Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 10 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

 

Pedindo-se ao Author huma Gloza.

 

Menino, dizer finezas,

Só o proprio Pertendente;

Amor não póde imitar-se,

Só o pinta quem o sente;

Se adora alguma Nerina,

Se he para ella a tal Gloza,

Que vão fazer os meus Versos,

Onde está a sua proza?

Além disso, essa figura,

Faces tenras, e córadas,

Fallão mais discretamente,

Que mil Cantigas glozadas;

Lenço nas pontas bordado,

Cipó, tízicas fivellas,

Sobre hum corpo assim talhado,

Se eu gósto, que farão ellas?

Versos são mui fracas armas

Para vencer corações;

He clara a letra redonda,

Leia a vida de Camões;

Sua divina Poezia

Teve mui curtos poderes;

Tratarão-no mal os homens,

E inda peior as mulheres;

Pois entra de amor na estrada,

Siga nella outro farol;

Embuce-se a huma esquina,

Soffra chuva, soffra Sol;

Erga alli o Altar do Amor;

Queime alli humilde incenso;

Suba ao alto do capote

Branco, alcoviteiro lenso;

Que importa que os Çapateiros

Dem assobio insultante,

Se os negocios vão marchando

Com passadas de Gigante?

Cem vezes na mesma tarde

Pize esbelto a feliz rua;

Alheias cadeias de aço,

Relogio de hollanda crua;

Vá por aqui, que por Versos

Dá em vão loucas passadas;

São divertimento inutil,

São as historias das Fadas;

Inda que para cantallos

Lhe désse Garção a Lyra,

Como hão de crer-lhe verdades

Na linguagem da mentira?

Seja acérrimo chorão;

Pranto entendem raparigas;

Faça em lagrimas seu fundo,

E não o faca em Cantigas;

Palêe co'estes remedios,

Pois não tem o verdadeiro;

He elle (aqui em segredo)

O mílagrozo dinheiro;

Mas se teima em pedir Versos,

E conselhos não supporta,

Então perdôe, meu Menino,

Póde bater a outra porta.