O Mistério do Trem Azul
Capítulo XXXVI
BEIRA-MAR
As mimosas estavam no fim e o seu
perfume tornara-se levemente desagradável. Gerânios vermelhos enfeitavam a balaustrada da vila de Lady Tamplin e enormes quantidades de cravos perfumavam o ar.
O Mediterrâneo nunca parecera tão azul.
Poirot encontrava-se no terraço com Lenox, a quem acabava de contar a mesma história que contara a Van Aldin, dois dias antes.
A jovem escutara-o com apaixonada atenção,
de sobrancelhas franzidas e olhos sombrios, e quando ele acabou perguntou-lhe:
- E Derek?
- Foi solto ontem.
- Para onde foi?
- Partiu de Nice a noite passada. - Para Saint Mary Mead?
- Sim, para Saint Mary Mead. Pausa.
- Estava enganada acerca de Katherine –
disse por fim Lenox. - Julgava que não gostava dele.
- É muito reservada, não confia em ninguém. - Podia ter confiado em mim - redargüiu
Lenox, com certo azedume.
- Sim, podia ter confiado em si - concordou o
detetive, gravemente. - Mas Mademoiselle Katherine passou grande parte da sua vida a ouvir os outros, e aqueles que estão habituados a ouvir não acham fácil falar. Guardam para si alegrias e tristezas, não as contam a ninguém.
- Fui uma idiota! Julguei que ela gostava
realmente de Knighton... Convenci-me disso porque... porque esperava que fosse verdade.
Poirot pegou-lhe na mão e apertou-lha
amigavelmente.
- Coragem, mademoiselle - murmurou,
baixinho.
Lenox olhou para o mar e o seu rosto, na sua
feia rigidez, adquiriu por momentos uma trágica beleza.
- Bem, de qualquer maneira não daria
resultado! Sou muito nova para o Derek, que é como uma criança que nunca cresceu. Precisa do toque de madonna...
Após um longo silêncio, voltou-se
impulsivamente para o detetive e afirmou:
- Mas eu ajudei, Monsieur Poirot, pelo
menos ajudei!
- Com certeza! Foi a mademoiselle que
me permitiu o primeiro vislumbre da verdade, quando disse que a pessoa que cometeu o crime não precisava de ter viajado no comboio. Antes disso, não conseguia perceber como o caso se passara.
- Ainda bem! - exclamou Lenox, respirando
fundo. - Pelo menos... já é alguma coisa.
De muito longe chegou um apito
prolongado.
- Lá está o maldito Comboio Azul! Os
comboios são coisas implacáveis, não são, Monsieur Poirot? Morrem pessoas dentro deles, mas continuam o seu caminho, como se nada tivesse acontecido... Estou a dizer tolices, mas o senhor sabe o que quero dizer.
- A vida é como um comboio, mademoiselle.
Segue o seu caminho... E
ainda bem! - Porquê?
- Porque o comboio acaba por chegar ao fim
da viagem, e a esse respeito há um provérbio interessante na sua língua, mademoiselle.
- “A viagem acaba com o encontro dos
amantes” citou Lenox, a rir. - Para mim não será verdade.
- Há-de ser verdade! É jovem, mais jovem do
que imagina. Confie no comboio, mademoiselle, pois é le bon Dieu que o conduz.
O apito soou de novo.
- Confie no comboio, mademoiselle - repetiu.
-- E confie em Hercule
Poirot. Ele sabe!
FIM
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Agatha Christie