O Mistério do Trem Azul
Capítulo XVII
UM ARISTOCRÁTICO
CAVALHEIRO
- Já tinhas estado na Riviera, George? -
perguntou Poirot ao criado, na manhã seguinte.
George era um indivíduo de rosto insípido,
intensamente inglês.
- Já, sim, senhor. Estive cá há dois anos,
quando trabalhava para Lorde
Edward Frampton.
- E hoje estás cá com Hercule Poirot -
murmurou o detetive.
- Como se sobe na vida!
O criado não comentou a observação e,
após pausa conveniente, perguntou:
- O fato castanho, senhor? Está um ventinho
fresco...
- Tem uma nódoa no colete - objetou Poirot. - Deixei cair um morceau de fillet de sole à la
jeanette, quando almocei no
Ritz na terça-feira passada.
- Já tirei a nódoa, senhor - respondeu
George, com ar ofendido.
- Très bien! Estou satisfeito contigo, George. - Obrigado, senhor.
Houve uma pausa, antes de Poirot
murmurar, sonhador:
- Supõe, meu bom George, que tinhas
nascido na mesma esfera social do teu falecido senhor, que, pobretana, casaras com uma mulher riquíssima, mas que essa mulher pretendia divorciar-se e tinha excelentes razões para isso. Que farias?
- Tentaria convencê-la a mudar de idéias,
senhor.
- Por métodos pacíficos ou coercivos? George arvorou uma expressão chocada. - Desculpará, senhor, mas um
cavalheiro aristocrático não se comportaria como um rufião de Whitechapel. Não procederia com baixeza.
- Não, George? Talvez tenhas razão... Bateram à porta e George foi atender e abriu
apenas uns discretos cinco ou dez centímetros. Travou-se um diálogo murmurado e em seguida o criado reuniu-se de novo a Poirot.
- Uma carta, senhor.
Era de M. Caux, o comissário da Polícia, e
dizia:
Vamos interrogar o conde de la Roche. O
juiz de instrução solicita a sua presença.
- O meu fato, depressa, George. Estou
atrasado!
Um quarto de hora depois, de ponto em
branco no seu fato castanho, Poirot entrou no gabinete do juiz de instrução. M. Caux e M. Carrège cumprimentaram-no com delicado empressement.
- O caso é um tanto ou quanto
desencorajador -- murmurou o comissário. - Parece que o conde chegou a Nice um dia antes do assassinato.
- Se for verdade, fica com o assunto
resolvido, no que a ele se refere - declarou Poirot.
- Não devemos aceitar o seu álibi sem
proceder a cuidadoso inquérito - declarou M. Carrège, pigarreando e premindo a campainha da secretária.
Pouco depois entrou no gabinete um
indivíduo alto e moreno, muito bem vestido e com um certo ar altivo. Tão aristocrata parecia o conde que seria heresia segredar, sequer, que seu pai fora um obscuro vendedor de cereais de Nantes - o que, aliás, era a pura verdade. Quem o olhasse juraria que inúmeros antepassados seus tinham por certo sido guilhotinados durante a Revolução Francesa...
- Aqui me têm, cavalheiros - disse o conde,
altivamente. Posso saber o que me querem?
- Queira sentar-se, senhor conde -
convidou o juiz, delicadamente. - Solicitamos a sua presença porque estamos a investigar a morte de Madame Kettering.
- A morte de Madame Kettering? Não
compreendo.
- Creio que o senhor conde era, enfim, que
conhecia essa senhora?
- Claro que a conhecia. Que tem isso a ver
com o caso?
Ajustou o monóculo e passou o olhar frio
pela sala, demorando-se mais em Poirot, que o observava com uma espécie de admiração simples e ingênua, assaz desvanecedora para a vaidade do conde. M. Carrège recostou-se na cadeira e pigarreou de novo.
- Talvez ignore, senhor conde, que Madame
Kettering foi assassinada?
- Assassinada? Mon Dieu, que horror! A surpresa e a mágoa pareceram
sinceras, tão primorosa foi a representação.
- Madame Kettering foi estrangulada entre
Paris e Lyon prosseguiu o juiz - e as suas jóias roubadas.
- É espantoso! - exclamou o conde,
calorosamente. – A Polícia devia fazer qualquer coisa para acabar com esses bandidos dos comboios. Hoje em dia, não se pode viajar com segurança.
- Encontramos na malinha de mão da vítima
uma carta que o senhor lhe escrevera. Tinham combinado encontrar-se, suponho?
O conde encolheu os ombros, abriu as
mãos e perguntou, com um grande ar de sinceridade:
- Para quê esconder a verdade? Somos
todos homens do mundo. Particularmente, entre nós, admito que sim.
- Quer dizer que se encontrou com ela em
Paris e fizeram o resto da viagem juntos?
- Fora isso que combináramos, mas, por
desejo de madame, mudamos de plano. Fiquei de encontrar-me com ela em Hyères.
- Não se lhe juntou no comboio, na Gare de
Lyon, na tarde do dia catorze?
- Pelo contrário, cheguei a Nice na manhã
desse mesmo dia, pelo que é impossível o que sugere.
- Sem dúvida - concordou M. Carrège.
– Por uma questão de formalidade, agradecia-lhe me enumerasse os seus movimentos durante a tarde e a noite do dia catorze.
- Jantei em Monte Carlo, no Café de Paris -
respondeu o conde, depois de refletir. - A seguir fui ao Sporting, onde ganhei alguns milhares de francos – sublinhou a informação com um desdenhoso encolher de ombros - e voltei para casa talvez à uma hora da manhã.
- Perdão, monsieur, mas como regressou a
casa?
- No meu automóvel de dois lugares. - Ninguém o acompanhou?
- Ninguém.
- Pode apresentar testemunhas que
confirmem a sua declaração?
- Jantei só, mas sem dúvida muitos amigos
meus me viram.
- Foi o seu criado que lhe abriu a porta,
quando regressou a casa?
- Abri eu próprio, pois tenho chave. - Ah! - murmurou o magistrado. Premiu
novamente a campainha e um contínuo atendeu o chamamento. - Mande entrar Mason, a criada.
- Muito bem, senhor doutor juiz.
Quando Mason chegou, M. Carrège dirigiu-
se-lhe:
- Agradeço-lhe, mademoiselle, que olhe bem
para este senhor. Parece- lhe o mesmo que entrou no compartimento da sua ama, em Paris?
- Pode ser e pode não ser... É difícil dizer,
pois, como já expliquei, só o vi de costas. Mas penso que sim, que foi este cavalheiro.
- No entanto, não tem a certeza? - N-não - confessou, contrafeita -, não tenho
a certeza.
- Alguma vez viu este cavalheiro na Curzon
Street?
- Geralmente não via os visitantes da Curzon
Street, a não ser quando lá ficavam.
- E tudo - comentou o juiz de instrução,
evidentemente decepcionado.
- Um momento - interveio Poirot. – Gostaria
de fazer uma pergunta a mademoiselle, se me permite.
- Faça favor, Monsieur Poirot. - Que aconteceu aos bilhetes? - perguntou o
detetive à criada.
- Aos bilhetes, senhor?
- Sim, aos bilhetes de Londres a Nice. Era
você que os tinha ou a sua ama?
- A minha senhora tinha o seu bilhete do
Pullman; os outros tinha-os eu.
- Que lhes aconteceu?
- Entreguei-os ao condutor do comboio
francês; ele disse que era o costume... Fiz mal, senhor?
- De maneira nenhuma. Fiz a pergunta por
uma simples questão de pormenor.
M. Caux e M. Carrège olharam-se
curiosos. Mason ficou parada, hesitante, um ou dois minutos, até que o magistrado a mandou sair, com um aceno de cabeça.
Poirot escreveu qualquer coisa num papel e
entregou-o a M. Carrège, cujo rosto se animou, ao lê-lo.
- Cavalheiros, precisarão de demorar-me
mais tempo? - indagou o conde, arrogantemente.
- Oh, não! - apressou-se a responder o juiz,
cheio de afabilidade. - Está tudo esclarecido, no que respeita à sua situação neste caso. Claro que, como compreenderá, não pudemos deixar de interrogá-lo, em virtude da carta que encontramos.
O conde levantou-se, pegou na elegante
bengala e, com uma vênia seca, saiu do gabinete.
- Tem razão, Monsieur Poirot, é melhor
deixá-lo convencer-se de que não é suspeito - afirmou o juiz de instrução. - Dois agentes segui-lo-ão noite e dia, ao mesmo tempo que investigaremos a veracidade do álibi. Para já, parece- me... muito frágil.
- Possivelmente... - concordou Poirot,
pensativo.
- Pedi a Monsieur Kettering que viesse aqui
esta manhã - continuou o magistrado -, embora, para ser franco, não me pareça que tenhamos muito que perguntar-lhe. Todavia, uma ou duas circunstâncias suspeitas... - calou-se, a esfregar o nariz.
- Como, por exemplo? - inquiriu o detetive. - Bem... - M. Carrège tossicou, mais uma vez. - A senhora com quem consta que viajou -
Mademoiselle Mirelle - está num hotel e ele noutro. Parece-me... enfim, parece-me estranho.
- Dir-se-ia que estão a ser cautelosos -
concordou M. Caux.
- Exatamente! - exclamou o juiz, triunfante. -
E porque haviam de ser cautelosos, hem?
- Um excesso de cautela é suspeito... –
insinuou Poirot.
- Précisément.
- Creio que podíamos, de fato, fazer uma ou
duas perguntas a Monsieur
Kettering - concordou o detetive. O magistrado deu as necessárias
instruções e, pouco depois, Derek
Kettering entrou no gabinete, afável como
sempre.
- Bons dias, monsieur - saudou-o o juiz,
cortesmente.
- Bons dias - respondeu Derek Kettering. -
Mandaram-me chamar. Há alguma novidade?
- Queira sentar-se, monsieur. Derek sentou-se e atirou o chapéu e a
bengala para cima da mesa.
- Então? - perguntou, impaciente. - Até agora, não possuímos mais
elementos -- disse M. Carrège, cauteloso.
- Que interessante! - comentou o inglês,
secamente. Mandaram-me chamar para mo dizerem?
- Pensamos, naturalmente, que gostaria de
ser informado dos progressos do caso - volveu o magistrado, aborrecido.
- Progressos que, aliás, não existem... - Desejávamos também fazer-lhe algumas
perguntas.
- Pois perguntem.
- Tem a certeza de que não viu sua
esposa nem falou com ela no comboio?
- Já respondi a essa pergunta. Não vi nem
falei.
- Teve, sem dúvida, as suas razões... Derek olhou-o, desconfiado, e explicou,
espaçando as palavras, como se falasse a alguém de compreensão lenta:
- Ignorava... que... ela... estivesse... no...
comboio.
- Foi isso que disse, de fato.
Derek franziu a testa e declarou: - Gostaria de saber onde quer chegar,
Monsieur Carrège. Sabe o que penso?
- Que pensa, monsieur?
- Penso que a Polícia francesa exagera a sua
competência! Deve possuir informações acerca das quadrilhas de ladrões de comboios. É indecente que aconteça o que aconteceu num train de luxe e que a Polícia seja impotente para resolver o assunto!
- Resolvê-lo-emos, monsieur, esteja
descansado.
- Consta-me que Madame Kettering não
deixou testamento - interveio Poirot, de súbito, com as pontas dos dedos juntas e os olhos atentamente fixos no teto.
- Creio que não fez nenhum - respondeu
Kettering. - Porquê?
- O senhor herda, assim, uma bonita
fortuna... uma fortunazinha muito bela... - Embora continuasse a olhar para o teto, conseguiu ver a onda de sangue que escureceu o rosto de Derek.
- Que quer dizer e quem é o senhor? O detetive descruzou as pernas, sem pressa,
desviou o olhar do teto e fitou o jovem no rosto.
- Chamo-me Hercule Poirot e devo ser o
maior detetive do mundo - respondeu, imperturbável.
- Tem a certeza absoluta de que não viu nem
falou a sua mulher no comboio?
- Aonde quer chegar? Pretende... pretende
insinuar que... que a matei? - Desatou a rir, inesperadamente, e acrescentou:
- Não, não devo perder a calma! É tudo tão
absurdo! Já pensou que, se a matasse, não precisaria de lhe roubar as jóias?
- É verdade - murmurou Poirot, de monco
caído. - Não tinha pensado nisso.
- Se há casos claros e evidentes de assassinato
e roubo, este é um deles - continuou o inglês. - Pobre Ruth, foram os malditos rubis que a condenaram! Deve ter constado que os trazia... Creio que não foi a primeira vez que se cometeu um crime de morte por causa daquelas pedras.
Poirot endireitou-se na cadeira e uma tênue
luz verde brilhou-lhe nos olhos. Parecia-se extraordinariamente com um gato matreiro e bem alimentado.
- Só mais uma pergunta, Monsieur Kettering:
pode indicar-me em que dia viu sua esposa pela última vez?
- Ora deixe ver... Deve ter sido... sim, deve ter
sido há mais de três semanas. Lamento, mas não posso indicar a data exata.
- Não tem importância - afirmou Poirot,
secamente. - Era só isso que queria saber.
- Precisam de mais alguma coisa? -
perguntou Derek Kettering, impaciente.
Olhou para M. Carrège, este procurou
inspiração olhando para Poirot e recebeu-a sob a forma de um leve aceno de cabeça.
- Não, Monsieur Kettering, creio que não
precisamos de incomodá-lo mais. Bons dias, monsieur.
- Bons dias. - Derek saiu e bateu com a porta. Poirot inclinou-se para a frente e perguntou
vivamente, assim que o jovem saiu:
- Quando falou a Monsieur Kettering nos
rubis?
- Não lhe falei neles - respondeu M. Carrège. - Só ontem à tarde tivemos conhecimento
da sua existência, por intermédio de Monsieur Van Aldin.
- Sim, mas a carta do conde mencionava-os... - Mas eu não referi essa carta a Monsieur
Kettering afirmou o juiz de instrução, ofendido. - Teria sido imprudente, na presente conjuntura.
- Então como sabia ele da existência
das pedras? -- perguntou suavemente Poirot, batendo no tampo da mesa. - Madame não podia ter-lho dito, pois há três semanas que não se viam, e parece-me pouco provável que Monsieur Van Aldin ou o secretário as tivessem mencionado; as entrevistas de ambos com ele visaram assuntos muito diferentes. Os jornais também não falaram nas jóias.
Levantou-se, pegou na bengala e murmurou,
como se monologasse:
- E todavia o nosso homem sabe tudo a seu
respeito. Muito estranho, meus senhores, muito estranho!
XVIII
DEREK ALMOÇA
Derek Kettering foi direito ao Negresco,
pediu dois cocktails e bebeu-os depressa. Depois olhou para o maravilhoso mar azul e sentiu-se presa de uma grande melancolia. Observou maquinalmente os transeuntes e achou-os uma multidão soturna, mal vestida e de uma sensaboria arrepiante. Nos tempos que corriam, não se via nada que valesse a pena... Semelhante opinião modificou-se, porém, quando viu uma mulher sentar-se a uma mesa a pequena distância dele. Trazia um conjunto maravilhoso, cor de laranja e preto, e um chapeuzinho que lhe mergulhava o rosto em sombra. Pediu terceiro cocktail e voltou a olhar para o mar, mas de súbito sobressaltou-se. Assaltou-lhe as narinas um perfume familiar, virou a cabeça e viu a senhora de cor de laranja e preto de pé ao seu lado. Agora que podia ver-lhe a cara o reconhecimento foi imediato: Mirelle. Sorria-lhe, com aquele sorriso insolente e sedutor tão seu conhecido.
- Derek! Estás contente por me ver? -
Sentou-se na sua frente e acrescentou, trocista: - Dá-me as boas-vindas, estúpido!
- É um prazer inesperado. Quando partiste
de Londres?
- Há um dia ou dois - respondeu, com um
encolher de ombros.
- E o Parthenon?
- Dei-lhes... Como é que vocês dizem? Dei-
lhes com a tampa!
- Sim?
- Não estás a mostrar-te muito amável,
Dereek!
- Esperavas o contrário?
Mirelle acendeu um cigarro e soprou várias
fumaças antes de perguntar:
- Pensas, talvez, que não é prudente, tão
cedo?
Derek fitou-a, encolheu os ombros e indagou
formalmente:
- Almoças aqui?
- Mais oui. Almoço contigo! - Lamento muito, mas tenho um encontro
importante.
- Mon Dieu, vocês, homens, são como as
crianças! – exclamou a bailarina. - Comportas-te comigo como uma criança mimada, amuaste desde aquele dia em que saíste, furioso, do meu apartamento em Londres. Ah, mais c'est inoui!
- Minha querida pequena, confesso que não
sei de que estás a falar. Em Londres chegamos à conclusão de que os ratos abandonam o navio que se afunda. E é tudo.
Apesar de falar de maneira descuidada, o
seu rosto estava tenso e pálido.
- A mim não enganas tu! - murmurou
Mirelle, inclinando-se para ele. - Sei o que fizeste por mim!
Derek fitou-a, estupefato, alertado pelo tom
estranho da sua voz.
- Não tenhas medo; sou discreta. És
maravilhoso, tens uma coragem soberba, mas lembra-te de que fui eu quem te deu a idéia, naquele dia, ao dizer- te que, às vezes, sucedem acidentes... Não corres perigo?
A Polícia não suspeita de ti?
- Que diabo...
- Fala baixo! - Levantou a mãozinha morena e
esguia, com uma grande esmeralda no dedo mínimo.
- Tens razão, não devia ter-te falado
assim num lugar público. Não voltaremos a aludir ao assunto, mas as nossas preocupações acabaram, a nossa vida, juntos, será maravilhosa! De súbito, Derek desatou a rir à gargalhada, de maneira áspera e desagradável.
- Os ratos voltam ao navio, hem? Claro que
dois milhões fazem uma grande diferença! Eu já devia sabê-lo. Riu-se de novo. - Ajudar-me-ás a gastá- los, hem, Mirelle? Nenhuma mulher sabe gastar dinheiro melhor do que tu! - e voltou a rir.
- Fala baixo! - repetiu a bailarina. - Que
mosca te mordeu? Não vês que começam a voltar-se, para te olharem?
- Vou dizer-te que mosca me mordeu:
acabaste para mim, Mirelle! Ouviste bem? Acabaste!
Mirelle, porém, não recebeu a notícia como
ele esperava; olhou-o, sorriu docemente e exclamou:
- Que criança! Estás zangado, magoado, e
tudo, afinal, porque sou prática. Não te disse sempre que te adorava? - Fez uma pausa e prosseguiu: - Mas eu conheço-te, Derek. Olha para mim, é a Mirelle que te fala... Sabes muito bem que não podes viver sem ela. Se antes te amava, agora amar-te-ei cem vezes mais! A tua vida comigo será maravilhosa, simplesmente maravilhosa! Não há ninguém como a Mirelle.
Os seus olhos fitavam os dele, como duas
verrumas escaldantes. Viu-o empalidecer, suster a respiração, e sorriu, triunfante. Não ignorava a magia que exercia nos homens.
- Está combinado... - murmurou,
docemente, e soltou uma gargalhadinha. - E agora, Dereek, não me ofereces almoço?
- Não! - Levantou-se, lívido de cólera, e
acrescentou: Lamento, mas já te tinha dito que tenho um encontro.
- Vais almoçar com outra pessoa? Não
acredito!
- Vou almoçar com aquela senhora, além. Dirigiu-se a uma senhora de branco, que
acabava de subir a escada, e perguntou-lhe, ofegante:
- Miss Grey, dá-me a honra de almoçar
comigo?
Fomos apresentados em casa de Lady
Tamplin, como deve lembrar-se. Katherine fitou-o, um momento, com os seus inteligentes olhos
cinzentos, que diziam tantas coisas, e
respondeu:
- Obrigada. Terei muito prazer.
XIX
VISITANTE INESPERADA
O conde de la Roche acabara o seu almoço,
composto de omelette fines herbes, um entrecte bearnaise e um savarin au rhum. Limpou delicadamente o bonito bigode preto, levantou-se da mesa e atravessou o salão, olhando com apreço os poucos objets d'art descuidadamente espalhados por ele. A caixinha de rapé Luís XV, o sapatinho de cetim usado por Maria Antonieta e outras bagatelas históricas faziam parte da mise en scène do conde. Eram, costumava explicar às suas bonitas visitantes, heranças de família. Chegado ao terraço, o conde olhou para o Mediterrâneo sem o ver; não estava com disposição para apreciar as belezas da paisagem. Um estratagema tão bem amadurecido fora brutalmente reduzido a nada, tinha de recomeçar do princípio. O senhor de la Roche instalou-se numa confortável cadeira de verga, com um cigarro entre os dedos brancos, e mergulhou em profunda cogitação.
Pouco depois, Hipolyte, o criado, trouxe-lhe
café e vários licores, e o conde decidiu-se por uma excelente aguardente velha. Quando o homem se preparava para sair, mandou-o esperar, com um pequeno gesto, e Hipolyte aguardou, respeitosamente. O rosto do criado estava longe de ser simpático, mas a correção da sua atitude compensava largamente essa deficiência. Naquele momento, por exemplo, era o retrato vivo da atenção respeitosa.
- É possível que, nos próximos dias, venham
cá a casa vários desconhecidos e tentem travar conhecimento contigo e com a Marie. Perguntar-lhes-ão coisas a meu respeito, talvez.
- Sim, senhor conde.
- Ou já terão vindo?
- Não, senhor conde.
- Muito bem - comentou de la Roche,
secamente. - No entanto, tenho a certeza de que virão e de que farão perguntas.
Hipolyte olhava o patrão, com ar inteligente,
e o conde falou devagar, sem contudo o olhar:
- Como sabes, cheguei aqui na última terça-
feira de manhã. Se a Polícia ou qualquer outra pessoa to perguntar, não te esqueças de que cheguei na terça- feira, dia catorze, e não na quarta, dia quinze. Compreendes?
- Perfeitamente, senhor conde.
- É sempre preciso ser discreto em assuntos
relacionados com uma senhora. Tenho a certeza, Hipolyte, de que também o saberás ser.
- Com certeza, monsieur, serei discreto. - E Marie?
- Também, monsieur. Respondo por ela. - Estamos entendidos, então. Ao ficar só, o conde bebeu o café, com ar
pensativo. De vez em quando franzia a testa, uma vez abanou levemente a cabeça e outras duas acenou, devagar. Hipolyte veio, de novo, interromper as suas cogitações:
- Uma senhora, monsieur.
- Uma senhora?
O conde estava surpreendido. Claro que a
visita de uma dama à Villa Marina não era caso raro, mas naquele momento o conde não imaginava quem poderia ser a visitante.
- Suponho que não é uma senhora
conhecida de monsieur - murmurou o criado, ao compreender a sua perplexidade.
- Manda-a entrar para aqui, Hipolyte –
ordenou o senhor de la Roche, ainda mais perplexo.
Momentos depois, entrou no terraço uma
maravilhosa visão de cor de laranja e preto, acompanhada de um forte perfume de flores exóticas.
- O senhor conde de la Roche? - Às suas ordens, mademoiselle - respondeu,
com uma vênia cavalheiresca.
- Chamo-me Mirelle. Deve ter ouvido falar
de mim.
- Com certeza, mademoiselle! Quem não se
terá deliciado com a maravilhosa arte de Mademoiselle Mirelle?
A bailarina agradeceu o cumprimento com
um breve sorriso maquinal.
- A minha visita é muito pouco
cerimoniosa...
- Peço-lhe que se sente, mademoiselle - disse
o conde, oferecendo-lhe uma cadeira.
Apesar da galantaria da sua atitude,
observava-a atentamente. Havia muito poucas coisas que o conde ignorasse acerca de mulheres. Era certo que a sua experiência não se alargara muito a senhoras como Mirelle, as quais eram, em si mesmas, predatórias. Ele e a bailarina podiam considerar-se, de certo modo, da mesma igualha e os seus artifícios não surtiriam efeito em Mirelle, que era parisiense e astuta. Uma coisa, porém, o conde reconhecia imediatamente, fosse em que tipo de mulher fosse: a cólera. E neste caso não lhe restavam dúvidas de que estava perante uma mulher colérica, e uma mulher colérica, ensinara-lho a experiência, fala mais do que a prudência aconselha e, às vezes, é uma fonte de proventos para um homem com a cabeça bem assente e que saiba conservar-se calmo.
- Foi muito amável, mademoiselle, em
honrar a minha pobre morada com a sua visita.
- Temos amigos mútuos em Paris que me têm
falado de si, mas estou aqui por outro motivo. Quero dizer, desde que cheguei a Nice ouvi falar a seu respeito, mas num sentido diferente do habitual. Compreende?
- Sim? - murmurou o conde, suavemente. - Serei brutal, mas acredite que pretendo
defender o seu bem-estar. Consta em Nice que o senhor conde é o assassino da senhora inglesa morta no comboio, Madame Kettering.
- Eu? Eu, o assassino de Madame Kettering?
Que absurdo! - exclamou com mais indiferença do que indignação, certo de que assim a provocaria mais.
- Garanto-lhe que é verdade, que é isso que
dizem.
- As pessoas gostam de falar - comentou,
despreocupado. Rebaixar-me-ia se tomasse a sério acusações tão idiotas.
- Não compreende? - Mirelle inclinou-se
para ele, com os olhos escuros a faiscar. - Não se trata de boatos ociosos, de rua; é a Polícia!
- A Polícia? - o conde estremeceu,
novamente alerta.
- Sim, sim - afirmou Mirelle, acenando
várias vezes com a cabeça. - Compreende, tenho amigos em toda a parte... O próprio prefeito... - deixou a frase por acabar, com um eloqüente encolher de ombros.
- Haverá alguém capaz de ser discreto,
quando tem uma bela mulher por confidente? - murmurou o conde, delicadamente.
- A Polícia crê que o senhor matou Madame
Kettering, mas engana-se.
- Com certeza que se engana - concordou o
conde, indiferente.
- O senhor conde afirma-o, mas ignora a
verdade. Eu conheço-a.
- Sabe quem matou Madame Kettering? -
perguntou-lhe de la Roche, olhando-a com curiosidade.
- É isso que quer dizer, mademoiselle?
- É - afirmou, com novo aceno vigoroso de
cabeça.
- Quem foi?
- O marido. - Inclinou-se mais para o conde e
acrescentou, em voz que vibrava de cólera e excitação:
- Foi o marido que a matou.
O conde recostou-se na cadeira, com o rosto
inexpressivo como uma máscara.
- Permite-me que lhe pergunte como o
soube, mademoiselle?
- Como o soube?! - exclamou a bailarina,
levantando-se e soltando uma gargalhada. - Vangloriou-se de que o faria, antes de a assassinar! Estava arruinado, falido, desonrado, só a morte da mulher podia salvá-lo. Disse-mo ele próprio. Viajavam no mesmo comboio, mas ela não devia sabê-lo. Porquê, não me dirá? Para que pudesse entrar-lhe sorrateiramente no compartimento, pela calada da noite... Ah! - fechou os olhos, emocionada. - Até parece que estou a ver!
- Talvez, talvez... - murmurou o conde, com
uma tossezinha discreta. - Mas, nesse caso, não lhe roubaria as jóias, não acha?
- As jóias! - exclamou Mirelle, em tom
apaixonado. – As jóias! Ah, aqueles rubis!
Os olhos umedeceram-se-lhe, adquiriram
como que uma luz distante, e o conde fitou-a, curioso, admirado mais uma vez da mágica influência das pedras preciosas no sexo feminino.
- Que deseja que faça, mademoiselle? -
perguntou-lhe, chamando-lhe de novo a atenção para assuntos práticos.
- É simples: vai à Polícia e diz que Mister
Kettering cometeu o crime!
- E se não me acreditarem, se pedirem
provas? -- inquiriu, sem desviar os olhos dos dela.
Mirelle riu docemente e aconchegou a
écharpe cor de laranja e preta.
- Mande-os ter comigo, senhor conde. Dar-
lhes-ei as provas que quiserem.
E saiu como um pé-de-vento, cumprida a sua
missão. O conde viu-a partir, com as sobrancelhas levemente franzidas.
“Está furiosa”, murmurou para consigo.
“Que lhe terá acontecido para ficar em tal estado? Mas mostra demasiado o jogo... Acreditará, de fato, que Mister Kettering matou a esposa? Pelo menos quer que eu o acredite. Pareceu, até, interessada em que a Polícia o acredite...”
Sorriu. Não tinha intenção nenhuma de
procurar a Polícia, mas via várias outras possibilidades - e agradáveis, a julgar pelo seu sorriso.
O semblante não tardou, porém, a carregar-
se-lhe. Segundo Mirelle afirmara, a Polícia suspeitava dele, o que podia ser ou não verdade. Uma mulher furiosa, do temperamento da bailarina, não se prendia com a estrita verdade das suas afirmações. Por outro lado, podia muito bem ter obtido informações... internas, e nesse caso impunham-se certos cuidados.
Entrou em casa e interrogou novamente
Hipolyte, para saber se tinham aparecido alguns desconhecidos. O criado foi positivo na resposta: não. Em seguida o conde subiu ao seu quarto e dirigiu-se a uma velha escrivaninha encostada à parede. Levantou a tampa e os seus dedos delicados procuraram uma mola, no fundo de um dos cacifos. Abriu-se uma gaveta secreta, na qual se encontrava um embrulhinho de papel castanho. O conde pegou-lhe, sopesou-o cuidadosamente e, com uma careta, levantou a mão e arrancou um cabelo. Colocou-o na aresta da gaveta, fechou-a devagar e, com o embrulhinho na mão, dirigiu-se à garagem, onde tinha um automóvel encarnado, de dois lugares. Dez minutos depois percorria a estrada de Monte Carlo.
Passou algumas horas no Cassino, deu uma
volta pela cidade, meteu-se outra vez no automóvel e seguiu na direção de Menton. Ao princípio da tarde notara que o seguia um carro cinzento, vulgar, o qual se encontrava novamente atrás de si. Sorriu e pisou o acelerador. A estrada subia, íngreme, mas o pequeno automóvel vermelho fora construído segundo modelo especial do conde e tinha um motor muito mais potente de que o seu aspecto permitia supor.
Pouco depois olhou para trás e sorriu; o carro
cinzento continuava a segui-lo. Envolto em poeira, o automovelzinho encarnado galgava a estrada a uma velocidade perigosa, mas o senhor de la Roche era um bom volante. Começaram a descer a encosta, sempre aos ziguezagues, e por fim a velocidade abrandou e o automóvel parou defronte de um posto dos Correios. O conde apeou-se, levantou a tampa da caixa de ferramentas, tirou o embrulhinho castanho e entrou apressadamente no posto. Dois minutos depois ia outra vez a caminho de Menton. Quando o automóvel cinzento chegou, o conde bebia chá no terraço de um dos hotéis.
Mais tarde foi jantar a Monte Carlo e seguiu
para casa, onde chegou às onze horas. Hipolyte recebeu-o com semblante perturbado.
- Ainda bem que chega, senhor conde! O
senhor conde telefonou?
O senhor de la Roche abanou a cabeça,
negativamente.
- Mas, às três horas, recebi um telefonema do
senhor, a mandar-me procurá-lo em Nice, no Negresco!
- Sim? E foste?
- Com certeza, senhor. Mas no Negresco
disseram-me que não sabiam nada, que o senhor conde não estivera lá.
- Ah! E naturalmente, a essa hora, a Marie
tinha saído, para fazer compras?
- E verdade, senhor conde.
- Não tem importância, Hipolyte. Deve ter
sido engano.
Subiu ao seu quarto, a sorrir, trancou a porta
e olhou atentamente à sua volta. Parecia tudo como de costume. Abriu várias gavetas e armários e abanou a cabeça: as coisas tinham sido repostas nos seus lugares, mas com ligeiras diferenças. Não lhe restavam dúvidas de que fora efetuada uma busca minuciosa.
Dirigiu-se à escrivaninha, carregou na mola
oculta e a gaveta abriu-se, mas o cabelo já não estava onde o deixara.
“A nossa Polícia francesa é excelente”,
murmurou, abanando várias vezes a cabeça. “Excelente... Nada lhe escapa...”