Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 3 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Quintilhas

 

Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do Lavradio.

 

Se os Versos, que outra ora fiz

Escutastes prompto, e attento;

E se aos pés, que abraçar quiz,

Achou grato acolhimento

A minha Muza infeliz;

Dai-me benignos ouvidos

A outros, em dôr traçados,

D'arte, e de enfeite despidos;

Pela verdade dictados,

E a vós, Senhor, dirigidos;

Em louvores não os fundo,

Pois sei que sempre os pizastes;

E co'as mais acções confundo

As do tempo, em que tomastes

As rédeas do Novo Mundo;

Mas se eu disser parte dellas,

Não me julgueis lizonjeiro;

Que vos poupo em não dizellas?

Se vedes, que o Mundo inteiro

As vai erguendo ás Estrellas?

Diz que vio a Capital

Cheia de pompa, e grandeza;

E que a ergueis a lustre tal

D'entre os braços da molleza,

Que he no Clima natural.

Que nas mãos, onde se encerra

Alto Poder respeitozo,

Mostraste na nova Terra

Ao Vizinho revoltozo,

N'uma a paz, em outra a guerra.

Que offreceis a vida então

Para a palavra salvar-se,

Que, os bons Reis não dão em vão;

Acção digna de contar-se

Entre as de Mario, ou Catão;

Que a mão que as Quinas voltêa,

Justiça ao Povo reparte;

E que igualmente menêa,

Ora as Bandeiras de Marte,

Ora as Balanças de Astiéa;

Mas já vossa austeridade

Minha narração reprime;

Ouvis-me contra vontade;

Perdoai, Senhor, hum crime,

De que foi causa a verdade;

Pois que vos não dão desvelos

Louvores, que préza a gente,

Eu vou, Senhor, suspendellos;

E vou dar-vos novamente

Motivos de merecellos.

A minha longa fadiga

Já sabeis qual he, Senhor;

Levai-me a bem, que a não diga;

Deixai-me poupar a dôr

De abrir huma chaga antiga.

Pintar Irmans desgrenhadas

Co'as creanças innocentes.

Nos débeis braços alçadas,

E de lagrimas ardentes,

Quasi sem fruto, banhadas.

Mostrar-lhe os olhos magoados,

Onde inutil pranto assiste,

Immoveis no chão pregados,

Nutrindo hum silencio triste,

Falsa paz dos desgraçados;

Contar-vos, que entre os Irmãos,

Diz o bom Pai, com ternura,

Que ao Ceo levantem as mãos; Que assim se emenda a ventura,

E não com queixumes vãos:

Que he do espirito fraqueza

Perder suspiros no vento;

Que venção a natureza;

Que fação co'soffrimento

Honroza a dura pobreza;

Não lhe ver de dor sinais;

Ter no rosto olhos serenos,

E no peito agudos ais;

Que porque se escutão menos,

Por isso me córtão mais:

Dar-vos huma inteira idéa

Da desgraça minha, e delles,

Pintura de pranto chêa;

Se he preciza, he para aquelles,

A quem não dóe dor alhêa.

As almas tão bem nascidas,

Como a vossa vejo ser,

Para serem condoîdas,

Não tem precizão de ver

Correr sangue das feridas;

Sabeis, que soffro a impiedade

De vã fortuna traidora;

Mudai pois de heroicidade;

Vinde pleitear agora

A cauza da humanidade;

Por vós tirar não podeis

Penas, que a alma me abafárão;

Mas ante o Throno valeis;

E se o Sceptro vos fiárão,

Que vos negarão os Reis?

Reger-lhe os vastos Estados,

Ir dar-lhe hum novo esplendor,

São feitos famigerados;

Mas inda o será maior

Ir pedir por desgraçados,

Disse a Cezar o Orador,

Que os Soldados tinhão parte

No perigo, e no louvor;

Que fosse em outro Estendarte

Elle só o Vencedor;

Que era, de doce brandura

O deixar-se então vencer,

Mór victoria, e mais segura;

Onde não tinhão poder

Nem ferro, nem má ventura.

Vencei vós sem ter Soldados;

Fazei de dias de dor

Dias bemaventurados;

E possa essa mão, Senhor,

Mais do que podem meus fados;

Claros Avós imitastes,

Que o Mundo apenas abrange; No berço palmas achastes;

Dos Heróes que vio o Gange,

O sangue, e as acções herdastes;

Remotos Povos vencêrão,

E mares bravos abrindo;

As Quinas desenvolvêrão;

Ante eles o Gange, e o Indo,

Tintos de sangue corrêrão.

Vós, que em obras semelhantes

Fostes ser a Copia honroza

Do que elles fizerão d'antes,

Na série maravilhoza

Das vossas acções brilhantes;

Consenti, que a larga historia,

Que Almeidas levanta aos Ceos,

Lhes deixe no Altar da Gloria

Pendente, entre os mais Troféos,

Huma negra Palmatoria.

 

A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na occasião do seu Casamento.

 

Senhora, o Forte da Estrella,

Chorando o bem que perdeo,

Das suas justas saudades

Por portador me escolheo;

Quiz que eu viesse contallas

Ao som desta rouca Lyra,

De longos annos affeita

A acompanhar quem suspira;

Não fallo nos ternos Pais;

Nelles a alta Jerarquia

Tempéra saudozo pranto

Com o pranto da alegria;

Ao nome dos seus Passados

Planos caminhos achárão,

Unindo ao sangue de Heróes

O sangue de Heróes que herdárão;

Não fallo no amavel Conde;

Esse não faz compaixão;

Tem seges, tem bons cavallos,

Tem o remedio na mão;

Sobre rápidos ginetes,

Quebrando a dura calçada,

Com o Francisco a reboque,

Andará sempre na estrada;

Tambem das caras Irmans

Não venho as mágoas pintar;

Co'a terna Mãi muitas vezes

As virão desafogar;

Fallo da triste Familia,

Que em amoroza manîa Accuza o Ceo, que vos deo

Formozura, e Fidalguia;

Dons, de seu mal cauzadores;

E que deixão coroado,

Na mais illustre Conquista,

O mais ditozo Soldado;

Ralham delle a toda hora;

Foi cauza do seu tormento;

Elogião, e praguejão

Seu alto merecimento;

Se he Soldado, siga a Guerra,

E as funestas glorias della;

Ataque milhões de Fortes,

Mas deixe em paz o da Estrella;

Tem figura, tem talentos;

Tem alta Estirpe preclara;

Oxalá que assim não fosse,

Ella então o desprezára; =

Mas, Senhores, perdoai-lhes;

A's vezes na grande dor

Fallão palavras de raiva

A linguagem de amor;

O Silva, o Authomato honrado,[1]

Anda mais abstracto, e mudo;

Põe o doce antes da sôpa;

Queima o Café, quebra tudo;

[Nota de rodapé 1: Copeiro.]

O hirsuto, austéro Rodrigues,

Semblante de poucas pazes,

Desafoga a sua dor,

Dando murros nos rapazes;

Vossa Aya, de tres idades,

Em canto escuro assentada,

Vos manda calado pranto,

N'um cobertor abafada.

Outras vezes esquecida

De quanto seu Fado he crú,

No queixo ajustando o lenço,

E sobrepondo o bajú:

Ergue ao ar cansados ossos;

E sem temer ventos frios,

Tirando-lhe Amor o pezo

Dos gelados pés tardios;

Do bom costume enganada,

E com a uzada cautela,

Para dar, e ter, bons dias,

Vos vai abrir a janela;

A janela a desengana;

Renova-lhe a dor no peito;

Chama em vão o vosso nome,

Abraçando hum ermo leito.

Do peito das mais Creadas

A saudade se não risca,

Desde as Ayas ralhadoras,

Té á ladina Francisca.

E pois que o sangue de Reis,

Pois que a Augusta Ceremonia,

Bem a pezar das Creadas,

Vos trouxe a Santa Apollonia;

Ide, Senhora, mil vezes

Curar-lhes a fresca chaga;

Seu pranto he filho de amor,

E amor com amor se paga;

Na rica, airoza Berlinda,

Dando ao digno Espozo parte,

Aos patrios lares vos leve

Amor nos braços de Marte.

O Téjo, abaixando as ondas,

Vossos pés virá beijar;

Vai das Ninfas que creou,

Ver a Ninfa Tutelar.

Os Prazeres com os Rizos

Sejão a vossa equipagem;

Revôem em torno as Graças,

De quem sois a inveja, e a imagem:

Entrai nos tectos dourados,

Hoje lugar de saudade;

Ide, dos braços do Amor,

Lançar-vos nos da Amizade;

Levai-nos as doces noites,

Em que a voz que se escutava,

Sobre as azas da harmonia,

Nos nossos peitos entrava;

Quando o Cómico travêsso,

Entre geitos, e corcovos,

Habilmente arremedava

Todos os Muzicos novos,

O triste, calado Cravo;

Já não sente a déstra mão;

Apenas he perseguido

Pelo Senhor Dom João.[2]

[Nota de rodapé 2: Menino.]

Ide, Senhora, levar-nos

No vosso rosto a alegria;

Fazei á triste Junqueira,

O que faz o Sol ao dia;

Mas, Senhora, a minha Muza

Tem talvez errado os Cultos;

Cuidando ter feito obsequios,

Talvez tenha feito insultos;

Dirão, que, trocando as cordas

Forão meus sons desiguaes;

Que errei em fallar aos Filhos,

Sem fallar primeiro aos Pais.

Que podia esta Embaixada

Se désse em mais habil mão,

Cumprir as leis da Saudade,

Sem violar as da razão;

Mas, Penalvas, dito, dito;

Defendo o meu sacrilegio;

Sois tudo; mas não sois Noivos,

E he este o seu privilegio.

 

No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha, hoje Condeça de Valladares.

 

Senhora, os pobres vestidos

Do vosso humilde Compadre,

Não o deixão ir aos Annos

Da sua Illustre Comadre;

O conhecido Colete

De bordadas guarnições,

Encartado ha longo tempo

Em Colete das Funções;

Sobre os seus cançados annos,

De humido Inverno Assaltado, Cheio de invenciveis manchas

Me foi hoje apresentado;

Em vão bemfeitor miôlo

Lhe esfrega o quarto offendido;

A minha choroza Mana

Dá o cazo por perdido;

E se assim me apresentasse

A tão alta Companhia,

As suas nódoas serião

Manchas da seda, e do Dia;

Do Tempo a fôice raivoza

Não me dá só hum revéz;

Além de me fazer velho,

Faz-me tambem descortez;

Mas elle honrou hoje o Mundo;

Sois do Mundo ornato, e inveja;

Deo hoje mais huma paga

A' Illustre Caza de Angêja.

Sua mão, que aperfeiçoa

Altos dons da Natureza,

A huns lindos, modestos olhos

Vai augmentando a belleza;

Altêa a airoza figura

Sobre a das Graças moldada;

A huma alma a mais digna, e nobre

Dá a mais digna morada;

Justo Tempo, eu abençôo

O teu poder desigual;

E em honra de tantos bens,

Eu te perdoo o meu mal;

Cem vezes nas tuas azas

Nos mande este dia o Ceo;

As Virtudes o consagrem

Nos altares de Hymenêo.

E Vós, Illustre Senhora,

Perdoai Coletes rotos;

Valem mais, que inuteis sedas,

Puro incenso, puros votos;

Quiz mandallos em bons versos;

Suou em vão meu topete;

Fui achar a minha Muza

Como achei o meu Colete.

 

A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, quando lhe nasceo huma Filha.

 

Senhora, he couza sabida,

Que aos Deozes não são vedados

Os escondidos segredos

Do escuro livro dos Fados;

E pois que em tempos antigos

Já tive alguma valia

Co'aquelle, a quem coube em forte

O governo da Poezia;

Não esperando do Tempo

O vagarozo progresso,

E desejando augurar-vos

O vosso feliz successo;

Na raiz do alto Parnazo,

Curvando o humilde joelho,

Exclamei = Se aqui se escutão

Votos de hum Poeta velho,

Não te peço, esquivo Apollo,

Teus verdes, sagrados loiros;

Não aspirão a coroas

Desta testa os velhos coiros;

Abre, sim, a densa nevoa

Do vindoiro tempo escuro;

E ante meus ávidos olhos

Rasga as sombras do futuro;

Saiba meu justo dezejo

Quanto o destino promette

Aos nossos ardentes votos,

E aos da assustada Alegrete;

O Deos, que nunca em mim vio

De Odes moiras a manía, Que sem o assumpto honrarem,

Lhe deshonrão a Poezia;

Que em Oiteiros de Oratorio

Não lhe puz a Lyra ao frio,

Arriscando-a a ter por paga

Ou pedrada, ou assobio;

E muito mais porque vio,

Que da minha petição

Erão sagrados motivos

A amizade, e a gratidão;

Fez fuzilar em meus olhos

Nova luz, vedada, e pura;

E de tudo o que então vi,

Vos vou fazer a pintura.

Vi, Senhora, as loiras Graças

Com doce, e rizonho aspeito,

Tecendo engenhozas danças

Em torno de hum aureo leito;

E abrindo as ricas Cortinas

Trazerem nos castos braços

O digno, e precioso Fruto

De Illustres, sagrados laços.

Sobre o mimoso semblante,

Em que os seus dons inspiravão,

Dos mais altos Pertendentes,

Mil suspiros auguravão;

Os Prazeres sobre as azas

O berço lhe rodeavão;

Fortuna lhe abria os cofres,

As Virtudes a embalavão;

Vi Penalvas, vi Angejas,

Que aos Ceos mil hymnos mandavão;

Aos Ceos, que as duas Familias

Novamente abençoavão:

Vi a roda das Creadas,

Que á Menina dando vai,

Humas, os olhos da Mãi,

Outras, a boca do Pai;

Mas Apollo aqui fechando

As altas couzas futuras,

E deixando o pobre velho

Alegre, mas ás escuras;

Me disse = Conta o que viste;

O mais, em tempo vindoiro,

Fiel, apurada historia,

O dirá em letras de oiro;

Corri: mas trémulas pernas

Tem sempre estrada comprida;

E pois acho a profecia,

Gradas aos Ceos, já cumprida,

Beijo respeitozamente

Estas faixas, que envolvêrão Aquella, a quem dão a vida

Os que a minha protejêrão;

= Recebe, oh Recem-nascida,

Terno amor, alto respeito;

Teus Avós, teus claros Pais

Te derão este direito;

E tu, Formoza Alegrete,

Que depois de erguida a meza,

Ficavas co'as velhas Aias

De mágicos filtros prêza;

Quando eu a teus pés contava,

Mentirozo historiador,

Ora a do Caixão de vidro,

Ora a das Cidras do amor;

Quando os mesmos tenros annos

A tua Filha contar,

Todos os dias virei

Meu officio exercitar,

E em tanto, a pezar do tempo,

Que a fronte me vai gelando,

Com a rouca Lyra ás costas

Pelo Parnazo trepando:

Vou sentar-me entre os Loireiros,

Que réga Castalia fria;

Onde revôam em bandos

Os genios da Poezia;

E co'a testa descuberta

A' viração bemfeitora,

Traçarei mais dignos versos

Do que estes, que ouvis agora;

Com tempo os irei fazendo;

O Deos também me fez ver,

Que sobre este mesmo assumpto

Tenho muito que escrever.

 

Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo.

 

Meu Amigo, duro Amigo,

Fatal, rígido Banqueiro,

Motivo dos meus pezares,

Herdeiro do meu dinheiro;

Em taes termos me deixaste,

Que sou deste rancho o nôjo;

E co'as lagrimas nos olhos

Parto para o Varatojo;

Por ti filho da pobreza,

Irei ser naquelle mato,

Qual foi São Sebastião,

Não na vida, mas no fato;

Vai tu seguindo a fortuna,

E leva a bandeira alçada, De tarde na laranginha,

A' noite na Arrenegada;

Até que voltando a roda,

Mande teu fado inimigo,

Que deixes crescer as barbas,

E venhas viver comigo:

Vem, e traze o teu baralho,

Ministro dos meus destroços;

Farei do vicio virtude,

Apontando a Padres nossos;

Vem viver entre altas brenhas;

Vem curtir as minhas dores;

Traze o pranto dos Parentes,

Traze as pragas dos Crédores.

Não falla vão Agoureiro,

De cujas palavras rias;

Meus trabalhos me fizerão

Mestre nestas profecias.

Não te fies em ventura;

Quem joga, tem o meu fim;

Outrem te dará os gostos,

Que tu me tens dado a mim.

 

Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos, que tinha promettido.

A tua polida Carta,

Que honrou hum Poeta razo,

Escrita em pura linguagem,

E assignada no Parnazo;

Da mais injusta ambição

Traz testemunhos fieis;

Possues grossos thezoiros,

E citas-me por dez reis?

Quem do doce Anacreonte

Bebeo o estilo divino,

Quer prostituir seus olhos

Co'as Trovas do Tolentino?

Pago, em fim, divida louca;

Mas quem quer pontualidade,

Cuide tambem em pagar

As dividas da Amizade;

Sabes que intento imprimir;

E porque o Povo não fuja,

Sabio Amigo, emenda, risca,

Põe sabão na roupa suja;

Não te vendo falso íncenso;

Es Juiz da Confraria;

Oxalá que altos negocios

Se tratassem em Poezia;

A Paz, a fugida Paz,

Voltára seu alvo cóllo;

E dera brandos ouvidos

A' branda Lyra de Apollo;

Reziste humana cabeça

A' mais discreta razão;

Mas ao poder da harmonia

Não reziste o coração:

Faze, pois, o que eu te peço;

Que inda que ha vótos diversos,

Se lhe pões a tua lima,

Quem morderá nos meus Versos?

Dá-lhe, depois, teus louvores;

Comprará toda Lisboa,

Se huma vez te ouvir dizer =

Que comprem, que a Obra he boa;

Farta-me a bolsa; e se queres

Ver tambem minha alma farta,

Manda riquezas de Athenas

Embrulhadas n'outra Carta.

 

Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este prato.

 

Senhora, tambem hum dia

Entrarei co'a frente erguida;

Não serei na vossa meza

Dependente toda a vida;

Nem sempre abatido pejo

Dirá nesta cara feia

Quanto doe a hum peito altivo

Matar fome em caza alheia;

Airozo, gordo Perum,

He meu soberbo prezente;

Traz inda as pennas molhadas

Co'pranto da minha gente;

No Santo Dia esperavão,

Quebrando antigo jejum,

Cravar inexpertos dentes

Neste primeiro Perum;

A russa, magra Jozefa,[3]

Ergueo queixume sentido;

Custou-lhe mais esta auzencia,

Que a do defunto Marido.

[Nota de rodapé 3: Creada.]

O loiro, alvar galleguinho

Chegou aos olhos seu trapo;

Tinha vistas sobre a carne,

E muitas mais sobre o papo.

Seu almôço requerendo

Em luzindo a madrugada, Na esquerda, grossa fatia

D'ambas as partes barrada;

Na dextra, com branda cana

O seu pupîlo guiava;

Em tenras, públicas malvas,

Para si o apascentava;

Quando lhe mandei trazer-vos

O bom companheiro seu,

Pedindo-me côxos mezes,

Me disse, que o trouxesse eu.

Eu o trago; a offerta he pura,

Mas a tenção a envenena;

Traz escondida huma uzura,

Maior, que a da meia sena.[4]

[Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]

Com hum sorrizo acceitai

O atraiçoado convite;

Vem a morrer huma vez,

Porque muitas resuscite.

Curai todos os Domingos

A minha doença interna;

Sobre a meza milagroza

Seja esta ave, huma ave eterna;

De outra, que finge a Poezia,

Trocai em verdade a pêta;

E seja hum negro Perum

A Fenis deste Poeta;

Na ondada, pia toalha,

Co'a benção da vossa mão

Seus frios, despidos ossos,

De carne se cubriráõ;

Consenti, que este ouco peito

Ao prodígio se consagre;

E que dentro em si colloque

A mór parte do milagre;

Quanto ao Padre Prégador,[5]

Meu voto he não convidallo;

Porque ha de comer o assumpto,

Muito melhor que prégallo.

[Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]

 

A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem.

 

Domingas, debalde queres,

Nesse canto da Cozinha,

Vencer a invencivel teima

Da rebelde carapinha;

Em vão te arripia a frente,

De que zomba o Deos de Amor, Alvo côto de pomada,

Furtado do Toucador;

Debalde tufado laço

De atadeira fitta Ingleza

Te assombra a lêveda pôpa,

Rissada por natureza.

Debalde altêas as ancas,

Esguias, e enganadoras,

Co'as velhas algibeirinhas,

Que vão deixando as Senhoras,

Amor, fingindo dotar-te,

Te poz, com traidora mão,

Junto dos dentes de neve,

Faces tintas de carvão;

Inda que ancião pezado,

Desprézo teus vãos intentos;

Debaixo de murchas cans

Nutro altivos pensamentos.

Vejo a quebrada madeixa

Já tornada em gêlo frio;

Tudo o tempo me levou,

Mas não me levou o brio.

Debaixo da Zona Ardente

Jurar-te-hia amor, e fé;

Mas não tem culto na Europa

As Deidades de Guiné;

Se ás vezes te ponho os olhos,

Não he de amor sinal certo;

São dezejos de levar-te

A' caza de João Alberto.[6]

[Nota de rodapé 6: Comprador.]

A engomada cazaquinha

Te descobre novas faltas;

Para outro corpo foi feita,

Dizem-no as feições mais altas.

Já n'outros pés teus çapatos

Soffrêrão do tempo o açoite;

Cansada, fendida sêda,

Mostra dedos côr da noite;

E pois que a Amor queres dar-te,

Eu te aponto hum Xafariz,

Onde aches dignos amantes

Assentados em barris;

Acharás o Pai Francisco,

Homem a bulhas contrario,

Já duas vezes Juiz

Na Irmandade do Rozario;

Acharás o forro Antonio,

Que o tabaco, e vinho enjôa;

E tem nos calmozos Junhos

Caiado meia Lisboa;

Verás esbelto Crioilo,

Dado ao vento o peito nû,

Levantando airosos saltos

No manejo do barubû;

Que ávidos cães enxotando,

Tem, com braço arregaçado,

Nas êrmas praias do Téjo

Cem cavallos esfolado;

Nestes, vaidoza Domingas,

Assenta bem teu amor;

Chovão settas de teus olhos

Em peitos da tua côr;

Vai da janella da escada

Acolher, com doce agrado,

Os suspiros que te envião,

Ao som do londum chorado;

E deixa de atormentar-me

Com tuas loucas idéas;

Também sinto dores proprias,

E escuto pouco as alhêas;

Sim, Domingas, nós marchamos

Na mesma infeliz estrada;

E do amor, que eu te não pago,

Assaz estás bem vingada;

Tu puzeste em mim teus olhos,

E eu fui pôr em Marcia os meus; Que me paga mil extremos,

Assim como eu pago os teus;

Marcia, que em alçando os olhos,

Mil settas nesta alma crava;

E em cuja caza tu tens

A dita de ser escrava;

Tens-me a mim por companheiro;

Temos o mesmo Senhor;

Tu, por cazos da fortuna,

Eu, por castigo de Amor;

E pois que eu não posso amar-te,

Seguirás melhor esteira,

Se de meus ternos suspiros

Quizeres ser mensageira;

Em vendo que ella está só,

Vai-lhe expôr a paixão minha;

Eu peço a Amor, que entretanto

Tóme conta na cozinha;

Amor lavará teus pratos,

E escumará a panella,

Em quanto tu a seus pés

Dizes, que eu morro por ella;

Teus grossos, trombudos beiços,

Lhe vão expôr meus cuidados;

Hão de ser melhor ouvidos,

Que sendo por mim contados;

Pinta-lhe as lagrimas tristes

Em que meu rosto se lava;

Por hum infeliz cativo

Peça huma ditoza escrava;

Dize-lhe, que não se assuste

De meu cabello nevado;

Jura-lhe que não são annos,

Mas penas, que me tem dado;

Que a cauza das minhas rugas

He o seu desabrimento;

E vai da minha velhice

Fazer-me hum merecimento;

Ah Domingas, se em seu peito

Me fazes achar piedade,

Tambem eu juro fazer

A tua felicidade;

E pois que o teu coração

Sómente he baixo, e grosseiro,

Em preferir liberdade

A tão feliz cativeiro;

Por amor serei mesquinho;

Meus gastos verás cortar;

Para ajuntar-te quantia

Com que te possas forrar;

Cheia de teus beneficios

Minha mão agradecida Te irá pôr em larga praça

Rendozo modo de vida;

E assentada em novo estrado,

De fasquiada madeira,

Ondeando ao som do vento

Trémulo tecto de esteira,

Teus negros, airozos braços,

Chocalhando hum assador,

Encherão famintos peitos

De castanhas, e de amor;

Terás bojudas tigellas

Sobre incendidos tições,

Onde fêrvão em cardumes

Saborosos mexilhões;

Teus doces, sonóros écos,

Sem mentir, apregoaráõ

O azeite de Santarem,

O cravo do Maranhão.

Domingas, segue esse rumo;

Que teu amor reloucado,

Sem te fazer venturoza,

Me deixa a mim desgraçado;

E se sem dó dos meus ais,

Teimas nos projectos teus,

Fallando nos teus amores,

Em vez de fallar nos meus;

Trocando boa amizade

Por entranhado rancor,

Vou descubrir teus intentos

A teu austéro Senhor;

Que em zelo honrozo inflammado,

Sem ser precizo atiçallo,

Vai a caza do Lagoia[7]

Trocar-te por hum cavallo.

[Nota de rodapé 7: Comprador]