Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 18 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Mote.

Se o meu primeiro exercicio

Fosse servir-me do Officio

A favor de quem mo deo!

 

A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este

 

MOTE.

 

Não tem côr de Cardeal

 

Não ajuda ao Padre a cara;

Revolvo antigos Annaes,

E vejo que os Cardeaes

Tinhão a pelle mais clara;

Será maravilha rara

Achar hum de côr igual;

Forão brancos como a cal

Mazarino, e Alberoni;

E a não ser este o Negroni,

Não tem côr de Cardeal.

 

Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes:

Que venhão fuscos garraios

Metter em Versos a mão!

Potente Jove, aonde estão

Os teus vingadores raios?

Hum homem de coiros baios

Segue as Muzas tuas filhas;

Tu, pois, que os vaidozos trilhas,

Faze que este, em todo o cazo,

Saia logo do Parnazo,

E passe para Cassilhas.

Se em rhetorico exercicio

Já soubeste regras dar,

Tambem eu posso fallar,

Porque sou do mesmo officio;

Que o teu cérebro tem vicio,

He verdade assás notoria;

Na Poezia, e na Oratoria

Vaz em total decadencia;

Collega, tem paciencia,

Has de vir á palmatoria.

No teu escuro Papel,

Aos bons ouvidos ingrato;

Achei hum vivo retrato

Da confuzao de Babel;

A' patria lingua infiel

Ès da Nação o desdoiro;

Bem sei que te chego ao coiro;

Mas não merece passagem, Que a batina, e a linguagem

Ajuntem Clerigo, e Moiro.

A quem me queira arguir,

Mostro, Padre, o tal Papel;

He testemunha fiel,

Não me deixará mentir;

Em novos termos urdir

Mettes a todos n'um canto;

Que uzas palavras de encanto

Assentão gentes maxuchas,

Boas para ajuntar bruchas,

Ou para tirar quebranto;

Deixei-me, pois, de criterio,

E tomei melhor caminho;

Meu amigo, a hum louquinho

He loucura fallar serio;

Chova, pois, o vituperio

Sobre esse tostado coiro;

Saia o tal Cardeal Moiro,

Que o Capinha, alvoroçado,

Vai, por ordem do Senado,

Metter garrochas no toiro.

Fulla escrava Americana

Já mandava á luz do dia

Hum Crioilo, que seria

Nódoa da Curia Romana;

Carregado de banana,

Porque no caminho coma, O rumo da Europa toma;

E em terra, marchando á pata,

Com sacco, e folha de lata,

Deo a sua entrada em Roma.

Assim mesmo estropeado,

E envolvido em grosso panno,

Foi entre o Povo Romano

Com mil respeitos tratado;

Do vento, e do Sol queimado,

Semblante quebrado, e afflito,

Tem tal dom na cara escrito,

Que gritavão de redor,

Huns, que he o Rei Belxior,

Outros, que he S. Benedito.

Tomou a Benção Papal;

E teve tanto poder,

Que sem o Papa o saber,

Ficou feiro Cardeal;

Voltou para Portugal

Já Cardeal Protector;

Achou cá pouco favor;

E zombão-lhe do Capello,

Por ter mui crespo o cabello,

E ser muito bassa a côr.

Erra o Vulgo os passos seus;

He hum cego, e maldizente;

A côr he méro accidente,

Todos são filhos de Deos.

Porém para os lucros teus

O Capello te faz mal;

No S. João, e Natal

Terias gôrda guedelha,

Armado de faca velha,

Pincel, e pote de cal.

Padre, vai-te o mundo ao pêllo;

E c'o a lingua maldizente

Te vai cortando igualmente

As Poezias, e o Capello;

Porém eu, que sou singelo,

E meus contrarios ameigo,

Te affirmo, piedozo, e meigo,

Que se não tens, por teu mal,

Em Roma o de Cardeal,

Tens no Parnazo o de Leigo.

Deves voltar outra vez,

E dizem que nisso fallas;

Mas pégão-se pelas sallas

Teus molles tardîos pés.

Se ajuda de custo vês,[24]

Fazes-te côxo, e ronceiro;

Meu Padre, és muito matreiro,

Já todos estão de acôrdo;

E sem te verem a bórdo,

Não pões a mão no dinheiro.

[Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

Tua saude se estraga,

Mas teu Medico condemno;

Meu amigo, o teu veneno

Não se cura com triaga;

Para a tua antiga chaga

Medicina impropria he esta;

Muda, pois vês que não presta;

Grita c'os olhos em braza,

Que te fechem n'uma caza,

E que te sangrem na testa.

De balde em Lisboa gritas,

Attestando a Italia inteira,

Que regeste huma Cadeira

Nos Claustros dos Jezuitas;

As obras que vejo escritas

Provão que nos tens mentido;

Até das Ordens duvido,

Quando as tem cabeças tontas;

Tu, cá pelas minhas contas,

Ès hum mulato fugido.

Foge outra vez, se tal és,

Qual foge apupado mono;

Antes que venha teu dono,

E te ponha nas Galés;

Antes que enfeite teus pés

Legal, sonóro fuzil;

Não veja o patrio Brazil,

Que os hombros do filho bello, Vindo buscar hum Capello,

Só achárão hum barril.

Dizem todos, que és fingido,

Que ninguem louco te chame;

Por mais que eu lhe jure, e clame,

Que és mesmo doido varrido;

Dizem que estás conhecido,

E que o fazes por estudo;

Em tal cazo prompto acudo,

E de outro lado te ataco;

Se não és doido, és velhaco,

E talvez que sejas tudo.

Mas já quem póde me ordena,

Que armas ponhamos em terra;

Apôs sanguinoza guerra,

Alce a frente a Paz serena;

Sobre essa pelle morena

Em paz teu Capello ajusta;

Assento que he coiza justa

Seguires methodo novo,

E não dares gosto ao Povo,

Que quer rir á tua custa.

Não te finge falso agrado

Meu semblante contrafeito;

Não encobre honrado peito

Coração refalseado;

Se me julgas disfarçado,

Alta injustiça me fazes;

Eu te juro eternas pazes;

E se falto aos votos meus,

Ah Padre, permitta Deos

Que eu sempre ensine rapazes.

E tu, que sem estes sustos

Vives cheio de alegrias,

Serenos, doirados dias,

Aos pés de teus Reis Augustos;

Tu, que por titulos justos

Te chamas o novo Horacio,

Quando entrares em Palacio

Conserva de mim lembranças,

Porque tenho as esperanças

Postas em ti, e no Estacio.[25]

[Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]