O Mistério do Trem Azul

Agatha Christie · Capítulo 3 de 28

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O Mistério do Trem Azul

Capítulo V

 

UM CAVALHEIRO ÚTIL

Rufus Van Aldin terminava o frugal

pequeno-almoço de café e tosta quando Knighton entrou no aposento.

- Mister Goby espera-o lá em baixo, senhor --

anunciou o secretário.

O milionário olhou para o relógio: eram

exatamente nove e meia.

- Diga-lhe que suba - respondeu secamente. Passados um ou dois minutos, Mr. Goby

entrou no quarto. Era um homem baixo e idoso, modestamente vestido, cujos olhos percorriam cuidadosamente o aposento, sem nunca se fixarem na pessoa com quem falava.

- Bons dias, Goby - cumprimentou o

milionário. - Sente-se.

- Obrigado, Mister Van Aldin. Mr. Goby sentou-se, apoiou as mãos nos

joelhos e olhou atentamente para o irradiador.

- Tenho um trabalho para si. - Sim, Mister Van Aldin?

- Minha filha é casada com o Honorável

Derek Kettering, como talvez saiba...

Mr. Goby transferiu o olhar do irradiador

para a gaveta do lado esquerdo da escrivaninha e consentiu que um sorriso depreciativo lhe passasse pelo rosto. Mr. Goby sabia muitas coisas, mas detestava sempre admiti-lo.

- A conselho meu, minha filha está prestes a

apresentar um pedido de divórcio. Trata-se, evidentemente, de assunto para ser resolvido por advogados, mas, por razões particulares, desejo informações completas e pormenorizadas.

Mr. Goby olhou para a cornija e perguntou: - Acerca de Mister Kettering? - Acerca de Mister Kettering. - Muito bem, senhor. - Mr. Goby levantou-

se.

- Quando calcula tê-las?

- Tem pressa, senhor?

- Tenho sempre pressa - afirmou o

milionário.

Mr. Goby sorriu, compreensivo, de olhos

postos na grade da lareira.

- As duas da tarde está bem? - inquiriu. - Excelente. Bons dias, Goby. - Bons dias, Mister Van Aldin.

- É um homem muito útil - disse o

milionário, quando Goby saiu e o secretário entrou. - No seu ramo, é um verdadeiro especialista.

- Qual é o seu ramo?

- Informação. Em vinte e quatro horas era

capaz de apurar todos os pormenores da vida privada do arcebispo, de Cantuária!

- Útil, de fato - concordou Knighton, a sorrir. - Já me prestou serviços uma ou duas vezes...

Agora, Knighton, vamos ao trabalho.

Ao meio-dia e meia hora, depois de

resolvida uma quantidade surpreendente de assuntos, o telefone tocou e informaram Mr. Van Aldin de que chegara Mr. Kettering. Knighton olhou para Van Aldin e interpretou corretamente o aceno de cabeça deste.

- Diga a Mister Kettering que faça o favor de

subir.

O secretário recolheu os papéis, saiu e

cruzou-se à porta com o visitante, que se afastou para lhe dar passagem. Derek Kettering entrou e fechou a porta.

- Bons dias - cumprimentou. - Constou-me

que estava ansioso por me ver.

A voz indolente, de inflexão levemente

irônica, despertou adormecidas recordações no americano. Era uma voz que tinha encanto, que sempre tivera. Derek Kettering contava trinta e quatro anos, era magro e tinha um rosto moreno e seco, que mesmo agora parecia possuir algo de indescritivelmente infantil.

- Entre e sente-se - disse-lhe Van Aldin,

secamente.

Kettering instalou-se numa cadeira de braços

e olhou o sogro com uma espécie de ironia tolerante.

- Há muito tempo que não o via - observou,

em tom agradável. - Há cerca de dois anos, talvez... Já viu a Ruth?

- Visitei-a a noite passada.

- Tem muito bom aspecto, não acha? –

inquiriu Derek, despreocupado.

- Não me parece que você tenha tido muitas

oportunidades de avaliar esse pormenor - redargüiu o americano, secamente.

Derek arqueou as sobrancelhas e ripostou,

leviano:

- Oh, às vezes encontramo-nos no mesmo

clube noturno!

- Como não sou homem para rodeios, digo-

lhe desde já que aconselhei

Ruth a pedir o divórcio.

- Que drástico! - exclamou Derek,

imperturbável. Importa-se que fume? Acendeu um cigarro, expeliu uma baforada de fumo e perguntou,

indiferente:

- E que disse ela?

- Está disposta a seguir o meu conselho. - Deveras?

- É tudo quanto tem a dizer? - inquiriu o

milionário, em tom acerado.

- Sabe, suponho, que será um grande erro

que ela comete? - perguntou

Derek, com ar desinteressado, sacudindo a

cinza para a lareira.

- Do seu ponto de vista, com certeza. - Oh, não sejamos tão pessoais!

Sinceramente, não era em mim que pensava neste momento, mas em Ruth. Como sabe, o meu pobre velhote não pode durar muito mais tempo; é essa a opinião de todos os médicos. Ruth procederia com acerto se esperasse mais uns dois anos, pois então eu serei Lorde Leconbury e ela poderá ser a castelã de Leconbury. No fim de contas, foi para isso que casou comigo.

- Não lhe tolero impudências! - advertiu-o,

irritado, Van Aldin.

- Concordo, a idéia é obsoleta - observou

Derek Kettering, sorridente e imperturbável. - Hoje em dia, um título não vale nada. No entanto, Leconbury é uma bela e velha mansão e nós uma das famílias mais antigas de Inglaterra.

Será muito desagradável para Ruth se

nos divorciarmos e, daqui a pouco tempo, eu voltar a casar e outra mulher se tornar senhora de Leconbury, em vez dela...

- Não estou a brincar, rapaz! - Eu tão-pouco. Financeiramente, estou muito

em baixo e ficarei numa situação desastrosa se Ruth se divorciar. Bem vistas as coisas, se ela suportou dez anos, porque não suporta um pouco mais? Dou-lhe a minha palavra de honra de que o velhote não dura mais de dezoito meses. Seria uma pena se Ruth não conseguisse aquilo que a levou a casar comigo.

- Insinua que a minha filha casou consigo

pelo seu título e pela sua posição social?

Derek Kettering soltou uma gargalhada

em que não predominava a alegria e perguntou:

- Não pensa que foi um casamento de amor,

pois não?

- O que penso é que falou de maneira muito

diferente em Paris, há dez anos - redargüiu Van Aldin, muito devagar.

- Falei? Talvez. Ruth era então muito bela,

como sabe; parecia um anjo, uma santa, qualquer coisa descida de um nicho de igreja... E eu tinha boas idéias de virar uma página da minha vida, de assentar e viver segundo as melhores tradições da vida doméstica inglesa, com uma mulher bonita que me tinha amor... - Riu-se novamente, com menos alegria ainda, e indagou: - Mas o senhor não acredita, pois não?

- Não tenho dúvidas de que casou com

Ruth pelo seu dinheiro - respondeu Van Aldin, friamente.

- E de que ela casou comigo por amor? -

inquiriu o outro, com ironia.

- Certamente.

Derek Kettering fitou-o, em silêncio, e

depois abanou a cabeça, pensativo.

- Vejo que acredita nisso... como eu acreditei,

então. Garanto-lhe, meu caro sogro, que depressa me desiludi.

- Não sei aonde quer chegar, nem me

interessa. Tratou Ruth muitíssimo mal...

- Oh, sem dúvida! - concordou, estouvado. - Mas ela é rija, sabe? sua filha... Debaixo de

toda aquela suavidade branca e rosada é dura como granito. O senhor foi sempre considerado um homem duro, segundo me têm dito, mas Ruth é ainda mais dura. O senhor ama, pelo menos, uma pessoa mais que a si mesmo; Ruth nunca amou nem amará.

- Basta! - declarou Van Aldin. - Chamei-o

para lhe dizer claramente o que tenciono fazer. Minha filha tem direito a certa felicidade e, lembre-se, conta com a minha proteção.

Derek Kettering levantou-se, parou junto

da consola da chaminé e deitou fora o cigarro. Quando falou, fê-lo em tom absolutamente calmo:

- Que quer dizer, ao certo?

- Quero dizer que acho melhor não contestar

o divórcio!

- Ah! É uma ameaça?

- Considere-o o que quiser.

Kettering chegou uma cadeira para junto da

mesa e sentou-se defronte do milionário.

- Mas suponhamos, suponhamos apenas,

hem?, que decido contestar o divórcio?

- Não tem a mínima base, jovem estouvado -

- declarou o americano, com um encolher de ombros.

- Consulte os seus advogados e verá que lhe

dirão o mesmo. A sua conduta é notória, todos a comentam em Londres.

- Suponho que a Ruth tem levantado

grande alarido por causa de

Mirelle, o que é idiota da sua parte. Não

interfiro com os seus amigos.

- Que pretende insinuar? - perguntou Van

Aldin, vivamente.

- Vejo que não sabe tudo - replicou Kettering,

a rir. - E, naturalmente, está influenciado... – Pegou no chapéu e na bengala, dirigiu-se para a porta e acrescentou um remoque final: - Dar conselhos não é a minha especialidade, mas neste caso aconselharia veementemente completa franqueza entre pai e filha.

Saiu e fechou a porta, muito depressa, ao

mesmo tempo que o milionário se levantava, de supetão.

- Que diabo quereria dizer? - murmurou o

americano, deixando-se cair de novo na cadeira.

A vaga intranqüilidade que sentira antes

voltou a apoderar-se dele, agora violentamente. Havia qualquer coisa em toda aquela história que ainda não deslindara... Pegou no telefone e pediu o número da filha:

- Mayfair 81907?... Mistress Kettering

está?... Saiu?. . Ah, sim, para almoçar! A que horas voltará?... Não sabe?... Muito bem... Não, não quero deixar nenhum recado.

Repôs o auscultador no descanso, furioso. Às duas horas andava de um lado para o

outro, cheio de ansiedade, à espera de Goby. Este chegou às duas horas e dez minutos.

- Então? - perguntou-lhe o milionário,

impaciente.

Mas Mr. Goby não era homem para pressas.

Sentou-se à mesa, tirou da algibeira um ensebado livrinho de apontamentos e começou a lê-lo, em tom monótono. Van Aldin escutava-o atentamente, com satisfação crescente. Quando acabou, Goby pregou os olhos no cesto dos papéis.

- Hum, parece suficiente e claro... –

murmurou o americano. - O caso será julgado num abrir e fechar de olhos. Suponho que essa informação acerca do hotel é irrebatível?

- Absolutamente, Mister Van Aldin – afirmou

Mr. Goby, agora com os olhos postos numa poltrona dourada.

- E, financeiramente, está muito

atrapalhado... Tenta contrair um empréstimo, não foi o que disse? Já levantou, a bem dizer, tudo quanto podia esperar do pai... Uma vez divulgado o divórcio, não lhe emprestarão nem mais um centavo e, além disso, os credores hão-de insistir pelo pagamento das suas dívidas. Apanhamo-lo, Goby, apanhamo-lo num beco sem saída!

Deu um murro na mesa e no seu rosto

brilhou um sorriso triunfante.

- A informação parece satisfatória –

murmurou Mr. Goby, em voz fininha.

- Agora tenho de ir a Curzon Street... Estou-

lhe muito agradecido, Goby;

você percebe da poda!

- Obrigado, Mister Van Aldin - agradeceu

o homenzinho, com um pálido sorriso de desvanecimento.

- Esforço-me por cumprir o melhor possível. Van Aldin não se dirigiu logo para a Curzon

Street; foi primeiro à City, onde teve duas entrevistas que aumentaram a sua satisfação. Daí seguiu no metropolitano para a Down Street e, já na Curzon Street, viu sair do número 160 um indivíduo que se cruzou com ele, um pouco adiante. Por momentos o milionário imaginou que fosse o próprio Derek Kettering, pois havia certa semelhança na altura e no arcabouço, mas mais de perto verificou tratar-se de um desconhecido. No entanto... não, não devia ser um desconhecido, pois o seu rosto parecia despertar-lhe vagas recordações - e recordações associadas com qualquer coisa desagradável. Em vão tentou lembrar-se, mas a memória fugia- lhe. Seguiu o seu caminho, a abanar irritadamente a cabeça. Detestava sentir-se intrigado.

Ruth Kettering esperava-o. Correu para ele,

beijou-o e perguntou-lhe:

- Então, paizinho, como correm as coisas? - Muito bem, mas preciso de fazer-

te umas perguntas... Instantaneamente, sentiu-a modificar-se; uma expressão astuta e atenta substituiu a impulsividade com que o recebera.

- De que se trata? - inquiriu, sentando-se

numa poltrona.

- Esta manhã falei com o teu marido. - Falou com Derek?

- Falei. Disse uma série de coisas, a maior

parte das quais de uma grande impudência, mas, ao sair, acrescentou algo que não compreendi: aconselhou-me a que houvesse absoluta franqueza entre pai e filha. Que quereria significar, Ruth?

- N-não sei, pai... - murmurou Mrs. Kettering,

mexendo-se, inquieta, na cadeira. - Como queria que soubesse?

- Sabes com certeza, filha - afirmou Van

Aldin. - Disse ainda qualquer coisa acerca de ter os seus amigos e de não interferir com os teus. De que se trata?

- Não sei - repetiu Ruth Kettering. Van Aldin sentou-se, com a boca cerrada

numa linha severa.

- Escuta, Ruth, não quero tratar deste assunto

com os olhos fechados; fiquei com a impressão de que o teu marido pretende complicar as coisas. Claro que não poderá fazê-lo, pois disponho dos meios necessários para o calar, mas tenho de saber se é preciso empregar tais meios. Que quereria ele dizer ao aludir aos teus amigos?

- Tenho muitos amigos! - afirmou Mrs.

Kettering, com um encolher de ombros. - Palavra que não sei a que se referia.

- Sabes! - desmentiu Van Aldin, como se

discutisse com um concorrente.

- Serei mais explícito, se assim o desejas:

quem é o homem?

- Que homem?

- O homem. Era aí que Derek queria chegar, a

um homem especial que é teu amigo. Não te atormentes, querida; sei que não pode haver nada de mal, mas temos de encarar as coisas de todos os pontos de vista, sobretudo do ponto de vista do tribunal. Não ignoras que é possível torcer o significado dessas coisas, segundo as conveniências. Quero saber quem é o homem e até onde vai a tua amizade com ele.

Ruth não respondeu. Torcia as mãos,

cheia de nervosismo, e o pai compadeceu-se:

- Então, pequena? - murmurou, em tom mais

terno. - Não tenhas medo do velhote. Nem mesmo em Paris fui muito... Meu Deus! - Calou-se, fulminado.

– Era ele! - murmurou baixinho. - Bem me

pareceu que conhecia a sua cara!

- De que está a falar, pai? Não compreendo. O milionário aproximou-se dela e segurou-

lhe com força num pulso.

- Dize-me, Ruth, voltaste a ver esse

indivíduo?

- Que indivíduo?

- Aquele acerca do qual discutimos, há anos.

Sabes muito bem a quem me refiro.

- Refere-se... refere-se ao conde de la Roche? - Conde de la Roche! - repetiu Van Aldin,

desdenhoso. - Disse-te, na altura, que o homem não passava de um vigarista. Deixaras-te arrastar por ele, mas consegui arrancar-te das suas garras.

- Pois conseguiu. Conseguiu... e eu casei com

Derek Kettering.

- Quiseste casar com ele! - lembrou-lhe o pai,

vivamente.

Ruth limitou-se a encolher os ombros. - E agora... voltaste a vê-lo, depois de tudo

quanto te disse - murmurou

Van Aldin, muito devagar.

- Ele esteve cá hoje... encontrei-o na rua e, por

momentos, não consegui identificá-lo...

- Quero dizer-lhe uma coisa pai: está

enganado acerca do Armand... isto é, acerca do conde de la Roche afirmou Ruth, parcialmente recuperada a compostura. - Sei que teve vários incidentes desagradáveis na sua juventude, pois ele contou-me; mas... bem, sempre gostou de mim. Ficou com o coração despedaçado quando nos separou em Paris, e agora...

Interrompeu-a um rugido de indignação do

pai.

- Deixaste-te então ludibriar por palavras

dessas? Tu, uma filha minha! Meu Deus! - Levantou as mãos, num gesto de desesperada impotência, e exclamou: Parece impossível que as mulheres possam ser tão grandes idiotas!

VI

 

MIRELLE

Derek Kettering saiu do quarto de Van Aldin

tão precipitadamente que chocou com uma senhora que passava no corredor. Pediu-lhe desculpa e ela sorriu-lhe, tranqüilizadora, e afastou-se, deixando-lhe a agradável impressão de uma personalidade repousante e de uns belos olhos cinzentos.

Apesar do seu ar indiferente, a entrevista

que tivera com o sogro perturbara-o mais do que demonstrava. Almoçou sozinho e, de testa franzida, dirigiu-se ao suntuoso apartamento de Mirelle, onde uma criadinha francesa o recebeu, toda sorrisos.

- Entre, Monsieur. Madame repousa -

informou, conduzindo-o à sala comprida, de decoração oriental, que tão bem conhecia.

Mirelle estava reclinada no divã, apoiada

num incrível número de almofadas, todas de vários tons ambarinos, para se harmonizarem com o amarelo ocre da sua pele. A bailarina era uma mulher bem constituída e embora o seu rosto, debaixo da pintura amarelada, fosse um pouco magro, tinha um encanto muito especial. Os seus lábios cor de laranja sorriram, tentadores, a Derek Kettering, que se deixou cair numa cadeira.

- Que estiveste a fazer? Só agora te

levantaste, não?

A boca cor de laranja entreabriu-se num

longo sorriso.

- Não - respondeu a bailarina. - Estive a

trabalhar. Estendeu a mão pálida e esguia para o piano, sobre o qual se encontravam espalhadas numerosas músicas. - Ambrose esteve cá e tocou a nova ópera.

Kettering acenou com a cabeça, sem prestar

grande atenção. Não estava nada interessado em Claud Ambrose nem na adaptação de Peer Gynt, de Ibsen. Mirelle nutria o mesmo desinteresse e considerava-a apenas uma oportunidade única para a sua apresentação como Anitra.

- É uma dança maravilhosa - murmurou -, na

qual porei toda a paixão do deserto. Dançarei coberta de pedras preciosas e... A propósito, mon ami, vi ontem uma pérola negra na Bond Street... - calou-se e envolveu-o no seu olhar tentador.

- Minha cara, é inútil falares-me de pérolas

negras. Pela parte que me toca, acabou-se a papa doce.

Mirelle endireitou-se, de olhos muito

abertos, e perguntou:

- Que dizes, Dereek? Que aconteceu? - O meu estimado sogro está a preparar-se

para levantar arraiais.

- O quê?

- Por outras palavras, quer que Ruth se

divorcie.

- Que estupidez! - exclamou Mirelle. –

Porque há-de ela querer divorciar-se?

- Principalmente por tua causa, chérie! -

replicou Derek, a sorrir.

- Isso é idiota! - comentou a bailarina, com

um encolher de ombros.

- Muito idiota - concordou Kettering. - Que tencionas fazer a esse respeito? - Que posso eu fazer, minha cara? De um

lado, o homem do poder ilimitado; do outro, o homem das dívidas ilimitadas. Não restam dúvidas quanto ao vencedor.

- Esses americanos são extraordinários! Sim,

porque a tua mulher nem gosta de ti!

- Que havemos de fazer, hem? Mirelle olhou-o, interrogadora, e Derek

aproximou-se e pegou-lhe nas mãos.

- Não me abandonarás?

- Que queres dizer? Depois... - Sim, depois... quando os credores se

lançarem a mim como lobos a um redil. Quero-te muito, Mirelle... Abandonar-me-ás?

- Sabes que te adoro, Dereek - respondeu,

soltando as mãos.

- Será, então, assim, hem? - perguntou-lhe

Derek, compreendendo a evasiva. - Os ratos abandonarão o navio a afundar-se.

- Oh, Dereek!

- Fora com a verdade! - ordenou,

violento. – Correrás comigo, não correrás?

- Sou tua amiga, mon ami - afirmou, com

novo encolher de ombros. - Acredita que sou. És encantador, un beau garçon, mas ce n'est pas pratique.

- És o luxo de um homem rico, não é isso? - Se preferes assim... - Recostou-se na

almofada, com a cabeça inclinada para trás. - No entanto, repito que sou tua amiga.

Derek aproximou-se da janela e ficou a olhar

para a rua, de costas para Mirelle. Esta soergueu-se num cotovelo e perguntou-lhe, fitando-o com curiosidade:

- Em que pensas, mon ami?

Derek olhou-a por cima do ombro, com um

sorriso estranho, que a inquietou vagamente.

- Se queres que te diga a verdade, pensava

numa mulher.

- Numa mulher?! - perguntou, como se não

conseguisse compreender. Queres dizer que estás a pensar noutra mulher?

- Oh, não tens motivos para te

preocupares! Trata-se apenas de um retrato imaginário... “Retrato de uma senhora de olhos cinzentos”...

- Quando a conheceste? - perguntou a

bailarina, vivamente. ..

Derek Kettering soltou uma gargalhada

cheia de ironia, antes de responder:

- Choquei com ela no corredor do Savoy

Hotel!

- Bem, e que te disse?

- Se a memória não me engana, eu disse-lhe: “Queira desculpar”, e ela respondeu-me:

“Não tem importância”, ou coisa parecida.

- E depois? - teimou a bailarina. - E depois... nada! - respondeu-lhe Derek,

com um encolher de ombros.

- Não compreendo uma palavra do que estás

a dizer!

- “Retrato de uma senhora de olhos

cinzentos”... murmurou Kettering, pensativo. – Ainda bem que o mais certo é não voltar a vê-la.

- Porquê?

- Podia trazer-me azar. Há mulheres que dão

azar...

Mirelle levantou-se do divã, juntou-se-lhe e

passou-lhe, pelo pescoço um dos braços compridos.

- És tolo, Dereek, muito tolo... - murmurou. -

- És beau garçon e eu adoro- te, mas não fui feita para ser pobre... não, decididamente não fui feita para ser pobre. Mas é tudo muito simples, querido; deves fazer as pazes com a tua mulher.

- Receio que tal estratégia não seja

aconselhável, nem viável - redargüiu

Derek, secamente.

- Que queres dizer? Não compreendo. - Van Aldin, minha querida, não é homem

que se iluda com manejos desse gênero. É daqueles que se mantêm fiéis às decisões que tomam.

- Ouvi falar a seu respeito. É muito rico, não

é? Quase o homem mais rico da América! Há poucos dias, comprou em Paris o rubi mais maravilhoso do mundo, o célebre “Coração de Fogo”.

Kettering não respondeu e a bailarina

continuou, como se falasse consigo própria:

- É uma pedra maravilhosa, uma pedra

que devia pertencer a uma mulher como eu. Amo as jóias, Dereek, dizem-me qualquer coisa. Ah, usar um rubi como o “Coração de Fogo”! Soltou um suspirozinho e voltou a mostrar-se prática: - Tu não compreendes estas coisas, Dereek; és apenas um homem. Suponho que Van Aldin oferecerá os rubis a tua mulher. É a sua única filha?

- É.

- Então, quando ele morrer, ela herdará todo

o seu dinheiro, será uma mulher rica.

- Já o é - afirmou Kettering, secamente. – Van

Aldin deu-lhe um dote de dois milhões, quando nos casamos.

- Dois milhões! Mas isso é imenso! E se ela

morresse de repente? Herdá- los-ias tu...

- No pé em que as coisas estão atualmente,

herdaria respondeu, devagar.

- Que eu saiba, não fez testamento. - Mon Dieu! Que solução, se ela morresse! Houve um momento de silêncio e depois

Derek Kettering desatou a rir à gargalhada.

- Gosto das tuas idéias simples e práticas,

Mirelle, mas receio que os teus desejos não se cumpram. Minha mulher vende saúde!

- Eh bien, há acidentes!

Derek olhou-a vivamente, mas não replicou. - No entanto, tens razão, meu amigo;

não devemos contar com possibilidades. Mas cuidado, meu pequeno Dereek, não convém que se fale mais em divórcio. Tua mulher deve desistir da idéia.

- E se não desistir?

- Creio que desistirá, meu amigo -

respondeu, semicerrando os olhos. - É daquelas pessoas que não gostam de publicidade e eu sei de uma ou duas histórias que não lhe agradaria que os amigos lessem nos jornais.

- Que queres dizer? - perguntou-lhe Derek,

vivamente.

- Parbleu! - exclamou a bailarina a rir, com a

cabeça inclinada para trás. - Refiro-me ao cavalheiro que a si mesmo se chama conde de la Roche. Sei tudo a seu respeito; lembra-te que sou parisiense. Foi amante dela antes de vocês casarem, não foi?

- Isso é uma refinada mentira - retrucou

Derek, agarrando-a pelos ombros e sacudindo-a. - E lembra-te de que, no fim de contas, estás a falar de minha mulher!

- Ah, vocês, ingleses, são extraordinários!

– exclamou Mirelle, mais comedida. - No entanto, talvez tenhas razão... As americanas são tão frias! Mas permites, por certo, que diga que ela estava apaixonada por ele antes de casar contigo e de o pai se meter no assunto e mandar o conde à sua vida? A pobre mademoiselle verteu tantas lágrimas! Mas obedeceu. Contudo, deves saber tão bem como eu que a história é, agora, muito diferente. Tua mulher vê-o quase todos os dias e no dia catorze vai para Paris, a fim de se encontrar com o senhor de la Roche.

- Como sabes tudo isso?

- Eu? Tenho em Paris, meu querido

Dereek, amigos que conhecem intimamente o conde. Está tudo combinado. Ela diz que vai para a Riviera, mas na realidade o conde junta-se-lhe em Paris e... Quem sabe? Acredita, querido, está tudo combinado.

Derek Kettering permaneceu calado e

imóvel.

- Como vês - prosseguiu a bailarina -, se fores

esperto, tê-la-ás na mão. Podes causar-lhe muitos embaraços...

- Oh, cala-te, pelo amor de Deus! - gritou

Kettering. – Cala essa boca maldita!

Mirelle recostou-se outra vez no divã, com

uma gargalhada, e Kettering pegou no chapéu e na bengala, saiu do apartamento e bateu com a porta.

Mas a bailarina continuou recostada no divã,

a rir docemente, satisfeita com o seu trabalho.