Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 11 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer.

 

Senhor, a dada Perdiz,

Acerejada, e fresquinha,

Veio emendar os estragos

Da enjoativa gallinha;

Esta ave he sempre odioza

A melancólicos dentes;

Faz lembrar ultimos caldos

De já perdidos doentes;

He, além disto, hum cruzado

Fugido do mialheiro;

Este meu mortal fastio

Custou rios de dinheiro;

Mas da vossa lauta meza

Bocados medicinais

Forão tão bem applicados,

Que me curárão de mais;

Venceo vosso cozinheiro

O tal fastio cruel;

Meu estomago já pede

Meças com Fr. Manoel;

Mas, Senhor, vossa piedade

Vai ser-vos hum dom fatal;

Quizestes fazer hum bem,

Que redunda em vosso mal;

Fizestes nascer a fome,

E a fome pede mantença;

Se a deixais entregue a mim,

Póde morrer á nascença;

A vossa filha amparai;

Não he de peitos honrados

Pôr as suas Creaturas

Na Roda dos Engeitados.

Em soando as duas horas,

Sabei que esta cara minha

Tem longos, ávidos olhos,

Fitos na vossa Cozinha;

Eu não vou, porque inda fraco,

Indo arrostar ar delgado,

Antes de matar a fome,

Morreria constipado.