Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 22 de 30

Páginas do PDF

Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

Ora do cume dos Montes,

Ora em suas verdes fraldas,

Hia estender os meus olhos

Na longa estrada das Caldas;

Sobre escumozos cavallos

Trotando empoada sege,

Disse quem fez os meus versos

=Ahi vem quem os protege;=

Alçando-me, hia a dizer-vos

=Senhor, chegou o meu prazo;

Honrastes hoje outros Montes,

Honrai agora o Parnazo;

Promettestes fazer ferteis

Seus estereis Mirto, e Loiro;

Promettestes que a Hypocrene

Levaria arêas de oiro;

Sua clara, inutil vêa

Réga chão, que não se lavra;

Vinde fazello fecundo,

Vinde cumprir-me a palavra.=

Mas, Senhor, não éreis Vós;

Era hum Casquilho, e do Povo;

Tornei a pegar nas Contas,

Tomei a esperar de novo;

Mil votos ao Céo mandava

Este humilde orador fraco,

Que vos não vissem Carreiros,[27]

Nem os ladrões do Tabaco;[28]

[Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

[Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

 

Então carrancuda Noite

Me enxotou co'as negras azas;

E em honra dos taes Amigos

Vim como Gato por brazas;

Sei, em fim, que já chegastes

Chamou por Vós minha dôr,

Venha o Illustre Conselheiro

Honrar-se em Procurador;

Fazer bem, he mór grandeza;

Deo-vos, tambem esta, o Pai;

Vós ambos d'entre os meus loiros

Cruas silvas arrancai;

Com piedoza Geografia

As Paternas mãos benignas,

Emendando ingratos Mappas,

Ponhão o Pindo nas Minas;

O Impressor gosta de Versos;

Quer que os meus públicos andem;

Mas he hum tanto acanhado,

Não imprime sem que o mandem;

Elle perdoa o contagio;

Pegai-lhe a minha doença;

Só deixarei de gemer

Em gemendo a sua Imprensa;

Assigne, pois, meu Avizo,

Pia, obedecida mão;

Mas não cuideis que com isso

Dais férias á protecção;

O mais ávido Leitor,

Das Quintilhas pregoeiro,

Ha de achallas insoffriveis

Em lhe custando dinheiro;

E só em nojoza Tenda

De Braguez Chatim mesquinho

Terão sahida os meus Versos,

Embrulhando o seu toicinho;

Só rapazes acharão

Minha Muza doce, e meiga;

Não porque tenha Poezia,

Mas porque teve manteiga;

Mettei, pois, Senhor, em brios

Ricos peitos avarentos;

Dizei, que comprem partidas,

Que he honra honrar os talentos;

Que serão, comigo, eternos

Se me evitarem o mal

De ir ao Templo da Memoria

Pela porta do Hospital;

E então da escondida burra

Ouvirá a surda aldraba

Não as vozes da Poezia,

Mas a voz de quem lha gaba;

Indo abrindo, juraráõ

A duas Artes odio, e medo;

A' da Guerra, em alta voz;

A' da Poezia, em segredo.

Entretanto ao digno Pai

Pedi que me faça Author;

Sejão públicos no Mundo

Meus versos, e o seu favor;

De Limas na honroza historia

Não serão titulos falsos

Fazer que as augustas Artes

Não marchem cos'pés descalços;

E Vós, firme Protector,

Fazei que por taes favores

Vamos beijar-vos a Mão,

Eu, e os meus dois mil Credores.