Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 9 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

 

Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos.

 

Pois que o talento inquieto

Até em poezia provas,

E queres ás mais desgraças

Ajuntar desgraças novas;

Pois, que em galantes cantigas

Teu Rival puzeste razo,

E coroado de trovas

Vás entrando no Parnazo,

Quero em trovas avizar-te,

Que ha baixîos nesta barra;

Vou ser Prégador trovista,

Vou ser hum novo Bandarra;

A occupação de Poeta

He nobre por natureza;

Mas todo o Officio tem ossos,

E os deste são, a pobreza;

Os dentes do bom Camões

Sejão fieis testemunhas;

Muitas vezes esfaimados

Não achárão senão unhas;

Depois que seus frios olhos

Se fechárão no Hospital

Logo as Filhas da Memoria

Lhe erguêrão Busto immortal;

De que serve honra tardia?

Bem sei, que o rifão vem torto;

Mas faz lembrar a cevada,

Que se deo ao asno morto;

Só as Muzas o chorárão;

E o enterro devia ser

Como hoje nos pinta o Lobo

O de João Xavier.

Homéro, o divino Homéro,

Honra de antigas Idades,

Por cujos inuteis ossos

Brigárão sete Cidades;

Doces Versos recitando,

Pela Grecia discorria;

Tinha os Thezouros de Apollo,

E esmola aos homens pedia;

Mas se de Authores antigos

Tens tido pouco exercicio,

Eu te aponto hum bem moderno,

E até do teu mesmo Officio;

Foi este o famozo Quita,

A quem triste fado ordena,

Que a fome lhe traga o pentem,

E da mão lhe tire a penna;

Em quanto na suja banca

Pobre tarefa tecia,

Seu espirito sublime

Sobre o Parnazo se erguia;

Cozendo sobre o joelho

Era dura, falsa cáveira,

A sua alma conversava

Com Bernardes, e Ferreira;

Mil vezes travêssas Muzas

Da baixa obra o desvião;

E mostrando-lhe o tinteiro,

Pós, e banha lhe escondião;

Mas de que servem talentos

A quem nasceo sem ventura?

Vale mais, que cem Sonetos,

A peior penteadura;

Amigo, vamos errados;

Escolhemos muito mal;

He o fado dos Poetas

Não professarem real;

Péga no pardo baralho,

E sobre a cama assentado,

Fisga as biscas conhecidas

Ao parceiro descuidado;

Matando boçaes tafûes,

Vai mexendo os papelinhos;

Nem poupes no cadafalso

As gargantas dos Sobrinhos;

Em lhe vendo huma de seis,

Arma-lhe os laços viscozos;

Antes que lhe caia a xina

Na ceira dos laparozos;

Imita ondados cabellos

Co'rubro lápis na mão;

Estas pinturas dão xina,

As da Poezia, não;

Se em roda de loiras Ninfas

Gyrão em torno teus ais,

Em quanto lhe deres Versos,

Acharás sempre Vestais;

Fallo como exprimentado;

Fallo com peito sincero,

Póde huuma vara de fitta,

Mais que a Ilíada de Homéro;

No sonóro bandolim

Fortuna as armas te deo;

Não ha Dama, que rezista

A' moda do Melibêo;

Toca-lhe mil contradanças;

Mas se não tiverem Dom,

Entre ellas não sevandiges

O Fidalgo Cotilhom;

Nestas coizas he que eu creio;

Poezia he mal fadada;

Assenta, amigo Luiz,

Que nunca servio de nada;

Poucas Damas a conhecem;

Se a pedem, e se a festejão,

Gostão do que não entendem,

Pedem o que não dezejão;

Inda que por moda querem,

Que lhes repitão Versinhos,

Tem por modas de mais gosto

Convulsões, e Jozézinhos;

Huma Venus me pedio,

Por quem inda eu hoje peno,

Que lhe fizesse hum Soneto,

Inda que fosse pequeno;

Dinheiro, invisto dinheiro,

Só em ti he que eu me fundo; Tens o Direito da força,

És o Tyranno do Mundo;

Amigo, escolhe hum Paralta,

Corpo esbelto, perna teza,

O chapeo tocando as nuvens,

As fivellas á Malteza;

Ornem-lhe loiros canudos,

Pendentes com igualdade,

Tenras faces, onde morão

A Saûde, e a Mocidade;

Chegue á bocca rubicunda

Cheirozo lenço anilado;

Dê bilhetinho discreto,

De huma Novela furtado;

Põe da outra parte hum Ginja,

Fivella de oiro no pé,

Bom vestido de lemiste,

Boa meia grudifé;

Com óculos no nariz,

Mas com a penna na mão,

Assignando vinte letras

Para Londres, e Amsterdão;

E dize-me, qual assentas,

Que será o mais querido?

Apósto, que as Damas todas

Cuidão que o Velho he Cupido.

Amigo, tenho acabado

O meu comprido Sermão;

Préguei-te as altas verdades,

Que trago no coração;

Abre mão das Poezias,

Que nenhum prestimo tem;

E cuida em sólidos meios

De ganhar algum vintem;

Se dizes, que contra os Versos,

Em Verso huma Carta ordeno,

E que aqui me contradigo,

Praticando o que condemno;

A teu forçozo argumento

Respondo com Fr. Thomaz;

Faze o que o Prégador diz,

Não faças o que elle faz.