Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 5 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta

 

 

Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje Marquez de Angeja.

 

Senhor, eu não sou culpado;

Traçar outros Versos quiz;

Mas tenho perdido o trilho

Com as Trovas do Luiz;

A Muza, que ha pouco as fez,

Outra rima não me inspira;

Por mais que mordo nas unhas,

E que em vão tempéro a Lyra.

Acceitai meus bons dezejos;

E como homem de razão

Não desprezeis baixos Versos,

Quando os dicta o coração;

Minhas fiéis expressões,

Filhas de amor, e saudade,

O que não tem em poezia,

Lhe vai supprido em verdade.

Em quanto co'as soltas vélas,

Forçadas do vento rijo,

Demandava a Galeota

Os areaes do Montijo;

Em quanto ao Principe Augusto

O patrio Téjo se humilha,

E sobre os rasgados hombros

Lhe leva a soberba quilha;

Meus olhos, meus tristes olhos,

Nas aguas seguindo a esteira,

De lagrimas se arrazavão

Sobre as praias da Junqueira.

Dentro do cansado peito

Se ateou crua peleja;

Senti huma guerra viva

De saudades, e de inveja;

Não era de baixa inveja

Affecto grosseiro, e injusto;

Era invejar ao Creado

Ir junto a seu Amo Augusto.

Senhor, não sou atrevido;

Ha lugares derradeiros;

O meu dezejo me punha

Entre a chusma dos Remeiros;

Com as faces açoitadas

Dos agudos ventos frios,

Entre os borrifos das ondas,

E as pragas dos Algarvios;

A Apóllo pedindo a Lyra,

Que só para isto invéjo,

Chamára das frias grutas

As loiras Filhas do Téjo;

Que escutando o som divino

Entre as húmidas moradas,

E levantando nas ondas

Suas cabeças doiradas;

De tal Hospede soberbas

O lenho rodearião;

E as aguas co'branco peito

A' porfia lhe abririão;

O fatídico Protêo,

Cheio de saber divino,

Revelára ao novo Heróe

Os segredos do Destino;

Famozas acções cantára,

Levantando a sábia voz,

Moldadas sobre as historias

Dos Augustos Pais, e Avós:

Mas, Senhor, a minha Muza

Sem tino ao ar se remonta;

E vai-se mettendo em obra,

De que não póde dar conta;

Esta levantada empreza

Até a Boileau deo sustos;

Dizia que só Virgilios

Podião louvar Augustos;

He queimar-lhe baixo incenso,

Cansallo com Versos frios;

Amor respeitoso, e votos

Serão os meus elogios:

Vós, Illustre Villa Verde,

Com quem sempre me hei achado,

Fazei que seja o meu nome

A seus ouvidos levado;

Se lhe der acolhimento,

Sigamos de Horacio as traças,

Façamos que a par das Muzas

Marchem as rizonhas Graças;

Dizei-lhe, que na Folhinha,

Com letras doiradas puz

Aquelles formozos dias

Das escadas de Quéluz;

Aquelles dias ditozos,

Quando a seus pés ajoelhado,

Era ao abrigo das Muzas

Benignamente escutado;

Quando, tendo já traçado

Melhorar-me os meus destinos,

Se dignava perguntar-me

Como estavão os meninos.

Quando me mandou, que em verso

Contasse como escapára

Naquelle funesto encontro

Dos taes Carreiros da Enxára;[8]

[Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]

E se inda o favor mereço

De tão alta Protecção,

Dizei, que mudei de Officio,

Porém de ventura, não;

Que não me enganão zumbaias

Dos humildes Supplicantes;

Porque a bolsa mais sincera

Trata-me inda como dantes.

Que inda os cães atrás do Russo

Esperão nelle a merenda,

Quando eu vou para Lisboa

Fazendo Versos, e renda;

Que dando aos oucos ilhaes,

Vai marchando triste, e só;

Que as mais seges fazem sécia,

Porém que a minha faz dó;

Que até o boçal Gallego,

Que eu tinha por innocente,

Já me conhece a fraqueza,

E já me revíra o dente;

Depois, que as vélas de cebo

Já cerceia no topete,

E vai conquistar o Bairro

De polainas, e colete;

Depois que em chapeo de Braga,

Que só põe em dia claro,

Cozeo em devota rosca

Candêa de Santo Amaro;

Depois que em déstros meneios

O suado corpo bole,

E abre guerra ás Cozinheiras

Ao som da Gaita de fole;

Já responde focinhudo,

E eu me cálo as mais das vezes;

Porque, pelos meus peccados,

Sou réo de huns poucos de mezes:

Mas, Senhor, este Epizódio

Vai sendo dos arrastados,

O Gallego veio nelle,

Como me vai aos recados;

Se o julgardes enfadonho,

Ao Principe o não conteis;

Nos factos da minha vida

A' vontade escolhereis;

Pintai-lhe a triste familia,

Gritando-me por dinheiro;

Hoje o rol de hum Alfaiate,

A' manhã o de hum Tendeiro;

Pintai-lhe hum Procurador,

Que aqui vem todos os dias

Saber da minha saude

Da parte das Senhorias;[9]

[Nota de rodapé 9: Das Cazas.]

Enfeitai de côr alegre

A funesta narração;

Marchão ás vezes os rizos

Ao lado da compaixão;

E pois que os vossos esforços

Nunca me tem sido vãos,

Acabai, benigno Conde,

Esta obra das vossas mãos;

De hum mal fadado Poeta

Trocai em prazer as penas;

Já diante d'outro Augusto

Fez o mesmo outro Mecenas.