Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 20 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Cantigas

 

 

Feitas nas caldas com o Estribilho.

 

Olhos meus, cansados olhos, O vosso officio he chorar.

 

Nas Caldas, nas tristes Caldas

Alegria vim buscar;

Quiz de noíte ver o Sol,

Quiz achar fogo no mar.

Olhos meus, etc.

Que importa mudar de terra,

E baldados passos dar,

Se a toda a parte a que os volto

Vai comigo o meu pezar.

Olhos meus, etc.

Vejo pálidos doentes

Pela Copa passear,

Oiço de antigas molestias Tristes effeitos contar.

Olhos meus, etc.

Vejo nas férvidas aguas

Mirrados corpos banhar,

E de balde aos surdos Ceos

Convulsos braços alçar.

Olhos meus, etc.

Vejo de perdido pranto

Tristes ais acompanhar,

Com as lagrimas alhêas

Vou as minhas misturar.

Olhos meus, etc.

Que importa ver Ninfas bellas,

Se accrescentão meu pezar?

Gostão de attrahir os olhos,

E as almas tyrannlzar.

Olhos meus, etc.

Ao som de feridas cordas

Dão doces vozes ao ar,

Quaes enganozas Serêas,

Que cantão para matar.

Olhos meus, etc.

Se o meu pobre coração

Se deixa huma vez tocar,

Com escarneos, com rizadas,

Meu pranto vejo pagar.

Olhos meus, etc.

Fartai-vos, pois, olhos meus

De lagrimas derramar;

Vós nascestes para tristes,

E escolhestes o lugar.

Olhos meus, etc.

 

A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo tocou na cabeça a ponta de hum espadim.

 

Ferio sacrilega espada,

Alçada por mão traidora,

Cabeça, que sempre fôra

Té aos Barbeiros vedada;

D'entre a grenha profanada

Corre o sangue á terra dura;

Tosquiou-se a matadura;

E o casco rebelde a ordens,

Precizou destas desordens

Para ter Prima Tonsura.

Feroz Soldado imprudente,

Que nova espada esgrimio,

Foi o ímpio que ferio

Esta victima innocente;

A quem do golpe insolente

O motivo lhe procura,

Diz que fez compra segura;

Pois duvidozo na escolha,

Quiz ver que tal era a folha,

Cortando por coiza dura.

Homem de tenção damnada,

Só tu conseguiste o fim

De entrar o teu espadim

Aonde não entra nada;

Da repentina estocada

Cahe o Padre desmaiado;

Mas quando recuperado

A ti os olhos volveo,

Sabes o que te valeo?

Foi teres já almoçado.

Todo o Mundo te pragueja,

Porque em detestavel guerra

Hias deitando por terra

Esta columna da Igreja;

Mas se triunfaste a inveja,

E o Padre morresse então,

Dize, ó ímpío coração,

Que tanto em furor te atiças,

Quem ajudaria ás Missas?

Quem tocaria ao Sermão?

Quem nos daria a certeza

De haver outro homem sizudo,

Que pudesse comer tudo

Ouanto se puzer na meza?

Da próvida Natureza

Quem havia as Leis seguir!

Observante em digerir

Qual outro havia saber

Depois de acordar, comer,

Depois de comer, dormir!

Que importa, ó cruel Soldado,

Para desculpar teu erro

Ter sido o teu ímpio ferro

Já pela Patria arrancado?

Que importa que em campo armado

Junto a si Lippe te veja,

Que importa que o Mundo seja

Das tuas acções o abono,

Se a mão que defende o Throno,

Ataca depois a Igreja?

E tu, que segues os trilhos,

Que S. Francisco te fez,

E pões os teus gordos pés

Sobre os seus santos ladrilhos;

Pois que a seus devotos filhos

Guarda no Ceo largas pagas,

Nos olhos he bem que o tragas,

E de modélo não mudes;

E pois não he nas virtudes,

Que o seja ao menos nas chagas.

 

Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava o sobredito Leigo.

Hum estomago cansado,

De cuja antiga ruina

Tem sido cauzas iguaes

A molestia, e a Medicina;

Que tendo em si dos tres Reinos

As perigozas heranças,

Só não bebeo das Boticas

Os S. Migueis, e as balanças;

Hum estomago sem forcas,

E ás leis geraes ínfiel,

Que não trabalha em diamante,

Como o de Fr. Manoel;

Que não tem, como este Padre,

Tanta fome obediente;

E olha já para a gallinha

Como elle olha para a gente;

Para emendar semrazões,

Que faz Arte, e Natureza,

Vai, fugido das Boticas,

Acoitar-se á vossa meza;

Mil vezes por outra cauza

Teve a honra de bussalla;

Indo então por matar fome,

Vai hoje por despertalla;

Perdiz, ou branda vitella,

São deste remedio o nome;