O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 16 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXI

 

NO TÊNIS

Decorreram vários dias. Certa manhã, ao

regressar de um passeio solitário, Katherine encontrou Lenox a esperá-la, com um sorriso ansioso.

- O seu rapaz telefonou, Katherine! - Quem é o meu rapaz?

- Desta vez é um novo: o secretário de Rufus

Van Aldin. Parece ter-lhe causado uma grande impressão. Está a tornar-se uma demolidora de corações, Katherine: primeiro, Derek Kettering; agora, esse jovem Knighton! O engraçado é que me lembro muito bem dele, pois estava no hospital de guerra que minha mãe instalou aqui. Nessa altura andava eu pelos meus oito anos, era uma miúda...

- Foi um ferido grave?

- Tinha levado um tiro numa perna, se não

me engano, mas o caso esteve feio. Creio que os médicos complicaram um bocado as coisas, pois disseram que não ficaria a coxear, mas quando o rapaz saiu ia coxo.

Lady Tamplin juntou-se-lhes, nesse

momento, e perguntou:

- Estiveste a falar a Katherine acerca do major

Knighton? Um rapaz tão simpático! Ao princípio não me recordei, eram tantos!, mas depois lembrei-me de tudo.

- Antes, o major Knighton não merecia ser

lembrado, pois tinha muito pouca importância - comentou Lenox, com a acidez habitual. - Mas agora as coisas mudaram muito de figura, pois é secretário de um milionário americano!

- Querida! - exclamou Lady Tamplin, no seu

vago tom de censura.

- Mas, afinal, porque telefonou o major

Knighton? perguntou Katherine.

- Perguntou se queria ir ao tênis, esta

tarde, pois viria buscá-la de automóvel. A mãe e eu aceitamos em seu nome, com empressement. Enquanto você se entretiver com o secretário de Van Aldin, talvez me dê uma oportunidade de cair nas graças do milionário, Katherine. Suponho que Mister Van Aldin tem cerca de sessenta anos; portanto, deve interessar-se por uma rapariga simpática e terna como eu.

- Gostaria de conhecer Mister Van Aldin -

confessou Rosalie Tamplin, com fervor. - Dizem-se tantas coisas a seu respeito! São tão fascinantes esses rudes homens do Oeste!

- O major Knighton teve o cuidado de

sublinhar que o convite era de Mister Van Aldin – esclareceu Lenox. - Mas disse-o tantas vezes que desconfiei. Você e Knighton fariam um belo par, Katherine... Deus os abençoe, meus filhos.

Katherine riu-se e foi para o seu quarto

mudar de roupa.

Knighton chegou pouco depois do almoço

e resistiu virilmente aos transportes de reconhecimento de Lady Tamplin. Já a caminho de Canes, observou a Katherine:

- Parece impossível como Lady Tamplin

mudou tão pouco!

- Em atitude ou aparência?

- Em ambas as coisas. Deve ter muito mais

de quarenta anos, suponho, mas é ainda uma mulher notavelmente bonita.

- É , de fato - concordou Katherine. - Agrada-me muito que tenha aceitado o

convite -- continuou o major. - Mister Poirot também estará presente. É um homenzinho extraordinário! Conhece-o bem, Miss Grey?

- Conheci-o apenas no comboio, quando

vinha para cá. Começou a conversar comigo, ao ver-me ler um romance policial e eu observei-lhe que na vida real não aconteciam as coisas narradas nos livros... Claro que não fazia idéia nenhuma de quem ele era.

- É uma pessoa extraordinária e tem feito

coisas notáveis. Possui uma espécie de gênio para desvendar as coisas até ao âmago, sem que façamos a mínima idéia do que está a pensar. Uma vez estava numa casa no Yorkshire quando roubaram as jóias de Lady Clan ravon. Ao princípio o roubo pareceu simples, mas a Polícia local viu-se em palpos de aranha. Lembro-me de que aconselhei a que chamassem Hercule Poirot, pois era o único homem capaz de os ajudar, mas preferiram confiar na Scotland Yard...

- E que aconteceu? - perguntou Katherine,

curiosa.

- As jóias nunca foram recuperadas –

replicou Knighton, secamente.

- Acredita, realmente, nele?

- Acredito. O conde de la Roche é um

indivíduo muito manhoso, que tem conseguido escapar de muitas complicações, mas creio que encontrou em Hercule Poirot um adversário da sua envergadura.

- O conde de la Roche... - murmurou

Katherine, pensativa. Pensa, realmente, que foi ele?

- Claro! - exclamou, surpreendido. - Não

concorda?

- Oh, sim! - apressou-se a afirmar. - Quero

dizer, se não foi apenas um vulgar roubo de comboio...

- Podia ser, claro... Mas parece-me que o

conde de la Roche se ajusta perfeitamente neste caso.

- No entanto, tem um álibi.

- Ora, álibis! - O rosto de Knighton

transformou-se, iluminado por um sorriso quase infantil.

- Confessou que lê romances policiais, Miss

Grey; portanto, deve saber que quem possui um perfeito álibi levanta sempre graves suspeitas.

- Acha que, na vida real, é assim

também? – inquiriu Katherine, correspondendo ao sorriso.

- Porque não? Afinal a ficção baseia-se nos

fatos.

- Mas é-lhes superior - insinuou Katherine. - Talvez. Enfim, a verdade é que, se fosse um

criminoso, não gostaria de ter Hercule Poirot na minha pista!

- Nem eu! - afirmou Katherine, risonha. À chegada encontraram o detetive que, em

virtude de o dia estar quente, vestia fato branco, de linho, com uma camélia também branca na botoeira.

- Bonjour, mademoiselle - cumprimentou-a. -

Pareço muito inglês, não acha?

- Parece formidável! - respondeu Katherine,

bem-disposta.

- Está a troçar de mim, mas não faz mal. O

“papá Poirot” é sempre o último a rir!

- Onde está Mister Van Aldin? - perguntou-

lhe Knighton.

- Irá ter conosco aos nossos lugares. Para

lhe dizer a verdade, meu amigo, não está muito satisfeito comigo... Oh, estes americanos! Não sabem o que é o repouso, a calma. Mister Van Aldin queria que corresse todos os becos de Nice à procura de criminosos!

- Não me parece má a idéia - observou

Knighton.

- Engana-se - afirmou o detetive. - Nestes

assuntos não é a energia que conta, mas a astúcia. No tênis, por exemplo, encontra-se toda a gente, e isso é tão importante! Olhem, chegou Mister Kettering!

Derek aproximou-se, com ar irritado e

atrevido, como se qualquer coisa o tivesse perturbado. Knighton e ele saudaram-se com certa frieza e só Poirot pareceu inconsciente da tensão reinante e tagarelou cordialmente, num esforço louvável para pôr todos à vontade.

- É surpreendente a facilidade e a correção

com que fala francês, Mister Kettering - elogiou. - Fala tão bem que poderia ser tomado por francês, se quisesse. É uma qualidade muito rara entre ingleses.

- Tem razão - concordou Katherine. - O meu

francês, por exemplo, é tristemente britânico!

Instalaram-se nos seus lugares e, quase no

mesmo instante, o major viu o patrão a fazer-lhe sinais, do outro lado do court, e foi ao seu encontro.

- Simpatizo com aquele rapaz - disse Poirot,

seguindo o secretário com um sorriso desvanecedor. - E a mademoiselle?

- Gosto muito dele.

- E o senhor, Mister Kettering? Derek ia a responder bruscamente, mas viu

qualquer coisa nos olhos brilhantes de Poirot que o fez dominar-se e ficar atento. Respondeu portanto cautelosamente, escolhendo as palavras:

- Knighton é muito bom tipo.

Por instantes, Katherine teve a impressão de

que o detetive pareceu decepcionado.

- É um grande admirador seu, Mister

Poirot...

Relatou a conversa que tivera com o

major, divertida por ver o homenzinho empertigar-se todo, como um pavão, dilatar o peito e arvorar uma expressão de irônica modéstia, que não iludiria ninguém.

- Agora me lembro, mademoiselle - disse, de

súbito -, de que gostaria de discutir consigo determinado assunto. Suponho que, quando conversou com a pobre senhora no comboio, deixou cair uma cigarreira?

- Não dei por isso - respondeu Katherine,

surpreendida, e Poirot tirou da algibeira uma cigarreira de macio cabedal azul, com a inicial “K” de ouro.

- Não, não é minha.

- Ah, mil desculpas! Nesse caso deve ser da

vítima, pois “K” é também a inicial de Kettering. Estávamos na dúvida, pois madame tinha outra cigarreira na mala e pareceu-nos estranho que trouxesse duas. -- Voltou-se para Derek e perguntou-lhe: - Sabe se esta cigarreira era de sua esposa?

Derek pareceu momentaneamente perplexo

e gaguejou um pouco, ao responder:

- N-não sei... suponho que sim. - Não é, por acaso, sua?

- Certamente que não! Se fosse minha, não

estaria no compartimento de minha mulher.

Poirot arvorou um ar ainda mais ingênuo e

infantil e insinuou, em tom de grande sinceridade:

- Pensei que talvez a tivesse deixado

cair quando esteve no compartimento de sua esposa...

- Não estive no compartimento de minha

mulher! Já o repeti à Polícia uma dúzia de vezes!

- Mil perdões! - murmurou Poirot, com o

seu ar mais repeso. - Foi mademoiselle quem mencionou que o vira entrar...

Calou-se, com um semblante revelador de

grande embaraço, e Katherine fitou Derek. Pareceu-lhe pálido, mas talvez fosse imaginação sua, e soltou uma gargalhada bastante natural.

- Enganou-se, Miss Grey - afirmou,

despreocupado. - Pelo que a Polícia me disse, deduzi que o meu compartimento ficava apenas a uma porta ou duas afastado do de minha mulher, fato de que nunca suspeitei. Deve ter-me visto entrar, sim, no meu compartimento.

Levantou-se bruscamente, ao ver aproximar-

se Van Aldin e Knighton, e anunciou:

- Agora deixo-os. Não posso tolerar o meu

sogro por preço nenhum.

Van Aldin cumprimentou Katherine

cortesmente, mas via-se que estava mal-humorado.

- Parece muito amigo de ver jogar tênis,

Mister Poirot - observou, carrancudo.

- É um prazer para os meus olhos! -

confessou o detetive muito calmo.

- Ainda bem que está em França, pois nos

Estados Unidos somos feitos de material mais rijo - comentou Van Aldin. - Lá, vêm primeiro os negócios e depois o prazer.

Poirot não se ofendeu. Pelo contrário, sorriu

suave e confiantemente.

- Não se irrite, peço-lhe; cada um tem os seus

métodos próprios. Pelo meu lado, achei sempre encantador e agradável combinar trabalho com prazer. Olhou para os outros dois, que conversavam animadamente, absortos

um no outro. Acenou com a cabeça,

satisfeito, e inclinou-se para o milionário, a quem disse, em voz baixa:

- Não estou aqui apenas por uma questão de

prazer, Mister Van Aldin. Repare naquele velho alto, aqui defronte de nós... aquele de rosto macilento e barba venerável.

- Já reparei. E então?

- Então, é Mister Papopolous. - Grego?

- Exatamente, grego. É também um

antiquário de fama mundial, tem uma pequena loja em Paris e a Polícia suspeita de que é qualquer coisa mais...

- O quê?

- Receptador de mercadorias roubadas,

sobretudo de jóias. Não há nada relacionado com a relapidação e o reengaste de pedras preciosas que ele não conheça. Tem negócios com as pessoas mais importantes da Europa e com o rebotalho do baixo mundo.

Van Aldin escutava-o e fitava-o com

redobrada atenção.

- E então? - repetiu, mas em tom diferente. - Pergunto a mim mesmo... - Bateu

dramaticamente no peito e prosseguiu: - Eu, Hercule Poirot, pergunto a mim mesmo por que motivo veio Mister Papopolous subitamente a Nice?

Van Aldin estava impressionado. Chegara

a duvidar de Poirot, a suspeitar que dera o que tinha a dar, profissionalmente, e não passava já de um poseur. Agora, porém, recuperara a confiança e a opinião primitiva acerca do pequeno detetive.

- Apresento-lhe as minhas desculpas, Mister

Poirot.

Poirot esboçou um gesto extravagante e

exclamou:

- Ora, isso não tem importância nenhuma!

Agora escute, Mister Van

Aldin; tenho notícias para si. O milionário olhou-o vivamente, cheio de

interesse, e Poirot comentou:

- Já sabia que se interessaria. Não ignora,

Mister Van Aldin, que o conde de la Roche está sob vigilância desde a sua entrevista com o juiz de instrução. No dia seguinte, na sua ausência, a Villa Marina foi revistada pela Polícia.

- Encontraram alguma coisa? Aposto que

não!

- A sua perspicácia merece parabéns, Mister

Van Aldin - comentou o detetive, com uma pequena vênia. – Não encontraram nada de natureza incriminadora, nem aliás era de esperar que encontrassem. O conde de la Roche, como expressivamente costuma dizer-se, não nasceu ontem; é um cavalheiro astuto, com grande experiência.

- Continue - pediu o americano, impaciente. - É possível, sem dúvida, que o conde não

precisasse de esconder nada de natureza comprometedora; mas não devemos ignorar a possibilidade. Portanto, se tinha alguma coisa que esconder, onde a escondeu? Não em casa, pois a Polícia revistou-a minuciosamente; não na sua pessoa, pois sabe que corre o risco de ser preso de um momento para o outro. Falta... o seu automóvel. Como disse, tem estado vigiado. Nesse dia, foi seguido até Monte Carlo, de onde seguiu, por estrada, para Menton, conduzindo ele próprio. O seu automóvel tem um motor potentíssimo, que lhe permitiu distanciar-se dos seus perseguidores, os quais o perderam por completo de vista durante cerca de um quarto de hora...

- E o senhor pensa que, nesse quarto de

hora, o conde escondeu qualquer coisa, na berma da estrada? perguntou o milionário, incapaz de disfarçar o seu interesse.

- Na berma da estrada, não; ça n'est pas

pratique. Mas escute. Eu, Poirot, apresentei uma solução a Monsieur Carrège, que simpaticamente a aprovou, e assim procurou-se em todos os postos de correio das cercanias se alguém conhecia de vista o conde de la Roche... O senhor compreende, a melhor maneira de esconder uma coisa é expedi-la pelo correio.

- E então? - insistiu Van Aldin, impaciente. - Então... voilá! - com um floreado

dramático, tirou da algibeira um embrulhinho castanho, ao qual fora retirado o cordel. - Nesse quarto de hora de intervalo, o nosso cavalheiro expediu isto.

- Para que morada?

- Podia dizer-nos alguma coisa, de fato, mas

infelizmente não diz. O embrulho foi enviado a um daqueles pequenos quiosques de venda de jornais, de Paris, que guardam cartas e volumes até serem reclamados, mediante uma pequena comissão.

- Mas que contém o pacote? - quis saber o

americano, cada vez mais impaciente.

Poirot retirou o papel castanho, que ocultava

uma caixinha quadrada, de cartão, e olhou à sua volta.

- É boa altura, agora - disse, calmamente. -

Todos os olhos estão postos no jogo. Veja, monsieur...

Levantou a tampa da caixa uma fração de

segundo apenas e Van Aldin soltou uma exclamação de indizível espanto:

- Meu Deus, os rubis!

Sentou-se, lívido e estonteado, enquanto

Poirot guardava a caixinha e sorria placidamente. De súbito, como se despertasse de um transe, Van Aldin inclinou-se para a frente e apertou tão calorosamente a mão do detetive que este se torceu de dor.

- Formidável! - exclamou. - Formidável! O

senhor é o melhor que há!

- Oh, são favores! - afirmou,

modestamente. Ordem e método, estar preparado para eventualidades... E apenas isso que é preciso.

- Suponho que o conde de la Roche foi preso?

-- inquiriu Van Aldin, ansioso.

- Não.

- Não? - repetiu o milionário, cheio de

espanto. - Mas porquê? Que mais querem?

- O álibi do conde continua válido. - Mas isso é uma tolice!

- Também o creio, mas infelizmente crer não

basta; é preciso provar.

- E, entretanto, ele escapar-lhes-á por entre

os dedos!

- Não escapará! - afirmou, enérgico. - O

conde não pode dar-se ao luxo de sacrificar a sua posição social. Custe o que custar, ficará e arrostará as conseqüências.

- Mas não compreendo...

- Conceda-me um momento, monsieur -

interrompeu-o Poirot, levantando a mão. - Tenho uma idéiazinha, sabe? Muitos se têm rido das idéiazinhas

de Hercule Poirot... e arrependido. - Bem, de que idéia se trata? Poirot deixou passar um momento antes de

responder:

- Procurá-lo-ei no seu hotel, amanhã, às onze

horas da manhã. Até lá, não diga nada a ninguém.