O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 28 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo XXXVI

 

BEIRA-MAR

As mimosas estavam no fim e o seu

perfume tornara-se levemente desagradável. Gerânios vermelhos enfeitavam a balaustrada da vila de Lady Tamplin e enormes quantidades de cravos perfumavam o ar.

O Mediterrâneo nunca parecera tão azul.

Poirot encontrava-se no terraço com Lenox, a quem acabava de contar a mesma história que contara a Van Aldin, dois dias antes.

A jovem escutara-o com apaixonada atenção,

de sobrancelhas franzidas e olhos sombrios, e quando ele acabou perguntou-lhe:

- E Derek?

- Foi solto ontem.

- Para onde foi?

- Partiu de Nice a noite passada. - Para Saint Mary Mead?

- Sim, para Saint Mary Mead. Pausa.

- Estava enganada acerca de Katherine –

disse por fim Lenox. - Julgava que não gostava dele.

- É muito reservada, não confia em ninguém. - Podia ter confiado em mim - redargüiu

Lenox, com certo azedume.

- Sim, podia ter confiado em si - concordou o

detetive, gravemente. - Mas Mademoiselle Katherine passou grande parte da sua vida a ouvir os outros, e aqueles que estão habituados a ouvir não acham fácil falar. Guardam para si alegrias e tristezas, não as contam a ninguém.

- Fui uma idiota! Julguei que ela gostava

realmente de Knighton... Convenci-me disso porque... porque esperava que fosse verdade.

Poirot pegou-lhe na mão e apertou-lha

amigavelmente.

- Coragem, mademoiselle - murmurou,

baixinho.

Lenox olhou para o mar e o seu rosto, na sua

feia rigidez, adquiriu por momentos uma trágica beleza.

- Bem, de qualquer maneira não daria

resultado! Sou muito nova para o Derek, que é como uma criança que nunca cresceu. Precisa do toque de madonna...

Após um longo silêncio, voltou-se

impulsivamente para o detetive e afirmou:

- Mas eu ajudei, Monsieur Poirot, pelo

menos ajudei!

- Com certeza! Foi a mademoiselle que

me permitiu o primeiro vislumbre da verdade, quando disse que a pessoa que cometeu o crime não precisava de ter viajado no comboio. Antes disso, não conseguia perceber como o caso se passara.

- Ainda bem! - exclamou Lenox, respirando

fundo. - Pelo menos... já é alguma coisa.

De muito longe chegou um apito

prolongado.

- Lá está o maldito Comboio Azul! Os

comboios são coisas implacáveis, não são, Monsieur Poirot? Morrem pessoas dentro deles, mas continuam o seu caminho, como se nada tivesse acontecido... Estou a dizer tolices, mas o senhor sabe o que quero dizer.

- A vida é como um comboio, mademoiselle.

Segue o seu caminho... E

ainda bem! - Porquê?

- Porque o comboio acaba por chegar ao fim

da viagem, e a esse respeito há um provérbio interessante na sua língua, mademoiselle.

- “A viagem acaba com o encontro dos

amantes” citou Lenox, a rir. - Para mim não será verdade.

- Há-de ser verdade! É jovem, mais jovem do

que imagina. Confie no comboio, mademoiselle, pois é le bon Dieu que o conduz.

O apito soou de novo.

- Confie no comboio, mademoiselle - repetiu.

-- E confie em Hercule

Poirot. Ele sabe!

 

FIM

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