz de instrução ergueu as sobrancelhas,

estupefato:

- Devemos pensar, então, que considerou

as ameaças de Monsieur Kettering simples palavras ociosas? E poderei perguntar-lhe, mademoiselle, que motivos a levaram a rescindir os seus compromissos em Londres e a vir para a Riviera?

- Queria estar com o homem que amava -

respondeu Mirelle, fitando-o com olhos lânguidos. - Será assim tão estranho?

Poirot perguntou-lhe, por sua vez,

delicadamente:

- Foi, então, por desejo de Monsieur

Kettering que o acompanhou a

Nice?

Mirelle pareceu ter certa dificuldade em

responder, pois hesitou perceptivelmente antes de o fazer.

- Nesses assuntos faço o que me apetece,

monsieur respondeu por fim, com arrogante indiferença.

Todos compreenderam que a resposta não

era resposta, mas não se manifestaram.

- Quando se convenceu, pela primeira vez,

de que Monsieur Kettering assassinara a esposa?

- Como já disse, vi Monsieur Kettering sair

do compartimento da mulher precisamente antes de o comboio chegar a Lyon. Tinha uma expressão... ah, naquele momento não podia compreender!, uma expressão terrível, acossada... Jamais esquecerei! - A voz esganiçou-se-lhe e abriu os braços, num gesto extravagante.

- É natural - murmurou M. Carrège. - Depois, quando soube que Madame

Kettering estava morta à partida do comboio da estação de Lyon... então compreendi!

- Mas nem mesmo assim informou a Polícia,

mademoiselle observou o comissário, suavemente.

Mirelle olhou-o, com ar altivo. Era evidente

que lhe agradava o papel que representava.

- Devia atraiçoar o meu amado? -

perguntou. -- Ah, não peçam a nenhuma mulher que o faça!

- No entanto, agora... - insinuou M. Caux. - Agora é diferente; ele traiu-me! Deverei

sofrer em silêncio a sua traição?

- Claro, claro - murmurou o juiz de instrução,

para lhe travar a língua. - Agora, mademoiselle, agradecia que lesse o seu depoimento e o assinasse, se o achar conforme.

Mirelle não perdeu tempo com leituras: - Está conforme, evidentemente - afirmou,

levantando-se. Não precisam mais de mim, messieurs?

- Agora, não, mademoiselle. - E Dereek será preso?

- Imediatamente, mademoiselle. A bailarina riu, cruel, e aconchegou a capa

ao corpo.

- Devia ter pensado nas conseqüências antes

de me insultar!

- Um momento - pediu Poirot, com uma

tossezinha discreta. Só mais um pormenor...

- O quê?

- Porque pensa que Madame Kettering estava

morta quando o comboio partiu de Lyon?

Mirelle fitou-o, surpreendida. - Mas estava morta!

- Estava?

- Claro que estava! Eu... - Calou-se

bruscamente e Poirot, que não perdia um único gesto seu, notou a expressão cautelosa dos seus olhos. - Disseram-me que estava morta. Toda a gente o diz.

- Ah! - exclamou Poirot. - Ignorava que o fato

tivesse sido mencionado fora do gabinete do juiz de instrução.

- São notícias que se espalham... –

murmurou Mirelle, vagamente perturbada. - Alguém me disse, mas não me lembro quem.

Dirigiu-se para a porta e M. Caux apressou-

se a levantar-se, para lha abrir. Poirot deteve-a ainda uma vez:

- E as jóias? Perdão, mademoiselle, mas

não poderá dizer-nos nada acerca das jóias?

- As jóias? Que jóias?

- Os rubis de Catarina, a Grande. Já que

está tão bem informada, também deve saber alguma coisa a esse respeito.

- Não sei nada acerca de jóias! - ripostou

Mirelle, irritada, e saiu pela porta fora.

M. Caux sentou-se e o juiz de instrução

suspirou.

- Que fúria! - exclamou. - Mas diablemente

chic! Terá dito a verdade? Suponho que sim.

- Há, sem dúvida, alguma verdade na sua

história – comentou Poirot. - Miss Grey confirmou parte das afirmações da bailarina, pois encontrava-se no corredor, pouco antes de o comboio chegar a Lyon, e viu Monsieur Kettering entrar no compartimento da esposa.

- O caso contra ele parece, pois, evidente -

declarou o comissário, com um suspiro. - é uma pena!

- Que quer dizer? - admirou-se Poirot. - A ambição da minha vida tem sido deitar a

mão ao conde de la Roche e desta vez, ma foi, cheguei a julgar que ia realizá-la. O outro... enfim, não é tão agradável.

- Se alguma coisa correr mal, será muito

aborrecido - observou M. Carrège, cauteloso, esfregando o nariz. - Monsieur Kettering é um aristocrata, os jornais farão alarido e se nos enganarmos... - e encolheu os ombros, inquieto.

- E as jóias? - perguntou o comissário. - Que

terá feito delas?

- Tirou-as para despistar, está bem de

ver, e devem constituir uma grande desvantagem - respondeu o juiz. - Acho que lhe será difícil dispor delas.

- Tenho uma idéia muito especial acerca das

jóias... - murmurou Poirot, sorridente. - Digam -me, messieurs, que sabem a respeito de um indivíduo conhecido pelo “Marquês”?

O comissário inclinou-se para a frente,

excitadíssimo, e perguntou:

- O Marquês? Pensa que está metido neste

caso, Monsieur Poirot?

- Perguntei-lhes se sabiam alguma coisa a

seu respeito.

- Não tanto como desejaríamos - lamentou o

comissário, com uma careta significativa. - Trabalha nos bastidores, compreende? Tem subalternos que se encarregam do trabalho sujo. Temos a certeza de que vem das altas esferas, e não do meio criminal.

- Francês?

- S-sim... Pelo menos, supomos que sim,

embora não tenhamos a certeza. Trabalhou em França, na Inglaterra, na América... E no último Outono houve uma série de roubos na Suíça, que lhe foram atribuídos. Segundo tudo indica, é um grand seigneur que fala francês e inglês com igual perfeição e cuja origem é um mistério.

Poirot levantou-se, para sair, e o comissário

perguntou-lhe interessado:

- Não pode dizer-nos mais nada, Monsieur

Poirot?

- Por enquanto, não, mas talvez tenha

notícias à minha espera no hotel.

- Se o Marquês está envolvido neste caso... -

começou o juiz de instrução, inquieto, e não acabou a frase.

- Transtorna as nossas idéias todas -

queixou-se M. Caux.

- Não transtorna as minhas - afirmou Poirot. - Pelo contrário, acho que se coaduna muito

bem com elas. Au revoir, messieurs; se receber notícias importantes, comunicarei imediatamente com os senhores.

Regressou ao hotel com semblante severo.

Na sua ausência chegara um telegrama, que abriu. Era longo, mas Poirot leu-o duas vezes, devagar, antes de o guardar na algibeira. George aguardava-o, nos seus aposentos.

- Estou fatigado, George, muito fatigado...

Importas-te de pedir que me tragam um bule de chocolate?

George pediu o chocolate e, depois, serviu-o

ao patrão. Preparava-se para sair, mas Poirot reteve-o:

- Creio, George, que tens bons conhecimentos

da aristocracia inglesa? - perguntou-lhe.

- Creio que posso responder que sim,

monsieur – murmurou George, como se pedisse desculpa desses conhecimentos.

 

- Suponho também que, na tua

opinião, os criminosos provêm, geralmente, das classes inferiores?

- Nem sempre, senhor. Lembro-me, por

exemplo, de ter havido grandes complicações com um dos filhos mais novos do duque de Devize. Fugiu de Eton e, depois, em várias ocasiões, causou grandes preocupações à família. A Polícia não aceitava a teoria de que se tratava de cleptomania... Um jovem muito inteligente, senhor, mas corrupto até à medula, se me faço entender. Sua Graça embarcou-o para a Austrália e constou-me que esteve lá preso e condenado, sob outro nome. Muito estranho, senhor, mas verdadeiro. Escusado é dizer que o jovem a que me refiro não tinha necessidades financeiras.

Poirot abanou a cabeça, devagar, e

murmurou:

- Amor da aventura e um parafuso mal

apertado, nos miolos... Pergunto a mim mesmo... - tirou o telegrama da algibeira e releu-o.

- Houve também a filha de Lady Mary Fox --

continuou o criado, com ar reminiscente. - Essa vigarizava comerciantes de uma maneira revoltante. Estes casos eram muito desagradáveis para as famílias, evidentemente, mas não foram únicos. Podia relatar muitos mais.

- Tens uma grande experiência, George -

comentou Poirot. Às vezes admiro-me de que, depois de viveres tão exclusivamente com famílias titulares, tenhas descido a ser meu criado... Atribuo-o a amor da aventura da tua parte...

- Não se trata exatamente disso, senhor -

esclareceu George. - Por acaso lera nas Crônicas Sociais que monsieur fora recebido no Palácio de Buckingham, e como andava a procurar novo emprego... As notícias diziam que Sua Majestade fora muito bondosa e cordial consigo e tinha em grande conta a sua competência...

- É sempre agradável saber o porquê das

coisas -- comentou o detetive, que perguntou a seguir: - Telefonaste a Mademoiselle Papopolous?

- Telefonei, sim. mademoiselle e o pai terão

muito prazer em jantar com o senhor, esta noite.

Poirot bebeu o chocolate, pensativamente,

colocou a xícara e o pires no meio do tabuleiro, com muito cuidado, e recomeçou a falar docemente, mais para si próprio do que para o criado:

- O esquilo, meu bom George, armazena

nozes. Se quisermos que a humanidade valha alguma coisa, meu amigo, devemos aproveitar as lições que nos dão as criaturas que nos são inferiores no reino animal. Eu sempre o fiz. Fui gato a espreitar a toca do rato; fui um bom cão a seguir a pista, sem levantar o nariz do caminho; e fui também, meu bom George, esquilo. Armazenei fatozinho aqui, fatozinho ali... e agora vou ao “armazém” e retiro determinada noz, uma noz que guardei... ora deixa ver... há dezessete anos! Estás a compreender-me, George?

- Nunca pensei, senhor, que as nozes se

conservassem durante tanto tempo, embora saiba que se conseguem maravilhas no campo das conservas...

Poirot olhou-o e sorriu.

XXVIII

 

POIROT FAZ DE ESQUILO

Poirot saiu para jantar com três quartos de

hora de antecedência, mas tinha as suas razões para tal. Em vez de ir direito a Monte Carlo, seguiu para casa de Lady Tamplin, no cabo Martin, e perguntou por Miss Grey. Informaram-no de que as senhoras estavam a vestir-se e pediram-lhe que esperasse numa saleta, onde passados cerca de três minutos Lenox se lhe juntou.

- Katherine ainda não está pronta. Deseja que

lhe dê algum recado ou prefere esperar que ela desça?

Poirot fitou-a pensativo, e demorou muito

tempo a decidir-se, como se da sua decisão dependessem coisas muito importantes.

- Não, não creio que seja necessário esperar

por Mademoiselle Katherine. Talvez seja, até, melhor não esperar. Estas coisas às vezes são difíceis...

Lenox aguardava delicadamente, com as

sobrancelhas um pouco erguidas.

- Trago notícias que lhe agradecia

transmitisse à sua amiga: Mister

Kettering foi preso esta noite, por assassinar

a esposa.

- Deseja que diga isso a Katherine? – Lenox

ofegava, como se tivesse corrido, e Poirot notou que empalidecera muito.

- Se fizer o favor, mademoiselle... - Porquê? Acha que Katherine se inquietará?

Julga que ela se importa?

- Não sei, mademoiselle. Como vê,

admito francamente a minha ignorância. Regra geral, sei tudo, mas neste caso... bem, não sei! Talvez a mademoiselle saiba mais do que eu...

- Sei... mas não lhe digo. - Calou-se, com as

sobrancelhas negras unidas numa careta, e de súbito inquiriu: - Acredita que ele a matou?

- A Polícia diz que sim - volveu o detetive,

com um encolher de ombros.

- Esquiva-se a responder, hem? Remeteu-se de novo a um silêncio inquieto,

de sobrolho franzido.

- Conhece Derek Kettering há muito tempo,

não conhece? - perguntou- lhe Poirot, docemente.

- Desde pequena - respondeu, carrancuda, e

Poirot acenou várias vezes com a cabeça, sem falar.

Num dos seus impulsos súbitos, Lenox

puxou uma cadeira e sentou-se, com os cotovelos na mesa e o queixo assente nas mãos, mesmo defronte do detetive.

- Em que se basearam para o

prender? Motivo, suponho... Provavelmente Derek herdou com a morte da mulher...

- Herdou dois milhões.

- E, se ela não morresse, estaria arruinado? - Estaria.

- Mas deve ter havido mais qualquer

coisa...insistiu a jovem. - É certo que viajava no mesmo comboio, mas... isso não chegaria para o comprometer.

- Encontraram no compartimento uma

cigarreira com a inicial “K”, que não pertencia a Mistress Kettering, e duas pessoas viram Derek Kettering entrar e sair do compartimento da esposa, precisamente antes do comboio chegar a Lyon.

- Quem foram essas pessoas? - A sua amiga Miss Grey foi uma delas.

A outra foi Mademoiselle

Mirelle, a bailarina.

- E que diz Derek a isso?

- Nega ter entrado no compartimento da

esposa.

- Idiota! - exclamou a rapariga, irritada. -

Precisamente antes de Lyon, não foi o que disse?... Alguém sabe quando... quando ela morreu?

- O parecer dos médicos não pode ser muito

exato, mas crêem que a morte não deve ter ocorrido depois de o comboio partir de Lyon. Sabemos, também, que, poucos momentos depois da saída de Lyon,

Mistress Kettering estava morta. - Sabem como?

- Entrou outra pessoa no

compartimento e encontrou-a morta - respondeu, com um sorriso curioso.

- E não deram o alarme no comboio? - Não.

- Porquê?

- Tiveram, sem dúvida, as suas razões. - Sabe quais foram?

- Creio que sim.

Lenox refletiu e Poirot observou-a em

silêncio.

Por fim a jovem levantou a cabeça, com um

leve rubor nas faces e os olhos brilhantes.

- Pensa que foi alguém que viajava no

comboio que a matou, mas pode não ter sido assim. Nada impedia o assassino de saltar para o comboio, quando este esteve parado em Lyon, pois não? Nem de ir direito ao compartimento, estrangulá-la, apoderar-se dos rubis e sair da composição, sem se tornar notado? Portanto, ela pode muito bem ter sido assassinada enquanto o comboio estava parado na estação de Lyon, o que significa que estava viva quando Derek entrou, e morta quando a tal pessoa a encontrou.

Poirot recostou-se na cadeira, respirou fundo,

olhou para a rapariga e acenou três vezes com a cabeça.

- O que acaba de dizer é muito justo, muito

verdadeiro, mademoiselle. Debatia-me nas trevas e a mademoiselle mostrou-me a luz. Havia um pormenor que me intrigava, mas elucidou-me.

Levantou-se, para sair e Lenox perguntou: - E Derek?

- Quem sabe? - volveu, com um encolher

de ombros. - Digo-lhe, mademoiselle, que não estou convencido; não, eu, Hercule Poirot, não estou convencido. Talvez esta noite ainda saiba alguma coisa mais... Pelo menos, tentarei.

- Vai encontrar-se com alguém? - Vou.

- Alguém que sabe alguma coisa?

- Alguém que talvez saiba alguma coisa.

Nestes casos, é preciso não deixar pedra por levantar... Au revoir, Mademoiselle.

Lenox acompanhou-o à porta e perguntou-

lhe:

- Acha que... ajudei?

O rosto de Poirot suavizou-se. - Ajudou, sim, mademoiselle - afirmou. - Se

as coisas lhe parecerem muito negras, lembre-se sempre disso: ajudou.

No automóvel, o detetive mergulhou nos

seus pensamentos, de testa franzida, mas nos seus olhos havia aquela tênue luz verde percursora de triunfo.

Chegou alguns minutos atrasado ao encontro

e, como Mr. Papopolous e a filha tinham chegado antes dele, excedeu-se em desculpas e em delicadezas e pequenas atenções. O grego exibia um ar particularmente benigno e nobre, um ar de patriarca triste, de vida imaculada. Zia estava bonita e bem disposta e Poirot mostrou-se esfusiante de espírito, contou anedotas, disse graças, dirigiu graciosos galanteios a Mademoiselle Papopolous e relatou muitos incidentes interessantes da sua carreira. O jantar decorreu, assim, agradavelmente, com uma ementa escolhida e excelentes vinhos.

No fim da refeição, Mr. Papopolous

indagou, delicadamente:

- E o palpite que lhe dei? Fez a sua

apostazinha no cavalo?

- Estou em comunicação com... hum... com o

meu agenciador. Os olhos dos dois homens encontraram-se e o grego comentou:

- Um cavalo muito conhecido, hem? - Não. É aquilo a que os nossos amigos, os

ingleses, chamam um cavalo obscuro.

- Ah! - exclamou Mr. Papopolous, pensativo. - Agora vamos ao cassino e tentemos a nossa

sorte na roleta! - propôs

Poirot, alegremente.

No cassino o grego separou-se; Poirot

devotou-se inteiramente a Zia, enquanto o grego se afastava.

Poirot não teve sorte, mas a jovem depressa

ganhou alguns milhares de francos.

- Acho melhor ficar por aqui - disse ao

detetive, sensatamente.

- Soberbo! - exclamou o homenzinho. - É

bem a filha do seu pai, Mademoiselle Zia. A arte consiste, precisamente, em saber quando se deve parar!

Olhou à sua volta e observou,

despreocupado:

- Não vejo o seu pai em parte nenhuma. Vou

buscar-lhe a sua capa e daremos uma volta pelo jardim.

Não foi, no entanto, direito ao vestiário.

Estava ansioso por saber que fora feito do astuto grego, mas encontrou-o inesperadamente no grande salão de entrada. Estava encostado a uma das colunas e conversava com uma senhora que acabava de chegar: Mirelle.

Poirot contornou, sorrateiro, o salão, até ao

outro lado da coluna junto da qual o par conversava animadamente - ou melhor, quem falava animadamente era a bailarina; o grego contribuía apenas com monossílabos ocasionais e abundantes gestos expressivos.

- Preciso de tempo - dizia a bailarina. - Se me

der tempo, arranjarei o dinheiro.

- Não é aconselhável esperar - replicou o

grego, com um encolher de ombros.

- Será pouco tempo - volveu a mulher, em

tom suplicante. - Oh, tem de esperar! Uma semana, dez dias, é tudo quanto peço. Pode ter a certeza de que fará o negócio; arranjarei o dinheiro.

Papopolous desviou-se um pouco, olhou,

inquieto, em seu redor e encontrou Poirot quase a seu lado, com uma expressão inocente e risonha.

- Ah, vous voilà, Monsieur Papopolous!

Andava à sua procura. Permite que dê uma volta pelo jardim com Mademoiselle Zia? - Fez uma vênia profunda a Mirelle e cumprimentou-a: - Boas noites, mademoiselle. Mil perdões por não a ter visto imediatamente.

A bailarina aceitou o cumprimento com

certa impaciência, irritada com a interrupção do tête-à-tête.

- Com certeza - respondeu

Papopolous, e Poirot deixou-os imediatamente.

Foi buscar a capa de Zia e dirigiram-se para

o jardim.

- É aqui que se suicidam - observou a

rapariga.

- Dizem que sim - comentou o detetive, com

um encolher de ombros. - Os homens são estúpidos, não são, mademoiselle? Comer, beber, respirar o bom ar, são coisas muito agradáveis e é uma idiotice abandonar tudo isso só porque não se tem dinheiro... ou porque o coração sofre. L'amour causa muitas fatalidades, não acha?

Zia riu-se.

- Não devia rir-se do amor, mademoiselle

- censurou-a o detetive, agitando energicamente o indicador. - Não devia rir-se, pois é jovem e bonita.

- Esquece-se de que tenho trinta e três anos,

Monsieur Poirot. Confesso- lho a si, pois seria inútil esconder-lho: ouvi-o dizer a meu pai que foi há dezessete anos que nos ajudou em Paris...

- Quando olho para si, parece-me que foi

há muito menos tempo - afirmou Poirot, galante. - Era então muito semelhante ao que é hoje, mademoiselle, um pouco mais magra, um pouco mais pálida, um pouco mais séria... Dezesseis anos e acabada de chegar do internato! Nem uma petite pensionnaire, nem uma mulher. Era deliciosa e encantadora, Mademoiselle Zia... e por certo não fui eu o único a pensá-lo.

- Aos dezesseis anos somos ingênuas e um

bocadinho idiotas.

- Talvez... sim, talvez. Aos dezesseis anos

somos, também, crédulos, acreditamos no que nos dizem...

Se viu o olhar precipitado que a jovem lhe

lançou, disfarçou e continuou, sonhador:

- Foi um caso curioso aquele,

mademoiselle. Seu pai nunca compreendeu o seu verdadeiro significado.

- Não?

- Quando me pediu pormenores,

explicações, redargui-lhe: “Devolvi-lhe, sem escândalo, o que tinha desaparecido. Não deve fazer perguntas.” Sabe porque lhe respondi assim, mademoiselle?

- Não faço idéia - volveu, friamente. - Respondi-lhe assim porque tinha no meu

coração um fraco por uma rapariguinha chegada do colégio, uma rapariguinha muito pálida, muito magra, muito séria...

- Não percebo do que está a falar! - exclamou

Zia, irritada.

- Não, mademoiselle? Esqueceu António

Pirezzio? - Ouviu-a suster a respiração, mas prosseguiu, implacável: - Empregou-se como auxiliar no estabelecimento do seu pai, mas assim não poderia obter o que desejava. Um empregado pode levantar os olhos para a filha do patrão, não é verdade? Sobretudo se é jovem, belo e tem uma língua de prata... Como não podem amar o tempo todo, de vez em quando conversam de coisas que interessam a ambos como, por exemplo, aquele interessante objeto que estava temporariamente confiado a Mister Papopolous. E como os jovens são idiotas e crédulos, foi fácil acreditá-lo e mostrar-lhe o referido objeto, deixar-lhe ver onde se encontrava. Mas depois, quando o objeto desapareceu, quando a inacreditável catástrofe aconteceu... Ai da pobre rapariguinha! Em que terrível situação se achou! Cheia de medo, pobrezinha! Devia falar ou não falar? Foi então que entrou em cena esse excelente indivíduo, Hercule Poirot... Deve ter sido quase um milagre, a maneira como as coisas se resolveram. O preciosíssimo objeto foi devolvido e não houve perguntas desagradáveis.

Zia voltou-se impetuosamente para ele e

perguntou, incrédula:

- O senhor sabia? Soube-o sempre? Quem

lhe disse? Foi... foi António?

- Ninguém me disse; conjecturei. E foi uma

boa conjectura, não acha? Compreende, se não temos habilidade para conjecturar não vale a pena ser detetive.

Zia caminhou ao seu lado, durante alguns

minutos, em silêncio. Por fim perguntou, em tom áspero:

- Que tenciona fazer? Contar ao meu pai? - Não - afirmou Poirot, sem hesitar. - Com

certeza que não!

A rapariga olhou-o, com curiosidade, e

inquiriu:

- Deseja alguma coisa de mim, então? - Desejo a sua ajuda, mademoiselle. - Porque supõe que posso ajudá-lo? - Não suponho; espero apenas. - E, se não o ajudar, irá contar ao meu pai? - Oh, não, não. Liberte-se de semelhante

idéia, mademoiselle; não sou nenhum chantagista! Não estou a ameaçá-la com o seu segredo, como se fosse uma espada suspensa sobre a sua cabeça.

- Se eu recusar ajudá-lo...

- Se recusar, recusa, e pronto! - Então porque...

- Ouça, explicar-lhe-ei porquê. As

mulheres, mademoiselle, são generosas e, se podem fazer um favor a quem já lhos fez também, não hesitam.

Em tempos fui generoso consigo,

mademoiselle, calei-me quando podia ter falado.

Seguiu-se novo silêncio, que a jovem

interrompeu:

- Outro dia meu pai deu-lhe um palpite. - Foi muito amável da sua parte. - Não creio poder acrescentar alguma coisa a

esse palpite - declarou Zia, devagar.

Se ficou decepcionado, Poirot não o

demonstrou; nem um músculo do seu rosto vibrou.

- Eh bien, falemos então de outras coisas! -

exclamou, despreocupado.

E começou a conversar alegremente. Zia

parecia, porém, distraída, respondia-lhe maquinalmente e, muitas vezes, sem propriedade. Aproximavam-se de novo do cassino quando pareceu tomar uma decisão:

- Monsieur Poirot...

- Mademoiselle?

- Gostaria... gostaria de o ajudar, se pudesse. - É muito amável, mademoiselle, muito

amável.

Nova pausa. Poirot não insistia, achava

preferível esperar e dar tempo ao tempo.

- Ora, no fim de contas, porque não hei-de

dizer-lhe? perguntou, de súbito, a impulsiva jovem. - Meu pai é sempre cauteloso, mede sempre tudo quanto diz, mas eu sei que, com o senhor, não são necessárias tais cautelas. Disse-nos que procura apenas o assassino e que não está interessado nas jóias. Acredito. Não se enganou ao supor que estávamos em Nice por causa dos rubis; foram-nos aqui entregues, de acordo com o que estava planeado. É meu pai quem os tem e, outro dia, insinuou-lhe quem foi o nosso misterioso cliente.

- O Marquês? - murmurou o detetive,

baixinho.

- Sim, o Marquês.

- Viu-o alguma vez, Mademoiselle Zia? - Uma, mas mal. Espreitei pelo buraco de

uma fechadura!

- É um procedimento que apresenta

sempre certas dificuldades - murmurou Poirot, compreensivo.

- Mas viu-o, e isso é importante. Seria capaz

de o reconhecer, se voltasse a vê-lo?

Zia abanou a cabeça:

- Usava máscara.

- Novo ou velho?

- Tinha o cabelo branco. Podia ser ou não

uma cabeleira postiça, mas se o era assentava muito bem. No entanto, não creio que fosse velho, pois tinha o andar e a voz de um homem novo.

- A voz? - perguntou o detetive, pensativo. --

Ah, a sua voz! Reconhecê- la-ia se voltasse a ouvi-la, mademoiselle?

- Talvez.

- Estava interessada nele, hem? Foi isso

que a levou ao buraco da fechadura.

- É verdade, sou curiosa. Tinha ouvido

dizer tantas coisas a seu respeito... Não é um vulgar ladrão, mas mais uma figura de lenda ou de romance.

- Sim, talvez - concordou Poirot, muito sério. - Mas não era isto que queria dizer-lhe e sim

outro fato que me pareceu... enfim, que julgo poderá ser-lhe útil.

- De que se trata?

- Como lhe disse, os rubis foram entregues ao

meu pai, aqui em Nice. Não vi a pessoa que lhos entregou, mas...

- Mas?

- Uma coisa sei: foi uma mulher.